O despertador tocou às 5h30, mas eu já estava acordado. Meu corpo parece ter um relógio interno que não me permite descansar por muito tempo. Enquanto me vestia, mentalizava a agenda do dia: reuniões, contratos, clientes. Tudo precisava ser perfeito. Tomei meu café preto, comi duas torradas sem muita vontade e dei uma olhada rápida nas notícias do mercado. Giulia ainda dormia, e deixei um bilhete para a governanta, como sempre faço, com instruções sobre o que ela deve comer e vestir. Não posso falhar com ela. Nunca.
No carro, revi relatórios no tablet. A Benites Seguridad é meu legado, minha responsabilidade. Herdar o império do pai não foi fácil. Lembro das noites em claro estudando administração e finanças, das reuniões onde era tratado como um "menino mimado" até provar meu valor. Abdiquei de tudo: festas, amigos, até um noivado que não sobreviveu à minha dedicação obsessiva ao trabalho. Tudo para ser digno do nome Benites.
Cheguei ao escritório e fui direto para a primeira reunião. Um contrato milionário com uma multinacional exigia minha atenção. Ouvi atentamente os advogados e executivos, fazendo perguntas incisivas e sugerindo mudanças. Ninguém ousa questionar minhas decisões; sou implacável, mas justo. Quando o contrato foi finalmente assinado, já estava atrasado para a próxima agenda.
O dia seguiu num turbilhão de clientes, problemas operacionais e planos de expansão. Cada minuto era calculado, cada movimento, estratégico. Não tenho tempo para pausas, e Carmen minha secretária, uma senhora amavél de 65 anos, sabe disso.
Ela é a única pessoa que ousa interromper-me. Com seus sessenta anos e uma postura que mistura firmeza e carinho, Carmen é a única mulher que manda em mim. Ela organiza minha vida com uma eficiência que admiro, mesmo quando isso significa ser repreendido como um adolescente.
— Miguel, você precisa comer — disseentrando em minha sala sem bater.
— Não agora, Carmen. Tenho que terminar esses relatórios.
— Não é um pedido menino, é uma ordem. E tome isso também — ela colocou um prato de comida e um comprimido para enxaqueca em cima da mesa.
— Você sabe que eu odeio quando faz isso.
— E eu odeio quando o senhor age como se fosse imortal. Coma.
Suspirei, mas obedeci. Carmen está lá desde os primeiros dias na empresa, quando eu ainda era um jovem inseguro tentando provar meu valor. Ela me viu crescer, casar, perder Antonia e me tornar pai. É quase como uma mãe para mim, e sei que, no fundo, ela só quer o meu bem.
Então, meu telefone tocou. Era uma chamada da escola de Giulia. Meu coração deu um salto.
— Senhor Benites? Aqui é a diretora Ana Paula. Precisamos conversar sobre Giulia.
Fechei os olhos, tentando manter a calma.
— O que aconteceu?
— Ela teve um ataque de choro e se recusou a ficar na sala de aula. Parece que está muito ansiosa e mencionou que sente falta do pai. Achamos melhor o senhor vir buscá-la.
Soltei um suspiro e passei a mão no rosto. Eu sabia que minha rotina intensa poderia afetá-la, mas ouvir isso era um soco no estômago.
— Estou a caminho.
Desliguei e me levantei. Carmen me observava, com uma expressão de compreensão misturada com algo que parecia um "eu avisei".
— Você não pode continuar assim, Miguel. Giulia precisa de estabilidade. — ela me ajudou entregando a chave do carro. — O senhor deveria pensar sobre o programa de babás que indiquei.
— Não sei se minha filha precisa de uma estranha em casa, Carmen.
Ela me seguiu pelo corredor ainda tagarelando.
— Uma estranha, não. Apenas alguém que possa dar a ela a atenção feminina que falta.
Arqueei as sobrancelhas e ela suspirou.
— O senhor sabe que estou certa.
Assenti, quando o elevador se fechou. No caminho para a escola, minha mente estava um caos. Giulia sempre foi uma menina alegre, mas eu via os sinais de que algo não estava certo. Talvez a falta de uma presença constante estivesse pesando mais do que eu queria admitir.
Quando cheguei, encontrei minha filha sentada na diretoria, abraçando um ursinho. Seus olhinhos vermelhos de tanto chorar me cortaram o coração.
— Papai — ela sussurrou, correndo para mim.
Peguei-a no colo, sentindo-a se agarrar a mim com força.
— Estou aqui, meu amor. O que houve?
— Quero ir pra casa.
— Eu sei meu bem, mas você precisa estudar, não quer ficar forte e ingeligente? — ela negou fazendo um biquinho. — Tudo bem, espere aqui.
Conversei com a diretora, prometendo encontrar uma solução. No caminho de volta, Giulia adormeceu no banco de trás, e eu finalmente aceitei o que tentava evitar há meses. Não podia mais dar a ela a presença e o calor feminino que ela tanto sentia falta. Por mais que tentasse ser o melhor pai, jamais conseguiria suprir essa necessidade.
Eu precisava de ajuda.
Deixei Giulia em casa com a nossa governanta e voltei para o escritório, pronto para me ajoelhar e admitir que Carmen estava certa, mas ela já estava me esperando com uma pasta em mãos.
— Eu sabia que o senhor mudaria de ideia.
Assenti, sentindo um peso sair dos ombros.
— Sim. Vamos escolher alguém.
O dia foi longo. Mais longo do que o normal, se é que isso é possível. Meus pés doíam como se tivessem sido esmagados por uma prensa, e minhas costas pareciam carregar o peso de todos os lençóis que troquei hoje. Trabalhar como camareira em um hotel cinco estrelas pode parecer glamouroso para alguns, mas a realidade é bem diferente. Quartos imensos, banheiros gigantes e clientes exigentes que nunca estão satisfeitos. Hoje, felizmente, não tenho aula na faculdade. Meu único plano é chegar em casa, tomar um banho quente e tentar estudar um pouco antes que o cansaço me derrube.Entrei no ônibus quase arrastando os pés. Encontrei um lugar no fundo, longe das janelas quebradas e dos assentos rasgados, e encostei minha cabeça no vidro frio. O barulho do motor e o balanço do veículo quase me fazem adormecer, mas resisto. Preciso checar meu e-mail. Talvez a professora Ana tenha respondido sobre o programa de au pair. Ela me ajudou a me inscrever há semanas, e desde então vivo checando a caixa
Acordei com o som de vozes baixas vindo da cozinha. Meu corpo ainda pesava do cansaço do dia anterior, mas a lembrança do e-mail me fez sentar na cama rapidamente. Aquele pedaço de esperança ainda brilhava em algum lugar dentro de mim, mesmo que o medo e a culpa tentassem apagá-lo. Respirei fundo, tentando me preparar para mais um dia de decisões impossíveis.Quando saí do quarto, o cheiro de café estava no ar, mas também havia algo mais: a tensão. Minha mãe estava na cozinha, sentada à mesa com as mãos envoltas em uma xícara. Ela não olhou para mim quando entrei, mas eu vi os olhos vermelhos, o rosto cansado. E então, percebi. Ele estava lá.O padrasto estava encostado na geladeira, com os braços cruzados e um olhar que eu conhecia bem. Aquele olhar que dizia: "Você não pertence aqui." Ignorei-o, focando na minha mãe.— Bom dia, mãe — cumprimentei, tentando manter a voz calma.— Bom dia, Isa — ela respondeu, sem levantar os olhos.Peguei uma xícara e enchi com café, tentando me distr
O despertador tocou às 6h, mas desta vez não foi o som estridente que me acordou. Era Giulia, pulando na minha cama com os pés gelados e um sorriso que poderia rivalizar com o sol da manhã.— Papai, acorda! Hoje é sábado! — ela gritou, balançando meu braço com uma energia que só uma criança de seis anos pode ter.— Já estou acordando, princesa — respondi, esfregando os olhos e tentando me livrar do peso dela em cima de mim. — O que tem de tão especial no sábado?— Você prometeu que íamos ao parque hoje! — ela disse, como se eu tivesse cometido um crime por esquecer.Ah, sim. O parque. Eu havia prometido na semana passada, durante uma de nossas noites de filme, que dedicaria o sábado inteiro a ela. Trabalho tanto que às vezes esqueço que promessas são sagradas para uma criança, mesmo com toda a correria.— Certo, certo. Vamos ao parque — concordei, sentando na cama. — Mas primeiro, café da manhã. Você já comeu?— Não, estava esperando você! — ela respondeu, pulando da cama e correndo e
A casa da Marina sempre foi meu refúgio. Desde que me mudei para cá, depois daquela noite terrível em que fui expulsa de casa, ela tem sido minha âncora. Marina é mais que uma prima; é a irmã que nunca tive. E hoje, mais do que nunca, eu precisava dela.— Isa, você está bem? — Marina perguntou, colocando uma xícara de chá na minha frente. O cheiro de camomila era reconfortante, mas nem mesmo isso conseguia acalmar minha mente agitada.— Não sei — respondi, segurando a xícara com as duas mãos. — Acho que estou me sentindo... culpada.Marina sentou-se ao meu lado no sofá, seus olhos cheios de preocupação.— Culpada por quê? Você não fez nada de errado.— Eu deixei ela lá, Marina. Deixei minha mãe sozinha com ele. Como posso simplesmente ir embora e fingir que está tudo bem?— Isa, você não deixou ela. Você foi expulsa. E você fez tudo o que pôde para ajudá-la. Quantas vezes você tentou convencê-la a sair daquela situação? Quantas vezes você chamou a polícia, implorou, chorou?Eu olhei p
A casa da minha mãe parecia menor do que eu lembrava. O portão rangia ao ser aberto, como se reclamasse da minha presença depois de tanto tempo. O jardim, outrora cheio de flores, agora estava quase abandonado, com apenas algumas margaridas resistindo bravamente entre as ervas daninhas. Respirei fundo, sentindo o cheiro da terra molhada e do jasmim que ainda insistia em florescer no canto do muro. Era o mesmo cheiro da minha infância.— Isa! — A voz da minha mãe veio da porta, e eu olhei para cima. Ela estava lá, com um vestido simples e um sorriso que iluminava o rosto cansado.Meu coração apertou. Era a mesma mulher que me embalava nos braços quando eu era criança, que cantava para eu dormir e fazia bolos de chocolate nos domingos de manhã. Mas agora, suas mãos tremiam levemente, e seus olhos estavam cercados por marcas de preocupação.— Oi, mãe — eu disse, tentando disfarçar a emoção na voz. Caminhei até ela, e ela me abraçou com uma força que eu não esperava.— Entra, entra! Fiz b
O dia começou como todos os outros: com uma xícara de café amargo e uma pilha de relatórios que parecia nunca diminuir. A Benites Security não perdoava, e eu tampouco. Reuniões atrás de reuniões, clientes exigentes, funcionários que precisavam de orientação... às vezes, eu me perguntava se tudo aquilo valia a pena. Mas era minha responsabilidade, meu legado. E, no fim do dia, era tudo o que eu tinha.— Senhor Benites, os representantes da GlobalTech estão na sala de conferências — minha secretária anunciou, interrompendo meus pensamentos. Ela era a única pessoa na empresa que ainda me tratava com um olhar carinhoso, como se soubesse que, por trás da fachada de CEO rabugento, havia um homem cansado.— Obrigado — respondi, levantando-me da mesa. — Diga a eles que estarei lá em cinco minutos.Ela acenou com a cabeça, mas antes de sair, lançou-me um olhar preocupado.— Você já almoçou, senhor Benites?— Não há tempo — respondi secamente, ajustando o nó da gravata.As reuniões se arrastara
O som do avião tocando o solo me fez apertar ainda mais a bolsa contra o peito. Meus dedos tremiam levemente, e eu respirei fundo, tentando me convencer de que aquilo era real. Eu, Isabella, uma garota que nunca tinha saído da minha cidade, estava desembarcando na Espanha. O oceano Atlântico agora ficava para trás, e com ele, toda a segurança do que eu conhecia.O coração batia acelerado enquanto eu caminhava pelo corredor do aeroporto, seguindo o fluxo de passageiros. As luzes brilhantes e o burburinho de vozes em línguas estrangeiras me deixavam ainda mais nervosa. Apertei a bolsa com mais força, como se ela fosse meu único elo com o mundo que eu deixara para trás. Dentro dela, estavam minhas coisas mais preciosas: uma foto da minha família, um terço que minha avó me dera e um caderno onde eu anotava meus sonhos."Respira, Isa," eu me disse, baixinho. "Você conseguiu chegar até aqui. Agora é só seguir em frente."Mas o medo insistia em não me abandonar. E se eu não fosse boa o sufic
O carro parou em frente à casa, e eu desliguei o motor, mas não saí imediatamente. Por um momento, fiquei ali, sentado, tentando organizar os pensamentos que pareciam ter virado um turbilhão desde que aquela brasileira entrou no carro.Giulia já estava se mexendo no banco de trás, ansiosa para sair e mostrar tudo para Isabella. Eu olhei pelo retrovisor e vi a nova babá sorrindo para ela, com aqueles olhos escuros e brilhantes que pareciam capturar toda a luz do dia. Seus longos cabelos castanhos caíam em ondas suaves sobre os ombros, e sua boca rosada se curvava em um sorriso que, mesmo sendo dirigido à minha filha, fez algo dentro de mim se agitar.— Pai, vamos! — Giulia gritou, interrompendo meus pensamentos.— Já vou, princesa — respondi, saindo do carro e abrindo a porta para ela.Enquanto ajudava Giulia a sair da cadeirinha, meus olhos se voltaram para Isabella, que já estava de pé ao lado do carro, olhando para a casa com uma expressão de admiração. A mansão era imponente, com s