O despertador do meu celular berrou no meio da madrugada, e eu quase morri.— Ai, meu Deus do céu... — grunhi, atacando o botão de soneca como se fosse uma cobra.Na tela, a mensagem do Senhor Benites piscava com a delicadeza de um bilhete de sequestro:"Giulia acorda às 6h30. Uniforme no armário. Use o carro da garagem."Nem um "por favor", nem um "bom dia". Só ordens, como se eu fosse a Alexa de pelúcia dele.— Tá bom, chefe — cuspi no travesseiro antes de me arrastar para o banheiro.Se ao menos ele tivesse aparecido para a tal reunião da noite passada, em vez de evaporar assim que Giulia pegou no sono. Mas não. Miguel Benites, campeão mundial de fugir de conversas que não sejam sobre o clima.O quarto de Giulia parecia a cena de um crime. A mini diva estava enrolada no cobertor como um taquito de cabelos loiros, abraçada ao Sr. Bolhas — o urso que, segundo ela, "só mente para adultos".— Bom dia, princesa... — sacudi seu ombro.Ela abriu um olho, puxou o cobertor até o nariz e anu
O café na minha frente já estava frio. Não sei quando esqueci de bebê-lo. Minha atenção estava presa na janela atrás do acionista alemão, onde os reflexos do sol em Sevilha desenhavam padrões que lembravam os cabelos da Giulia correndo para a escola.—...e com esses números do terceiro trimestre, projetamos...A voz do homem se perdia em meio ao turbilhão na minha cabeça. Será que a Isabella lembrou da pasta de dentes com sabor de morango que Giulia gosta? Ela sempre faz birra com a de menta.—Miguel?Pisquei. Os quatro homens na sala estavam me encarando. O francês, Lefèvre, tinha aquela expressão de quem repetira a pergunta três vezes.— Peço desculpas. Poderia dizer novamente?Lefèvre suspirou, mas reiniciou a explicação sobre os mercados asiáticos. Tentei me concentrar nos gráficos, mas os números dançavam na tela, transformando-se em horários: 8h30 - aula de ballet, 12h - almoço sem glúten (Maria deixou anotado), 15h - pintura.Um toque no meu celular me fez pular. Uma foto da Gi
O cheiro da pizza invadia o carro enquanto eu dirigia para casa. Meus dedos tamborilavam contra o volante, a mente inquieta. Eu estava ansioso para ver Giulia. Isso era natural. Certo?Mas não era só isso.Desde que Isabella chegou, as noites em casa tinham se tornado diferentes. Mais leves. Menos silenciosas. Giulia sorria mais, falava sem parar sobre as brincadeiras e pequenas rotinas que criaram em poucos dias. E eu… bem, eu estava tentando não pensar demais nisso.Quando estacionei na garagem, esperei um segundo antes de sair do carro. O que eu estava fazendo? Era só um jantar. Giulia ficaria feliz com a pizza e dormiria cedo. Isabella terminaria seu turno e iria para o quarto de hóspedes.Rotina. Como sempre.Abri a porta, e o som de risadas ecoou pela sala.— Papai!Giulia veio correndo, os cabelos soltos, ainda com o collant do ballet por baixo de um casaco felpudo. Seus braços se fecharam ao redor das minhas pernas antes de erguer o rosto para mim.— Você trouxe?Sorri e ergui
O sol da manhã aquecia o parque, e a risada de Giulia se misturava ao canto dos pássaros enquanto ela corria em direção ao balanço. O vento bagunçava seus cachos escuros, e a energia transbordava de cada movimento dela.— Me empurra bem alto, Isa! Igual a um foguete!Sorri, segurando as correntes do balanço enquanto ela se ajeitava no assento.— Pronta para decolar?— Sim!Empurrei com delicadeza no começo, sentindo os pezinhos dela se balançarem no ar, mas logo aumentei a força. Giulia abriu os braços, rindo alto.— Mais alto!— Assim você vai acabar alcançando a lua!Ela jogou a cabeça para trás, gargalhando.— Mamãe também me empurrava bem alto.Meus dedos apertaram instintivamente a corrente do balanço, mas mantive minha expressão leve.— É mesmo?— Aham. Ela dizia que eu era a melhor astronauta do mundo!Meu coração apertou, mas continuei empurrando-a no mesmo ritmo. A naturalidade com que Giulia falava da mãe mostrava o quanto ela ainda estava presente em sua vida, mesmo sem est
O dia já havia começado mal.A notícia do prejuízo com a Larson & Sons chegou antes mesmo do meu segundo café. Meio milhão de euros evaporados por um erro de cálculo no sistema de segurança de um dos nossos estagiários. Já tivemos perdas grandes, mas nada tão grave. Agora, a sala de reuniões do décimo andar estava carregada de tensão, repleta de acionistas cujas expressões variavam entre decepção e fúria aberta.— Isso é inaceitável, Benites.O copo de água à minha frente parecia infinitamente mais interessante do que o rosto vermelho do diretor financeiro. Ele estava certo. Era minha culpa. Mas minha mente, nos últimos dias, estava em qualquer lugar, menos aqui.— Vamos resolver. — Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia. — Revisamos os protocolos e compensamos a Larson.— Compensar? Eles já estão falando em rescindir o contrato!Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Maria: "Giulia quer saber se você vai ver o quadro dela na feira de artes. Disse que é uma surpresa."Feir
Olhei para o reflexo no espelho pela terceira vez, alisando inutilmente o tecido do vestido florido. Simples demais? Talvez. O decote era discreto, as mangas levemente bufantes davam um toque romântico, e a saia rodava suavemente ao redor dos joelhos. Mas será que combinava com o luxo daquela escola?Já era tarde para mudar de roupa.O ronco do motor de um carro ecoou pela rua, e meu estômago deu um salto involuntário. Afastei a cortina apenas o suficiente para ver o veículo preto parar diante da casa. Ele veio.Miguel desceu do carro com a mesma postura impecável de sempre, o terno escuro ajustado com precisão ao corpo, a expressão séria escondendo qualquer traço do homem que um dia eu conheci de verdade.
A noite já caía quando saímos da feira de artes. Giulia falava sem parar no banco de trás, animada com as pinturas, os amigos e a sobremesa colorida que ganhou de um dos professores. O entusiasmo dela era contagiante, um contraste gritante com a calma habitual do meu carro.— Foi o melhor dia da escola! — ela declarou, balançando as perninhas para frente e para trás. — O papai viu tudo, Isa! Até os desenhos que eu fiz dele!Isabella, sentada ao meu lado, virou-se para sorrir.— Você desenha muito bem, Giulia. Acho que deveria pintar mais.— Eu vou! — Giulia concordou. — Mas agora eu tô com fome. Muita fome.
O sol já se punha sobre São Paulo quando finalmente saí da faculdade. Meus pés doíam depois de horas em pé, limpando quartos de hotel antes das aulas, e minha mochila parecia pesar o dobro do normal com os livros que eu mal tinha tempo de abrir. O cansaço era tanto que até respirar parecia exigir um esforço extra.Com um suspiro, caminhei até o ponto de ônibus, onde já se formava uma pequena multidão de pessoas igualmente exaustas. O trânsito caótico da cidade não perdoava ninguém, e o ônibus que eu precisava pegar sempre demorava mais do que deveria. Enquanto esperava, encostei minha mochila no chão e fechei os olhos por um instante, tentando me convencer de que ainda tinha energia para o trajeto de quase uma hora até casa.Quando o ônibus finalmente chegou, quase não consegui subir os degraus.Meu corpo pedia descanso, mas minha mente sabia que o dia ainda não tinha acabado. Encontrei um lugar no fundo, longe das janelas quebradas e dos assentos rasgados, e deixei minha mochila no c