O sol já se punha sobre São Paulo quando finalmente saí da faculdade. Meus pés doíam depois de horas em pé, limpando quartos de hotel antes das aulas, e minha mochila parecia pesar o dobro do normal com os livros que eu mal tinha tempo de abrir. O cansaço era tanto que até respirar parecia exigir um esforço extra.
Com um suspiro, caminhei até o ponto de ônibus, onde já se formava uma pequena multidão de pessoas igualmente exaustas. O trânsito caótico da cidade não perdoava ninguém, e o ônibus que eu precisava pegar sempre demorava mais do que deveria. Enquanto esperava, encostei minha mochila no chão e fechei os olhos por um instante, tentando me convencer de que ainda tinha energia para o trajeto de quase uma hora até casa.
Quando o ônibus finalmente chegou, quase não consegui subir os degraus.
Meu corpo pedia descanso, mas minha mente sabia que o dia ainda não tinha acabado. Encontrei um lugar no fundo, longe das janelas quebradas e dos assentos rasgados, e deixei minha mochila no colo. Encostei a cabeça no vidro frio, fechando os olhos novamente. Normalmente, eu usaria esse tempo para revisar as matérias do dia ou ler algum capítulo atrasado, mas hoje não dava.
Hoje, eu só queria dormir.
Mas o sono não veio. Em vez disso, meus pensamentos começaram a girar em torno de tudo o que ainda precisava ser feito. A pilha de roupas para lavar, a janta que eu teria que preparar para mim e para minha mãe, e aquele relatório da faculdade que eu mal tinha começado. A vida nunca tinha sido fácil, mas nos últimos meses, parecia que o universo tinha decidido testar meus limites.
Meu pai, um homem que eu mal conseguia chamar de "pai", estava cada vez pior.
O álcool tinha consumido o pouco que restava dele, e as brigas em casa estavam mais frequentes e violentas. Minha mãe, sempre submissa, continuava aguentando calada, mesmo quando eu implorava para que ela o deixasse. "Ele vai mudar, Isa", ela sempre dizia, com um olhar cheio de esperança que eu não conseguia entender. Mas eu sabia que ele nunca mudaria. E eu também sabia que, enquanto ele estivesse por perto, nenhuma de nós teria paz.
Apertei os olhos com mais força, tentando bloquear os pensamentos negativos. Não adiantava ficar remoendo o que eu não podia mudar. Em vez disso, decidi checar meu e-mail. Talvez a professora Ana tivesse respondido sobre o programa de intercâmbio.
Ela tinha me ajudado a me inscrever para uma vaga de au pair na Espanha, e eu estava esperando uma resposta há semanas. Era minha única chance de sair dali, de dar uma vida melhor para minha mãe e, quem sabe, encontrar um pouco de paz para mim mesma.
Abri o aplicativo do celular, segurando a respiração enquanto esperava os e-mails carregarem. Nada. Nenhuma mensagem nova. Soltei o ar que estava prendendo, sentindo uma mistura de frustração e desespero.
Eu precisava daquilo. Precisava de uma saída. De uma chance. Eu não podia desistir. Não agora. Minha mãe dependia de mim, e eu tinha prometido a mim mesma que faria tudo o que fosse preciso para nos tirar dali.
Quando o ônibus finalmente chegou ao meu bairro, já estava escuro. Caminhei até casa, sentindo o peso da mochila e do cansaço, mas também a determinação que sempre me impulsionava.
Ao abrir a porta, ouvi os sons familiares de uma discussão. Meu pai estava gritando, e minha mãe tentava acalmá-lo com uma voz trêmula. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo antes de entrar na sala.
— Isa! — minha mãe disse, aliviada ao me ver. — Você chegou. Já jantou?
— Ainda não — respondi, deixando a mochila no chão. — Eu faço algo para a gente.
— Você não faz nada! — a voz do meu pai cortou o ar como uma faca. Ele se levantou cambaleante, a garrafa de cachaça balançando em sua mão. — Você só quer fugir, não é? Igual a sua mãe! Duas ingratas!
Minha mãe deu um passo para trás, as mãos tremendo. Eu conhecia bem aquele olhar nela. Medo. O mesmo medo que me acompanhava desde que eu era criança.
— Pai, não começa… — tentei manter minha voz firme, mas meu coração martelava contra o peito.
Ele bufou, apontando um dedo trêmulo para minha mãe.
— Você me trata como lixo dentro da minha própria casa! Sempre me olhando desse jeito, como se eu fosse um monstro!
— Porque você age como um! — As palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse me conter.
O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. O olhar do meu pai encontrou o meu, e por um segundo, achei que ele fosse avançar. Mas, em vez disso, ele riu. Um riso amargo, carregado de álcool e ressentimento.
— Olha só, a princesinha agora tem coragem, né? — Ele balançou a cabeça, voltando a se sentar no sofá. — Fala o que quiser. No fim, vocês duas sempre vão precisar de mim.
Minha mãe abaixou os olhos, e eu senti um nó na garganta. Eu queria gritar, dizer que ele estava errado, que nós não precisávamos dele. Mas as palavras ficaram presas. Porque, por mais que eu quisesse acreditar nisso, a verdade era que ainda estávamos ali. Presas naquele ciclo. E eu não sabia até quando.
Voltei para a cozinha com os punhos cerrados, tentando controlar o tremor nas mãos. Peguei os ingredientes para o jantar, forçando-me a focar na única coisa que eu podia fazer agora: seguir em frente. Eu precisava daquela vaga e amanhã iria pessoalmente implorar a minha professora que me tirasse daquilo.
O despertador tocou às 5h30, mas eu já estava acordado. Meu corpo parece ter um relógio interno que não me permite descansar por muito tempo. Enquanto me vestia, mentalizava a agenda do dia: reuniões, contratos, clientes. Tudo precisava ser perfeito. Tomei meu café preto, comi duas torradas sem muita vontade e dei uma olhada rápida nas notícias do mercado. Giulia ainda dormia, e deixei um bilhete para a governanta, como sempre faço, com instruções sobre o que ela deve comer e vestir. Não posso falhar com ela. Nunca.No carro, revi relatórios no tablet. A Benites Seguridad é meu legado, minha responsabilidade. Herdar o império do pai não foi fácil. Lembro das noites em claro estudando administração e finanças, das reuniões onde era tratado como um "menino mimado" até provar meu valor. Abdiquei de tudo: festas, amigos, até um noivado que não sobreviveu à minha dedicação obsessiva ao trabalho. Tudo para ser digno do nome Benites.Cheguei ao escritório e fui direto para a primeira reunião
O dia foi longo. Mais longo do que o normal, se é que isso é possível. Meus pés doíam como se tivessem sido esmagados por uma prensa, e minhas costas pareciam carregar o peso de todos os lençóis que troquei hoje. Trabalhar como camareira em um hotel cinco estrelas pode parecer glamouroso para alguns, mas a realidade é bem diferente. Quartos imensos, banheiros gigantes e clientes exigentes que nunca estão satisfeitos. Hoje, felizmente, não tenho aula na faculdade. Meu único plano é chegar em casa, tomar um banho quente e tentar estudar um pouco antes que o cansaço me derrube.Entrei no ônibus quase arrastando os pés. Encontrei um lugar no fundo, longe das janelas quebradas e dos assentos rasgados, e encostei minha cabeça no vidro frio. O barulho do motor e o balanço do veículo quase me fazem adormecer, mas resisto. Preciso checar meu e-mail. Talvez a professora Ana tenha respondido sobre o programa de au pair. Ela me ajudou a me inscrever há semanas, e desde então vivo checando a caixa
Acordei com o som de vozes baixas vindo da cozinha. Meu corpo ainda pesava do cansaço do dia anterior, mas a lembrança do e-mail me fez sentar na cama rapidamente. Aquele pedaço de esperança ainda brilhava em algum lugar dentro de mim, mesmo que o medo e a culpa tentassem apagá-lo. Respirei fundo, tentando me preparar para mais um dia de decisões impossíveis.Quando saí do quarto, o cheiro de café estava no ar, mas também havia algo mais: a tensão. Minha mãe estava na cozinha, sentada à mesa com as mãos envoltas em uma xícara. Ela não olhou para mim quando entrei, mas eu vi os olhos vermelhos, o rosto cansado. E então, percebi. Ele estava lá.O padrasto estava encostado na geladeira, com os braços cruzados e um olhar que eu conhecia bem. Aquele olhar que dizia: "Você não pertence aqui." Ignorei-o, focando na minha mãe.— Bom dia, mãe — cumprimentei, tentando manter a voz calma.— Bom dia, Isa — ela respondeu, sem levantar os olhos.Peguei uma xícara e enchi com café, tentando me distr
O despertador tocou às 6h, mas desta vez não foi o som estridente que me acordou. Era Giulia, pulando na minha cama com os pés gelados e um sorriso que poderia rivalizar com o sol da manhã.— Papai, acorda! Hoje é sábado! — ela gritou, balançando meu braço com uma energia que só uma criança de seis anos pode ter.— Já estou acordando, princesa — respondi, esfregando os olhos e tentando me livrar do peso dela em cima de mim. — O que tem de tão especial no sábado?— Você prometeu que íamos ao parque hoje! — ela disse, como se eu tivesse cometido um crime por esquecer.Ah, sim. O parque. Eu havia prometido na semana passada, durante uma de nossas noites de filme, que dedicaria o sábado inteiro a ela. Trabalho tanto que às vezes esqueço que promessas são sagradas para uma criança, mesmo com toda a correria.— Certo, certo. Vamos ao parque — concordei, sentando na cama. — Mas primeiro, café da manhã. Você já comeu?— Não, estava esperando você! — ela respondeu, pulando da cama e correndo e
A casa da Marina sempre foi meu refúgio. Desde que me mudei para cá, depois daquela noite terrível em que fui expulsa de casa, ela tem sido minha âncora. Marina é mais que uma prima; é a irmã que nunca tive. E hoje, mais do que nunca, eu precisava dela.— Isa, você está bem? — Marina perguntou, colocando uma xícara de chá na minha frente. O cheiro de camomila era reconfortante, mas nem mesmo isso conseguia acalmar minha mente agitada.— Não sei — respondi, segurando a xícara com as duas mãos. — Acho que estou me sentindo... culpada.Marina sentou-se ao meu lado no sofá, seus olhos cheios de preocupação.— Culpada por quê? Você não fez nada de errado.— Eu deixei ela lá, Marina. Deixei minha mãe sozinha com ele. Como posso simplesmente ir embora e fingir que está tudo bem?— Isa, você não deixou ela. Você foi expulsa. E você fez tudo o que pôde para ajudá-la. Quantas vezes você tentou convencê-la a sair daquela situação? Quantas vezes você chamou a polícia, implorou, chorou?Eu olhei p
A casa da minha mãe parecia menor do que eu lembrava. O portão rangia ao ser aberto, como se reclamasse da minha presença depois de tanto tempo. O jardim, outrora cheio de flores, agora estava quase abandonado, com apenas algumas margaridas resistindo bravamente entre as ervas daninhas. Respirei fundo, sentindo o cheiro da terra molhada e do jasmim que ainda insistia em florescer no canto do muro. Era o mesmo cheiro da minha infância.— Isa! — A voz da minha mãe veio da porta, e eu olhei para cima. Ela estava lá, com um vestido simples e um sorriso que iluminava o rosto cansado.Meu coração apertou. Era a mesma mulher que me embalava nos braços quando eu era criança, que cantava para eu dormir e fazia bolos de chocolate nos domingos de manhã. Mas agora, suas mãos tremiam levemente, e seus olhos estavam cercados por marcas de preocupação.— Oi, mãe — eu disse, tentando disfarçar a emoção na voz. Caminhei até ela, e ela me abraçou com uma força que eu não esperava.— Entra, entra! Fiz b
O dia começou como todos os outros: com uma xícara de café amargo e uma pilha de relatórios que parecia nunca diminuir. A Benites Security não perdoava, e eu tampouco. Reuniões atrás de reuniões, clientes exigentes, funcionários que precisavam de orientação... às vezes, eu me perguntava se tudo aquilo valia a pena. Mas era minha responsabilidade, meu legado. E, no fim do dia, era tudo o que eu tinha.— Senhor Benites, os representantes da GlobalTech estão na sala de conferências — minha secretária anunciou, interrompendo meus pensamentos. Ela era a única pessoa na empresa que ainda me tratava com um olhar carinhoso, como se soubesse que, por trás da fachada de CEO rabugento, havia um homem cansado.— Obrigado — respondi, levantando-me da mesa. — Diga a eles que estarei lá em cinco minutos.Ela acenou com a cabeça, mas antes de sair, lançou-me um olhar preocupado.— Você já almoçou, senhor Benites?— Não há tempo — respondi secamente, ajustando o nó da gravata.As reuniões se arrastara
O som do avião tocando o solo me fez apertar ainda mais a bolsa contra o peito. Meus dedos tremiam levemente, e eu respirei fundo, tentando me convencer de que aquilo era real. Eu, Isabella, uma garota que nunca tinha saído da minha cidade, estava desembarcando na Espanha. O oceano Atlântico agora ficava para trás, e com ele, toda a segurança do que eu conhecia.O coração batia acelerado enquanto eu caminhava pelo corredor do aeroporto, seguindo o fluxo de passageiros. As luzes brilhantes e o burburinho de vozes em línguas estrangeiras me deixavam ainda mais nervosa. Apertei a bolsa com mais força, como se ela fosse meu único elo com o mundo que eu deixara para trás. Dentro dela, estavam minhas coisas mais preciosas: uma foto da minha família, um terço que minha avó me dera e um caderno onde eu anotava meus sonhos."Respira, Isa," eu me disse, baixinho. "Você conseguiu chegar até aqui. Agora é só seguir em frente."Mas o medo insistia em não me abandonar. E se eu não fosse boa o sufic