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Capítulo 5: Miguel Benites

O despertador tocou às 6h, mas desta vez não foi o som estridente que me acordou. Era Giulia, pulando na minha cama com os pés gelados e um sorriso que poderia rivalizar com o sol da manhã.

— Papai, acorda! Hoje é sábado! — ela gritou, balançando meu braço com uma energia que só uma criança de seis anos pode ter.

— Já estou acordando, princesa — respondi, esfregando os olhos e tentando me livrar do peso dela em cima de mim. — O que tem de tão especial no sábado?

— Você prometeu que íamos ao parque hoje! — ela disse, como se eu tivesse cometido um crime por esquecer.

Ah, sim. O parque. Eu havia prometido na semana passada, durante uma de nossas noites de filme, que dedicaria o sábado inteiro a ela. Trabalho tanto que às vezes esqueço que promessas são sagradas para uma criança, mesmo com toda a correria.

— Certo, certo. Vamos ao parque — concordei, sentando na cama. — Mas primeiro, café da manhã. Você já comeu?

— Não, estava esperando você! — ela respondeu, pulando da cama e correndo em direção à cozinha.

Seguir Giulia até a cozinha era como tentar acompanhar um furacão. Ela já estava na mesa, com uma tigela de cereal na frente, quando eu cheguei. Maria, nossa governanta, sorriu ao me ver.

— Bom dia, senhor Miguel. Parece que alguém está animado hoje — disse ela, servindo uma xícara de café para mim.

— Bom dia, Maria. E sim, alguém está me mantendo em movimento — respondi, sentando-me ao lado de Giulia.

Enquanto tomava meu café, observei Giulia devorando o cereal com uma animação contagiante. Ela falava sem parar, contando sobre um sonho que teve com um dragão roxo e uma princesa que sabia voar. Eu ouvia, tentando acompanhar a lógica peculiar de uma criança de seis anos, e me surpreendi rindo de suas histórias malucas.

— E aí, o dragão comeu a princesa? — perguntei, brincando.

— Claro que não, papai! Eles viraram amigos e foram morar numa nuvem — ela respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Depois do café, Giulia me arrastou para o quarto dela, onde insistiu que eu ajudasse a escolher sua roupa.

Quando chegamos ao parque, Giulia saiu correndo em direção ao balanço, como se fosse a primeira vez que o visse. Eu a segui, tentando manter o ritmo, mas ela já estava sentada e balançando os pés antes que eu pudesse alcançá-la.

— Empurra, papai! — ela pediu, e eu obedeci, empurrando-a gentilmente enquanto ela ria e pedia para ir mais alto.

— Cuidado, princesa! Não quero que você voe para longe! — brinquei, segurando o balanço para diminuir a velocidade.

Compramos sorvetes e nos sentamos em um banco, observando as outras crianças brincarem. Giulia encostou a cabeça no meu ombro, e eu a envolvi com o braço, sentindo o calor dela contra mim.

— Papai, você é o melhor pai do mundo — ela disse, entre uma lambida e outra no sorvete.

— E você é a melhor filha do mundo — respondi, beijando o topo de sua cabeça.

Ficamos em silêncio por um momento, aproveitando a calma do parque. Era raro ter esses momentos de paz, e eu sabia que precisava aproveitar cada um deles. Mas também sabia que havia algo importante que precisava contar a ela.

— Giulia, tenho uma novidade para você — comecei, tentando escolher as palavras certas.

— O que é, papai? — ela perguntou, levantando a cabeça para me olhar com curiosidade.

— Bem, você sabe que eu trabalho muito, né? E às vezes fico ocupado demais para brincar com você como gostaria.

— Eu sei, papai. Mas você sempre arruma um tempinho — ela disse, com uma inocência que me partiu o coração.

Sorri, acariciando seus cabelos.

— Sim, mas eu quero que você tenha alguém que possa brincar com você o tempo todo. Alguém que te ajude com a lição de casa, te leve ao parque e faça coisas divertidas quando eu não puder.

— Tipo a Maria? — ela perguntou, confusa.

— Não exatamente. Alguém mais jovem, que possa brincar mais com você. Uma baba.

Giulia franziu a testa, pensativa.

— Uma baba? Como aquelas que a gente vê nos filmes?

— Mais ou menos. Ela se chama Isabella, e vem do Brasil. Ela vai morar com a gente por um tempo e cuidar de você.

— Ela é legal? — Giulia perguntou, seus olhos brilhando com curiosidade.

— Eu acho que sim. A Carmen escolheu ela, e ela parece muito gentil. Além disso, ela gosta de crianças e vai te ajudar a aprender coisas novas.

Giulia ficou em silêncio por um momento, olhando para o sorvete que derretia em sua mão.

— Ela vai ficar comigo quando você estiver no trabalho?

— Sim, princesa. Mas eu ainda vou estar aqui para você, sempre que puder. A Isabella vai ser como uma amiga que vai te ajudar e brincar com você.— Legal! — ela exclamou, pulando do banco. — Quando ela chega?

— Em alguns dias. Vamos conhecê-la juntos, que tal?

— Combinado! — ela disse, estendendo a mão para mim com um sorriso travesso.

Apertei sua mãozinha, rindo.

— Combinado.

— Papai, você acha que a Isabella vai gostar de mim? — ela perguntou de repente, com uma expressão séria que me surpreendeu.

— Claro que vai, princesa. Como alguém não poderia gostar de você? — respondi, puxando-a para um abraço.

— Não sei... às vezes as pessoas não gostam de mim — ela disse, baixinho.

Meu coração apertou. Giulia era tão pequena, mas já carregava dúvidas e inseguranças que eu nem imaginava.

— Giulia, você é a pessoa mais incrível que eu conheço. A Isabella vai adorar você, assim como todo mundo que te conhece. E se ela não gostar, ela não é a pessoa certa para ficar aqui.

Ela olhou para mim, seus olhos brilhando com uma mistura de esperança e medo.

— Promete, papai?

— Prometo — respondi, apertando sua mãozinha novamente. — E lembre-se, eu sempre estarei aqui para você, não importa o que aconteça.

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