“Quem se disfarça tão bem quanto um humano?” Meu coração batia forte no peito, eu tentei me afastar, mas meus pés quase tropeçaram. Naquele nível, eu só cairia e atrairia toda a atenção indesejada para mim.
— Quem é você? — perguntei, assustada. Desta vez, olhei ao redor e todos não passavam de meros humanos, incluindo a pessoa que os servia bebidas, menos aquele homem. Minha espinha arrepiou. — A pergunta é minha. Você que é nova aqui. — Senti que sua última frase soou uma ameaça disfarçada. “Ele não é um lobo comum.” Gravei rapidamente suas características enquanto dava passos vacilantes para trás. Eu nunca ouvi falar dele. Mas era notório que não deveria estar com ele. — Eu peço desculpas… Estou indo… — me virei para partir, mas a voz dele me parou, não soou audível para ninguém, só para mim. “Acha que pode escapar de mim?” Fiquei paralisada, sua voz estava na minha cabeça, aquilo era impossível. Eu já estava convencida de que minha forma e a forma de todos os lobos era uma maldição agora. Eu jamais veria o amanhã, mesmo no meio dos humanos estava um de nós, aparentemente pior que os outros. “Como está fazendo isso?” Não ousei me virar. “Eu vou contar a você se não fugir.” — Ele disse na minha mente. “E como saberei se o que fala é verdade?” “Ficando. Sei que é uma loba solitária. E não parece que faz muito tempo que perdeu as forças da matilha.” — Ele era muito estranho, aparentemente forte demais para brigar. “E se eu fugir?” perguntei por precaução, dando passos para fora. “Eu terei que te perseguir e matar, sem questionamentos.” — Soou firme, eu sentia seus olhos em minhas costas e meu ser parecia sentir a presença mais forte dos meus instintos, da minha alma. “Ele vai me matar de qualquer jeito.” Recordei que as Ciro sempre diziam que ele seria rei. Isso poderia significar que alguém perto do supremo era aliado dele, então aquele alguém só poderia ser aquele estranho. Disparei pela porta sem olhar para trás. “Quando ele chegou ali? Estaria apenas me esperando?” Continuei dando tudo que eu tinha. Por mais que a minha forma lupina corresse duas vezes mais, eu estava ciente de não poder fazer aquilo no meio dos humanos, seria mais uma regra quebrada e, com certeza, por essa eu seria julgada sem poder me defender. Meus cabelos ruivos e longos chicoteavam minhas costas, enquanto o vestido tentava se manter no lugar com a velocidade que eu corria. Quem fosse o observador daquele acontecimento estava vendo agora apenas uma situação pouco assustadora entre uma mulher fugindo de um homem grande e quase estoico seguindo-a com mais rapidez. Eu sentia sua presença, ouvia o bater de suas botas pesadas atrás de mim, enquanto eu estava descalça e sendo maltratada pela pista a qual corria da pequena cidade. De repente, fui abraçada com força e puxada para o lado, fora da pista. Nós dois rolamos, seu corpo grande ainda me prendendo, fazendo ambos rolarem pela inclinação depois da pista. Quando finalmente paramos de rolar, meu corpo já estava dolorido de tantas vezes que ambos passamos um por cima do outro. Eu tentei me recuperar em cima do estranho, de costas para ele, assim como ele me capturou no início. — Me deixe ir! — falei, ofegante. — Eu disse que não teria chance se fugisse. — Disse ele, parecendo natural, como se não tivesse tido trabalho algum em correr por todo o percurso atrás de mim. Eu suspirei, cansada demais para levar tudo naquele nível. “Está bem. Eu vou aceitar isso por enquanto.” Digo para mim mesma, mas imediatamente escuto um rouco som vibrando embaixo de mim. Ele gargalhava. Era um som assustadoramente bonito e que, de certa forma, acalmou meus demônios. Eu já nem sentia medo dele. — Por enquanto? Vai fazer o quê quando sua cabeça estiver rolando por esse chão? — Ele perguntou, me relembrando que conseguia ouvir meus pensamentos. Ainda não estava acostumada com aquela condição especial daquele lobo, e para disfarçar, eu brinquei com a primeira coisa que veio à minha mente. — Eu vou correr uns cem metros sem cabeça. A sua gargalhada trovejou novamente, desta vez mais divertida. Ele me soltou para que eu rolasse para o lado. Diferente do que estava dizendo, ele me liberou por breves minutos. Ao invés de levantar de um pulo e correr, eu fiquei o assistindo. Seu sorriso branco era muito bonito. — Duvido que aconteça. Serviria de quê? — Isso serviria para assombrar você. Pelo menos, não seria a única a ficar assustada com seu dom chocante. — Respondo, vendo ele perder a graça e me encarar. Quem nos visse agora diria que éramos apenas dois loucos que haviam brigado como um casal e a namorada fazia drama fugindo, e seu companheiro a seguia para não deixá-la se machucar ou fazer uma burrada. Na situação atual, parecíamos de bem um com o outro, como se, naquele rolar, eu o perdoasse por algum erro e agora tivesse decidido ser uma boa namorada e permanecer com ele. “Isso é loucura.” Estava presa pela cor de seus olhos, mesmo ciente de ser apenas uma ilusão. No que eu estava pensando?EULÁLIA Éramos um emaranhado de meus cabelos entre nós, nos juntando ao mesmo tempo. Só notei isso quando ele se mexeu. — Espera um pouco! — pedi, tentando tirar meus fios de seu corpo e rosto. No processo, tive que deslizar meus dedos, tocando sua pele e seu corpo por cima da roupa. Meu rosto esquentou com o choque elétrico nas pontas dos meus dedos. Tentei não pensar se ele sentia ou não, porque ele leria meus pensamentos. Mas minha mente tinha vontade própria, e, uma hora ou outra, eu acabaria pensando em algo muito pior do que um choque elétrico e arrepios gostosos pelo corpo. Parecia que os segundos eram eternos. Os fios vermelhos dos meus cabelos o enrolando apenas o deixavam ainda mais bonito. Mas não durou muito, porque ele logo se desfez daquela situação e conseguiu se soltar. Ele não queria ser preso mais nenhum segundo. A situação seria engraçada se ele não fosse um completo desconhecido. "Devo pedir desculpas?" — Não há necessidade! — ele disse imediatamente. Mesmo
EULÁLIA “Certo. São mesmo uma decepção.” Eu estava feliz por não fazer mais parte deles. — Acha que ele aguenta um tapa? — riram entre si. — Se você aguentar um osso quebrado, ele aguenta um tapa, sim! — eu gritei, para chamar a atenção de todos para mim e dificultar a tentativa do outro de me pegar de forma silenciosa. O loiro me encarou no momento em que percebi que aquele que tentava me pegar dentro do carro havia se escondido atrás de alguma coisa. — Ela está louca. Devemos matá-la também. — Não vamos esperar o conselho? — Claro que não. Não vê que ela está se confiando em um humano? É patético. — Que tal você vir aqui dar um tapa nele? — insisti de novo. O loiro olhou para mim e então soltou uma risada divertida. “Eu espero que não seja uma tentativa de fuga.” — disse ele na minha cabeça. Era uma voz tão prazerosa que me deixou tímida. “Você é o único ceifador aqui. Vá em frente. Eu estarei aqui. Prometo!” Selei os dedinhos acima da porta do carro que eu ainda segurava.
EULÁLIA Paralisei, repassando tudo. “Eu só me ferrei!” — Para onde eu irei? — Segui o homem que era quase uma espécie de braço direito, assistente ou seja lá o que fosse do supremo. — Por ora, para um quarto. O depois é discutível. “Eles ainda não foram informados sobre mim, não é?” Aceitei sem hesitar. — E quanto ao supremo? — perguntei com cuidado. — Ele está com o conselho. — Esse cara devia ser um ômega ou algo assim. “Então agora devem estar discutindo sobre mim.” Não sabia identificar se seria muita sorte ou azar eles não saberem sobre a mentira que Ciro espalharia para tentar, ao menos, chegar perto do supremo. “Pensar que ele esteve tão perto daquele idiota e não pôde fazer uma visitinha para cortar seu pescoço pessoalmente.” De repente, fiquei amargurada. Um quarto me foi apresentado. Era divino para mim. Comparado a ser o último cômodo com regalias que teria antes da morte, aquilo era quase o céu na Terra. — Se instale. Para tudo que precisar, use a campainha ao la
EULÁLIA— Segundo os relatórios da alcateia Sangue Azul… — Reviraria os olhos só de ouvir o nome da minha antiga alcateia, se tivesse esse costume e se não estivesse sob tantos olhares, principalmente o dele.Enquanto o Beta continuava, eu sentia os olhares em cada parte de mim, mas apenas um tinha o poder de me atingir.Suspirei devagar e da forma mais sutil que pude, tentando continuar firme diante das acusações. Porém, os olhos cinzentos, com sua aliança vermelha ao redor das pupilas, me chamaram.Ele me prendeu em seu contato visual, como se tivesse escutado até o meu baixo suspirar cansado. Por um momento, pareceu que havia apenas nós.“Claro que ele ouviu. Ele escuta melhor que ninguém.”Recordei do que ele disse sobre meus batimentos cardíacos. Baixei os olhos, tentando não parecer ousada. Pus-me a prestar atenção nas palavras do Beta.— As acusações apontam Eulália Rivera não apenas como traidora de seu companheiro… — Levantei a cabeça imediatamente.“Companheiro? Que companhe
EULÁLIA— E por que eles fariam isso? — perguntou o Beta.— Eu sou descartável. Eu não passo de uma loba fraca e sem companheiro. Mas poderia estragar seus planos de atentar contra o supremo.Risos soaram pelo salão. Não me senti idiota por isso, eu sabia o quanto a ideia de Ciro era tola, mas ele não.Sua fixação por se autodenominar rei, sua vontade de ser alfa antes do tempo, isso tudo só percebi tarde demais.— Como isso poderia levar ao nosso supremo? Vocês não têm força contra o supremo. — desdenhou o Beta.— Eu não faço mais parte deles. — corrigi sem medo.Recebi em troca alfinetadas de suas íris verdes.— E qual é o plano dele? Nos enviar uma isca para nos distrair? — percebi seu tom irônico.“Ele quer dizer que se não sou a traidora, ainda estou fazendo a vontade de alguém e arquitetando com eles?”— Não. Eu deveria ser morta, é tudo que sei.— E por que ainda está viva? — Aquele Beta parecia ter um problema comigo.Havia um julgamento pessoal ali. Eu sentia.— Eu fugi!— E
EULÁLIA“Licaon foi o primeiro lobisomem da história, segundo as lendas gregas. Ele ousou cozinhar a carne de um escravo para oferecê-la a Zeus e, como punição, o deus o amaldiçoou. Desde então, ser um lobisomem sempre foi visto como uma maldição.”“Agora somos sinônimos de poder.”Aquela seria a noite em que minha vida mudaria, não que eu soubesse se seria uma mudança boa ou ruim.— Estão invadindo… — foi tudo muito rápido.O novo Beta da matilha Sangue Azul me puxou pela mão para longe de toda a confusão. A princípio, acreditei que seria pela posição de Luna que meu namorado havia prometido.— Por aqui. — Ele me levou rumo à floresta.— Mas eu posso ajudar as mães e crianças desamparadas se estiver lutando junto com todos.— Sua segurança é mais importante. E são ordens diretas.— De Ciro? — perguntei, seguindo-o. Ele ainda me puxava com pressa.— Sim.Meu sorriso ampliou. Por dentro, estava muito feliz por ele não estar mais estranho como antes.“Ele está me protegendo.”Acompanhei
EULÁLIALutei como podia, até perceber que ele queria me matar de verdade. Por isso, tive que empurrá-lo com tudo que tinha e pular de pé, mesmo machucada. Capturei a adaga que tinha no bolso da calça e encarei Ciro em sua forma de lobo, agora maior que antes, e sua suposta verdadeira namorada.— Por que está me atacando? — quase gritei. Ele, por sua vez, apenas me rondou.“Eles sempre planejaram me eliminar depois da ascensão de Ciro ao cargo de Alfa. Mesmo tendo sido eu a ajudá-lo a ganhar uma boa imagem.”— Porque você é a traidora, aquela que chamou os inimigos e fez o pai dele morrer antes da hora. — Era Rosalina falando por ele novamente.— Você não sabe mais falar, não? Só essa v***a aí? — explodi.Tudo estava se encaixando, e isso me deixava muito brava. Eu era o alvo de todos, principalmente daqueles dois. Então, recordei que o Beta foi o mesmo que entrou correndo, dizendo que estávamos sendo atacados, e foi ele quem me levou até ali, para esperar por meu suposto namorado.—
EULÁLIA — Você é uma loba bonita e fértil, mas só serve para isso, procriar. E eu nunca seria louco de me deitar com você para ter lobos ruivos. Lobos estranhos. Quando tenho minha companheira de verdade. Engoli o gosto da decepção. Eu era uma loba que não podia deitar-se com qualquer um; diziam que deveria ser apenas de um alfa, para procriar e elevar o nível da matilha, mas essa era a parte em que eu nunca contei a Ciro. Ele só sabia que eu era uma loba para ter filhos e não alguém dita como especial. — Eu sou especial. — Digo com os olhos cinzas já injetados de raiva. — Claro que é. Nunca achou seu par e não vai achar. Não era por isso que estava comigo? — Riu da minha fraqueza, magoando-me profundamente. Uma vez, aquele mesmo oráculo que me disse sobre meu modo especial também me disse que alguém como eu não tinha um par, que não tinha um companheiro de nascença. Só restava ter um de sangue, algo como uma segunda chance. Mas era quase impossível. — Eu ainda tenho uma chance