EULÁLIA
“Certo. São mesmo uma decepção.” Eu estava feliz por não fazer mais parte deles. — Acha que ele aguenta um tapa? — riram entre si. — Se você aguentar um osso quebrado, ele aguenta um tapa, sim! — eu gritei, para chamar a atenção de todos para mim e dificultar a tentativa do outro de me pegar de forma silenciosa. O loiro me encarou no momento em que percebi que aquele que tentava me pegar dentro do carro havia se escondido atrás de alguma coisa. — Ela está louca. Devemos matá-la também. — Não vamos esperar o conselho? — Claro que não. Não vê que ela está se confiando em um humano? É patético. — Que tal você vir aqui dar um tapa nele? — insisti de novo. O loiro olhou para mim e então soltou uma risada divertida. “Eu espero que não seja uma tentativa de fuga.” — disse ele na minha cabeça. Era uma voz tão prazerosa que me deixou tímida. “Você é o único ceifador aqui. Vá em frente. Eu estarei aqui. Prometo!” Selei os dedinhos acima da porta do carro que eu ainda segurava. “Aquele cara atrás do carro com certeza não é seu bote salva-vidas.” — fiquei impressionada por ele ter percebido. “Desde quando o viu?” Não escondi a surpresa. Ele riu, então ouvimos a voz do líder do grupo que veio me pegar falando: — Eu vou realizar o desejo dele. — veio devagar. Seus passos lentos eram uma tentativa ridícula de assustar meu ceifador. — Eu não vou escolher uma forma para você morrer. — o loiro falou. — Ele não precisa dessa regalia. — eu ri. — Mas aquele amigo atrás vai ter uma morte rápida. Eu odeio covardes. — rosnou o loiro e, de repente, sumiu. O líder do grupo ficou tão surpreso quanto eu. Ouvimos ossos se partindo e gritos, e, na mesma velocidade que sumiu, ele reapareceu com um corpo ensanguentado. — Tsk! Desculpe! Eu não resisti a quebrar seus ossos. — jogou o corpo sem vida no chão. Meus dedos tremeram, eu me arrepiei de medo. “Isso que aconteceria comigo?” Todos deram um passo para trás, assustados. — Que loucura é essa? — Que d***os! — O que esse louco é? — o líder recuou. — Um vampiro, talvez? — se afastaram. O loiro rosnou alto, fazendo todos estremecerem. — Tem algo mais que queiram me comparar? — sua voz soou mais alta, mesmo sem gritar, quase ao nível alfa. “Minha nossa!” Quase soltei a porta do carro quando o vidro da janela vibrou. Pensei no que aconteceria se ele usasse seu comando de forma proposital e em alto tom. Consegui visualizar os vidros quebrando de todos os carros e nossas audições aguçadas tremendo ainda mais como agora. Quase tive meus joelhos dobrados, exigindo submissão, mas ele me lançou um olhar de soslaio. — Entre no carro e feche a porta! Não precisou falar novamente. Minhas pernas tremeram, e eu duvidei que aquela sensação passaria tão breve quanto desejava. Tudo em mim me mostrava o quanto eu estava entregue a qualquer ordem dele. “Esse tipo de comando existe mesmo?” Não tinha certeza se era apenas porque eu não tinha uma alcateia agora e necessitava de um alfa, ou se ele era mais do que pensei. Mesmo me sentindo intimidada, olhei pela janela, já que, por sorte, ele não me proibiu daquilo. Me arrependi imediatamente de ter feito isso. Meu ceifador tirou a vida de todos com apenas um único golpe em cada um, sem comando, sem perder tempo. Ele caçou cada um, até o último, e os descartou dentro da floresta. Logo surgiu como um fantasma de tão veloz. Meu coração saltou e doeu de tamanho susto. “Caramba!” Ele entrou no carro com algumas manchas pela roupa, principalmente no rosto e nas mãos. Olhando pelo retrovisor, ele notou meus olhos grandes. — Pensa que sou vampiro também, lobinha? — ironizou, mostrando o quanto era incomodado com a comparação que fizeram dele. — Eu não me atreveria a comparar. — murmurei. — E por quê? Já sabe o que sou? — sorriu pelo retrovisor. — É o único que sei que é capaz de controlar de um lobo solitário ao lobo com matilha. Mas eu não consigo pensar em quem seja… — confessei, ainda abalada pelos acontecimentos. Ele nos tirou do lugar, sem mais conversa. Enquanto isso, meus dedos eram apertados por mim mesma em nervosismo. Eu não sabia se a segurança que sentia antes com ele era ilusão ou se só sufocava pelo medo. Então, depois de um bom tempo na estrada, passamos por vários lugares e montanhas. Achei que nunca deixaria aquele carro, até chegarmos ao castelo. “O que fazemos aqui?” Me perguntei, meu corpo tremendo levemente. “Não me diga que ele conhece o supremo? Eu vou conhecê-lo?” No fundo, eu sentia uma admiração pelo rei dos lobisomens. — Algum interesse no supremo? — ele parou o carro depois do imenso jardim. — Quem não teria? Seria loucura. — digo de repente, no automático. — Para quê serviria isso se você está tremendo feito uma garotinha só pelo que viu? — tirou seu cinto e abriu a porta. Fiz o mesmo, mas me ajudaram no processo. — Sim, supremo! — ouço alguém dizer. Meus lábios se separaram, impressionados. — Você é o supremo alfa?EULÁLIA Paralisei, repassando tudo. “Eu só me ferrei!” — Para onde eu irei? — Segui o homem que era quase uma espécie de braço direito, assistente ou seja lá o que fosse do supremo. — Por ora, para um quarto. O depois é discutível. “Eles ainda não foram informados sobre mim, não é?” Aceitei sem hesitar. — E quanto ao supremo? — perguntei com cuidado. — Ele está com o conselho. — Esse cara devia ser um ômega ou algo assim. “Então agora devem estar discutindo sobre mim.” Não sabia identificar se seria muita sorte ou azar eles não saberem sobre a mentira que Ciro espalharia para tentar, ao menos, chegar perto do supremo. “Pensar que ele esteve tão perto daquele idiota e não pôde fazer uma visitinha para cortar seu pescoço pessoalmente.” De repente, fiquei amargurada. Um quarto me foi apresentado. Era divino para mim. Comparado a ser o último cômodo com regalias que teria antes da morte, aquilo era quase o céu na Terra. — Se instale. Para tudo que precisar, use a campainha ao la
EULÁLIA— Segundo os relatórios da alcateia Sangue Azul… — Reviraria os olhos só de ouvir o nome da minha antiga alcateia, se tivesse esse costume e se não estivesse sob tantos olhares, principalmente o dele.Enquanto o Beta continuava, eu sentia os olhares em cada parte de mim, mas apenas um tinha o poder de me atingir.Suspirei devagar e da forma mais sutil que pude, tentando continuar firme diante das acusações. Porém, os olhos cinzentos, com sua aliança vermelha ao redor das pupilas, me chamaram.Ele me prendeu em seu contato visual, como se tivesse escutado até o meu baixo suspirar cansado. Por um momento, pareceu que havia apenas nós.“Claro que ele ouviu. Ele escuta melhor que ninguém.”Recordei do que ele disse sobre meus batimentos cardíacos. Baixei os olhos, tentando não parecer ousada. Pus-me a prestar atenção nas palavras do Beta.— As acusações apontam Eulália Rivera não apenas como traidora de seu companheiro… — Levantei a cabeça imediatamente.“Companheiro? Que companhe
EULÁLIA— E por que eles fariam isso? — perguntou o Beta.— Eu sou descartável. Eu não passo de uma loba fraca e sem companheiro. Mas poderia estragar seus planos de atentar contra o supremo.Risos soaram pelo salão. Não me senti idiota por isso, eu sabia o quanto a ideia de Ciro era tola, mas ele não.Sua fixação por se autodenominar rei, sua vontade de ser alfa antes do tempo, isso tudo só percebi tarde demais.— Como isso poderia levar ao nosso supremo? Vocês não têm força contra o supremo. — desdenhou o Beta.— Eu não faço mais parte deles. — corrigi sem medo.Recebi em troca alfinetadas de suas íris verdes.— E qual é o plano dele? Nos enviar uma isca para nos distrair? — percebi seu tom irônico.“Ele quer dizer que se não sou a traidora, ainda estou fazendo a vontade de alguém e arquitetando com eles?”— Não. Eu deveria ser morta, é tudo que sei.— E por que ainda está viva? — Aquele Beta parecia ter um problema comigo.Havia um julgamento pessoal ali. Eu sentia.— Eu fugi!— E
EULÁLIA“Licaon foi o primeiro lobisomem da história, segundo as lendas gregas. Ele ousou cozinhar a carne de um escravo para oferecê-la a Zeus e, como punição, o deus o amaldiçoou. Desde então, ser um lobisomem sempre foi visto como uma maldição.”“Agora somos sinônimos de poder.”Aquela seria a noite em que minha vida mudaria, não que eu soubesse se seria uma mudança boa ou ruim.— Estão invadindo… — foi tudo muito rápido.O novo Beta da matilha Sangue Azul me puxou pela mão para longe de toda a confusão. A princípio, acreditei que seria pela posição de Luna que meu namorado havia prometido.— Por aqui. — Ele me levou rumo à floresta.— Mas eu posso ajudar as mães e crianças desamparadas se estiver lutando junto com todos.— Sua segurança é mais importante. E são ordens diretas.— De Ciro? — perguntei, seguindo-o. Ele ainda me puxava com pressa.— Sim.Meu sorriso ampliou. Por dentro, estava muito feliz por ele não estar mais estranho como antes.“Ele está me protegendo.”Acompanhei
EULÁLIALutei como podia, até perceber que ele queria me matar de verdade. Por isso, tive que empurrá-lo com tudo que tinha e pular de pé, mesmo machucada. Capturei a adaga que tinha no bolso da calça e encarei Ciro em sua forma de lobo, agora maior que antes, e sua suposta verdadeira namorada.— Por que está me atacando? — quase gritei. Ele, por sua vez, apenas me rondou.“Eles sempre planejaram me eliminar depois da ascensão de Ciro ao cargo de Alfa. Mesmo tendo sido eu a ajudá-lo a ganhar uma boa imagem.”— Porque você é a traidora, aquela que chamou os inimigos e fez o pai dele morrer antes da hora. — Era Rosalina falando por ele novamente.— Você não sabe mais falar, não? Só essa v***a aí? — explodi.Tudo estava se encaixando, e isso me deixava muito brava. Eu era o alvo de todos, principalmente daqueles dois. Então, recordei que o Beta foi o mesmo que entrou correndo, dizendo que estávamos sendo atacados, e foi ele quem me levou até ali, para esperar por meu suposto namorado.—
EULÁLIA — Você é uma loba bonita e fértil, mas só serve para isso, procriar. E eu nunca seria louco de me deitar com você para ter lobos ruivos. Lobos estranhos. Quando tenho minha companheira de verdade. Engoli o gosto da decepção. Eu era uma loba que não podia deitar-se com qualquer um; diziam que deveria ser apenas de um alfa, para procriar e elevar o nível da matilha, mas essa era a parte em que eu nunca contei a Ciro. Ele só sabia que eu era uma loba para ter filhos e não alguém dita como especial. — Eu sou especial. — Digo com os olhos cinzas já injetados de raiva. — Claro que é. Nunca achou seu par e não vai achar. Não era por isso que estava comigo? — Riu da minha fraqueza, magoando-me profundamente. Uma vez, aquele mesmo oráculo que me disse sobre meu modo especial também me disse que alguém como eu não tinha um par, que não tinha um companheiro de nascença. Só restava ter um de sangue, algo como uma segunda chance. Mas era quase impossível. — Eu ainda tenho uma chance
“Quem se disfarça tão bem quanto um humano?” Meu coração batia forte no peito, eu tentei me afastar, mas meus pés quase tropeçaram. Naquele nível, eu só cairia e atrairia toda a atenção indesejada para mim.— Quem é você? — perguntei, assustada.Desta vez, olhei ao redor e todos não passavam de meros humanos, incluindo a pessoa que os servia bebidas, menos aquele homem. Minha espinha arrepiou.— A pergunta é minha. Você que é nova aqui. — Senti que sua última frase soou uma ameaça disfarçada.“Ele não é um lobo comum.” Gravei rapidamente suas características enquanto dava passos vacilantes para trás.Eu nunca ouvi falar dele. Mas era notório que não deveria estar com ele.— Eu peço desculpas… Estou indo… — me virei para partir, mas a voz dele me parou, não soou audível para ninguém, só para mim.“Acha que pode escapar de mim?” Fiquei paralisada, sua voz estava na minha cabeça, aquilo era impossível.Eu já estava convencida de que minha forma e a forma de todos os lobos era uma maldiçã
EULÁLIA Éramos um emaranhado de meus cabelos entre nós, nos juntando ao mesmo tempo. Só notei isso quando ele se mexeu. — Espera um pouco! — pedi, tentando tirar meus fios de seu corpo e rosto. No processo, tive que deslizar meus dedos, tocando sua pele e seu corpo por cima da roupa. Meu rosto esquentou com o choque elétrico nas pontas dos meus dedos. Tentei não pensar se ele sentia ou não, porque ele leria meus pensamentos. Mas minha mente tinha vontade própria, e, uma hora ou outra, eu acabaria pensando em algo muito pior do que um choque elétrico e arrepios gostosos pelo corpo. Parecia que os segundos eram eternos. Os fios vermelhos dos meus cabelos o enrolando apenas o deixavam ainda mais bonito. Mas não durou muito, porque ele logo se desfez daquela situação e conseguiu se soltar. Ele não queria ser preso mais nenhum segundo. A situação seria engraçada se ele não fosse um completo desconhecido. "Devo pedir desculpas?" — Não há necessidade! — ele disse imediatamente. Mesmo