Julia se sentiu tão incentivada por Pérola que logo mudou sua rotina.
Pela manhã, fazia caminhada. Depois, voltava para casa, realizava algumas tarefas domésticas e tinha o restante do dia livre para ler e escrever. Criou o hábito de ir ao parque no fim da tarde e se juntou ao clube do livro. Mas, mesmo assim, algo parecia faltar. O tempo livre se estendia demais, e uma inquietação crescia dentro dela. Queria mais. Precisava ocupar a mente. Trabalhar? Estudar? Não sabia ao certo, mas começou a pesquisar na internet e a caminhar pela cidade, atenta a qualquer oportunidade que lhe despertasse interesse. Foi em uma dessas caminhadas que notou um anúncio colado na porta da livraria Refúgio do Leitor. Já conhecia o lugar, afinal, era lá que participava do clube do livro. Mas, estranhamente, nunca tinha reparado naquele cartaz antes. As letras um pouco desbotadas pelo sol e as bordas do papel desgastadas indicavam que estava ali havia algum tempo. Seu coração— Estranho, não é mesmo? — falou Pérola, quebrando o silêncio, a voz carregada de uma leve incredulidade. — Parecemos um casal... — Julia completou, sem desviar o olhar da foto. — Exato. — Pérola concordou, a mente já a mil. Julia, sentindo um peso crescente, perguntou em tom baixo, mas firme: — Isso poderia ter me ajudado a lembrar de algo... Por que ele não me mostrou isso? As duas se olharam fixamente, a mesma pergunta pairando no ar. A tensão entre elas aumentava à medida que as palavras não ditas se acumulavam. Pérola, com os olhos inquietos, sussurrou, como se finalmente colocasse em voz alta aquilo que estava rondando suas mentes: — Por que ele mantinha essas coisas guardadas? Pérola pegou o celular e, com um olhar decidido, começou a tirar fotos da caixa e de cada item que havia dentro dela. Cada clique pareci
Da varanda, Julia acenou para Pérola, se despedindo. — Se achar mais alguma coisa, me avisa! — gritou Pérola. — Pode deixar! Julia ficou ali, olhando até que Pérola sumisse de vista. Então, retornou à sua missão: encontrar qualquer pista que a ajudasse a lembrar de algo — ou algo que Otto pudesse estar escondendo. Tomou muito cuidado, não queria deixar nada diferente de como havia encontrado. Horas se passaram, e ela não encontrou mais nada. A frustração tomou conta — querendo ou não, precisava parar. Já não havia mais onde procurar ali. Desceu até a cozinha, preparou um chá e subiu novamente. Antes de qualquer coisa, precisava ter certeza de que tudo estava exatamente como antes. Julia entrou no quarto e observou tudo com calma. Incapaz de resistir, abriu novamente a caixa que havia encontrado. Tirou fotos dos itens com o celular e, com todo o cuidado, devolveu cada coisa ao seu devido lugar.<
Julia caminhava apressada em direção ao hospital, o coração batendo forte, a cabeça ainda zumbindo com as lembranças recentes. A ansiedade a consumia, mas algo dentro dela a impulsionava. Cada passo parecia mais pesado, como se ela estivesse carregando um fardo invisível, mas necessário para a descoberta da verdade. Quando entrou no hospital, a familiaridade do ambiente a envolveu, mas não havia tempo para se perder em pensamentos. Ela precisava falar com Pérola. Precisava entender o que estava acontecendo dentro de sua cabeça. Pérola estava à espera de Julia na enfermaria, sabia que ela chegaria a qualquer momento. A preocupação estava visível em seu rosto. Quando Julia entrou, Pérola não precisou de palavras. Apenas a olhou com um olhar intenso e compreensivo. — Eu sabia que você ia lembrar. — Pérola disse, sua voz suave, mas cheia de certeza. — Pode me contar, Julia. O que você se lembrou? Julia s
Otto embarcou para Liverpool a trabalho. Passou três dias trancado no quarto de hotel, só saía para encontrar seu cliente. Quando estava trabalhando, ficava totalmente concentrado, sem distrações, sem desvios. Mas assim que concluiu a reunião final, pagou a conta do hotel e pegou o primeiro voo para a Irlanda.Não avisou ninguém. Julia achava que ele ainda estava em Liverpool, e isso era suficiente.A casa estava quase pronta. Ele queria ver com os próprios olhos. Passou pela cidade sem chamar atenção, dirigindo um carro alugado por estradas estreitas até chegar ao terreno isolado, onde a construção se erguia imponente contra o céu cinzento. As janelas largas refletiam o brilho pálido da manhã, e o cheiro de madeira recém-cortada misturava-se ao ar frio.Um dos trabalhadores se aproximou, limpando as mãos na calça suja de poeira.— Sr. Otto, não esperávamos o senhor hoje.— Por isso mesmo estou aqui — respondeu, sem mudar a expressão.
Não foi para o hotel. Não podia arriscar. A última coisa que queria era levantar suspeitas.Ele retornou à casa, pegou uma pá e dirigiu até um ponto isolado, onde as sombras da noite se tornavam mais densas e o silêncio parecia sufocar qualquer resquício de dúvida. Parou o carro em uma estrada deserta e desceu com precisão, o vento cortante sibilando entre as árvores. Como um ritual, ele cavou um buraco fundo, cada movimento de sua pá meticulosamente controlado. O chão estava úmido, frio, como a escuridão ao seu redor. O cheiro da terra fresca se misturava ao seu suor, mas nada parecia mais importante do que aquilo. Nada podia ser deixado para trás.Com a mesma frieza com que executou cada golpe de pá, arrancou as roupas sujas de sangue. Despojou-se delas sem pressa, como se se livrasse de algo completamente descartável, jogando-as na terra e enterrando-as com um cuidado quase clínico. Quando terminou, cobriu o buraco com a mesma precisão, tampando qualquer vestígi
O policial, sério, o olhou com atenção. – Sr. Green, o senhor não é casado? – É… Eu sei. – Otto respondeu rapidamente, sua expressão agora mais tensa. O policial o fitou, aguardando sua reação. – Então, traiu sua esposa… Otto soltou um suspiro pesado, como se não aguentasse mais esconder aquilo. – Estamos tendo alguns problemas… Ela se recusa… E eu só precisava transar. – Otto falou como um desabafo, os ombros caindo com a frustração. – Eu amo minha mulher, mas ela não está sendo minha mulher, Sr. O policial assentiu, balançou a cabeça sério, mas demonstrava entendê-lo. O celular do seu parceiro, que anotava tudo, tocou. Ele se levantou e deixou os dois a sós. — Como vou olhar para a minha mulher depois disso? — falou, baixando os olhos. — Sr. Green, estamos aqui por conta do Philipe e não por conta da sua infidelidade. — o policial fez uma
"Julia, me desculpa, mas surgiram alguns contratempos. Vou precisar ficar mais tempo fora."Otto bloqueou o celular e lançou um olhar rápido para o retrovisor antes de acelerar. Tinha um compromisso com a Sra. White — iria ajudá-la a escolher um caixão. Ela estava devastada pela perda e, na sua fragilidade, via nele um homem atencioso e prestativo. Exatamente como ele queria.“Ah, querido, espero que consiga resolver tudo. Não se preocupe, por aqui está tudo bem.”Otto leu a mensagem de Julia e, com um gesto impaciente, colocou o celular no painel do carro. Não queria estar ali por tanto tempo, mas a situação exigia. Em um momento de frustração, pensou no que realmente desejava receber: uma mensagem que expressasse o quanto ela sentia sua falta, que a distância fosse insuportável para ela, que ela precisasse dele. Mas não foi isso que encontrou. A mensagem parecia fria, tranquila, quase como se ele fosse apenas mais um elemento em sua vida, e não o centro
Após a explosão de prazer, Otto se afastou da mulher, deixando-a na cama completamente relaxada. Sentou-se na cadeira ao lado e pegou o whisky, voltando a beber em silêncio. A tela do celular se acendeu, mostrando que havia notificações. Ele pegou o aparelho, mexendo nele sem muita importância, até que se deparou com a mensagem dela.“Amor, me desculpa pela ausência de hoje, não estava me sentindo muito bem, Pérola me fez companhia, mas eu realmente queria você aqui. Tenho novidades para contar.”Um brilho tomou conta dos olhos de Otto, quase como mágica. Um sorriso surgiu em seu rosto, sutil, mas cheio de significado. Ele não poderia negar a satisfação que sentiu ao saber que ela ainda pensava nele, mesmo estando ocupada com outra pessoa.“Novidades? Agora fiquei curioso, rs.Meu amor, o que aconteceu?”Otto observava a mulher deitada na cama, seus dedos explorando seu corpo enquanto gemia baixinho. Ele sabia o que aquilo significava: um