Julia caminhava apressada em direção ao hospital, o coração batendo forte, a cabeça ainda zumbindo com as lembranças recentes. A ansiedade a consumia, mas algo dentro dela a impulsionava. Cada passo parecia mais pesado, como se ela estivesse carregando um fardo invisível, mas necessário para a descoberta da verdade.
Quando entrou no hospital, a familiaridade do ambiente a envolveu, mas não havia tempo para se perder em pensamentos. Ela precisava falar com Pérola. Precisava entender o que estava acontecendo dentro de sua cabeça. Pérola estava à espera de Julia na enfermaria, sabia que ela chegaria a qualquer momento. A preocupação estava visível em seu rosto. Quando Julia entrou, Pérola não precisou de palavras. Apenas a olhou com um olhar intenso e compreensivo. — Eu sabia que você ia lembrar. — Pérola disse, sua voz suave, mas cheia de certeza. — Pode me contar, Julia. O que você se lembrou? Julia sOtto embarcou para Liverpool a trabalho. Passou três dias trancado no quarto de hotel, só saía para encontrar seu cliente. Quando estava trabalhando, ficava totalmente concentrado, sem distrações, sem desvios. Mas assim que concluiu a reunião final, pagou a conta do hotel e pegou o primeiro voo para a Irlanda.Não avisou ninguém. Julia achava que ele ainda estava em Liverpool, e isso era suficiente.A casa estava quase pronta. Ele queria ver com os próprios olhos. Passou pela cidade sem chamar atenção, dirigindo um carro alugado por estradas estreitas até chegar ao terreno isolado, onde a construção se erguia imponente contra o céu cinzento. As janelas largas refletiam o brilho pálido da manhã, e o cheiro de madeira recém-cortada misturava-se ao ar frio.Um dos trabalhadores se aproximou, limpando as mãos na calça suja de poeira.— Sr. Otto, não esperávamos o senhor hoje.— Por isso mesmo estou aqui — respondeu, sem mudar a expressão.
Não foi para o hotel. Não podia arriscar. A última coisa que queria era levantar suspeitas.Ele retornou à casa, pegou uma pá e dirigiu até um ponto isolado, onde as sombras da noite se tornavam mais densas e o silêncio parecia sufocar qualquer resquício de dúvida. Parou o carro em uma estrada deserta e desceu com precisão, o vento cortante sibilando entre as árvores. Como um ritual, ele cavou um buraco fundo, cada movimento de sua pá meticulosamente controlado. O chão estava úmido, frio, como a escuridão ao seu redor. O cheiro da terra fresca se misturava ao seu suor, mas nada parecia mais importante do que aquilo. Nada podia ser deixado para trás.Com a mesma frieza com que executou cada golpe de pá, arrancou as roupas sujas de sangue. Despojou-se delas sem pressa, como se se livrasse de algo completamente descartável, jogando-as na terra e enterrando-as com um cuidado quase clínico. Quando terminou, cobriu o buraco com a mesma precisão, tampando qualquer vestígi
O policial, sério, o olhou com atenção. – Sr. Green, o senhor não é casado? – É… Eu sei. – Otto respondeu rapidamente, sua expressão agora mais tensa. O policial o fitou, aguardando sua reação. – Então, traiu sua esposa… Otto soltou um suspiro pesado, como se não aguentasse mais esconder aquilo. – Estamos tendo alguns problemas… Ela se recusa… E eu só precisava transar. – Otto falou como um desabafo, os ombros caindo com a frustração. – Eu amo minha mulher, mas ela não está sendo minha mulher, Sr. O policial assentiu, balançou a cabeça sério, mas demonstrava entendê-lo. O celular do seu parceiro, que anotava tudo, tocou. Ele se levantou e deixou os dois a sós. — Como vou olhar para a minha mulher depois disso? — falou, baixando os olhos. — Sr. Green, estamos aqui por conta do Philipe e não por conta da sua infidelidade. — o policial fez uma
"Julia, me desculpa, mas surgiram alguns contratempos. Vou precisar ficar mais tempo fora."Otto bloqueou o celular e lançou um olhar rápido para o retrovisor antes de acelerar. Tinha um compromisso com a Sra. White — iria ajudá-la a escolher um caixão. Ela estava devastada pela perda e, na sua fragilidade, via nele um homem atencioso e prestativo. Exatamente como ele queria.“Ah, querido, espero que consiga resolver tudo. Não se preocupe, por aqui está tudo bem.”Otto leu a mensagem de Julia e, com um gesto impaciente, colocou o celular no painel do carro. Não queria estar ali por tanto tempo, mas a situação exigia. Em um momento de frustração, pensou no que realmente desejava receber: uma mensagem que expressasse o quanto ela sentia sua falta, que a distância fosse insuportável para ela, que ela precisasse dele. Mas não foi isso que encontrou. A mensagem parecia fria, tranquila, quase como se ele fosse apenas mais um elemento em sua vida, e não o centro
Após a explosão de prazer, Otto se afastou da mulher, deixando-a na cama completamente relaxada. Sentou-se na cadeira ao lado e pegou o whisky, voltando a beber em silêncio. A tela do celular se acendeu, mostrando que havia notificações. Ele pegou o aparelho, mexendo nele sem muita importância, até que se deparou com a mensagem dela.“Amor, me desculpa pela ausência de hoje, não estava me sentindo muito bem, Pérola me fez companhia, mas eu realmente queria você aqui. Tenho novidades para contar.”Um brilho tomou conta dos olhos de Otto, quase como mágica. Um sorriso surgiu em seu rosto, sutil, mas cheio de significado. Ele não poderia negar a satisfação que sentiu ao saber que ela ainda pensava nele, mesmo estando ocupada com outra pessoa.“Novidades? Agora fiquei curioso, rs.Meu amor, o que aconteceu?”Otto observava a mulher deitada na cama, seus dedos explorando seu corpo enquanto gemia baixinho. Ele sabia o que aquilo significava: um
Otto voltou para o hotel suspirando. A mensagem de Julia o deixou empolgado; sentia que estava mais ligado a ela.“Eu te amo, estou com saudades.”Aquilo não era uma mensagem simples. Julia nunca falaria se não sentisse de verdade.A mente de Otto fervia em imagens, imaginações que lhe pareciam reais demais. Apegou-se a cada detalhe como uma verdade absoluta.No hotel, Otto revirou algumas pastas da mala, analisando cada documento enquanto bebia. Pediu serviço de quarto e se sentou na cama, cercado por papéis. Então, algo chamou sua atenção.Uma foto.Ele a pegou, observando cada detalhe. O sangue ferveu. Os dedos se fecharam ao redor da imagem, mas não a rasgou. Não ainda."Dessa vez, meu querido amigo, fui eu quem venceu. Tirei de você o que mais amava e estou vivendo sua vida como se fosse minha. Queria ver a sua cara ao descobrir que até transei com ela... e ela nem se lembra dessa sua maldita existência.”O
Otto e Matthew brincavam juntos no campo da casa da família Fisher, um local vasto, rodeado por árvores antigas. Os risos dos meninos ecoavam pela área, se misturando com o som suave do vento nas folhas. Otto, com seu cabelo loiro desarrumado, era um garoto alegre, sempre com os olhos brilhando de curiosidade. Matthew, por sua vez, era mais introspectivo, mas sempre sabia como chamar a atenção de Otto com alguma piada ou história interessante.— Vamos ver quem consegue subir mais rápido naquela árvore? — propôs Matthew, apontando para a árvore mais alta do campo.Otto, com seu espírito competitivo e aventureiro, não hesitou.— Eu! — respondeu ele com um sorriso confiante.Os dois começaram a escalar a árvore, os galhos rangendo sob o peso dos meninos. Matthew, mais ágil, foi subindo com facilidade, mas Otto o seguiu de perto, sem desistir. Quando chegaram ao topo, ambos estavam ofegantes, mas o olhar de Otto era de pura satisfação.— Cons
Matthew Fisher sempre foi cercado pelo luxo. Sua família, uma das mais tradicionais e ricas da região, proporcionava-lhe tudo o que um garoto poderia desejar. Carruagens de prata, festas elegantes e uma mansão imponente foram apenas alguns dos privilégios que ele nunca precisou conquistar. Desde cedo, soubera que não precisava lutar por nada — tudo o que queria estava ao seu alcance, sempre servido em bandejas douradas. Contudo, havia um vazio, uma sensação de algo incompleto que ele nunca soubera como preencher.Esse vazio se tornava ainda mais agudo quando ele estava perto de Otto. Otto, com sua simplicidade desarmante, parecia ter tudo o que Matthew jamais teria — e de forma tão natural. Não eram as riquezas, nem os títulos, nem o poder que Otto possuía. Era algo mais profundo, algo que não podia ser comprado. Otto tinha uma confiança própria, um magnetismo sutil que atraía todos ao seu redor sem que ele sequer se desse conta disso. Ele era admirado por sua bondade genuí