Não foi para o hotel. Não podia arriscar. A última coisa que queria era levantar suspeitas.
Ele retornou à casa, pegou uma pá e dirigiu até um ponto isolado, onde as sombras da noite se tornavam mais densas e o silêncio parecia sufocar qualquer resquício de dúvida. Parou o carro em uma estrada deserta e desceu com precisão, o vento cortante sibilando entre as árvores. Como um ritual, ele cavou um buraco fundo, cada movimento de sua pá meticulosamente controlado. O chão estava úmido, frio, como a escuridão ao seu redor. O cheiro da terra fresca se misturava ao seu suor, mas nada parecia mais importante do que aquilo. Nada podia ser deixado para trás.Com a mesma frieza com que executou cada golpe de pá, arrancou as roupas sujas de sangue. Despojou-se delas sem pressa, como se se livrasse de algo completamente descartável, jogando-as na terra e enterrando-as com um cuidado quase clínico. Quando terminou, cobriu o buraco com a mesma precisão, tampando qualquer vestígiO policial, sério, o olhou com atenção. – Sr. Green, o senhor não é casado? – É… Eu sei. – Otto respondeu rapidamente, sua expressão agora mais tensa. O policial o fitou, aguardando sua reação. – Então, traiu sua esposa… Otto soltou um suspiro pesado, como se não aguentasse mais esconder aquilo. – Estamos tendo alguns problemas… Ela se recusa… E eu só precisava transar. – Otto falou como um desabafo, os ombros caindo com a frustração. – Eu amo minha mulher, mas ela não está sendo minha mulher, Sr. O policial assentiu, balançou a cabeça sério, mas demonstrava entendê-lo. O celular do seu parceiro, que anotava tudo, tocou. Ele se levantou e deixou os dois a sós. — Como vou olhar para a minha mulher depois disso? — falou, baixando os olhos. — Sr. Green, estamos aqui por conta do Philipe e não por conta da sua infidelidade. — o policial fez uma
"Julia, me desculpa, mas surgiram alguns contratempos. Vou precisar ficar mais tempo fora."Otto bloqueou o celular e lançou um olhar rápido para o retrovisor antes de acelerar. Tinha um compromisso com a Sra. White — iria ajudá-la a escolher um caixão. Ela estava devastada pela perda e, na sua fragilidade, via nele um homem atencioso e prestativo. Exatamente como ele queria.“Ah, querido, espero que consiga resolver tudo. Não se preocupe, por aqui está tudo bem.”Otto leu a mensagem de Julia e, com um gesto impaciente, colocou o celular no painel do carro. Não queria estar ali por tanto tempo, mas a situação exigia. Em um momento de frustração, pensou no que realmente desejava receber: uma mensagem que expressasse o quanto ela sentia sua falta, que a distância fosse insuportável para ela, que ela precisasse dele. Mas não foi isso que encontrou. A mensagem parecia fria, tranquila, quase como se ele fosse apenas mais um elemento em sua vida, e não o centro
Após a explosão de prazer, Otto se afastou da mulher, deixando-a na cama completamente relaxada. Sentou-se na cadeira ao lado e pegou o whisky, voltando a beber em silêncio. A tela do celular se acendeu, mostrando que havia notificações. Ele pegou o aparelho, mexendo nele sem muita importância, até que se deparou com a mensagem dela.“Amor, me desculpa pela ausência de hoje, não estava me sentindo muito bem, Pérola me fez companhia, mas eu realmente queria você aqui. Tenho novidades para contar.”Um brilho tomou conta dos olhos de Otto, quase como mágica. Um sorriso surgiu em seu rosto, sutil, mas cheio de significado. Ele não poderia negar a satisfação que sentiu ao saber que ela ainda pensava nele, mesmo estando ocupada com outra pessoa.“Novidades? Agora fiquei curioso, rs.Meu amor, o que aconteceu?”Otto observava a mulher deitada na cama, seus dedos explorando seu corpo enquanto gemia baixinho. Ele sabia o que aquilo significava: um
Otto voltou para o hotel suspirando. A mensagem de Julia o deixou empolgado; sentia que estava mais ligado a ela.“Eu te amo, estou com saudades.”Aquilo não era uma mensagem simples. Julia nunca falaria se não sentisse de verdade.A mente de Otto fervia em imagens, imaginações que lhe pareciam reais demais. Apegou-se a cada detalhe como uma verdade absoluta.No hotel, Otto revirou algumas pastas da mala, analisando cada documento enquanto bebia. Pediu serviço de quarto e se sentou na cama, cercado por papéis. Então, algo chamou sua atenção.Uma foto.Ele a pegou, observando cada detalhe. O sangue ferveu. Os dedos se fecharam ao redor da imagem, mas não a rasgou. Não ainda."Dessa vez, meu querido amigo, fui eu quem venceu. Tirei de você o que mais amava e estou vivendo sua vida como se fosse minha. Queria ver a sua cara ao descobrir que até transei com ela... e ela nem se lembra dessa sua maldita existência.”O
Otto e Matthew brincavam juntos no campo da casa da família Fisher, um local vasto, rodeado por árvores antigas. Os risos dos meninos ecoavam pela área, se misturando com o som suave do vento nas folhas. Otto, com seu cabelo loiro desarrumado, era um garoto alegre, sempre com os olhos brilhando de curiosidade. Matthew, por sua vez, era mais introspectivo, mas sempre sabia como chamar a atenção de Otto com alguma piada ou história interessante.— Vamos ver quem consegue subir mais rápido naquela árvore? — propôs Matthew, apontando para a árvore mais alta do campo.Otto, com seu espírito competitivo e aventureiro, não hesitou.— Eu! — respondeu ele com um sorriso confiante.Os dois começaram a escalar a árvore, os galhos rangendo sob o peso dos meninos. Matthew, mais ágil, foi subindo com facilidade, mas Otto o seguiu de perto, sem desistir. Quando chegaram ao topo, ambos estavam ofegantes, mas o olhar de Otto era de pura satisfação.— Cons
Matthew Fisher sempre foi cercado pelo luxo. Sua família, uma das mais tradicionais e ricas da região, proporcionava-lhe tudo o que um garoto poderia desejar. Carruagens de prata, festas elegantes e uma mansão imponente foram apenas alguns dos privilégios que ele nunca precisou conquistar. Desde cedo, soubera que não precisava lutar por nada — tudo o que queria estava ao seu alcance, sempre servido em bandejas douradas. Contudo, havia um vazio, uma sensação de algo incompleto que ele nunca soubera como preencher.Esse vazio se tornava ainda mais agudo quando ele estava perto de Otto. Otto, com sua simplicidade desarmante, parecia ter tudo o que Matthew jamais teria — e de forma tão natural. Não eram as riquezas, nem os títulos, nem o poder que Otto possuía. Era algo mais profundo, algo que não podia ser comprado. Otto tinha uma confiança própria, um magnetismo sutil que atraía todos ao seu redor sem que ele sequer se desse conta disso. Ele era admirado por sua bondade genuí
Otto também vinha de uma família rica e influente, mas isso nunca foi motivo para agir como se fosse melhor do que alguém. Na verdade, ele tinha um jeito simples desde menino; a riqueza da família e o ambiente que o cercava não lhe enchiam os olhos.Otto sempre foi carinhoso, meigo, brincalhão, bom ouvinte, obediente, sincero. Sempre preferiu falar a verdade e arcar com as consequências de seus atos. Ele também era muito estudioso, se preocupava com o mundo e sempre nutriu o desejo de ajudar as pessoas.Isso era motivo de orgulho para seus pais.— Otto, querido, aproveite que você pode estudar por paixão, e não por necessidade. Não são todos que têm essa sorte — disse sua mãe, certa vez, quando ele ainda era pequeno.— Mas as pessoas não fazem o que gostam? — perguntou ele, com ingenuidade.— Infelizmente, não. A maioria estuda para conseguir um emprego, pagar as contas. Muitos nem têm a oportunidade de fazer uma faculdade.— Mas
Otto sempre teve Matthew ao seu lado. Eles eram inseparáveis, não havia uma atividade que Otto não quisesse compartilhar com ele. Se fosse no parque, Matthew estava lá. Se tivesse algum novo hobby, era Matthew quem aprenderia com ele. Otto adorava dividir tudo com seu amigo. Para ele, a amizade era isso: a troca constante, a colaboração mútua, o fazer parte da vida do outro. — Você vai comigo, né, Matthew? — Otto perguntava com um sorriso, sempre esperando que o amigo estivesse ao seu lado para qualquer aventura.Matthew nunca hesitava. Ele sempre estava ali, seja para jogar futebol ou apenas para conversar sobre as coisas que vinham à cabeça dos dois. No entanto, enquanto Otto se sentia animado por ter um amigo tão presente, Matthew parecia mais calmo, talvez até um pouco distante em seus próprios pensamentos. Mas Otto nunca reparava nisso. Para ele, a amizade era natural, simples.Otto sempre foi o tipo de pessoa que queria incluir todo mundo nas suas i