O quarto era banhado por uma luz dourada, suave e acolhedora. Julia estava sentada em um sofá macio, sentindo o calor de um pequeno corpo aninhado contra o seu. Pequenos dedos brincavam com os dela, e uma risada cristalina ecoava pelo ambiente.
— Mamãe, olha! — a voz infantil, doce e cheia de vida, fez o coração de Julia se encher de um calor indescritível.Ela olhou para baixo e viu uma menininha de cabelos castanhos, os olhos brilhando de felicidade. A criança segurava um livro colorido, apontando para as figuras com entusiasmo. Julia sentiu-se inundada por um amor profundo, instintivo.— Você gosta dessa história? — perguntou, sua própria voz soando diferente, quase distante.A menina assentiu vigorosamente.— É a nossa história favorita!Julia sorriu, acariciando os cabelos macios da filha. Havia algo de familiar naquele momento, como se ela já tivesse vivido aquilo mil vezes antes. A sensação de paz era tão real.MaAs horas se passaram, e as duas continuaram a dormir. O celular tocou várias vezes sem que ninguém atendesse. O modo silencioso estava ativado desde o dia anterior, então nada atrapalhava o merecido descanso.Julia despertou com o ronco da própria barriga — seu despertador inesperado. Espreguiçou-se, pegou o telefone e arregalou os olhos ao ver a hora: já passava das 13h. Só então notou as inúmeras chamadas perdidas. Otto havia mandado mensagens e, sem resposta, insistiu nas ligações.— Puta merda — murmurou, sentando-se no sofá.Julia enviou algumas mensagens para Otto, que respondeu de imediato. Depois de tranquilizá-lo, ele perguntou como tinha sido o dia. Ela mencionou o passeio com Pérola, mas omitiu o sonho, resumindo que estava cansada e dormiu cedo.Otto então avisou que precisaria estender a viagem por mais alguns dias. Pediu desculpas antes de voltar ao trabalho.Julia soltou um suspiro aliviado ao saber que ele demoraria mais p
As duas estavam sentadas na mesa da sorveteria, o barulho das conversas ao redor e o som das colheres batendo nas taças de sorvete quase imperceptíveis diante do silêncio que pairava entre elas. Julia mexia no sorvete, sem realmente comê-lo, perdida em seus pensamentos. Pérola observou sua amiga em silêncio por um momento, sentindo a dor que emanava dela. Finalmente, ela falou, suavemente: — Eu sei que o sonho foi muito forte, mas não é sua culpa, Julia. Você não pode carregar o peso disso sozinha. Julia olhou para o copo, com os olhos marejados. Sua garganta estava apertada, as palavras pareciam não sair. — Eu deveria ter feito mais por ela, Pérola. Ela era só uma criança, e eu não consegui protegê-la. Como pude ser tão fraca? Pérola não hesitou. Ela colocou a mão sobre a de Julia, apertando-a com carinho. — Você não foi fraca. Não se trata de fraqueza, mas de coisas que estão fora do nosso co
Julia se sentiu tão incentivada por Pérola que logo mudou sua rotina. Pela manhã, fazia caminhada. Depois, voltava para casa, realizava algumas tarefas domésticas e tinha o restante do dia livre para ler e escrever. Criou o hábito de ir ao parque no fim da tarde e se juntou ao clube do livro. Mas, mesmo assim, algo parecia faltar. O tempo livre se estendia demais, e uma inquietação crescia dentro dela. Queria mais. Precisava ocupar a mente. Trabalhar? Estudar? Não sabia ao certo, mas começou a pesquisar na internet e a caminhar pela cidade, atenta a qualquer oportunidade que lhe despertasse interesse. Foi em uma dessas caminhadas que notou um anúncio colado na porta da livraria Refúgio do Leitor. Já conhecia o lugar, afinal, era lá que participava do clube do livro. Mas, estranhamente, nunca tinha reparado naquele cartaz antes. As letras um pouco desbotadas pelo sol e as bordas do papel desgastadas indicavam que estava ali havia algum tempo. Seu coração
— Estranho, não é mesmo? — falou Pérola, quebrando o silêncio, a voz carregada de uma leve incredulidade. — Parecemos um casal... — Julia completou, sem desviar o olhar da foto. — Exato. — Pérola concordou, a mente já a mil. Julia, sentindo um peso crescente, perguntou em tom baixo, mas firme: — Isso poderia ter me ajudado a lembrar de algo... Por que ele não me mostrou isso? As duas se olharam fixamente, a mesma pergunta pairando no ar. A tensão entre elas aumentava à medida que as palavras não ditas se acumulavam. Pérola, com os olhos inquietos, sussurrou, como se finalmente colocasse em voz alta aquilo que estava rondando suas mentes: — Por que ele mantinha essas coisas guardadas? Pérola pegou o celular e, com um olhar decidido, começou a tirar fotos da caixa e de cada item que havia dentro dela. Cada clique pareci
Da varanda, Julia acenou para Pérola, se despedindo. — Se achar mais alguma coisa, me avisa! — gritou Pérola. — Pode deixar! Julia ficou ali, olhando até que Pérola sumisse de vista. Então, retornou à sua missão: encontrar qualquer pista que a ajudasse a lembrar de algo — ou algo que Otto pudesse estar escondendo. Tomou muito cuidado, não queria deixar nada diferente de como havia encontrado. Horas se passaram, e ela não encontrou mais nada. A frustração tomou conta — querendo ou não, precisava parar. Já não havia mais onde procurar ali. Desceu até a cozinha, preparou um chá e subiu novamente. Antes de qualquer coisa, precisava ter certeza de que tudo estava exatamente como antes. Julia entrou no quarto e observou tudo com calma. Incapaz de resistir, abriu novamente a caixa que havia encontrado. Tirou fotos dos itens com o celular e, com todo o cuidado, devolveu cada coisa ao seu devido lugar.<
Julia caminhava apressada em direção ao hospital, o coração batendo forte, a cabeça ainda zumbindo com as lembranças recentes. A ansiedade a consumia, mas algo dentro dela a impulsionava. Cada passo parecia mais pesado, como se ela estivesse carregando um fardo invisível, mas necessário para a descoberta da verdade. Quando entrou no hospital, a familiaridade do ambiente a envolveu, mas não havia tempo para se perder em pensamentos. Ela precisava falar com Pérola. Precisava entender o que estava acontecendo dentro de sua cabeça. Pérola estava à espera de Julia na enfermaria, sabia que ela chegaria a qualquer momento. A preocupação estava visível em seu rosto. Quando Julia entrou, Pérola não precisou de palavras. Apenas a olhou com um olhar intenso e compreensivo. — Eu sabia que você ia lembrar. — Pérola disse, sua voz suave, mas cheia de certeza. — Pode me contar, Julia. O que você se lembrou? Julia s
Otto embarcou para Liverpool a trabalho. Passou três dias trancado no quarto de hotel, só saía para encontrar seu cliente. Quando estava trabalhando, ficava totalmente concentrado, sem distrações, sem desvios. Mas assim que concluiu a reunião final, pagou a conta do hotel e pegou o primeiro voo para a Irlanda.Não avisou ninguém. Julia achava que ele ainda estava em Liverpool, e isso era suficiente.A casa estava quase pronta. Ele queria ver com os próprios olhos. Passou pela cidade sem chamar atenção, dirigindo um carro alugado por estradas estreitas até chegar ao terreno isolado, onde a construção se erguia imponente contra o céu cinzento. As janelas largas refletiam o brilho pálido da manhã, e o cheiro de madeira recém-cortada misturava-se ao ar frio.Um dos trabalhadores se aproximou, limpando as mãos na calça suja de poeira.— Sr. Otto, não esperávamos o senhor hoje.— Por isso mesmo estou aqui — respondeu, sem mudar a expressão.
Não foi para o hotel. Não podia arriscar. A última coisa que queria era levantar suspeitas.Ele retornou à casa, pegou uma pá e dirigiu até um ponto isolado, onde as sombras da noite se tornavam mais densas e o silêncio parecia sufocar qualquer resquício de dúvida. Parou o carro em uma estrada deserta e desceu com precisão, o vento cortante sibilando entre as árvores. Como um ritual, ele cavou um buraco fundo, cada movimento de sua pá meticulosamente controlado. O chão estava úmido, frio, como a escuridão ao seu redor. O cheiro da terra fresca se misturava ao seu suor, mas nada parecia mais importante do que aquilo. Nada podia ser deixado para trás.Com a mesma frieza com que executou cada golpe de pá, arrancou as roupas sujas de sangue. Despojou-se delas sem pressa, como se se livrasse de algo completamente descartável, jogando-as na terra e enterrando-as com um cuidado quase clínico. Quando terminou, cobriu o buraco com a mesma precisão, tampando qualquer vestígi