《Sthephania 》
Chegamos ao meu apartamento. Fico parada por um instante, observando cada detalhe. Eu havia me esquecido de quanto esse lugar carrega lembranças. Minha mãe sempre contava, com orgulho, sobre como conseguiu adquiri-lo com muito esforço e trabalho. Vinda de uma família simples, sua realidade era completamente diferente da do meu pai, que nasceu em berço de ouro. Ela precisou economizar e se dedicar muito aos seus projetos para finalmente comprá-lo. Lembro-me do dia em que decidi morar aqui, no início da minha faculdade de Direito. Eu tinha apenas dezesseis anos, e meu pai ficou furioso, afirmando que jamais concordaria com essa mudança. Mas, determinada, peguei minhas coisas e vim do mesmo jeito. Apesar de não gostar nem um pouco, no fim, ele acabou aceitando. Passei momentos incríveis aqui e agora percebo o quanto sinto falta de cada um deles. Enquanto desfazemos as malas, Wendy conversa animadamente. — Estou tão feliz que finalmente foi transferida para mais perto! E, melhor ainda, conseguiu um cargo importante na melhor empresa de tecnologia de Nova York — diz ela, com um sorriso de satisfação. — Eu também não acreditei quando a senhora Renesmée Lady me ofereceu a promoção. Ela sempre acreditou em mim e foi essencial para o meu crescimento profissional. Deu-me a oportunidade de mostrar meu trabalho e sempre esteve aberta a ouvir novas ideias dos subordinados. Além de tudo, é uma pessoa respeitosa e humilde. — Eu sei. Você sempre fala muito bem dela. Acabaram ficando bem próximas, né? Assinto com um pequeno sorriso. — Sim. Ela é como uma tia para mim, como se fosse parte da minha família. — Fico feliz de verdade por você — diz Wendy, sincera. — Eu também. Estou ansiosa para começar nesse novo cargo. A senhora Renesmée é sócia dessa empresa de games e softwares e queria alguém de confiança para representá-la. É uma grande responsabilidade, e me sinto honrada. — Você merece. Graças aos seus projetos, eles ganharam uma fortuna. Suas ideias são geniais! O aplicativo que você desenvolveu atingiu milhões de usuários. Não poderia ser diferente. — Quem diria que eu me sairia tão bem? Comecei como estagiária e, agora, estou prestes a assumir o cargo de gerente de Desenvolvimento de Software e Hardware. Além disso, vou representar a senhora Renesmée em uma das muitas empresas das quais ela é sócia. Wendy arregala os olhos, surpresa. — Espera... Você também vai fazer parte do conselho dessa empresa? — Sim. Como ela é a principal investidora e não tem tempo para viajar e resolver determinados assuntos, nomeou representantes em cada país com carta branca para agir em sua ausência. — Nossa, amiga, você arrasou! Mas, mudando de assunto... Estou curiosa para saber quem é o chefe gato por trás da L&V Technology. Franzo a testa, cruzando os braços. — E como você sabe que ele é gato? Ela dá de ombros, com um sorriso travesso. — Intuição! E estou ansiosa para descobrir. Ainda bem que tenho uma amiga infiltrada que vai me contar assim que souber, né? Solto uma risada, negando com a cabeça. — Claro que não. Com a primeira dose de bebida, você vai acabar contando para alguém. Sem contar que você é jornalista, o que torna tudo ainda mais arriscado. Ficaria evidente que eu fui sua fonte. Além disso, assinei um termo de confidencialidade. Wendy revira os olhos, teatralmente. — Não nego que ficaria tentada a escrever uma matéria sobre isso, mas minha curiosidade é enorme. — Pois continue curiosa. Eu nem conheci o senhor V ainda, e você já está me enchendo. Ela dá um sorriso divertido. — Senhor V? Excelente! Melhor do que CEO misterioso. — Você não existe... — murmuro, rindo. De repente, meu celular vibra. Olho para a tela e vejo o nome do meu pai. Meu sorriso desaparece, e meus dedos hesitam antes de recusar a chamada. Wendy me observa com atenção. — Não vai atender? Sinto um aperto no peito. — Para quê? Sei que ele já deve estar sabendo que estou na cidade e, provavelmente, quer me ver. — E você vai ignorá-lo? Solto um suspiro pesado. — Não estou fazendo nada diferente do que ele já fez comigo. Você sabe o quanto estou chateada pelo que ele me obrigou a fazer. Ele me ameaçou e, como sempre, não quis me ouvir. Preferiu acreditar em Selma e ainda espalhou aquela notícia falsa sobre meu suposto noivado com Pablo, afastando qualquer possibilidade de eu me entender com Matteo. Além disso, fez de tudo para que eu deixasse Londres. Estou cansada e sem cabeça para mais uma discussão. E eu, por um instante, me permito fechar os olhos, tentando afastar o peso das lembranças. Minha mãe faleceu quando eu tinha doze anos, após anos de uma luta incansável contra o câncer. Infelizmente, ela não conseguiu vencer a batalha. Dois anos após sua morte, meu pai decidiu se casar novamente. Até aí, tudo bem. No início, Selma me tratava com gentileza enquanto ainda era apenas sua namorada, mas, assim que se tornou sua esposa, sua postura mudou drasticamente. Sua filha, Valesca, seguiu pelo mesmo caminho. Ambas eram rudes com os empregados e comigo, além de Valesca frequentemente inventar mentiras ao meu respeito, que meu pai aceitava sem questionar. Como se isso não bastasse, foi Selma quem revelou a ele meu relacionamento com Matteo, tornando sua aceitação ainda mais difícil. Nunca consegui entender como ela o manipula tão facilmente, nem como ele pode ser tão cego. — Você tem razão, é melhor ignorá-lo. Tente focar na sua vida, seu pai precisa entender que você é adulta e que ele não pode te controlar — disse Wendy, tentando me confortar. — Exatamente! — concordei. — Agora, não é querendo te expulsar, mas estou exausta da viagem. — Ok, já terminamos de organizar tudo, vou te deixar descansar. Passo para te buscar mais tarde. Melyssa deve passar aqui para se trocar para a inauguração. Aqui estão suas chaves — disse Wendy, me abraçando antes de sair do apartamento. — Ok, até mais tarde. Depois que ela sai, decido preparar algo para comer. Após a refeição, me jogo no sofá e coloco uma das minhas séries favoritas: The Big Bang Theory. Sim, já assisti inúmeras vezes, mas quem nunca? Escolho um episódio aleatório e me deixo levar, até que, sem perceber, adormeço.《Sthephania 》 Acordo sobressaltada com o barulho de algo caindo. Ainda sonolenta, abro os olhos e vejo Matteo xingando baixinho um móvel contra o qual bateu, derrubando algumas coisas no processo. Meu coração dá um salto. Eu já havia visto algumas fotos dele no perfil da Mel, mas, pessoalmente, a diferença era gritante. Ele tirou os óculos, ganhou ainda mais músculos — não que antes não tivesse, mas agora estavam ainda mais definidos. O cabelo, que antes caía até os ombros, foi cortado curto, e uma barba rala delineava seu rosto. Embora eu adorasse seus cabelos longos, preciso admitir: ele continua perfeito. Seus olhos cor de avelã me encaram em silêncio, e, por um momento, me pergunto se ainda estou sonhando. Sou arrancada desse devaneio quando meu despertador começa a tocar. — Desculpa, não queria te acordar — diz ele, com um sorriso sem jeito que faz meu coração derreter por dentro. — Na verdade, eu já ia acordar… Seriam só alguns segundos depois, mas ia — brinco, tentando a
《Matteo》 O dia está uma loucura. Estou ajudando minha irmã com os preparativos para a grande inauguração do seu restaurante. Nossa mãe está orgulhosa da pirralha — e, para ser sincero, eu também. Apesar de ter sugerido que ela seguisse Medicina em vez de Gastronomia, Melyssa sempre sonhou em se tornar uma grande chef e abrir seu próprio estabelecimento. Então, aqui estamos nós, transformando esse sonho em realidade. — Eu falei que queria essa mesa ali, e não aqui! — ela reclama, irritada. — Tenho certeza de que você disse lado esquerdo — respondo calmamente. Ela suspira pesadamente e leva a mão à cabeça, demonstrando frustração. — Estou muito nervosa e ansiosa... — Fica calma, vai dar tudo certo — digo, tentando tranquilizá-la. — Parece que não. As coisas estão dando errado! As encomendas atrasaram e... — Relaxa. Nossa mãe já está resolvendo isso com os fornecedores. Só tenta se acalmar, tá bom? Ela me encara por um instante antes de assentir. — Ok... Você tem razão
《Matteo 》 Eu tentei não fazer barulho quando percebi que Phani estava dormindo. Preciso confessar que a observei por um bom tempo. Por mais que os anos tenham passado, ela continua linda. E não acredito que ainda assista a essa série... Fui eu quem a viciei quando namorávamos. — Penso, sorrindo. Dou um passo para trás, tentando sair sem fazer barulho, mas meu cotovelo esbarra em um objeto na mesa de centro. O impacto é suficiente para derrubar algumas coisas no chão, quebrando o silêncio do ambiente. Ela desperta. Seus olhos encontram os meus, confusos, mas antes que qualquer palavra seja dita, o som do celular ecoa pela sala. O despertador. Ela desliga rapidamente, piscando algumas vezes, como se tentasse situar-se na realidade. — Desculpa, não queria te acordar — digo, sem jeito, coçando a nuca. Ela senta, ajeitando o cabelo de maneira distraída, ainda sob o efeito do sono. — Na verdade, eu já ia acordar. Seria alguns segundos depois, mas ia — brinca, um pequeno sorriso c
《Matteo》 No restaurante, ela sai do carro com a mesma indiferença com que entrou. Seus movimentos são contidos, a expressão fechada. — Vou levar o vestido para Melyssa. — Sua voz soa indiferente, sem qualquer emoção. — Ok, vou estacionar o carro. Observo-a se afastar sem sequer olhar para trás. Apesar do tempo que passou, ela continua a mesma em muitos aspectos, principalmente na maneira como esconde o que sente. Assim que entro no restaurante, encontro minha mãe dando instruções a alguns funcionários. Não vejo Sthephania em lugar nenhum. — Phani foi ajudar sua irmã a se trocar. — A voz da minha mãe me tira dos meus pensamentos. — Eu não estava procurando por ela. — Respondo rápido demais. Ela arqueia uma sobrancelha e cruza os braços, aquele olhar típico de quem me conhece bem demais para acreditar na minha mentira. — Sei... Como se eu não conhecesse meu próprio filho. Solto um suspiro discreto e desvio o olhar. Minha mãe descobriu sobre mim e Phani há muito tempo,
《Sthephania》Só quando vejo o carro dele e o sorriso satisfeito em seu rosto ao entrarmos, percebo o verdadeiro motivo de sua insistência em me dar uma carona. Que tipo de pessoa ele acha que sou? A irritação se instala em meu peito, me deixando inquieta.Já sabia que Matteo estava indo muito bem na empresa onde trabalha. Mel havia comentado comigo. Soube que sua mãe conseguiu se demitir há alguns anos e, com o dinheiro que ele ganhou, comprou uma nova casa para elas. Mas Mel optou por continuar morando no meu apartamento—era mais próximo da universidade e ela gostava da independência.Lembro do dia em que ela foi com Matteo comprar seu primeiro carro. Ela estava radiante, gravou um vídeo e me mandou, animada, mostrando o veículo escolhido. Eu fiquei feliz de verdade por ele. Na verdade, por todos. Matteo se saindo bem e fazendo o que gosta, Mel formada e prestes a inaugurar seu primeiro restaurante—um sonho que ela tinha desde que nos conhecemos—e do
《Catarina》 Naline me observa com as sobrancelhas levemente arqueadas, sua expressão carregada de dúvida e curiosidade. Sei exatamente o que ela está pensando, mas decido ignorar seu olhar analítico enquanto examino os vestidos à minha frente. - Nunca te vi empolgada para fazer compras. - Ela finalmente quebra o silêncio, cruzando os braços. Viro-me para encará-la, segurando um vestido vermelho vibrante contra meu corpo. Um sorriso satisfeito se forma em meus lábios. - Eu te falei que Matteo comentou que a inauguração do restaurante daquela pirralha insolente seria hoje. Quero ir deslumbrante. Acho que até vou usar minhas lentes e fazer uma maquiagem de arrasar. Você vai ver. - Minha voz transborda animação, e por um breve instante, saboreio a ideia de impressioná-lo. Naline suspira, apoiando-se no balcão próximo ao provador. - Você está nisso há anos. Não acha que já está na hora de desistir? Minha expressão endurece por um segundo, mas logo forço um sorriso confiante.
《Catarina》 O carro mal estaciona e eu já sinto a impaciência borbulhar dentro de mim. Do lado de fora, a fachada moderna e sofisticada do restaurante brilha sob as luzes da cidade, atraindo uma multidão elegante. O estacionamento está cheio, e a fila na recepção é considerável. - Graças a você, estamos atrasadas! - resmungo, cruzando os braços enquanto encaro a quantidade de pessoas. - Olha como o lugar está lotado! Naline solta um suspiro cansado, ajeitando a bolsa no ombro antes de me encarar com um olhar entediado. - Foi você que ficou se arrumando por horas, então nem venha me culpar. Reviro os olhos, ignorando sua provocação. - Vamos entrar logo. Passamos pela entrada principal com passos decididos. Meu olhar varre o ambiente, buscando Matteo entre os convidados, mas não o encontro. Estou prestes a seguir para o salão quando dois seguranças se posicionam diante de mim, bloqueando minha passagem. - A senhorita tem reserva? - um deles questiona em um tom firme. - Cas
《Sthephania》 O prazer que senti ao vê-la esperando por uma hora por uma mesa foi indescritível. Matteo deu as ordens, e tudo o que fiz foi segui-las – com muito gosto, devo admitir. Se dependesse apenas de mim, ela sequer colocaria os pés no restaurante da minha amiga. Mas, infelizmente, essa não era uma decisão que cabia a mim. Chamo Felipas, instruindo-o a acompanhar Catarina e a amiga até suas respectivas mesas. - Pode acompanhá-las, eu cuido de tudo aqui. - digo, e ela assente. Catarina me encara com uma expressão carregada de raiva, os olhos faiscando. - Vamos ver o que Matteo vai achar quando souber o que você fez comigo. - Sua voz sai carregada de irritação. Por mais que eu perceba Matteo se aproximando, não me dou ao trabalho de responder com qualquer tom apaziguador. O que ele pensa de mim já não faz diferença. Houve um tempo em que me importei, mas essa fase ficou no passado. Olho Catarina com desdém. - Eu só pedi que aguardasse como qualquer outra pessoa. Não