《Matteo》
No restaurante, ela sai do carro com a mesma indiferença com que entrou. Seus movimentos são contidos, a expressão fechada. — Vou levar o vestido para Melyssa. — Sua voz soa indiferente, sem qualquer emoção. — Ok, vou estacionar o carro. Observo-a se afastar sem sequer olhar para trás. Apesar do tempo que passou, ela continua a mesma em muitos aspectos, principalmente na maneira como esconde o que sente. Assim que entro no restaurante, encontro minha mãe dando instruções a alguns funcionários. Não vejo Sthephania em lugar nenhum. — Phani foi ajudar sua irmã a se trocar. — A voz da minha mãe me tira dos meus pensamentos. — Eu não estava procurando por ela. — Respondo rápido demais. Ela arqueia uma sobrancelha e cruza os braços, aquele olhar típico de quem me conhece bem demais para acreditar na minha mentira. — Sei... Como se eu não conhecesse meu próprio filho. Solto um suspiro discreto e desvio o olhar. Minha mãe descobriu sobre mim e Phani há muito tempo, nos pegando desprevenidos no meu quarto. Nunca conversamos abertamente sobre isso, mas ela sabia que eu estava apaixonado. E, quando terminamos, ela não gostou. Tentou me convencer a ouvi-la, a dar a Sthephania uma chance de se explicar, mas eu estava cego pela raiva e pela dor. Quando finalmente decidi procurá-la, já era tarde. Seu pai me disse, sem rodeios, que ela havia deixado o país. E pior, que assim que voltasse, se casaria com aquele babaca do Pablo. Sinto a irritação crescendo dentro de mim e decido me afastar antes que minha mãe insista no assunto. — Vou falar com Felix. Caminho pelo restaurante até encontrar meu melhor amigo, que já me observa com um sorriso presunçoso nos lábios. — Meu irmão, você não vai acreditar em quem acabou de chegar. — Ele provoca. — Phani. — Respondo sem entusiasmo. Felix arregala os olhos, surpreso. — Então, você a viu? — Na verdade, viemos juntos. — Isso quer dizer que vocês voltaram? — Eu só fui buscar o vestido da Melyssa e nos encontramos por acaso. — Dou de ombros. Felix ri baixo, balançando a cabeça. — E você, por suposto acaso, se ofereceu para trazê-la na sua Lamborghini, tentando impressioná-la? — Eu não seria tão infantil. — Minto descaradamente. Ele estreita os olhos, divertido. — E aí, como foi? — Ela agiu com total indiferença. Felix cruza os braços e me encara com ceticismo. — Você ainda acredita que ela te deixou porque você não era rico? Eu solto um suspiro pesado. — Sim, eu acredito. É a única explicação. Por que mais ela nunca quis me assumir ou contar para a família dela? O próprio pai dela me disse que ela e aquele playboyzinho medíocre se casariam assim que ela voltasse. E eu sei muito bem como Pablo é. Volta e meia vejo aquele babaca com outras mulheres, até mesmo com Valesca. Ela só pode estar aceitando esse casamento por dinheiro. Felix balança a cabeça, pensativo. — Não sei, irmão. As coisas podem não ser como você pensa. E você mesmo disse que, assim que as notícias saíram, ela negou qualquer envolvimento com Pablo enquanto vocês namoravam. Mas você nem quis ouvir a explicação dela. Só a deixou acreditar que você e Catarina estavam juntos... Por vingança. Minha mandíbula se contrai. — Não foi vingança. — Claro que foi. — Eu nunca tive nada com Catarina. Foi a Phani quem deduziu que dormimos juntos. — E você não desmentiu. Fico em silêncio. — Você fez isso para magoá-la. — Felix insiste. Passo a mão pelos cabelos, frustrado. — Ok, talvez você esteja certo. Um sorriso vitorioso surge nos lábios dele. — Confessa logo que ainda gosta da Phani. Desvio o olhar, hesitante. — Talvez eu ainda goste dela. — Talvez? — Felix arqueia as sobrancelhas. Solto um suspiro exasperado. — Ok, eu ainda gosto dela. Mas vou fazer o que estiver ao meu alcance para esquecê-la. Felix solta uma risada debochada. — Já se passaram cinco anos e você ainda está apaixonado por ela. Acha mesmo que consegue? — É claro que consigo. — Veremos. Diego, nosso amigo, se aproxima, parecendo curioso com nossa conversa. — O que vocês dois estão falando? — Apenas sobre a ex do Matteo, que voltou. — Felix responde com um sorriso divertido. Diego assente, pensativo. — A famosa Phani? — Exatamente. Ele franze a testa por um momento e depois sorri malicioso. — Se eu bem me lembro, ela é uma das melhores amigas da sua irmã, certo? Falando nisso... Você podia pedir para ela me apresentar aquela beldade. Meu olhar se fecha imediatamente. — Que beldade? Diego aponta sutilmente para a direção de Sthephania e a observa descaradamente. — Aquela ali. Felix ri, já prevendo minha reação. — Você está mesmo afim de morrer hoje, hein? Diego franze a testa, confuso. — O quê? Não é para tanto. Eu só quero que ela me apresente aquela gata. Minha paciência se esgota. — Aquela gata é a minha ex. Diego arregala os olhos e levanta as mãos em rendição. — Foi mal, cara, eu não sabia. Mas olha... Você tem bom gosto. Ele ainda a observa, como se não estivesse se importando com minha irritação. — Se você não parar de olhar para ela agora, vou acabar esquecendo que somos amigos. Diego levanta as mãos, finalmente desviando o olhar. — Ok, parei. Eu respiro fundo, tentando controlar a raiva irracional que sinto ao vê-lo interessado em Sthephania. Ela pode ter me machucado, pode ter me deixado, mas a ideia de outro homem a olhando daquela forma me incomoda mais do que admito. E isso só me faz perceber o óbvio: eu nunca deixei de amá-la.《Sthephania》Só quando vejo o carro dele e o sorriso satisfeito em seu rosto ao entrarmos, percebo o verdadeiro motivo de sua insistência em me dar uma carona. Que tipo de pessoa ele acha que sou? A irritação se instala em meu peito, me deixando inquieta.Já sabia que Matteo estava indo muito bem na empresa onde trabalha. Mel havia comentado comigo. Soube que sua mãe conseguiu se demitir há alguns anos e, com o dinheiro que ele ganhou, comprou uma nova casa para elas. Mas Mel optou por continuar morando no meu apartamento—era mais próximo da universidade e ela gostava da independência.Lembro do dia em que ela foi com Matteo comprar seu primeiro carro. Ela estava radiante, gravou um vídeo e me mandou, animada, mostrando o veículo escolhido. Eu fiquei feliz de verdade por ele. Na verdade, por todos. Matteo se saindo bem e fazendo o que gosta, Mel formada e prestes a inaugurar seu primeiro restaurante—um sonho que ela tinha desde que nos conhecemos—e do
《Catarina》 Naline me observa com as sobrancelhas levemente arqueadas, sua expressão carregada de dúvida e curiosidade. Sei exatamente o que ela está pensando, mas decido ignorar seu olhar analítico enquanto examino os vestidos à minha frente. - Nunca te vi empolgada para fazer compras. - Ela finalmente quebra o silêncio, cruzando os braços. Viro-me para encará-la, segurando um vestido vermelho vibrante contra meu corpo. Um sorriso satisfeito se forma em meus lábios. - Eu te falei que Matteo comentou que a inauguração do restaurante daquela pirralha insolente seria hoje. Quero ir deslumbrante. Acho que até vou usar minhas lentes e fazer uma maquiagem de arrasar. Você vai ver. - Minha voz transborda animação, e por um breve instante, saboreio a ideia de impressioná-lo. Naline suspira, apoiando-se no balcão próximo ao provador. - Você está nisso há anos. Não acha que já está na hora de desistir? Minha expressão endurece por um segundo, mas logo forço um sorriso confiante.
《Catarina》 O carro mal estaciona e eu já sinto a impaciência borbulhar dentro de mim. Do lado de fora, a fachada moderna e sofisticada do restaurante brilha sob as luzes da cidade, atraindo uma multidão elegante. O estacionamento está cheio, e a fila na recepção é considerável. - Graças a você, estamos atrasadas! - resmungo, cruzando os braços enquanto encaro a quantidade de pessoas. - Olha como o lugar está lotado! Naline solta um suspiro cansado, ajeitando a bolsa no ombro antes de me encarar com um olhar entediado. - Foi você que ficou se arrumando por horas, então nem venha me culpar. Reviro os olhos, ignorando sua provocação. - Vamos entrar logo. Passamos pela entrada principal com passos decididos. Meu olhar varre o ambiente, buscando Matteo entre os convidados, mas não o encontro. Estou prestes a seguir para o salão quando dois seguranças se posicionam diante de mim, bloqueando minha passagem. - A senhorita tem reserva? - um deles questiona em um tom firme. - Cas
《Sthephania》 O prazer que senti ao vê-la esperando por uma hora por uma mesa foi indescritível. Matteo deu as ordens, e tudo o que fiz foi segui-las – com muito gosto, devo admitir. Se dependesse apenas de mim, ela sequer colocaria os pés no restaurante da minha amiga. Mas, infelizmente, essa não era uma decisão que cabia a mim. Chamo Felipas, instruindo-o a acompanhar Catarina e a amiga até suas respectivas mesas. - Pode acompanhá-las, eu cuido de tudo aqui. - digo, e ela assente. Catarina me encara com uma expressão carregada de raiva, os olhos faiscando. - Vamos ver o que Matteo vai achar quando souber o que você fez comigo. - Sua voz sai carregada de irritação. Por mais que eu perceba Matteo se aproximando, não me dou ao trabalho de responder com qualquer tom apaziguador. O que ele pensa de mim já não faz diferença. Houve um tempo em que me importei, mas essa fase ficou no passado. Olho Catarina com desdém. - Eu só pedi que aguardasse como qualquer outra pessoa. Não
《Matteo》 Felix pigarreia, tentando suavizar o clima. - Então... - Ele tosse discretamente antes de continuar. - Devia nos contar como foi a viagem. Você deixou a cidade do nada, e Melyssa comentou que foi estudar na Inglaterra. Fico aliviado por ele ter tomado a iniciativa de guiar a conversa para esse rumo. Sempre tive curiosidade sobre o tempo que Phani passou fora, sei muito pouco. Melyssa nunca foi do tipo que fala sobre a vida da amiga, e o que descobri foi apenas por coincidência ou por trechos soltos de conversas que acabei ouvindo. Sei que Phani conseguiu uma bolsa na universidade dos seus sonhos, mas nada além disso. - Sim, consegui uma bolsa de estudos lá. - Sua resposta é breve, como se quisesse encerrar o assunto antes mesmo de começar. Me inclino levemente para frente, interessado. - Fiquei sabendo que foi aceita na Queen Mary University of London. - Meu tom é genuíno. - Lembro que sempre foi seu sonho estudar lá. Catarina, que até então escutava em silêncio,
《Matteo》 Deixo minha mãe em casa e, assim que chego ao prédio onde Melyssa e Phani moram, percebo que ambas estão dormindo. O silêncio dentro do carro só é interrompido pela respiração tranquila das duas. Melyssa insistiu para que Phani ocupasse o banco do carona comigo, mas ela se recusou, dizendo que minha mãe deveria ir à frente. No entanto, minha mãe também recusou e insistiu para que Phani fosse. Observo Phani por um instante. Seu rosto sereno, levemente iluminado pelos postes da rua, me prende mais do que deveria. Suspiro, afastando esses pensamentos, e finalmente decido acordá-las. - Meninas, chegamos. - Minha voz soa firme, mas não alta o suficiente para assustá-las. Phani desperta lentamente, piscando algumas vezes antes de me encarar com uma expressão sonolenta. Já Melyssa apenas resmunga algo incompreensível e se aninha ainda mais no banco, completamente alheia ao que acontece ao seu redor. Phani me olha e sorri. - Acho que você vai ter que subir com ela. Você sa
《Sthephania 》 Matteo me observa intensamente, dando um passo à frente, diminuindo perigosamente a distância entre nós. - Do que você tem tanto medo? - Sua voz soa baixa, quase um sussurro, carregada de algo que não consigo decifrar. Engulo em seco, sentindo meu coração disparar. Tento manter minha compostura, mas minhas palavras saem trêmulas. - Eu... eu não tenho medo. - Gaguejo, traindo minha própria mentira. Ele dá mais um passo, e eu me vejo incapaz de recuar. Meus pés parecem presos ao chão, enquanto o calor do seu corpo ameaça consumir o pouco de sanidade que me resta. - Você ainda sente algo por mim? - A pergunta vem carregada de um misto de curiosidade e provocação, e sua proximidade me deixa tonta. Meu instinto grita para fugir, mas quando tento me afastar, tropeço desajeitadamente nos próprios pés. O impacto iminente me faz arregalar os olhos, mas antes que eu atinja o chão, Matteo age rápido e tenta me segurar. O problema é que ele também perde o equilíbrio, e,
《 Sthephania》■ Manhã SeguinteLevanto-me tarde. O sono foi inquieto, repleto de pensamentos que se recusavam a me deixar em paz. O peso das lembranças ainda se faz presente quando, finalmente, decido sair da cama. O relógio já marca depois do meio-dia.Ao sair do quarto, encontro Mel na sala. Ela está sentada no sofá, descalça, folheando uma revista qualquer. Assim que me vê, sorri radiante.- Bom dia, flor do dia! - Sua voz animada preenche o ambiente.- Na verdade, boa tarde. - Minha tentativa de sorriso é forçada.Ela me observa por um instante, inclinando a cabeça de lado. Seu olhar analítico percorre meu rosto, e eu sei exatamente o que vem a seguir.- O que aconteceu com você? - Ela se levanta e se aproxima, estreitando os olhos. - Seus olhos estão inchados.Tento não desviar o olhar. Não posso permitir que ela descubra a verdade.- Eu estou bem, deve ser alguma alergia. - Minto, mas minha voz vacila levemente.Mel cruza os braços, desconfiada.-