《Sthephania》
Só quando vejo o carro dele e o sorriso satisfeito em seu rosto ao entrarmos, percebo o verdadeiro motivo de sua insistência em me dar uma carona. Que tipo de pessoa ele acha que sou? A irritação se instala em meu peito, me deixando inquieta. Já sabia que Matteo estava indo muito bem na empresa onde trabalha. Mel havia comentado comigo. Soube que sua mãe conseguiu se demitir há alguns anos e, com o dinheiro que ele ganhou, comprou uma nova casa para elas. Mas Mel optou por continuar morando no meu apartamento—era mais próximo da universidade e ela gostava da independência. Lembro do dia em que ela foi com Matteo comprar seu primeiro carro. Ela estava radiante, gravou um vídeo e me mandou, animada, mostrando o veículo escolhido. Eu fiquei feliz de verdade por ele. Na verdade, por todos. Matteo se saindo bem e fazendo o que gosta, Mel formada e prestes a inaugurar seu primeiro restaurante—um sonho que ela tinha desde que nos conhecemos—e dona Ashley finalmente se permitindo descansar. Ou quase isso, já que, pelo que ouvi, ela está empolgada em ajudar Mel na administração do restaurante. Assim que entro no restaurante, sou recebida por um rosto familiar. — Oi, querida! Há quanto tempo! Você continua linda — diz dona Ashley, abrindo um sorriso caloroso. — Oi, dona Ashley. Muito obrigada. A senhora também está linda, como sempre — respondo, retribuindo o abraço afetuoso. — Matteo não deve demorar a chegar. Acho que já está mais do que na hora de vocês conversarem. Eu sei o quanto se sacrificou pensando em mim e prometi não contar nada a ele, mas… Sinto um aperto no peito. — Eu tentei conversar com ele diversas vezes, mas ele não me ouviu — minha voz sai mais baixa. — E, antes de viajar, o peguei com… Bom, isso não vem ao caso. Já se passaram anos, dona Ashley. Agora é tarde demais. Não temos mais nada e é melhor continuar assim. Ela suspira, parecendo relutante, mas assente. — Tudo bem, querida. Eu respeito sua decisão. — Onde está Mel? Quero ajudá-la a se arrumar. — Venha, eu te levo. Seguimos até o camarim improvisado nos fundos do restaurante. Ajudo Mel a terminar os últimos ajustes no visual antes de voltarmos ao salão. O local já está movimentado, clientes chegando e garçons indo e vindo com bandejas. Meus olhos percorrem o espaço até encontrá-lo. Matteo está sentado em uma mesa no canto, conversando com dois amigos. Reconheço Felix, mas o outro rapaz é um estranho para mim. — Diego não está nem disfarçando, está te devorando com os olhos — sussurra Mel, divertida. E imagino que esse seja o nome do desconhecido.. Reviro os olhos. — Não exagere. Ele pode muito bem estar olhando para você. — Não acho — ela ri, mordendo o lábio. — Felix não ficaria nada contente com isso. Minha cabeça se vira rapidamente. — Eu ouvi bem? — pergunto, surpresa. — Ainda é recente — Mel confessa, mordiscando o canto do lábio. — E não contamos a Matteo ainda. Não sabemos como ele vai reagir. Dou de ombros. — Não acho que ele vá se opor. Felix é seu melhor amigo e um cara incrível. — Eu sei, mas conhecendo Matteo… temo que ele não goste muito. Então, por enquanto, nada de comentários. — Como quiser. Uma pontada de culpa me atinge. Eu deveria contar a Mel sobre Matteo e eu… mas, antes que possa dizer qualquer coisa, dona Ashley chama sua atenção. — Querida, precisam de você na cozinha. Mel suspira e vai atender ao chamado. Eu a sigo, decidida a ajudá-la. Pego um avental e começo a colocá-lo. — O que você pensa que está fazendo? — ela questiona. — Ajudando. — Nem pensar! Você é minha convidada e, além disso, não podemos desperdiçar esse visual. Por que não se junta à mesa dos meninos? Aproveita e dá uma chance para Diego. Reviro os olhos novamente. — Não diga bobagens. Vou ajudar e ponto final. Esqueceu que já fui garçonete em Londres? — Você já o quê? A voz masculina surge inesperadamente atrás de mim. Meu coração quase salta do peito. Matteo. Me viro devagar, encontrando seu olhar intenso. — Phani trabalhou como garçonete em uma cafeteria em Londres — Mel responde, sem notar o clima tenso. — Já que seu pai não… — Acho que tem algo queimando! — interrompo, desesperada. Mel arregala os olhos e se volta para o fogão. — Meu Deus! Aproveito a distração para fugir. Pego um bloco de anotações e saio da cozinha o mais rápido que posso, mas Matteo me segue. Antes que eu perceba, ele me segura pelo braço e me puxa para dentro de um depósito. — O que você pensa que está… — minha frase morre quando sou pressionada contra a parede. Ele está tão perto que posso sentir seu cheiro, quente e amadeirado. Seu olhar prende o meu, e meu coração b**e descompassado. Tento manter a compostura, mas meu corpo me trai. — Seu pai não te ajudou na faculdade? — Sua voz é baixa, carregada de algo que não consigo decifrar. Engulo em seco. — Por que isso te interessa? Não somos nada, Matteo. Isso não lhe diz respeito. Tento afastá-lo, mas é inútil. Ele não cede. — Vamos conversar quando tudo se acalmar — ele diz, ignorando minha resistência. — Vou te esperar. Na verdade, posso te levar para casa. Meu peito aperta. — Não temos nada para conversar. Você foi bem claro da última vez — minha voz treme levemente. — Eu não sou ninguém para você, apenas a amiguinha da sua irmã que você quer manter distância. Então, não finja que nada aconteceu. O olhar dele se obscurece. — Foi você quem me traiu com aquele… — Ele faz uma pausa. Minhas mãos se fecham em punhos. — Eu só quero que saiba que eu… — Ele suspira, apertando os lábios. — Esquece. Você está certa. Ele se afasta, deixando um vazio estranho no lugar onde seu corpo antes me tocava. Aproveito a brecha e saio do depósito o mais rápido que posso. No corredor, Wendy surge de repente, arqueando as sobrancelhas. — Por que está toda corada e se abanando? Tento me recompor. — Não é nada. Eu só… Ela sorri maliciosa e se vira para Matteo, que sai logo atrás de mim. — Matteo, já deve ter visto que minha amiga voltou. Ele me lança um olhar impaciente. — Sim, eu vi. A tensão entre nós é palpável, mas ele não diz mais nada. — Tenho coisas para fazer. Foi bom te ver — ele diz antes de se afastar. — Eu também tenho coisas para fazer — murmuro, escapando antes que Wendy comece a me bombardear com perguntas. --- O restaurante está em pleno funcionamento, e tudo corre bem, apesar da correria. Eu ajudo onde posso—na recepção, anotando pedidos e até mesmo servindo mesas quando necessário. O salão está completamente lotado, o burburinho das conversas se mistura ao tilintar dos talheres e ao som abafado da música ambiente. O aroma das especiarias e dos pratos recém-preparados paira no ar, tornando o ambiente acolhedor, mas também eletrizante com a agitação dos funcionários indo de um lado para o outro. Olho ao redor e solto um suspiro. Está claro que a equipe está sobrecarregada. — Melyssa, você vai precisar de mais funcionários. Só os que contratou não estão dando conta — comento, desviando para não esbarrar em um garçom apressado. — Eu sei, nem me fale — responde ela, focada em finalizar um dos pratos na bancada, o rosto demonstrando concentração e cansaço. — Amanhã mesmo faço o anúncio das vagas. Pode deixar que cuido de tudo — diz Ashley, olhando para a filha, que apenas sorri em concordância. Não posso negar que o ambiente é vibrante e envolvente, mas definitivamente não é a minha área. Meu mundo é a tecnologia, os softwares e os códigos, bem diferente dessa agitação de pedidos e clientes famintos. Ainda assim, fico feliz em estar aqui apoiando minha amiga nesse momento tão importante para ela. Ashley volta sua atenção para mim novamente. — Sei que já te exploramos bastante, mas consegue ajudar Felipas na recepção novamente? Dou uma risada leve e aceno afirmativamente. — É claro. — Muito obrigada. Deixo a cozinha e sigo para a recepção, sentindo a brisa ligeiramente mais fresca ao sair para o hall de entrada. Respiro fundo antes de voltar ao trabalho, lembrando-me de que, apesar do cansaço, estou aqui por uma boa razão: apoiar minha amiga em seu grande dia.《Catarina》 Naline me observa com as sobrancelhas levemente arqueadas, sua expressão carregada de dúvida e curiosidade. Sei exatamente o que ela está pensando, mas decido ignorar seu olhar analítico enquanto examino os vestidos à minha frente. - Nunca te vi empolgada para fazer compras. - Ela finalmente quebra o silêncio, cruzando os braços. Viro-me para encará-la, segurando um vestido vermelho vibrante contra meu corpo. Um sorriso satisfeito se forma em meus lábios. - Eu te falei que Matteo comentou que a inauguração do restaurante daquela pirralha insolente seria hoje. Quero ir deslumbrante. Acho que até vou usar minhas lentes e fazer uma maquiagem de arrasar. Você vai ver. - Minha voz transborda animação, e por um breve instante, saboreio a ideia de impressioná-lo. Naline suspira, apoiando-se no balcão próximo ao provador. - Você está nisso há anos. Não acha que já está na hora de desistir? Minha expressão endurece por um segundo, mas logo forço um sorriso confiante.
《Catarina》 O carro mal estaciona e eu já sinto a impaciência borbulhar dentro de mim. Do lado de fora, a fachada moderna e sofisticada do restaurante brilha sob as luzes da cidade, atraindo uma multidão elegante. O estacionamento está cheio, e a fila na recepção é considerável. - Graças a você, estamos atrasadas! - resmungo, cruzando os braços enquanto encaro a quantidade de pessoas. - Olha como o lugar está lotado! Naline solta um suspiro cansado, ajeitando a bolsa no ombro antes de me encarar com um olhar entediado. - Foi você que ficou se arrumando por horas, então nem venha me culpar. Reviro os olhos, ignorando sua provocação. - Vamos entrar logo. Passamos pela entrada principal com passos decididos. Meu olhar varre o ambiente, buscando Matteo entre os convidados, mas não o encontro. Estou prestes a seguir para o salão quando dois seguranças se posicionam diante de mim, bloqueando minha passagem. - A senhorita tem reserva? - um deles questiona em um tom firme. - Cas
《Sthephania》 O prazer que senti ao vê-la esperando por uma hora por uma mesa foi indescritível. Matteo deu as ordens, e tudo o que fiz foi segui-las – com muito gosto, devo admitir. Se dependesse apenas de mim, ela sequer colocaria os pés no restaurante da minha amiga. Mas, infelizmente, essa não era uma decisão que cabia a mim. Chamo Felipas, instruindo-o a acompanhar Catarina e a amiga até suas respectivas mesas. - Pode acompanhá-las, eu cuido de tudo aqui. - digo, e ela assente. Catarina me encara com uma expressão carregada de raiva, os olhos faiscando. - Vamos ver o que Matteo vai achar quando souber o que você fez comigo. - Sua voz sai carregada de irritação. Por mais que eu perceba Matteo se aproximando, não me dou ao trabalho de responder com qualquer tom apaziguador. O que ele pensa de mim já não faz diferença. Houve um tempo em que me importei, mas essa fase ficou no passado. Olho Catarina com desdém. - Eu só pedi que aguardasse como qualquer outra pessoa. Não
《Matteo》 Felix pigarreia, tentando suavizar o clima. - Então... - Ele tosse discretamente antes de continuar. - Devia nos contar como foi a viagem. Você deixou a cidade do nada, e Melyssa comentou que foi estudar na Inglaterra. Fico aliviado por ele ter tomado a iniciativa de guiar a conversa para esse rumo. Sempre tive curiosidade sobre o tempo que Phani passou fora, sei muito pouco. Melyssa nunca foi do tipo que fala sobre a vida da amiga, e o que descobri foi apenas por coincidência ou por trechos soltos de conversas que acabei ouvindo. Sei que Phani conseguiu uma bolsa na universidade dos seus sonhos, mas nada além disso. - Sim, consegui uma bolsa de estudos lá. - Sua resposta é breve, como se quisesse encerrar o assunto antes mesmo de começar. Me inclino levemente para frente, interessado. - Fiquei sabendo que foi aceita na Queen Mary University of London. - Meu tom é genuíno. - Lembro que sempre foi seu sonho estudar lá. Catarina, que até então escutava em silêncio,
《Matteo》 Deixo minha mãe em casa e, assim que chego ao prédio onde Melyssa e Phani moram, percebo que ambas estão dormindo. O silêncio dentro do carro só é interrompido pela respiração tranquila das duas. Melyssa insistiu para que Phani ocupasse o banco do carona comigo, mas ela se recusou, dizendo que minha mãe deveria ir à frente. No entanto, minha mãe também recusou e insistiu para que Phani fosse. Observo Phani por um instante. Seu rosto sereno, levemente iluminado pelos postes da rua, me prende mais do que deveria. Suspiro, afastando esses pensamentos, e finalmente decido acordá-las. - Meninas, chegamos. - Minha voz soa firme, mas não alta o suficiente para assustá-las. Phani desperta lentamente, piscando algumas vezes antes de me encarar com uma expressão sonolenta. Já Melyssa apenas resmunga algo incompreensível e se aninha ainda mais no banco, completamente alheia ao que acontece ao seu redor. Phani me olha e sorri. - Acho que você vai ter que subir com ela. Você sa
《Sthephania 》 Matteo me observa intensamente, dando um passo à frente, diminuindo perigosamente a distância entre nós. - Do que você tem tanto medo? - Sua voz soa baixa, quase um sussurro, carregada de algo que não consigo decifrar. Engulo em seco, sentindo meu coração disparar. Tento manter minha compostura, mas minhas palavras saem trêmulas. - Eu... eu não tenho medo. - Gaguejo, traindo minha própria mentira. Ele dá mais um passo, e eu me vejo incapaz de recuar. Meus pés parecem presos ao chão, enquanto o calor do seu corpo ameaça consumir o pouco de sanidade que me resta. - Você ainda sente algo por mim? - A pergunta vem carregada de um misto de curiosidade e provocação, e sua proximidade me deixa tonta. Meu instinto grita para fugir, mas quando tento me afastar, tropeço desajeitadamente nos próprios pés. O impacto iminente me faz arregalar os olhos, mas antes que eu atinja o chão, Matteo age rápido e tenta me segurar. O problema é que ele também perde o equilíbrio, e,
《 Sthephania》■ Manhã SeguinteLevanto-me tarde. O sono foi inquieto, repleto de pensamentos que se recusavam a me deixar em paz. O peso das lembranças ainda se faz presente quando, finalmente, decido sair da cama. O relógio já marca depois do meio-dia.Ao sair do quarto, encontro Mel na sala. Ela está sentada no sofá, descalça, folheando uma revista qualquer. Assim que me vê, sorri radiante.- Bom dia, flor do dia! - Sua voz animada preenche o ambiente.- Na verdade, boa tarde. - Minha tentativa de sorriso é forçada.Ela me observa por um instante, inclinando a cabeça de lado. Seu olhar analítico percorre meu rosto, e eu sei exatamente o que vem a seguir.- O que aconteceu com você? - Ela se levanta e se aproxima, estreitando os olhos. - Seus olhos estão inchados.Tento não desviar o olhar. Não posso permitir que ela descubra a verdade.- Eu estou bem, deve ser alguma alergia. - Minto, mas minha voz vacila levemente.Mel cruza os braços, desconfiada.-
Estou saindo do banho quando alguém bate à porta e, ao atender, me deparo com Catarina. — O que você quer? — pergunto, sem esconder minha surpresa. — É assim que você recebe sua melhor amiga? — Ela me olha feio e entra sem esperar convite. Suspiro, fechando a porta atrás dela. — Só não estava esperando sua visita. Achei que fosse Melyssa, já que ela esqueceu a chave de novo. Eu preciso me vestir. Você espera até eu... Ela me interrompe. — Você faltou à aula hoje. Queria saber se está tudo bem e trouxe as anotações. Além disso, temos um trabalho para terminar juntos. Você esqueceu? Passo a mão pelos cabelos ainda úmidos e solto um suspiro cansado. — Podemos fazer esse trabalho outro dia. Não estou com cabeça para nada hoje.Meu telefone começa a tocar sobre a mesa da sala. Vou até ele e, ao ver o nome de Phani na tela, ignoro a ligação. — Você quer alguma coisa para beber antes de ir? Catarina cruza os braços e me encara com um beicinho indignado. — Você realmente está me ex