Eu aguardava o Johnny do lado de fora da sala de Isadora, fingindo interesse em um e-mail qualquer enquanto meus pensamentos fervilhavam. Meus olhos estavam fixos na porta fechada, e o coração batia freneticamente no peito. Como Danilo pôde cair tão baixo? Dormir com uma estagiária qualquer, traindo Juliete... e a mim.A noite passada havia sido reveladora. Depois de ligar para Juliete, passei horas digerindo tudo. A ideia de Danilo estar realmente envolvido com outra mulher era insuportável. Decidi agir. Planejei tudo: orientei Juliete a “acordar” naquela madrugada, forçando um contato imediato com Danilo antes que qualquer outro médico pudesse intervir. Precisava atrapalhar qualquer momento que ele pudesse ter com aquela garota.Mas é claro que não contei a Juliete o restante do meu plano. Depois daquele tumulto inicial, eu me certificaria de estar ao lado de Danilo, ocupando o lugar que sempre foi meu por direito. Seria naquela noite. Ele finalmente me faria mulher, e Juliete seria
Ainda estava tentando recuperar meu ritmo no trabalho quando ouvi o som inconfundível dos saltos de Eleonor se aproximando. Não foi surpresa quando ela entrou sem bater, carregando no rosto aquele deboche típico.— O que você ainda está fazendo aqui? Por que não está arrumando suas tralhas pra dar o fora daqui? — disparou, cruzando os braços como se já tivesse vencido alguma batalha.Respirei fundo, mantendo a calma. Eu sabia que teria que lidar com Eleonor em algum momento, mas ainda não tinha decidido como. Meu instinto me dizia que ela estava por trás de grande parte das dificuldades que Danilo vinha enfrentando — e, agora, das minhas também. Sem me apressar, comecei a fechar as abas do computador uma a uma, evitando olhar diretamente para ela. Por fim, virei minha cadeira e respondi com tranquilidade:— Trabalhando.Ela franziu o cenho, claramente surpresa com a minha resposta.— Mas você foi demitida!— Sim, como estagiária. Agora sou assessora do Danilo.— E o que isso quer dize
Na manhã seguinte, estacionei no prédio espelhado e fiquei por um momento no carro, imersa nos meus próprios pensamentos. O peso de tudo parecia estar sobre mim. Antes de sair de casa, liguei para Laila em uma chamada de vídeo. Conversamos bastante, mas, pela primeira vez, ela não tinha um conselho que pudesse realmente me ajudar. Era como se nem ela soubesse o que fazer com essa bagunça.Danilo também tentou várias vezes. Chamadas perdidas no meu celular e mensagens que ele começava a digitar e apagava antes de enviar. Por fim, só recebi um seco “boa noite”. Não sabia se estava agindo certo em ignorar, mas, naquele momento, parecia a única coisa que eu podia fazer para manter minha sanidade.Suspirei e olhei para o espelho retrovisor. Lá estava eu, com o rosto cansado, mas com a determinação de sempre. Baixei o vidro e disse para mim mesma:— A Cinderela só teve até meia-noite e perdeu o sapatinho. Você está no lucro. Teve um fim de semana inteiro... e mais uma noite. Mas chega. Eu q
Deitado na cama dela, senti o peso do cansaço e do dia tumultuado, mas ali, com Isadora atravessada na cama e a cabeça apoiada na minha barriga, tudo parecia mais leve. Meus dedos brincavam com uma mecha dos cabelos dela, longos e macios, enquanto o silêncio confortável nos envolvia. Até que, de repente, ela o quebrou:— Como a Juliete está? — perguntou, a voz baixa, mas firme.Suspirei antes de responder, sabendo que a conversa que viria não seria fácil.— Confusa, o que era esperado. Fizeram todos os exames clínicos e neurológicos. Fisicamente, ela está bem. O cérebro também. Mas... perdeu a memória.— Não se lembra de nada?— Nada do acidente, nem de eu ter vindo para o Brasil. Para ela, ainda estamos na França, meu pai está vivo e a pandemia nem aconteceu.— Então, ela acredita que é sua mulher e que vocês são felizes... Você já contou?— Não. Os médicos pediram para ir aos poucos, deixar que ela recupere a memória sozinha. Só dissemos que ela sofreu um acidente e que estamos no B
Os dias seguintes foram um misto de tortura e calma forçada. No escritório, Isadora mantinha a distância emocional, dirigindo-se a mim apenas sobre assuntos de trabalho. Respeitei seu espaço e sua decisão, mesmo que cada segundo daquela barreira invisível entre nós me consumisse por dentro. Às vezes, enquanto ela estava concentrada nos projetos, eu me pegava observando-a, admirado pela mulher incrível que estava perdendo.Enquanto isso, em casa, Juliete seguia seu caminho de recuperação. Douglas e eu estávamos focados em ajudá-la a reconstruir a memória e a vida. Ela parecia determinada a assumir o papel de esposa perfeita, mas tudo aquilo soava vazio para mim. No primeiro final de semana, ela tentou se aproximar de mim de maneira mais íntima, mas recusei. Não só por respeito à Isadora, mas porque simplesmente não sentia mais nada por Juliete. Tudo que fazia era movido pela culpa e por respeito à nossa história de cinco anos. Queria encerrar aquele capítulo de forma digna e rápida par
Quando voltei para o escritório, já muito além do horário do expediente, encontrei minha sala vazia. Antes que pudesse me acomodar, Patrícia entrou logo atrás, com aquele ar de quem estava prestes a contar uma fofoca.— Senhor Johnny, procurei na agenda, mas não achei nenhum compromisso da Isadora. Só posso concluir que ela abandonou o expediente muito antes do horário. Como o senhor não deixou nada avisado, achei que deveria saber.Eu a encarei por alguns segundos, tentando conter o incômodo que sempre sentia ao ouvir sua voz cheia de insinuações. Patrícia já estava na empresa há quinze anos. Entrou assim que terminou o ensino médio, substituindo Sheila, que havia se casado com meu pai. Apesar da longa experiência, ela nunca perdeu o hábito de ser a maior fofoqueira do lugar.— Quanto antes do horário a dona Isadora saiu? — enfatizei o “dona” de propósito.— Assim que o senhor foi para a reunião, Isadora arrumou suas coisas e saiu dizendo que não voltava mais hoje.— Dona Isadora. El
Era domingo, e Laila e eu havíamos acabado de voltar para casa. Tínhamos tempo de sobra para preparar o almoço no meu apartamento. Depois de um fim de semana de diversão, ela estava tranquila e alegre, mas eu sabia que algo a incomodava. Enquanto picava os legumes para a salada, ela resolveu tocar no assunto que estava martelando em sua cabeça.— Isa, por que mesmo você resolveu gastar algumas centenas de milhares de reais esse fim de semana?Soltei uma risada, tentando desviar da seriedade da pergunta.— Estava demorando para você começar com as perguntas! Não está grata pelo dia maravilhoso que tivemos ontem?— Estou, e muito. Fazer caridade é uma das melhores coisas da vida. Mas nenhuma de nós duas costuma fazer caridade com o dinheiro dos outros.A voz dela soou séria. Laila sempre soube como atingir direto onde dói.— Você sempre se recusou a viver no luxo com o dinheiro do seu marido desconhecido. Depois que o conheceu, disse que ia devolver o cartão porque não queria sentir que
Fiquei observando Isadora ser recebida com entusiasmo por Douglas. Era a hora do show. Meu passaporte para a liberdade.Eleanor havia me convencido a fingir que acordava sem memória e ainda amava Danilo. Ela disse que bastava manter a farsa até que ela resolvesse algumas coisas e viesse em meu socorro. Para mim, parecia uma boa solução: fingir falta de memória era mais fácil, considerando que neurologicamente não havia nada de errado comigo. Se eu confrontasse Danilo diretamente, perderia a chance de sair daquela situação com alguma segurança financeira.Eu não entendia muito bem o plano de Eleanor. Ela apenas explicou por cima que Danilo estava apaixonado pela estagiária e que a falta de memória afastaria os dois até que ela pudesse dar o xeque-mate. Então, aceitei viver naquela mentira, contando tudo a Eleanor.Era uma tortura! Eu estava presa naquela casa, desempenhando o papel de boa esposa, ajudando aquela velha cheia de frescuras e vendo os dois velhos acreditando que viviam uma