Camila narrando :Segui meu trabalho normalmente, tentando esquecer a conversa com o rapaz do administrativo. Mas era difícil. Sempre que passava por aquela sala, sentia os olhares dele sobre mim.Mais tarde, quando já estava organizando as coisas na copa, um dos assistentes administrativos apareceu na porta.— Camila, o Eduardo pediu um café.Parei o que estava fazendo e assenti.— Já vou levar.Preparei a bandeja com a xícara, um pires e uma jarra de café fresco. Caminhei até a sala onde ele estava, batendo levemente na porta antes de entrar.— Com licença, senhor Eduardo. Seu café.Ele levantou os olhos do computador e sorriu.— Ah, que bom. Já estava sentindo falta.Coloquei a bandeja sobre a mesa, mas quando fui me afastar, ele me chamou:— Camila, né?Parei e olhei para ele.— Sim, senhor.Eduardo se recostou na cadeira, ainda me observando.— Você trabalha aqui há muito tempo? Estou aqui a dois dias e nunca te vi antes.— Já faz uns três anos. Mas eu fico mais na copa e nas ent
Guilherme narrando :Jamile estava sentada à minha frente, folheando o cardápio com um sorriso satisfeito. Eu, por outro lado, não conseguia me concentrar em nada. Meu humor já não estava dos melhores, e a viagem para o Rio na próxima semana só piorava tudo.— Você tá com a cara fechada de novo, Guilherme — ela disse, pousando o cardápio. — Tá pensando no trabalho?— Sempre, né? — respondi, pegando meu copo d’água.— Você anda estranho esses dias. Desde que soube que vai pro Rio, aliás — ela disse, me encarando.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Eu não gosto daquele lugar, Jamile. Você sabe.— Mas já faz sete anos, amor. Você precisa superar.Soltei uma risada sem humor.— Superar? Acha que é simples assim?— Você tá namorando comigo há mais de um ano, tem um império nas mãos, pode ter qualquer mulher que quiser… E ainda se deixa afetar pelo passado?A forma como ela falou me irritou.— Não é só sobre o passado. É sobre tudo que aquele lugar me lembra.Ela bufou, cr
Guilherme narrando :Fiquei ali, olhando pro celular, girando ele entre os dedos. Esses anos todos, nunca movi um dedo pra saber da Camila. Enterrei esse passado, ou pelo menos tentei. Mas agora, sabendo que eu tava indo pra cidade dela, alguma coisa dentro de mim despertou.Soltei um suspiro pesado e desbloqueei o telefone. Rolei a lista de contatos até encontrar o número do Medeiros, meu advogado de confiança. Apertei pra ligar e esperei.— Doutor Medeiros falando.— Medeiros, sou eu, Guilherme. Preciso que você descubra uma coisa pra mim.— Claro, Guilherme.O que seria?Passei a mão no rosto antes de falar.— Quero que descubra tudo que puder sobre uma pessoa, vou te mandar o nome dela completo e o endereço que eu sabia de uma casa de praia da família dela. Eu quero saber de tudo, onde mora, o que faz da vida… qualquer informação.Houve um breve silêncio do outro lado da linha antes dele responder.— Entendido. Vou levantar essas informações e te retorno assim que tiver algo.— Óti
Guilherme narrando :Na manhã seguinte, acordei mais cedo do que o normal. A verdade é que mal consegui dormir. A ideia de descobrir qualquer coisa sobre Camila estava me corroendo por dentro.Fiz minha rotina sem pressa, vesti um terno escuro e saí em direção ao escritório. Assim que entrei, pedi um café forte pra secretária e fui direto pra minha sala.Poucos minutos depois, Medeiros chegou. Ele era discreto, eficiente e não fazia perguntas desnecessárias, o que era exatamente o que eu precisava.— Conseguiu alguma coisa? — perguntei, tentando parecer indiferente, mas minha mão fechada em punho sobre a mesa mostrava o contrário.Medeiros abriu uma pasta e puxou alguns papéis.— Consegui sim. Meu coração ainda tava acelerado com a informação sobre a Camila, mas tentei manter a expressão neutra enquanto Medeiros continuava.— O pai dela vendeu tudo, está completamente falido. O outro filho dele, Marcelo, morreu assassinado por causa de dívidas.Eu encarei ele, absorvendo cada palavra
Guilherme narrando :Peguei o celular e abri a conversa com Medeiros. Ele ainda não tinha me mandado nenhuma atualização sobre Camila, e isso estava começando a me incomodar.Resolvi ligar. Ele atendeu no segundo toque.— Alguma novidade? — fui direto ao ponto.— Ainda nada concreto, Guilherme. Meu contato no Rio tá levantando umas informações, mas me garantiu que até amanhã me manda alguma coisa.Fechei os olhos e passei a mão no rosto, respirando fundo.— Amanhã eu já tô no Rio. Se precisar, eu mesmo vou atrás.— Acho que não vai ser necessário, mas qualquer coisa eu te aviso.— Beleza.Desliguei a chamada e encostei na cadeira, encarando a vista pela janela do meu escritório.Sete anos. Sete anos sem saber nada sobre ela. E agora, de repente, eu estava voltando pro lugar onde tudo começou.Levantei e peguei meu paletó. Se minha mãe já tinha arrumado minha mala, eu podia ir direto pra casa, tomar um banho, descansar um pouco e seguir pro aeroporto.Saí do escritório decidido. Eu ia
Camila narrando :O dia no trabalho foi como sempre: corrido, mas tranquilo. Passei a tarde servindo café, organizando as coisas na copa e ouvindo as conversas que rolavam pelos corredores. A fofoca do momento era sobre o novo dono da empresa, que chegaria em breve pra assumir tudo. Algumas funcionárias estavam animadas, outras preocupadas, mas eu só queria continuar fazendo meu trabalho e garantir meu salário no fim do mês.Quando bateu o horário, fui até o vestiário, troquei de roupa e saí. Caminhei até o elevador e, assim que as portas abriram, dei de cara com Eduardo. Ele tava escorado no fundo, mexendo no celular, mas assim que me viu, abriu um sorriso.— Oi, Camila. Tá indo embora agora?— Sim, tô indo pra casa — respondi, me encostando na parede do elevador.Ele guardou o celular no bolso e me olhou com atenção.— Quer carona? Tô com o carro lá embaixo.Balancei a cabeça.— Não precisa, eu moro perto, vou caminhando.— Ah, mas eu insisto — ele sorriu de lado. — Não custa nada t
Guilherme narrando :Eu cheguei no Rio já tarde, o voo tinha se atrasado um pouco, mas nada que me tirasse do sério. O importante era que eu estava ali, pronto para resolver o que precisava. Quando desembarquei, vi o Eduardo esperando por mim, aquele cara sempre foi bem pontual.— E aí, irmão, tudo certo? — Ele perguntou, puxando minha mala.— Tudo certo, mano. Vamos logo que tenho que resolver um monte de coisa — respondi, ajeitando minha jaqueta. O Rio já estava silencioso, a cidade parecia que já estava adormecida. O som do carro na estrada e as ondas ao fundo eram tudo o que eu ouvia.— Eu já reservei o hotel, mas se você preferir ir direto para a empresa amanhã, podemos passar lá primeiro — Eduardo sugeriu, olhando de vez em quando para o retrovisor.— Não, vou descansar hoje. Amanhã a gente resolve isso. Preciso estar de boa para encarar tudo — falei, mais para mim mesmo do que para ele. Não estava no clima de correr atrás de mais nada agora.Quando chegamos no hotel, me despedi
Camila narrando :Acordei cedo, como sempre. O sol ainda estava fraco, mas a rotina não esperava. Levantei da cama e fui direto para o banheiro, tomei um banho rápido, tentando despertar de vez. Quando saí, Gabi ainda estava dormindo, abraçada ao ursinho de pelúcia. Fiquei ali por um instante, admirando a carinha tranquila dela, até que decidi acordá-la.Chamei ela baixinho, mexendo no cobertor para que ela despertasse aos poucos.— Gabi, filha... já tá na hora de acordar, vamos tomar banho, menina.Ela abriu os olhinhos, me olhou com aquele olhar preguiçoso de quem não queria sair da cama e fez aquele biquinho. Eu ri, porque sabia que em instantes ela estaria pulando de um lado para o outro, cheia de energia.Fui pegar a toalha e, enquanto ela ainda estava se espreguiçando, fui ligando a água do chuveiro. A água morna logo fez ela sorrir e, antes que eu percebesse, já estava me pedindo para jogar a espuma do sabonete na parede, como sempre fazia.— Mãe, olha, tô fazendo a parede vira