Camila narrandoMaria me ajudou a arrumar uma mochila com algumas roupas, meus documentos e um pouco de dinheiro que ela conseguiu juntar. Peguei em cima do meu closet, na parte do malero uma caixinha que minha mãe tinha me dado antes de morrer, estava cheia de jóias dela, era a única coisa de valor que eu tinha. Meu coração batia forte, o medo misturado com a tristeza, porque eu sabia que, a partir do momento que saísse daquela casa, não tinha mais volta.— A gente precisa sair antes do seu pai chegar — Maria falou baixinho, espiando pela janela.Assenti, engolindo o choro. Eu não podia me dar ao luxo de desabar agora.Saímos pela porta dos fundos, andando rápido até uma viela mais afastada. Maria chamou um mototáxi conhecido dela, e em poucos minutos eu já estava subindo na garupa, com a mochila apertada contra o peito.— Assim que chegar lá, me liga — ela pediu, segurando minha mão. — E não esquece, você não tá sozinha, minha filha.— Obrigada, Maria… — minha voz saiu embargada, e
Camila narrando :Passei o dia ajudando a dona Ana nos afazeres da casa. A noite passou devagar, o cansaço me dominou e eu acabei pegando no sono quase sem perceber. Quando acordei no outro dia, a luz do sol já entrava pela janela, e eu ainda estava um pouco atordoada com tudo o que aconteceu. O silêncio na casa era estranho, mas logo ouvi vozes vindas da cozinha.Me levantei, fui ao banheiro fazer minha higiene e, assim que terminei, desci as escadas, sentindo os passos ecoando na casa vazia. Quando entrei na cozinha, dona Ana e a Maria estava lá, com quatro malas grandes ao lado dela. Meu coração apertou, e a preocupação tomou conta de mim.— O que aconteceu, Maria? — perguntei, ainda tentando processar o que estava acontecendo.Ela olhou pra mim com um semblante cansado e triste, como se o peso de tudo tivesse caído sobre ela de uma vez.— Seu pai me mandou embora — ela disse, com a voz trêmula. — Disse que vendeu a casa e não precisa mais dos meus serviços. Eu trouxe tudo o que vo
Camila narrando :Depois de tomar o café, fui pro quarto me arrumar. Peguei uma roupa simples, vesti devagar, sentindo o peso da situação. Ainda era difícil acreditar em tudo que tinha acontecido. Em poucos dias, minha vida virou de cabeça pra baixo. Expulsa de casa, grávida, sem saber direito o que fazer. Mas Maria estava comigo, e isso me dava um pouco de conforto.Quando terminei de me arrumar, voltei pra sala, onde Maria já me esperava com a bolsa na mão.— Tá pronta, filha? — ela perguntou, me olhando com aquele jeito protetor dela.— Tô, né… — suspirei, pegando minha bolsa. — Não tem muito o que fazer, né, Maria?Ela sorriu fraco e passou a mão no meu cabelo.— Tem sim, Camila. A gente faz o que precisa ser feito, um dia de cada vez.Saímos juntas, pegamos um ônibus e seguimos pro posto de saúde. O caminho foi silencioso, só o barulho da cidade ao redor. Eu olhava pela janela, pensando em tudo que tava acontecendo. Será que Guilherme ia voltar um dia? Será que eu conseguiria cri
7 anos depois Camila narrando :Maria cuidou de mim como uma mãe. Durante toda a gravidez, foi ela que me ajudou, que me deu força quando eu achei que não ia conseguir. Quando a Gabriela nasceu, foi ela que ficou do meu lado na maternidade, segurando minha mão, dizendo que eu era forte e que minha filha ia ser minha razão de viver.E foi mesmo. Desde o primeiro momento que eu vi aquele rostinho moreninho, tão parecido com o Guilherme, eu soube que tudo valia a pena. Mas criar a Gabi sozinha não foi fácil.Passei muitas noites em claro, preocupada com o futuro, com as contas, com o que eu ia dar pra ela. Não voltei a estudar, porque precisava trabalhar. Arrumei emprego como copeira numa empresa grande, e com o dinheiro do salário, eu conseguia pagar as contas e dar uma vida simples pra minha filha. Maria se aposentou e, mesmo com pouco, me ajudava no que podia. Gabriela cresceu chamando ela de vó, e pra mim, era isso que ela era. Minha mãe, minha família.Cada reunião da escola era um
Guilherme narrando:Esses sete anos passaram voando, mas também, cada um deles foi uma eternidade. Eu nunca consegui esquecer a Camila, nem por um segundo. No começo, cara, foi difícil demais. Eu me sentia perdido, vazio, sem rumo. Tudo o que eu mais queria era voltar no tempo, voltar pra ela, aceitar as desculpas, tentar consertar o que tinha acontecido. Mas eu sabia que não tinha mais jeito, que ela tinha me traído e que eu tinha que esquecer ela. A dor era constante, tipo uma faca no peito que não parava de apertar. Tentei seguir minha vida, estudar, trabalhar, mas tudo parecia sem sentido.Minha mãe sempre foi minha conselheira. Ela via o quanto eu sofria e tentava me dar força, dizia que eu tinha que seguir em frente, que a vida ia me mostrar o caminho. Ela até tentou me arranjar umas namoradinhas, mas eu não conseguia gostar de ninguém como eu gostava da Camila. Não era nem questão de comparações, era que no fundo eu sabia que ela era única pra mim. O amor que eu sentia por ela
Guilherme narrando :Continuação :Eu fico pensando, com certeza a Camila deve ter casado com algum filho de papai, desses caras que só querem ostentar, vive de luxo e vida fácil. Acho que ela deve estar por aí, vivendo a vida de dondoca, sem ter que se preocupar com nada. Deve estar em algum apartamento cheio de regalias, comendo fora todo dia, indo a eventos chiques, enquanto eu aqui, construí minha vida do zero. Sei que ela deve ter se acomodado, trocado as dificuldades por um mundinho perfeito, onde tudo é fácil e confortável.Eu até fico pensando se ela se arrependeu de não ter ficado comigo, mas sei lá... talvez ela tenha encontrado alguém que a preenche de um jeito que eu nunca conseguiria. Ela, que sempre quis uma vida boa, sempre sonhou com o melhor, deve ter encontrado seu príncipe encantado, alguém que a tratasse como ela achava que merecia. Eu, no fim das contas, estou aqui, construindo um império, mas me falta o que mais importava, o que sempre esteve na minha mente: ela.
Camila narrando :Eu dei um beijo na testa da Gabi antes de vê-la correr pro pátio da escola. Ela estava crescendo rápido demais, já não precisava que eu a acompanhasse até a sala. Me dava um orgulho enorme ver minha filha ali, estudando, sonhando, sendo feliz.Respirei fundo e ajeitei a bolsa no ombro antes de seguir meu caminho. Ainda bem que meu trabalho ficava perto e eu não precisava gastar com passagem. Cada centavo que eu economizava era pra garantir que nada faltasse pra Gabi.O sol ainda tava ameno, e o vento da manhã fazia meu cabelo voar um pouco enquanto eu caminhava. Eu gostava desse trajeto, por mais simples que fosse. Era um momento meu, em que eu podia respirar, pensar, organizar na minha cabeça tudo o que eu precisava fazer no dia.Trabalhar como copeira não era o que eu sonhei pra mim, mas era um emprego digno, e eu fazia tudo com capricho. Eu nunca tive luxo, mas também nunca fui preguiçosa. Já lavei banheiro, já limpei chão, já fiz de tudo um pouco. O que importava
Camila narrando :Segui meu trabalho normalmente, tentando esquecer a conversa com o rapaz do administrativo. Mas era difícil. Sempre que passava por aquela sala, sentia os olhares dele sobre mim.Mais tarde, quando já estava organizando as coisas na copa, um dos assistentes administrativos apareceu na porta.— Camila, o Eduardo pediu um café.Parei o que estava fazendo e assenti.— Já vou levar.Preparei a bandeja com a xícara, um pires e uma jarra de café fresco. Caminhei até a sala onde ele estava, batendo levemente na porta antes de entrar.— Com licença, senhor Eduardo. Seu café.Ele levantou os olhos do computador e sorriu.— Ah, que bom. Já estava sentindo falta.Coloquei a bandeja sobre a mesa, mas quando fui me afastar, ele me chamou:— Camila, né?Parei e olhei para ele.— Sim, senhor.Eduardo se recostou na cadeira, ainda me observando.— Você trabalha aqui há muito tempo? Estou aqui a dois dias e nunca te vi antes.— Já faz uns três anos. Mas eu fico mais na copa e nas ent