V. Guarda-Costas

A noite parecia interminável.

Serena rolava na cama, incapaz de desligar sua mente. O silêncio da madrugada deveria ser reconfortante, mas, em vez disso, tornava o peso da noite anterior ainda mais intenso. A sensação de estar sendo observada, o arrepio na espinha, a sombra que se moveu no limite da floresta... Tudo se repetia em sua cabeça como um ciclo sem fim.

Ela fechava os olhos, tentava se forçar a dormir, mas, sempre que conseguia um pouco de descanso, um par de olhos prateados emergia da escuridão em sua mente.

O mesmo lobo.

Observando.

Esperando.

O som estridente do despertador a arrancou do torpor, fazendo-a se erguer de súbito, o coração disparado. Seu peito subia e descia enquanto piscava algumas vezes, tentando se situar. O quarto ainda estava em penumbra, iluminado apenas pelas frestas de luz que escapavam da cortina.

Respirou fundo.

Era fim de semana. Uma folga merecida.

Ela precisava tirar a cabeça disso.

☽❂☾

Depois de um banho morno para aliviar a tensão, Serena escolheu um vestido confortável, calçou suas botas e prendeu parte dos cabelos, deixando algumas mechas soltas para moldar seu rosto. Ela queria se sentir normal, pelo menos por algumas horas.

Saiu de casa e caminhou sem pressa até uma cafeteria local que adorava, um lugar aconchegante com aroma de café fresco e pães assando no forno. Assim que entrou, foi recebida pelo barulho ameno das conversas e pelo tilintar de xícaras.

Fez seu pedido e se sentou perto da janela, abrindo o livro que trouxera consigo. No entanto, sua atenção logo se desviou quando seus olhos caíram sobre uma silhueta familiar.

Dominic.

Ele estava sentado a algumas mesas de distância, vestindo uma camisa cinza claro com as mangas dobradas até os antebraços e uma calça jeans de mesma cor bem ajustada. Segurava uma xícara de café e parecia absorto em alguma leitura.

Serena estreitou os olhos, sentindo a irritação borbulhar.

"Ele está me seguindo?"

A ideia a incomodou, mas, ao mesmo tempo, havia algo nele que a fazia hesitar antes de tirar conclusões precipitadas.

Respirando fundo, fechou o livro e se levantou, indo até ele.

— Isso está virando um hábito? — disse, cruzando os braços.

Dominic ergueu o olhar e, ao reconhecê-la, abriu um sorriso genuíno.

— Que coincidência agradável.

O tom leve, a forma cortês como ele se portava... O modo como aquele sorriso parecia sincero. Serena sentiu sua rigidez se dissipar um pouco.

"Droga."

Ele realmente tinha um jeito de cavaleiro, como se estivesse sempre pronto para segurar portas, oferecer casacos ou se levantar à menor necessidade. Mas, ao mesmo tempo, havia um ar inegável de perigo contido nos olhos prateados. Um tipo de domínio silencioso que deixava qualquer mulher vulnerável com um simples olhar.

— Vai ficar aí me interrogando ou aceita um café? — ele perguntou, divertido.

Serena revirou os olhos e puxou a cadeira, sentando-se diante dele.

— Eu já pedi o meu, obrigada.

Dominic sorriu de lado, parecendo satisfeito.

O início da conversa foi leve, e Serena se surpreendeu ao perceber que estava relaxando. Ele fazia perguntas triviais, falava sobre livros, música, filmes… E, sem perceber, ela também foi compartilhando pequenos detalhes sobre si mesma.

Até que Dominic inclinou a cabeça, observando-a com atenção.

— Você parece cansada.

Serena hesitou por um momento, mas acabou contando sobre a sensação de estar sendo observada e sobre a sombra que viu na noite anterior.

Os traços de Dominic ficaram mais sérios.

— Isso não é paranoia — disse, firme. — Você precisa se proteger, Serena.

Ela desviou o olhar, mordendo o lábio.

— Eu ainda não sei no que acreditar.

— Acredite em mim.

O tom firme e a intensidade em seu olhar fizeram algo se revirar dentro dela. Pela primeira vez, Serena viu um lado mais humano dele.

— Eu... vou pensar — cedeu, depois de um longo silêncio.

Dominic assentiu, parecendo aceitar isso por enquanto.

Quando chegou a conta, ele a pegou antes que Serena pudesse protestar.

— Eu pago.

— Dominic… — Ela franziu o cenho.

— Considere um agrado por ter me feito companhia.

Ela suspirou, mas sorriu de leve.

— Obrigada.

Eles saíram da cafeteria juntos, caminhando sem rumo pela cidade. O dia foi passando enquanto trocavam histórias, e Serena se surpreendeu ao conhecer mais sobre ele.

Dominic contou sobre sua infância, sobre ser o mais velho de três irmãos e a responsabilidade de ser um exemplo para eles. Falou de sua disciplina, de sua matilha unida, de sua vida fora do mundo lupino. Serena sentiu a sinceridade em suas palavras.

— Deve ser bom ter uma família assim — Comentou, sem perceber que sua voz saiu um pouco amarga.

Dominic olhou para ela, como se captasse algo profundo ali.

— Você não é próxima de sua família?

Ela deu de ombros.

— Nunca fizeram questão. — Dominic olhou com pena para Serena, mas ela deu de ombros como se não se importasse com aquele fato e estivesse conformada. — Então... O senhor é o garoto propaganda ideal dos comerciais de margarina? A família perfeita e feliz? — Ambos sorrimos com o meu comentário.

Ele permaneceu em silêncio por um momento, mas logo acabou compartilhando mais sobre seus irmãos de matilha e a ligação forte que tinham. Mas, em algum momento, sua expressão se fechou.

— Minha vida em um geral foi sim muito feliz e realizada, sem muitos eventos traumáticos ou coisas do gênero, de fato sou muito grato. — Fez uma pausa como se estivesse se perdendo em suas memórias por um instante. — O único fato que realmente me sinto eternamente culpado e que me machuca é que minha ex-noiva morreu — Revelou, a voz mais baixa. — Ela estava grávida.

Serena piscou, surpresa.

— Sinto muito por isso… Mas lobos e humanos podem ter filhos normais, não podem? Digo... Eles serão humanos, não há um perigo em se abdicar de sua vida lupina.

Dominic desviou o olhar.

— Nem sempre as coisas saem como esperamos.

Havia uma tristeza densa ali. Serena sentiu vontade de perguntar mais, mas algo no semblante dele a fez desistir.

O tempo passou, e quando deram por si, já estava escurecendo.

Foi quando tudo aconteceu rápido demais.

Eles entraram em uma rua mais deserta quando, de repente, três figuras surgiram das sombras. Serena sentiu algo bater contra ela e caiu no chão, ofegante.

Não sabiam como ou de onde haviam surgido, mas três silhuetas totalmente cobertas de preto se faziam presentes no ambiente, cada uma com uma arma grande em mãos apontando para Dominic e Serena.

Dominic se moveu instantaneamente, se colocando na frente dela.

— Fique atrás de mim.

Havia algo de letal em seu tom. Então, num piscar de olhos, ele se transformou.

A pele deu lugar à pelagem escura. Os olhos prateados brilharam na penumbra. O lobo negro de seus sonhos estava bem diante dela.

Serena sentiu o ar escapar de seus pulmões, ficou vidrada na imagem do lobo a sua frente que não sabia porque mais lhe provocava sensações indescritíveis.

"Ele..."

Dominic rosnou, e em poucos movimentos, se livrou de seus oponentes com uma brutalidade calculada, até tentaram atirar no alfa, mas em vão, ele era ágil e muito habiloso, uma batalha que até seria uma perda de tempo considerando seu porte. Em seguida, voltou à forma humana, respirando pesadamente.

Serena congelou.

Dominic estava parado diante dela, completamente nu.

O corpo alto e musculoso como se fosse lapidado pelos deuses, os contornos fortes, a pele quente mesmo sob a brisa fria da noite e ao mesmo tempo pálida como o gelo. Ela não percebeu quando espontaneamente acabou olhando para baixo e encarando brevemente seus "Países Baixos". Seu rosto deveria estar explodindo de tão vermelho enquanto o moreno parecia se divertir com o nervosismo alheio.

Ela virou o rosto, engolindo em seco.

— Dominic!

Ele riu baixo.

— Está tímida agora? Depois de tanto me enfrentar?

Serena sentiu o rosto pegar fogo e formigar.

Mas logo ele limpou a garganta e se concentrou novamente. Buscando os restos de suas roupas que rasgaram e tentando tampar, de alguma forma, as suas partes íntimas para não constranger mais sua companhia.

— Agora entende o que quero dizer? Você não pode mais ficar sozinha.

Serena mordeu o lábio, hesitando.

Ela olhou nos olhos dele.

— Tá bom... Eu vou com você.

Dominic assentiu, estendendo a mão.

Serena a segurou.

Ela mal podia esperar por tudo que ainda viria a acontecer.

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