Capítulo 2: Renascida

Melanie Pov

A indignação começa a ferver dentro de mim, mesmo quando minhas forças se esvaem. É assim que tudo termina? Assim que minha história chega ao fim? Traída. Descartada. Assassinada pelas duas pessoas que eu mais amava e confiava. Minha própria irmã. Meu próprio marido. Meu coração aperta, mas não apenas pela dor física — essa já está se tornando dormente, como se meu corpo estivesse desistindo. O que me corrói agora é o ódio, a injustiça, o desespero. Meu bebê… meu bebê nunca terá a chance de viver. Não merecemos acabar assim.

“Não… você não merece.” A voz surge do nada, suave como o toque de uma brisa, mas preenchendo cada canto da minha mente com uma presença indescritível.

“Quem é você?” Minha pergunta sai num fiapo de voz, fraca, sem esperança.

“Sou quem vai te salvar.” Há algo de enigmático naquela voz, algo ancestral e poderoso. “Mas se eu te der essa chance, você precisa fazer diferente desta vez.”

O mundo ao meu redor parece se dissolver. A dor some, a realidade se despedaça como vidro estilhaçado, e tudo que resta é a escuridão. Uma escuridão densa, absoluta, mas que não me assusta. Pelo contrário, ela me embala, me envolve, me conforta como um cobertor quente em uma noite fria.

“Se vingue, mas não se esqueça de amar também.”

O som dessas palavras paira em minha mente, ecoando como um comando.

“Não irei amar nunca mais,” retruco amargurada. “Me dê somente a vingança!”

O silêncio toma conta, e então o nada me engole.

De repente, eu acordo.

Minha respiração se prende no peito ao sentir a textura macia dos lençóis ao meu redor. O cheiro no ar não é de fumaça ou sangue, mas de lavanda e sabão fresco. O quarto está banhado por uma luz suave e dourada que atravessa as cortinas. Pisco uma, duas vezes, tentando entender. O colchão abaixo de mim é macio, confortável. O cheiro… familiar. Eu conheço esse lugar.

Com um sobressalto, viro a cabeça, percorrendo cada canto do quarto com olhos arregalados. Meu quarto. O quarto da minha juventude, na casa dos meus pais. Minha mente grita que isso é impossível, que eu deveria estar morrendo no chão frio, ensanguentada, traída e abandonada.

Meu coração martela contra o peito quando a porta se abre e uma figura atravessa a soleira.

“Bom dia, aniversariante!” mamãe diz com alegria.

Minha mãe, Tina, está diante de mim, sorrindo. Meu coração parece se contorcer dentro do peito, um turbilhão de emoções me atingindo de uma vez só. Meu Deus, como eu senti falta dela. Como eu daria tudo para tê-la de volta. Mas… ela está aqui. Ela está viva.

Eu não entendo. Isso é um sonho? Uma ilusão?

Antes que eu consiga formular qualquer palavra, ela caminha até mim e envolve meus ombros em um abraço quente e apertado. O cheiro dela me envolve — rosas e baunilha — e por um momento, só por um momento, me permito esquecer tudo. Esquecer a dor, a traição, a morte.

“Meu aniversário?” questiono confusa.

“Sim, minha lobinha! Já está esquecida com vinte e um anos?” Ela responde brincalhona.

Minha mente gira. Vinte e um. Três anos antes de tudo. Antes da invasão. Antes da traição. Antes de Bea e Karl arrancarem tudo de mim. A náusea sobe à minha garganta. Meu corpo estremece.

Então, como um veneno rastejando pelas minhas veias, o nome dela atravessa meus pensamentos. Bea. E, como se invocada, minha irmã aparece na porta do quarto, radiante, com aquele brilho inocente nos olhos.

“Oi, maninha! Vamos, papai já está esperando para o café da manhã!” Bea declara animada.

Meu corpo reage antes que eu consiga pensar. Meu coração acelera, meus músculos enrijecem, e cada instinto dentro de mim grita perigo. Mas não. Não ainda.

Eu a encaro, absorvendo cada detalhe de seu rosto jovial, suas feições tão familiares, tão cheias de vida. Três anos antes. Antes dela se tornar um monstro. Antes dela puxar o gatilho contra mim. Antes de tudo desmoronar.

Uma oportunidade. Uma segunda chance. E eu não a desperdiçarei.

“Só me deem um minuto e eu já desço,” digo com delicadeza, controlando o meu desgosto por minha irmã mais nova.

Assim que a porta do quarto se fecha atrás da minha mãe e da minha irmã, me deixando sozinha, minha máscara se despedaça.

Meu corpo desaba na cama, o peito apertado por uma dor sufocante, as lágrimas silenciosas deslizando por meu rosto sem que eu tenha forças para impedi-las. Minhas mãos tremem ao pressionarem meu ventre vazio, e uma onda avassaladora de sofrimento me atinge como um maremoto furioso. Meu bebê. O meu bebê. Eu nem tive a chance de sentir seus chutes, de sussurrar promessas para ele, de saber se seria um menino ou uma menina. Fui arrancada dessa possibilidade, desse futuro, com uma brutalidade cruel e impiedosa.

Minha respiração se torna errática, um soluço preso em minha garganta enquanto tento processar tudo. Mas não há tempo para luto. Não há espaço para desespero. A dor se transforma, se molda dentro de mim, endurecendo como pedra, se transmutando em algo ainda mais perigoso. Ódio.

Levanto-me, cambaleante, e caminho até o espelho. Meu reflexo me encara de volta, e por um instante, eu quase não me reconheço. Os olhos que vejo são intensos, carregados de uma fúria letal, uma determinação inquebrável. Sei o que preciso fazer. Eu sei exatamente o que quero.

“Eu vou destruí-los!”

Desço para tomar café da manhã com meus pais e Bea.

Assim que chego à sala de jantar, vejo minha família reunida. Meu pai, Tyler, abre um largo sorriso ao me ver. Seus olhos brilhantes de orgulho me perfuram, e por um instante sinto uma pontada de culpa por tudo o que sei que está por vir.

“Aí está, a minha linda filha! Feliz aniversário, minha princesa!” Ele declara com entusiasmo, sua voz cheia de calor e amor incondicional.

Eu o abraço com força, sentindo saudades do seu afeto depois de tantos anos afastada.

Durante o café da manhã, a conversa gira em torno dos preparativos para o banquete do meu aniversário. Meu pai e minha mãe falam animadamente sobre a grandiosidade do evento — todas as alcateias importantes estarão presentes, será uma celebração inesquecível. Meu coração se aperta ao lembrar que, em minha vida anterior, esse também foi o começo do meu fim.

“Logo mais estaremos também fazendo a festa de noivado da Mel e do Karl, não é, maninha?” Bea sugere com um sorriso no rosto que me deixa irritada.

Lembro-me agora de como Bea sempre me empurrou para ficar com Karl. Em minha antiga vida, meus pais não haviam apoiado de imediato a minha escolha de casar tão jovem, mas Bea sim. Ela incentivou minha união com Karl. Será que desde agora eles já estavam tendo um caso?

“Bem, eu andei pensando e acho que vocês têm razão, mamãe e papai,” digo com a voz mais delicada. “Não há necessidade para que eu me case agora.”

O alívio nos rostos de meus pais é evidente. Vejo minha mãe assentir levemente, meu pai relaxar os ombros. Mas Bea… Bea se enrijece. Suas sobrancelhas se franzem, sua boca se curva para baixo em um quase imperceptível traço de irritação.

“Como assim, Melanie?” Sua voz perde um pouco da doçura artificial. “Você não quer mais se casar com Karl?”

“Tenho apenas vinte e um anos e ele trinta e cinco,” respondo. “Preciso de tempo para pensar.”

“Mas você não pode!” Bea rebate exaltada. “Karl já te marcou como companheira! Você deve se casar com ele, seria desonroso para a nossa matilha que você se recusasse a se casar com ele.”

Minha paciência está no limite. Cada palavra dela é um lembrete de seu papel na minha ruína, de sua traição vil e egoísta. Mas não posso explodir. Não agora. Respiro fundo, mantendo minha compostura. Então, ergo meu olhar e cravo meus olhos nos dela.

“Não, na realidade, Karl nunca me marcou como sua companheira. Não tenho vínculo com ele,” declaro decidida.

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