Melanie Pov
A indignação começa a ferver dentro de mim, mesmo quando minhas forças se esvaem. É assim que tudo termina? Assim que minha história chega ao fim? Traída. Descartada. Assassinada pelas duas pessoas que eu mais amava e confiava. Minha própria irmã. Meu próprio marido. Meu coração aperta, mas não apenas pela dor física — essa já está se tornando dormente, como se meu corpo estivesse desistindo. O que me corrói agora é o ódio, a injustiça, o desespero. Meu bebê… meu bebê nunca terá a chance de viver. Não merecemos acabar assim. “Não… você não merece.” A voz surge do nada, suave como o toque de uma brisa, mas preenchendo cada canto da minha mente com uma presença indescritível. “Quem é você?” Minha pergunta sai num fiapo de voz, fraca, sem esperança. “Sou quem vai te salvar.” Há algo de enigmático naquela voz, algo ancestral e poderoso. “Mas se eu te der essa chance, você precisa fazer diferente desta vez.” O mundo ao meu redor parece se dissolver. A dor some, a realidade se despedaça como vidro estilhaçado, e tudo que resta é a escuridão. Uma escuridão densa, absoluta, mas que não me assusta. Pelo contrário, ela me embala, me envolve, me conforta como um cobertor quente em uma noite fria. “Se vingue, mas não se esqueça de amar também.” O som dessas palavras paira em minha mente, ecoando como um comando. “Não irei amar nunca mais,” retruco amargurada. “Me dê somente a vingança!” O silêncio toma conta, e então o nada me engole. De repente, eu acordo. Minha respiração se prende no peito ao sentir a textura macia dos lençóis ao meu redor. O cheiro no ar não é de fumaça ou sangue, mas de lavanda e sabão fresco. O quarto está banhado por uma luz suave e dourada que atravessa as cortinas. Pisco uma, duas vezes, tentando entender. O colchão abaixo de mim é macio, confortável. O cheiro… familiar. Eu conheço esse lugar. Com um sobressalto, viro a cabeça, percorrendo cada canto do quarto com olhos arregalados. Meu quarto. O quarto da minha juventude, na casa dos meus pais. Minha mente grita que isso é impossível, que eu deveria estar morrendo no chão frio, ensanguentada, traída e abandonada. Meu coração martela contra o peito quando a porta se abre e uma figura atravessa a soleira. “Bom dia, aniversariante!” mamãe diz com alegria. Minha mãe, Tina, está diante de mim, sorrindo. Meu coração parece se contorcer dentro do peito, um turbilhão de emoções me atingindo de uma vez só. Meu Deus, como eu senti falta dela. Como eu daria tudo para tê-la de volta. Mas… ela está aqui. Ela está viva. Eu não entendo. Isso é um sonho? Uma ilusão? Antes que eu consiga formular qualquer palavra, ela caminha até mim e envolve meus ombros em um abraço quente e apertado. O cheiro dela me envolve — rosas e baunilha — e por um momento, só por um momento, me permito esquecer tudo. Esquecer a dor, a traição, a morte. “Meu aniversário?” questiono confusa. “Sim, minha lobinha! Já está esquecida com vinte e um anos?” Ela responde brincalhona. Minha mente gira. Vinte e um. Três anos antes de tudo. Antes da invasão. Antes da traição. Antes de Bea e Karl arrancarem tudo de mim. A náusea sobe à minha garganta. Meu corpo estremece. Então, como um veneno rastejando pelas minhas veias, o nome dela atravessa meus pensamentos. Bea. E, como se invocada, minha irmã aparece na porta do quarto, radiante, com aquele brilho inocente nos olhos. “Oi, maninha! Vamos, papai já está esperando para o café da manhã!” Bea declara animada. Meu corpo reage antes que eu consiga pensar. Meu coração acelera, meus músculos enrijecem, e cada instinto dentro de mim grita perigo. Mas não. Não ainda. Eu a encaro, absorvendo cada detalhe de seu rosto jovial, suas feições tão familiares, tão cheias de vida. Três anos antes. Antes dela se tornar um monstro. Antes dela puxar o gatilho contra mim. Antes de tudo desmoronar. Uma oportunidade. Uma segunda chance. E eu não a desperdiçarei. “Só me deem um minuto e eu já desço,” digo com delicadeza, controlando o meu desgosto por minha irmã mais nova. Assim que a porta do quarto se fecha atrás da minha mãe e da minha irmã, me deixando sozinha, minha máscara se despedaça. Meu corpo desaba na cama, o peito apertado por uma dor sufocante, as lágrimas silenciosas deslizando por meu rosto sem que eu tenha forças para impedi-las. Minhas mãos tremem ao pressionarem meu ventre vazio, e uma onda avassaladora de sofrimento me atinge como um maremoto furioso. Meu bebê. O meu bebê. Eu nem tive a chance de sentir seus chutes, de sussurrar promessas para ele, de saber se seria um menino ou uma menina. Fui arrancada dessa possibilidade, desse futuro, com uma brutalidade cruel e impiedosa. Minha respiração se torna errática, um soluço preso em minha garganta enquanto tento processar tudo. Mas não há tempo para luto. Não há espaço para desespero. A dor se transforma, se molda dentro de mim, endurecendo como pedra, se transmutando em algo ainda mais perigoso. Ódio. Levanto-me, cambaleante, e caminho até o espelho. Meu reflexo me encara de volta, e por um instante, eu quase não me reconheço. Os olhos que vejo são intensos, carregados de uma fúria letal, uma determinação inquebrável. Sei o que preciso fazer. Eu sei exatamente o que quero. “Eu vou destruí-los!” Desço para tomar café da manhã com meus pais e Bea. Assim que chego à sala de jantar, vejo minha família reunida. Meu pai, Tyler, abre um largo sorriso ao me ver. Seus olhos brilhantes de orgulho me perfuram, e por um instante sinto uma pontada de culpa por tudo o que sei que está por vir. “Aí está, a minha linda filha! Feliz aniversário, minha princesa!” Ele declara com entusiasmo, sua voz cheia de calor e amor incondicional. Eu o abraço com força, sentindo saudades do seu afeto depois de tantos anos afastada. Durante o café da manhã, a conversa gira em torno dos preparativos para o banquete do meu aniversário. Meu pai e minha mãe falam animadamente sobre a grandiosidade do evento — todas as alcateias importantes estarão presentes, será uma celebração inesquecível. Meu coração se aperta ao lembrar que, em minha vida anterior, esse também foi o começo do meu fim. “Logo mais estaremos também fazendo a festa de noivado da Mel e do Karl, não é, maninha?” Bea sugere com um sorriso no rosto que me deixa irritada. Lembro-me agora de como Bea sempre me empurrou para ficar com Karl. Em minha antiga vida, meus pais não haviam apoiado de imediato a minha escolha de casar tão jovem, mas Bea sim. Ela incentivou minha união com Karl. Será que desde agora eles já estavam tendo um caso? “Bem, eu andei pensando e acho que vocês têm razão, mamãe e papai,” digo com a voz mais delicada. “Não há necessidade para que eu me case agora.” O alívio nos rostos de meus pais é evidente. Vejo minha mãe assentir levemente, meu pai relaxar os ombros. Mas Bea… Bea se enrijece. Suas sobrancelhas se franzem, sua boca se curva para baixo em um quase imperceptível traço de irritação. “Como assim, Melanie?” Sua voz perde um pouco da doçura artificial. “Você não quer mais se casar com Karl?” “Tenho apenas vinte e um anos e ele trinta e cinco,” respondo. “Preciso de tempo para pensar.” “Mas você não pode!” Bea rebate exaltada. “Karl já te marcou como companheira! Você deve se casar com ele, seria desonroso para a nossa matilha que você se recusasse a se casar com ele.” Minha paciência está no limite. Cada palavra dela é um lembrete de seu papel na minha ruína, de sua traição vil e egoísta. Mas não posso explodir. Não agora. Respiro fundo, mantendo minha compostura. Então, ergo meu olhar e cravo meus olhos nos dela. “Não, na realidade, Karl nunca me marcou como sua companheira. Não tenho vínculo com ele,” declaro decidida.Melanie Pov“Bea, sua irmã está certíssima,” mamãe responde com calma. “Ficamos felizes em saber disso, minha lobinha. Você tem muito ainda o que viver, casamento não precisa estar no topo da sua lista.”“Somente me preocupo com a reação de Karl”, Bea insiste, sua voz levemente afetada por uma falsa preocupação, mas seus olhos, frios como gelo, me perfuram com uma intensidade que me faz apertar os punhos sob a mesa. “Ele é próximo do rei lycan, primo e sucessor ao trono.”Tyler balança a cabeça em discordância com a preocupação de minha irmã. O comentário dela me faz sentir um calafrio percorrer minha espinha, como se uma sombra antiga tentasse se agarrar a mim. O medo tenta se infiltrar nas rachaduras do meu ser, sussurrando memórias de outra vida, memórias de uma Melanie ingênua e apaixonada, que se jogou cegamente nos braços de Karl, se afastando da família que agora me cerca com preocupação e amor.Naquela vida, eu era teimosa. Eu estava tão convencida de que Karl era minha alma g
Karl Pov Observo Melanie de longe após sua rejeição. Meus olhos acompanham cada um de seus movimentos enquanto ela se afasta, e algo dentro de mim se remexe com inquietação. Ela não parece abalada. Não há hesitação em seus passos. Seu rosto não demonstra confusão ou arrependimento. O que diabos aconteceu? Como isso é possível? Bea me garantiu dias atrás que sua irmã mais velha aceitaria sem pestanejar. Disse com todas as letras que Melanie sempre foi obcecada por mim, que sonhava com o dia em que eu a tomaria como esposa. Mas agora… agora ela está diferente. Distante. Reservada. Como se não fosse mais a mesma garota que sempre me olhava com adoração.Meus punhos se fecham ao lado do corpo, e a irritação começa a borbulhar em meu peito. Para onde foi a minha lobinha ingênua e apaixonada? O que aconteceu com aquele olhar brilhante que sempre me buscava na multidão, como se eu fosse o único homem que importava no mundo? O que será que está se passando em sua mente? Seja lá o que for, u
Melanie PovNoto minha irmã Bea voltando para o salão de festa após ter desaparecido por um tempo considerável. Seus cabelos estão um pouco desalinhados e há um brilho suspeito em seus olhos, um vestígio de satisfação mal contida. Meu olhar varre o salão, buscando Karl, mas ele também está ausente. Farejo, mesmo à distância, o cheiro dela misturado com o de Karl. O inconfundível aroma amadeirado dele agora está impregnado nela, se misturando ao doce perfume floral que Bea sempre usa. É nauseante. Nojo e raiva se chocam dentro de mim com uma violência esmagadora.Os dois estão juntos desde o início. Meu coração se enche de raiva e ódio. Minha própria irmã tem planejado a minha morte há muito mais tempo do que eu imaginava. Por que ela me trairia assim? Depois de tudo o que fiz por ela… Depois de tudo o que suportei para protegê-la.O que mais dói não é apenas a traição, mas o fato de que eu a amava. Eu a amava tanto. Minha irmã. Meu sangue. E, mesmo assim, ela escolheu ser a mão que te
Melanie PovHá uma enorme locomoção em nosso território, papai tem instalado muito mais câmeras de segurança em nossa propriedade e também nas casas dos nossos membros da matilha após o meu sequestro. Já se passou um mês e Karl ainda se vangloria por ter supostamente me salvado, tentando ganhar a simpatia de meu pai e da alcateia.“Isso é mesmo necessário, papai?” Bea questiona irritada. Um funcionário está instalando câmera no corredor dos nossos quartos.“Sim, minha filha,” papai responde. “Não posso permitir outro ataque contra a vida da Melanie ou contra qualquer um de nós!”“Já sabemos quem fez aquilo, algum suspeito?” pergunto curiosa. Não consegui reconhecer o cheiro dos lobisomens nem seus rostos, não saberia dizer de qual matilha eram.“Eram desgarrados, mercenários provavelmente. Alguém havia contratado eles para levá-la,” Tyler explica com a voz contrariada. Os olhos do meu pai ficam sombrios com a declaração. “Temos inimigos, só preciso descobrir quais.”Quero poder aponta
Melanie Pov“Por que você está olhando tanto para a porta de entrada?” Amelie pergunta curiosa.Estamos sentadas na mesa principal, junto com a minha família e a dela, já que Amelie é filha do beta Henry. A cerimônia de aniversário da minha matilha já iniciou. Até mesmo o beta Laios da alcateia Nightfall está presente e nada do rei Ryan. Será que ele repensou melhor e decidiu não me ajudar?“Por nada, apenas estou distraída,” respondo com um sorriso amistoso nos lábios.Até que anunciam a chegada do rei. Todos nós ficamos de pé para recebê-lo, fico ansiosa e na expectativa para conhecê-lo finalmente. Assim que o rei Ryan passa pela porta principal, meu coração gela, meu corpo inteiro se enrijece e uma mistura caótica de choque e descrença explode dentro de mim.É ele.O homem que me salvou. Agora, no entanto, ele não está coberto de sangue ou envolto em sombras ameaçadoras. Meu salvador não é um guerreiro qualquer, um lobo perdido nas sombras. Não. Ele é o rei. O alfa supremo. O líde
Ryan Pov“Por que a gente está aqui, Ryan?” A voz de Logan, meu lobo, ecoa dentro da minha mente, carregada de impaciência e frustração. “Não estamos dormindo direito já faz três noites. Uma cerimônia de aniversário é o pior lugar em que deveríamos estar.”Ao ouvir sua reclamação, respiro fundo e tento ignorar o cansaço que pesa sobre meus ombros. Meus músculos estão tensos, minha cabeça lateja de exaustão, e por um breve momento, fecho os olhos, lutando contra a necessidade de soltar um bocejo que ameaça escapar. Meu corpo pede descanso, implora por algumas horas de sono profundo, mas minha mente se recusa a ceder.Já faz um mês desde que comecei a sonhar com ela. Todas as noites, sem exceção, sua imagem invade meus pensamentos, como se estivesse gravada em minha alma. Aqueles cabelos ruivos, tão vibrantes quanto chamas dançando ao vento, aqueles olhos esverdeados intensos. Ela me persegue nos sonhos, me atormenta com sua presença etérea, e agora, nesses últimos três dias, tudo parec
Ryan Pov A simples ideia me desestabiliza. Meu peito sobe e desce com a respiração pesada, e meus punhos se fecham involuntariamente. O calor do meu próprio corpo se torna incômodo, como se uma febre surgisse do nada, incendiando minhas veias. Meus sentidos, já aguçados, se expandem ainda mais. Consigo ouvir o som de risadas e conversas ao redor, o tilintar de taças se encontrando no ar, a melodia suave tocada pelos músicos no canto do salão, e no meio de tudo isso… o batimento cardíaco dela.Rápido. Errático. Ela também está sentindo isso.“Majestade, temos uma mesa reservada para o senhor,” um funcionário diz, me puxando de volta para a realidade.Respiro fundo e volto minha atenção para a cerimônia. Conversarei com Melanie ao fim da festa, é o mais correto. Vou em direção à mesa onde sou designado. Muitos nobres vêm falar comigo e eu mantenho uma conversa educada e gentil.Meus olhos, no entanto, se recusam a desviar de Melanie. Ela está sentada na mesa principal, cercada por figu
Melanie PovKarl não vai deixar a situação do noivado barato. Ele nunca aceita perder, nunca deixa algo passar sem uma resposta. O orgulho ferido dele é como uma fera acuada, e isso o torna ainda mais perigoso. Sinto seu olhar queimando sobre mim durante toda a festa, como se estivesse me estudando, analisando cada movimento meu, buscando alguma brecha para agir.Assim como também sinto o olhar de Ryan sobre mim. Ele não tenta disfarçar. Há intensidade na forma como seus olhos me seguem, algo que faz minha pele arrepiar, mesmo contra a minha vontade.“Ele é nosso companheiro, Mel! Devíamos conversar com ele, agora!” Faith insiste dentro da minha mente, sua voz carregada de súplica e urgência. Sua necessidade de se conectar a Ryan é quase palpável, uma fome insaciável que me sufoca.“Eu não tenho tempo para isso, Faith. Amor não é mais minha prioridade, lembra como foi da última vez? Nós perdemos nosso bebê!” Declaro magoada e ressentida. “Ryan Gordon é primo de Karl, ninguém me garante