Melanie Pov
Ouço o som de uivos e tiros ressoar por toda a propriedade da nossa alcateia Killmoon, um concerto aterrorizante de destruição que se mistura ao estalar das chamas vorazes. O cheiro acre de fumaça invade minhas narinas, queimando minha garganta, e meus olhos lacrimejam, lutando para enxergar através da névoa espessa que toma os corredores. O calor sufocante me envolve, cada lufada de ar quente parece rasgar meu peito. Meu coração dispara, batendo tão forte que parece ecoar em meus ouvidos, rivalizando com o caos que se espalha ao meu redor.
Cada fibra do meu ser grita por sobrevivência. Meu corpo treme, mas não por medo—pelo menos não apenas por medo. O desespero, a necessidade de proteger a pequena vida que cresce dentro de mim, é o que me mantém correndo, impulsionando minhas pernas, mesmo quando sinto que posso desabar a qualquer momento. Nem tive tempo de contar a Karl, meu companheiro, meu marido, que eu estou grávida.
Meu marido… Será que ele está bem? Será que ele está procurando por mim, tentando me encontrar no meio desse inferno que virou minha alcateia?
Eu mal herdei a posição de alfa aqui em Killmoon após o falecimento de meu pai e essa emboscada terrível aconteceu. Preciso me manter viva pelo bem do meu bebe e do meu marido, preciso encontrá-lo.
“Mel, aqui, entre aqui!”
O som da voz de Bea, minha irmã, corta o caos como um raio de esperança. Meu coração salta, uma onda de alívio percorre meu corpo, aliviando um pouco o terror que me sufoca. Eu a vejo através da fumaça, seus olhos fixos em mim, urgentes, chamando-me para um refúgio seguro.
Sem pensar duas vezes, corro em sua direção. Meus pés descalços arranham contra o chão repleto de cacos de vidro e destroços, mas a dor é um detalhe insignificante agora. Tudo o que importa é alcançar minha irmã. Encontrá-la em meio a esse inferno é uma dádiva. Ela vai me ajudar. Ela vai me salvar.
Assim que me aproximo, Bea estende a mão para mim, puxando-me para dentro de um quarto. O alívio preenche-me, e pela primeira vez desde que a invasão começou, sinto que posso respirar. Mas antes que eu possa agradecer ou perguntar o que está acontecendo, algo acontece. Um estampido ensurdecedor ecoa no cômodo, e um segundo depois, uma dor ardente explode em meu abdômen.
Meu corpo congela. O mundo ao meu redor desacelera, como se tudo estivesse se movendo em câmera lenta. Meus olhos se arregalam, buscando uma explicação, tentando entender a dor lancinante que me rasga por dentro. Levo a mão trêmula até minha barriga, e quando a retiro, meus dedos estão cobertos de sangue quente. Meu sangue. Meu bebê.
“Bea?” Minha voz sai entrecortada, incrédula, frágil. Eu quero acreditar que foi um erro, um acidente. Talvez alguém tenha atirado do lado de fora e a bala me atingiu por acaso. Mas então, eu vejo.
Um sorriso. Não um sorriso de alívio, nem de preocupação. É um sorriso cruel, perverso, carregado de algo sombrio e maligno que nunca antes havia visto no rosto de minha irmã. Meu estômago se revira. Um arrepio gélido percorre minha espinha, contrastando com o calor sufocante do fogo que ruge lá fora. Algo está terrivelmente errado.
Antes que eu possa reagir, outra figura entra no cômodo. Meu coração se enche de uma esperança desesperada ao ver Karl. Meu amor, meu companheiro, a única pessoa que pode me salvar agora. Tento falar, mas minha garganta queima. Meu corpo vacila. Meu bebê… preciso proteger meu bebê.
“Karl…” minha voz sai fraca, mas carrega todo o desespero que me consome.
Ele olha para mim. Mas não há pânico, não há preocupação em seus olhos. Não há amor. Em vez disso, vejo algo que me destroça mais do que a dor do tiro. Desprezo. Um olhar gélido, impiedoso, que faz meu coração se partir em mil pedaços.
“Meu amor, cuidado!” tento avisá-lo, minha mente ainda lutando para juntar as peças, para entender por que Bea me atacou. Mas antes que eu possa me aproximar, antes que eu possa alertá-lo… ele se move.
Karl me chuta. Com força.
O impacto me lança ao chão, e minha cabeça b**e contra o piso de madeira com um estrondo forte. A dor latejante explode em minha nuca e tudo gira ao meu redor. As sombras e as luzes das chamas dançam em minha visão turva. A realidade se despedaça em um turbilhão de agonia e choque.
Não… não pode ser real. Isso é um pesadelo. Precisa ser um pesadelo.
Com esforço, forço meus olhos a focarem novamente. E então vejo. Karl abraça Bea pela cintura, seu corpo pressionado contra o dela, como se fossem amantes. Como se fossem cúmplices. Como se fossem um.
“Conseguimos, minha gatinha!” Karl exclama, sua voz exalando triunfo e prazer. Antes que eu possa sequer processar suas palavras, ele a beija. Não um beijo rápido, não um beijo de desespero em meio ao caos. É um beijo profundo, carregado de desejo.
O gosto amargo da traição se espalha por minha boca. Meu estômago se revira e não sei se é pelo sangue que continuo perdendo ou pelo horror absoluto que me domina.
“Finalmente! Já não aguentava mais!” Bea responde, ofegante, contra os lábios de Karl, seus olhos brilhando com pura excitação. “Agora todo o reino é nosso e você é todinho meu!”
Não… não pode ser. Isso não pode estar acontecendo. Meus pensamentos são um borrão, confusos e desesperados. Tento falar, tento entender, tento respirar.
“O quê? O que está acontecendo?” Minha voz sai fraca, fraturada, sufocada pelo medo e pela dor.
Minhas mãos tremem enquanto tento me erguer, cada movimento enviando uma onda de agonia através do meu corpo. Mas antes que eu possa me colocar de pé, Bea levanta a arma novamente. O brilho metálico da pistola reluz diante das chamas que devoram o ambiente. E então, sem hesitação, sem remorso, ela atira outra vez.
A dor explode em minha barriga novamente, arrancando-me um grito sufocado. Meu corpo tomba para trás, e o chão duro me acolhe como um túmulo frio. Meus dedos se agarram à madeira, tentando encontrar algo, qualquer coisa que possa me manter aqui, me manter viva.
O rosto de Bea paira acima de mim, seus olhos cintilando com uma satisfação sombria.
“Que os deuses te levem, irmã,” ela diz, sua voz carregada de veneno e desdém.
Os dois saem do quarto, me deixando jogada no chão frio, à beira da morte. Meu corpo estremece, tomado por uma dor lancinante que rasga cada fibra do meu ser. Minhas mãos tremem ao pressionar os ferimentos abertos em meu abdômen, numa tentativa inútil de conter o sangue que se recusa a parar. Minha respiração está errática, curta, dolorosa. Cada vez que inspiro, parece que o ar se recusa a preencher meus pulmões.
“Por favor, por favor…” minha voz sai como um sussurro rouco, mal audível no meio do caos que ainda ressoa do lado de fora. Explosões, gritos, uivos, o estalar da madeira sendo consumida pelas chamas. O cheiro de queimado invade minhas narinas, mas está fraco agora, distante, como se eu já estivesse deixando este mundo para trás. “Por favor, me salvem. Deuses, me salvem, por favor. Faço qualquer coisa, apenas salvem a mim e ao meu bebê.”
Mas o silêncio é tudo que recebo. Nenhuma resposta divina, nenhuma mão celestial se estendendo para me tirar dessa agonia. O mundo continua girando, ignorando minha dor, indiferente ao meu sofrimento.
Melanie PovA indignação começa a ferver dentro de mim, mesmo quando minhas forças se esvaem. É assim que tudo termina? Assim que minha história chega ao fim? Traída. Descartada. Assassinada pelas duas pessoas que eu mais amava e confiava. Minha própria irmã. Meu próprio marido. Meu coração aperta, mas não apenas pela dor física — essa já está se tornando dormente, como se meu corpo estivesse desistindo. O que me corrói agora é o ódio, a injustiça, o desespero. Meu bebê… meu bebê nunca terá a chance de viver. Não merecemos acabar assim.“Não… você não merece.” A voz surge do nada, suave como o toque de uma brisa, mas preenchendo cada canto da minha mente com uma presença indescritível.“Quem é você?” Minha pergunta sai num fiapo de voz, fraca, sem esperança.“Sou quem vai te salvar.” Há algo de enigmático naquela voz, algo ancestral e poderoso. “Mas se eu te der essa chance, você precisa fazer diferente desta vez.”O mundo ao meu redor parece se dissolver. A dor some, a realidade se d
Melanie Pov“Bea, sua irmã está certíssima,” mamãe responde com calma. “Ficamos felizes em saber disso, minha lobinha. Você tem muito ainda o que viver, casamento não precisa estar no topo da sua lista.”“Somente me preocupo com a reação de Karl”, Bea insiste, sua voz levemente afetada por uma falsa preocupação, mas seus olhos, frios como gelo, me perfuram com uma intensidade que me faz apertar os punhos sob a mesa. “Ele é próximo do rei lycan, primo e sucessor ao trono.”Tyler balança a cabeça em discordância com a preocupação de minha irmã. O comentário dela me faz sentir um calafrio percorrer minha espinha, como se uma sombra antiga tentasse se agarrar a mim. O medo tenta se infiltrar nas rachaduras do meu ser, sussurrando memórias de outra vida, memórias de uma Melanie ingênua e apaixonada, que se jogou cegamente nos braços de Karl, se afastando da família que agora me cerca com preocupação e amor.Naquela vida, eu era teimosa. Eu estava tão convencida de que Karl era minha alma g
Karl Pov Observo Melanie de longe após sua rejeição. Meus olhos acompanham cada um de seus movimentos enquanto ela se afasta, e algo dentro de mim se remexe com inquietação. Ela não parece abalada. Não há hesitação em seus passos. Seu rosto não demonstra confusão ou arrependimento. O que diabos aconteceu? Como isso é possível? Bea me garantiu dias atrás que sua irmã mais velha aceitaria sem pestanejar. Disse com todas as letras que Melanie sempre foi obcecada por mim, que sonhava com o dia em que eu a tomaria como esposa. Mas agora… agora ela está diferente. Distante. Reservada. Como se não fosse mais a mesma garota que sempre me olhava com adoração.Meus punhos se fecham ao lado do corpo, e a irritação começa a borbulhar em meu peito. Para onde foi a minha lobinha ingênua e apaixonada? O que aconteceu com aquele olhar brilhante que sempre me buscava na multidão, como se eu fosse o único homem que importava no mundo? O que será que está se passando em sua mente? Seja lá o que for, u
Melanie PovNoto minha irmã Bea voltando para o salão de festa após ter desaparecido por um tempo considerável. Seus cabelos estão um pouco desalinhados e há um brilho suspeito em seus olhos, um vestígio de satisfação mal contida. Meu olhar varre o salão, buscando Karl, mas ele também está ausente. Farejo, mesmo à distância, o cheiro dela misturado com o de Karl. O inconfundível aroma amadeirado dele agora está impregnado nela, se misturando ao doce perfume floral que Bea sempre usa. É nauseante. Nojo e raiva se chocam dentro de mim com uma violência esmagadora.Os dois estão juntos desde o início. Meu coração se enche de raiva e ódio. Minha própria irmã tem planejado a minha morte há muito mais tempo do que eu imaginava. Por que ela me trairia assim? Depois de tudo o que fiz por ela… Depois de tudo o que suportei para protegê-la.O que mais dói não é apenas a traição, mas o fato de que eu a amava. Eu a amava tanto. Minha irmã. Meu sangue. E, mesmo assim, ela escolheu ser a mão que te
Melanie PovHá uma enorme locomoção em nosso território, papai tem instalado muito mais câmeras de segurança em nossa propriedade e também nas casas dos nossos membros da matilha após o meu sequestro. Já se passou um mês e Karl ainda se vangloria por ter supostamente me salvado, tentando ganhar a simpatia de meu pai e da alcateia.“Isso é mesmo necessário, papai?” Bea questiona irritada. Um funcionário está instalando câmera no corredor dos nossos quartos.“Sim, minha filha,” papai responde. “Não posso permitir outro ataque contra a vida da Melanie ou contra qualquer um de nós!”“Já sabemos quem fez aquilo, algum suspeito?” pergunto curiosa. Não consegui reconhecer o cheiro dos lobisomens nem seus rostos, não saberia dizer de qual matilha eram.“Eram desgarrados, mercenários provavelmente. Alguém havia contratado eles para levá-la,” Tyler explica com a voz contrariada. Os olhos do meu pai ficam sombrios com a declaração. “Temos inimigos, só preciso descobrir quais.”Quero poder aponta
Melanie Pov“Por que você está olhando tanto para a porta de entrada?” Amelie pergunta curiosa.Estamos sentadas na mesa principal, junto com a minha família e a dela, já que Amelie é filha do beta Henry. A cerimônia de aniversário da minha matilha já iniciou. Até mesmo o beta Laios da alcateia Nightfall está presente e nada do rei Ryan. Será que ele repensou melhor e decidiu não me ajudar?“Por nada, apenas estou distraída,” respondo com um sorriso amistoso nos lábios.Até que anunciam a chegada do rei. Todos nós ficamos de pé para recebê-lo, fico ansiosa e na expectativa para conhecê-lo finalmente. Assim que o rei Ryan passa pela porta principal, meu coração gela, meu corpo inteiro se enrijece e uma mistura caótica de choque e descrença explode dentro de mim.É ele.O homem que me salvou. Agora, no entanto, ele não está coberto de sangue ou envolto em sombras ameaçadoras. Meu salvador não é um guerreiro qualquer, um lobo perdido nas sombras. Não. Ele é o rei. O alfa supremo. O líde
Ryan Pov“Por que a gente está aqui, Ryan?” A voz de Logan, meu lobo, ecoa dentro da minha mente, carregada de impaciência e frustração. “Não estamos dormindo direito já faz três noites. Uma cerimônia de aniversário é o pior lugar em que deveríamos estar.”Ao ouvir sua reclamação, respiro fundo e tento ignorar o cansaço que pesa sobre meus ombros. Meus músculos estão tensos, minha cabeça lateja de exaustão, e por um breve momento, fecho os olhos, lutando contra a necessidade de soltar um bocejo que ameaça escapar. Meu corpo pede descanso, implora por algumas horas de sono profundo, mas minha mente se recusa a ceder.Já faz um mês desde que comecei a sonhar com ela. Todas as noites, sem exceção, sua imagem invade meus pensamentos, como se estivesse gravada em minha alma. Aqueles cabelos ruivos, tão vibrantes quanto chamas dançando ao vento, aqueles olhos esverdeados intensos. Ela me persegue nos sonhos, me atormenta com sua presença etérea, e agora, nesses últimos três dias, tudo parec
Ryan Pov A simples ideia me desestabiliza. Meu peito sobe e desce com a respiração pesada, e meus punhos se fecham involuntariamente. O calor do meu próprio corpo se torna incômodo, como se uma febre surgisse do nada, incendiando minhas veias. Meus sentidos, já aguçados, se expandem ainda mais. Consigo ouvir o som de risadas e conversas ao redor, o tilintar de taças se encontrando no ar, a melodia suave tocada pelos músicos no canto do salão, e no meio de tudo isso… o batimento cardíaco dela.Rápido. Errático. Ela também está sentindo isso.“Majestade, temos uma mesa reservada para o senhor,” um funcionário diz, me puxando de volta para a realidade.Respiro fundo e volto minha atenção para a cerimônia. Conversarei com Melanie ao fim da festa, é o mais correto. Vou em direção à mesa onde sou designado. Muitos nobres vêm falar comigo e eu mantenho uma conversa educada e gentil.Meus olhos, no entanto, se recusam a desviar de Melanie. Ela está sentada na mesa principal, cercada por figu