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Capítulo 3: O Pedido Rejeitado

Melanie Pov

“Bea, sua irmã está certíssima,” mamãe responde com calma. “Ficamos felizes em saber disso, minha lobinha. Você tem muito ainda o que viver, casamento não precisa estar no topo da sua lista.”

“Somente me preocupo com a reação de Karl”, Bea insiste, sua voz levemente afetada por uma falsa preocupação, mas seus olhos, frios como gelo, me perfuram com uma intensidade que me faz apertar os punhos sob a mesa. “Ele é próximo do rei lycan, primo e sucessor ao trono.”

Tyler balança a cabeça em discordância com a preocupação de minha irmã. O comentário dela me faz sentir um calafrio percorrer minha espinha, como se uma sombra antiga tentasse se agarrar a mim. O medo tenta se infiltrar nas rachaduras do meu ser, sussurrando memórias de outra vida, memórias de uma Melanie ingênua e apaixonada, que se jogou cegamente nos braços de Karl, se afastando da família que agora me cerca com preocupação e amor.

Naquela vida, eu era teimosa. Eu estava tão convencida de que Karl era minha alma gêmea que rompi laços com aqueles que tentaram me alertar. Fiquei cega, surda, indiferente aos sinais que gritavam para que eu fugisse. Cortei relações com meus pais, virei as costas para aqueles que me amavam. E no fim, paguei o preço.

Eles morreram por minha causa. A alcateia Killmoon caiu por minha causa. E Karl… Karl tomou tudo. O trono do meu pai. Minha liberdade. Meu próprio sangue.

Respiro fundo, tentando dissipar as lembranças sufocantes. Agora não. Agora sou diferente. Eu preciso ser diferente.

“Karl não poderá fazer nada contra nós,” meu pai responde. “Somos a maior matilha do reino, com muitos recursos e riquezas que o reino utiliza. Seria imprudente dele tentar alguma coisa contra nós.”

“Ele possuiu os números de soldados, papai.” Bea rebate.

“Não, querida”, meu pai retruca, sua voz carregada de paciência, mas sem perder a firmeza. “Quem possui os números de soldados é o primo dele, o rei. E o rei não vai iniciar uma batalha por causa de uma rejeição. Tenho certeza disso.”

Meu pai olha para mim e um sorriso se forma em seus lábios.

Bea aperta os lábios, insatisfeita. Pela primeira vez, sua confiança vacila, ainda que por um breve instante. Mas eu vejo.

“Minha princesa sempre terá a minha proteção, seja qual for a decisão dela, eu sempre irei protegê-la,” papai declara com sinceridade e isso preenche o meu coração.

Sinto uma paz dominar o meu coração ao ouvir essa declaração de meu pai. Me controlo para não chorar, invés disso, eu abro um sorriso em sua direção.

“Obrigada, papai.”

Rejeitar Karl pode ser um movimento arriscado. Bea tem razão sobre o poder que Karl possuiu. Em minha memória, vêm flashes da minha vida passada e percebo como fui ingênua e cega pelo amor que eu sentia. Karl não apenas tomou minha alcateia para si—ele destruiu tudo o que meu pai construiu com honra e dedicação. Retirou dele o título de Alfa, espalhou sua influência tóxica como um veneno que corrói lentamente os alicerces de um reino próspero. Ele transformou meu lar em um domínio de medo e controle absoluto.

Os sinais sempre estiveram lá, gritantes, pulsando diante dos meus olhos. Como pude não perceber? Como fui tão tola? O amor que eu sentia era tão forte ao ponto de me tornar cega para a verdade?

Meus olhos se voltam para minha irmã. Quando foi que ela cruzou a linha entre a família e a traição? Quando foi que ela se tornou cúmplice de Karl? Sua amante? Sempre foi assim e eu nunca percebi? De qualquer maneira, hoje no banquete do meu aniversário, eu irei descobrir e meu plano de vingança vai começar.

***

O salão de festa da nossa alcateia está deslumbrante, da mesma maneira que eu me lembrava que havia sido em minha vida passada. Meus pais se empenharam para fazer um lindo banquete de aniversário para mim. O ambiente ressoa com risadas e vozes alegres, mas para mim, tudo parece um eco distante, como se eu estivesse assistindo à cena de fora, sem realmente pertencer a ela.

Meu vestido desliza pelo chão conforme me movo pelo salão, um tecido azul profundo que contrasta com minha pele. Sei que estou bela. Sei que minha presença atrai olhares. E sei que Karl vai querer marcar sua posse sobre mim essa noite.

“Minha amada, feliz aniversário!” Karl declara atrás de mim, me surpreendendo.

Meu corpo inteiro se enrijece antes mesmo que seus braços envolvam minha cintura, puxando-me suavemente contra seu peito. O toque dele me provoca uma repulsa imediata, mas eu a escondo com afinco.

Karl me vira para encará-lo, e lá está ele: impecável, vestindo um terno azul que, propositalmente ou não, combina com o meu vestido. É uma tentativa de exibir ao salão que pertencemos um ao outro. Ele sempre foi meticuloso com detalhes assim. Ele é apenas alguns centímetros mais alto do que eu, porém, nessa noite, por eu estar de salto alto, fico praticamente da mesma altura.

Seus olhos castanhos escuros deslizam por meu rosto, admirando-me com um desejo que parece tão real que qualquer um poderia se deixar enganar.

Meu corpo fica tenso com suas mãos ao meu redor. Todo amor que eu possuía por ele agora é apenas ódio e raiva. Encaro ele e tento encontrar o encanto que eu sentia antigamente, mas não há nada. Ele continua bonito, sua aparência de homem mais velho continua. Karl tem os cabelos castanhos escuros, curtos e bem penteados.

Me empenho para fingir que estou ainda apaixonada por ele. Envolvo meus braços em seu pescoço e permito que ele beije meus lábios. Quase sinto náusea ao permitir isso, só que preciso manter minha mente no meu plano. Na minha vingança.

“Você está radiante hoje, meu amor. Não existe mulher alguma mais linda do que você aqui, além da sua belíssima mãe, é claro.” Karl declara, fazendo minha mãe sorrir e eu também.

Percebo, por um breve instante, ele olhar em direção à Bea que lança um sorriso singelo em resposta. Isso me causa intriga e fico mais atenta para a interação dos dois.

“Você me permite uma dança?” Karl sugere, já estendendo a mão para mim.

Quero recusar, só que sei que isso levantaria suspeitas demais, por causa disso eu acabo aceitando. Karl me conduz até o meio da pista de dança, que logo começa a tocar uma nova música lenta. Karl me puxa para mais perto, sua mão pressionando a curva da minha cintura. O contato me causa uma repulsa tão intensa que preciso concentrar cada fibra do meu ser para não demonstrar meu desconforto.

“Passei o dia todo pensando em você, sabia?” Karl sussurra contra minha orelha. Sua respiração quente roça minha pele e me dá vontade de recuar, mas eu não posso. “No seu sorriso e como hoje é um dia tão especial para você.”

“Mesmo? Você pensou em mim?” Questiono com falsa inocência. Tudo o que eu quero fazer é vomitar com todo esse falso romantismo e cavalheirismo dele.

Karl acaricia o meu rosto e meu sangue gela com o seu toque. Ele fita os meus olhos e eu sustento o seu olhar.

“É claro, minha querida. Você é o amor da minha vida, sempre pensarei em você,” ele declara com afeto na voz.

A Melanie do passado teria achado isso comovente e aceitaria o que está por vir, aceitaria o pedido de noivado porque Karl possui um belo carisma. Mas eu não sou mais tão ingênua assim.

Durante o jantar, percebo de forma sorrateira as trocas de olhares entre minha irmã e Karl. Os dois estão sentados de frente para o outro. A conversa entre os dois é superficial, mas sinto que há tanta coisa não sendo dita entre os dois, camuflada pela falsidade deles, que percebo logo que Bea e Karl estão tendo um caso há muito tempo.

“Minha querida, posso te roubar um instante, por gentileza?” Karl sussurra em meu ouvido e fico tensa.

Lembro em minha vida passada que foi nesse momento que Karl me pediu em casamento e eu disse que sim. Respiro fundo e coloco um sorriso animado no rosto e concordo com o seu pedido.

Karl, me conduz para o jardim, onde há poucas pessoas. O vento da noite passa por nós, trazendo um pouco de frescor para o calor da estação. O silêncio entre nós é quase opressor. Vou seguindo seus passos sem demonstrar hesitação, deixando que me guie pelo caminho que ele escolher, mesmo que minha mente esteja calculando cada movimento com frieza.

Chegamos ao labirinto de arbustos vivos que se ergue alto ao nosso redor, as paredes de folhas espessas criando um isolamento natural do restante da festa. Aqui, estamos completamente sozinhos. A música abafada do salão mal chega até nós, substituída pelo canto dos grilos e pelo farfalhar das folhas dançando ao sabor do vento.

De repente, Karl para de andar e, antes que eu possa reagir, ele se ajoelha diante de mim. Meu olhar se fixa na aliança que ele segura entre os dedos, um anel de ouro adornado com uma pedra cintilante, refletindo a luz da lua como se carregasse dentro de si um universo inteiro. Meu estômago revira com nojo e revolta, mas mantenho meu rosto impassível.

“Minha querida, você aceita se casar comigo?” Ele propõe todo sorridente.

Respiro fundo e já sinto o gostinho da vingança se formando dentro do meu coração. Abro um sorriso singelo, pequeno e com falso constrangimento.

“Oh, meu querido. Eu… eu…” gaguejo para trazer mais sofrimento e expectativa para Karl, que me olha cheio de orgulho. “Eu não posso. Não posso ser sua noiva.”

O sorriso no rosto de Karl desaparece por completo e logo ele fica de pé.

“Não?” Ele indaga, incrédulo. Confirmo com a cabeça a sua pergunta. “Por quê? Você não me ama, Melanie?”

Quero dizer que sim, eu não amo mais ele. Quero revelar todas as suas mentiras. Entretanto, me controlo.

“Claro que amo, mas sou nova ainda. Acabei de completar vinte e um anos. Não estou pronta para esse comprometimento agora, desculpa.”

Karl pisca para mim, chocado. Não lhe dou tempo para tentar me fazer mudar de ideia, logo volto para a festa. Me sinto satisfeita com o resultado, mas sei que Karl pode retalhar contra mim e a minha família, ele fez isso no passado, quando já éramos casados.

“Mel!” uma voz feminina me chama, me trazendo de volta para o presente.

É minha melhor amiga, Amelie. A presença dela me causa euforia e felicidade. Em minha vida passada, nos afastamos e ela acabou sendo morta na invasão.

Corro em sua direção e a puxo para os meus braços.

“Que saudades!” digo com a voz quase embargada de emoção. Amelie me abraça de volta, sem entender o que está acontecendo.

“Está tudo bem? A gente se viu ontem, o que houve?” Amelie pergunta confusa.

“Nada, não aconteceu nada. Desculpa, eu apenas… a festa tem sido emocionante demais.” Respondo, tentando controlar minhas emoções.

Amelie ri e eu faço o mesmo.

“Pois bem, se controle. Você não quer estragar a sua maquiagem antes da chegada do rei Ryan, quer?”

“Ryan Gordon? O Rei?” Questiono incrédula.

Ryan é o primo de Karl. Os dois se detestam. Karl sempre teve inveja e ódio do primo por ele estar no poder. Saber disso, me traz uma nova perspectiva para o meu plano de vingança.

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