Capítulo 5: O sequestro

Melanie Pov

Noto minha irmã Bea voltando para o salão de festa após ter desaparecido por um tempo considerável. Seus cabelos estão um pouco desalinhados e há um brilho suspeito em seus olhos, um vestígio de satisfação mal contida. Meu olhar varre o salão, buscando Karl, mas ele também está ausente. Farejo, mesmo à distância, o cheiro dela misturado com o de Karl. O inconfundível aroma amadeirado dele agora está impregnado nela, se misturando ao doce perfume floral que Bea sempre usa. É nauseante. Nojo e raiva se chocam dentro de mim com uma violência esmagadora.

Os dois estão juntos desde o início. Meu coração se enche de raiva e ódio. Minha própria irmã tem planejado a minha morte há muito mais tempo do que eu imaginava. Por que ela me trairia assim? Depois de tudo o que fiz por ela… Depois de tudo o que suportei para protegê-la.

O que mais dói não é apenas a traição, mas o fato de que eu a amava. Eu a amava tanto. Minha irmã. Meu sangue. E, mesmo assim, ela escolheu ser a mão que tenta me destruir.

Durante o restante da festa, evito qualquer contato direto com Bea. Não posso olhá-la agora. Não posso enfrentá-la antes de ter certeza de como quero agir. Cada fibra do meu ser pede para que eu vá até ela e a confronte imediatamente, que grite, que a faça pagar por isso, mas preciso de controle. Então, engulo a raiva e forço um sorriso para aqueles que me rodeiam. Me divirto com Amelie, converso com outros convidados, deixo que a máscara de indiferença cubra o que estou sentindo. Mas, por dentro, estou queimando.

Quando a festa está se esvaziando e os últimos convidados começam a se despedir, Amelie se aproxima de mim com um brilho de expectativa nos olhos.

“Infelizmente não consegui conhecer o rei,” comento cabisbaixa para Amelie.

Amelie segura meu braço de forma encorajadora, tentando me convencer a ficar um pouco mais.

“Fique mais um pouco, Mel…” Amelie pede com a voz animada. “Talvez ele venha agora que a maioria das pessoas foram embora.”

Balanço a cabeça, negando o seu pedido. A tensão de tudo o que descobri esta noite me exaure, e cada minuto adicional nesta festa parece um peso maior do que posso suportar.

“Preciso ir, já está muito tarde e esses sapatos estão me matando,” respondo com cansaço na voz.

Me despeço dos meus convidados e também da minha família. Vou em direção ao estacionamento que agora já está praticamente vazio, sobrando poucos carros. A noite está um breu, sem uma lua no céu e a única fonte de luz são os postes mais afastados.

O som dos meus próprios passos ecoa contra o concreto frio, e um arrepio percorre minha espinha. Algo está errado. Meus instintos tentam me alertar, mas antes que eu possa reagir, mãos fortes me agarram por trás. Um pano áspero é pressionado contra meu rosto, e o cheiro químico invade minhas narinas, queimando minha garganta e me fazendo tossir.

Me debato com toda força que consigo reunir, tentando chutar e arranhar, mas meu agressor é implacável. Seus braços me envolvem como ferro, prendendo-me contra ele enquanto minha visão começa a se nublar. O desespero me engole e meu corpo luta por ar. Preciso reagir, preciso…

Mas antes que eu consiga fazer qualquer outra coisa, tudo ao meu redor se apaga.

Acordo com um sobressalto, puxando o ar em golfadas desesperadas. Meu corpo treme. Estou gelada. O frio se infiltra na minha pele, me fazendo arrepiar dos pés à cabeça. Tento me mover, mas algo impede. Minhas mãos. Estão amarradas. Meus pés também.

O pânico toma conta de mim em um instante, disparando meu coração em uma corrida desenfreada. Meus sentidos estão entorpecidos. É como se meu lado lobisomem estivesse… desligado. Não consigo acessar minha loba. Não sinto sua presença dentro de mim. E isso me apavora mais do que qualquer outra coisa.

Estou deitada em algo áspero, desconfortável. O colchão velho de uma cama de madeira que range a cada movimento meu. O cheiro de mofo e umidade invade minhas narinas e só agora percebo que o lugar onde estou é um quarto miserável, decadente. As paredes apresentam rachaduras profundas, e as janelas… Estão bloqueadas. Tábuas de madeira pregadas de qualquer jeito impedem qualquer visão do lado de fora.

Minha respiração sai entrecortada quando percebo algo ainda pior. Estou nua. Completamente desprotegida. Um nó de puro terror se forma no meu estômago. Minha pele formiga e sinto meu rosto esquentar em um misto de vergonha e horror. Meus pulsos começam a doer conforme tento me soltar, puxando com toda a força que tenho. Mas as cordas são resistentes. Meus esforços só fazem com que elas se apertem ainda mais, cortando minha pele.

Ouço vozes. Elas vêm do lado de fora da porta. Pelo menos três homens estão ali, conversando entre si. Não consigo distinguir exatamente o que dizem, mas sei que não pode ser nada bom.

Engulo em seco, lutando para segurar o desespero. Minha mente trabalha freneticamente, tentando encontrar alguma saída. Mas estou impotente. Sem minha força, sem minha loba, sem sequer uma roupa para cobrir meu corpo, sou apenas uma mulher frágil e vulnerável.

Os três homens entram no quarto e me sinto mais uma vez apavorada com suas presenças. São homens musculosos e mascarados, imagino que sejam lobisomens iguais a mim.

“Hm… a princesinha finalmente acordou,” um deles declara com a voz rouca e grossa. Ele se aproxima de mim e sua mão passa pelo meu braço despido. “Sabe, você parece deliciosa demais para ficar apenas assim, acorrentada. Não acham, meninos?”

Os outros dois rapazes concordam com uma risada curta.

“Ouvi dizer que você é virgem,” o rapaz continua, ele se aproxima e puxa o ar com força perto do meu pescoço. Isso me causa repulsa e tento me esquivar da sua aproximação. “É, você tem cheiro delicioso de uma virgem. Faz tempo que não fodo com uma.”

   Meu sangue gela e eu me debato para me afastar dele.

“Vocês não precisam fazer isso!” eu digo nervosa. “Minha família tem dinheiro, muito, mas muito dinheiro. Eu posso conseguir para vocês.”

Os três homens soltam uma risada áspera.

“Não queremos o seu dinheiro, princesa. Queremos você, do jeitinho que você está,” outro homem declara. Ele está de pé na frente da cama e começa a desvencilhar o cinto da calça.

É isso, eu vou ser violentada e morta essa noite! Tive uma nova chance na vida e já a perdi em menos de quarenta e oito horas. Mais uma vez, sendo morta de uma forma horrível e cruel.

O pânico aperta meu estômago, me deixando enjoada. Sinto minha visão turva, lágrimas se acumulando, mas não as deixo cair. Não posso demonstrar fraqueza, não posso dar a eles o prazer de verem meu desespero.

Os dedos rudes e frios percorrem minha pele sem o mínimo de delicadeza, me arrancando um arrepio de puro desgosto. Meu corpo se retrai involuntariamente, mas estou imobilizada. A repulsa me domina. O cheiro deles, uma mistura de suor, álcool e algo podre, enche minhas narinas, me fazendo querer vomitar. Quero gritar, quero lutar, quero fugir, mas as amarras são implacáveis.

Então, de repente, tudo muda.

A porta do quarto é arremessada para longe com um estrondo ensurdecedor. A madeira se parte ao colidir contra a parede, levantando uma poeira fina. Um rugido bestial ecoa pelo espaço, reverberando em cada canto do cômodo como um trovão.

O lobisomem que invade o quarto é colossal. Sua pelagem negra brilha sob a fraca luz do cômodo, os olhos dourados brilhando como brasas vivas, repletos de fúria. Cada músculo de seu corpo se move com precisão letal, transbordando poder. Ele é um predador supremo, uma máquina de destruição em sua forma mais pura. O ar se enche de um cheiro metálico e denso antes mesmo que os primeiros gritos soem.

Os três homens ao meu redor não hesitam, transformam-se imediatamente. Ossos se deslocam, músculos se expandem, garras surgem. Os rosnados deles enchem o ambiente, selvagens, prontos para lutar. Mas é inútil. O enorme lobisomem negro ataca como uma tempestade de lâminas e sombras. Seu corpo se move rápido demais para os olhos acompanharem. Ele despedaça um dos homens com um único golpe de suas garras afiadas, rasgando carne e osso como se fossem feitos de papel. O sangue espirra, quente e denso, respingando em mim.

Meu coração ameaça saltar do peito. Meu corpo treme, mas não consigo desviar o olhar. A cena diante de mim é brutal, visceral. O som da carne sendo dilacerada, os estalos dos ossos se quebrando, os uivos de dor e desespero dos homens sendo aniquilados — tudo se mistura em uma cacofonia horripilante.

Os outros dois tentam contra-atacar, mas são esmagados com a mesma facilidade impiedosa. Sangue escorre pelo chão de madeira, formando poças espessas. O último grito agonizante ecoa antes de ser silenciado para sempre. O único som que resta é minha própria respiração errática e o gotejar do sangue das garras do lobisomem. Ele para na minha frente, o rosto ainda tingido de vermelho. Os olhos dourados, selvagens e implacáveis, se fixam em mim. Um arrepio percorre minha espinha. O que vem agora? Ele também vai me matar? Sou apenas uma presa indefesa diante de uma criatura tão poderosa.

Ele se move. Os passos pesados fazem o chão ranger. Ele se inclina sobre mim, sua respiração quente e carregada do cheiro metálico do sangue. Meu corpo enrijece. Ele está tão perto que posso sentir o calor irradiando dele, um contraste gritante contra minha pele fria. Seu olhar percorre minhas amarras, sua expressão mudando de feroz para algo indecifrável.

Com um movimento ágil, suas presas se cravam nas cordas que prendem meus pulsos. O som das fibras se rompendo ecoa pelo quarto. Minha pele está marcada pelos nós apertados, o sangue mal circulando, mas estou livre.

O enorme lobisomem negro começa a mudar. Seu corpo se contrai, os ossos estalando à medida que ele retorna à forma humana. Observo, fascinada e, ao mesmo tempo, aterrorizada, cada detalhe do processo. Quando a transformação termina, um homem surge diante de mim. Ele é imponente, absurdamente alto, com músculos esculpidos como pedra. Seu cabelo negro cai sobre o rosto, bagunçado, quase cobrindo seus olhos. Mas quando ele me encara, tudo ao meu redor desaparece. Seus olhos, azuis como gelo, intensos como um oceano revolto. Há algo neles que me faz prender a respiração. Uma força avassaladora, um poder bruto e incontrolável.

Ele não diz nada. Apenas me observa, seu olhar perfurando minha alma. Meu corpo inteiro treme, mas não apenas pelo medo. Há algo nele que me desestabiliza de uma forma diferente, algo além da situação terrível em que me encontro.

Então, sem quebrar o contato visual, ele desliza as mãos para a fivela de seu sobretudo escuro e o remove. O casaco é pesado, grosso, com o cheiro cítrico dele impregnado no tecido. Lentamente, ele se aproxima e o coloca sobre meus ombros. O gesto é surpreendentemente gentil, cuidadoso. O calor do tecido me envolve, me protegendo do frio.

“Obrigada,” sussurro em sua direção.

O rapaz levanta o olhar e, no instante em que nossos olhos se encontram, sinto um arrepio intenso percorrer meu corpo. Ele é impressionante. Mesmo com a cicatriz que atravessa a lateral de seu olho esquerdo, não há nada que diminua sua beleza devastadora. Até que ele sai do quarto, me deixando completamente sozinha. Meu salvador não diz uma única palavra, apenas me encara, como se estivesse lendo cada pedaço da minha alma, absorvendo tudo o que sou.

Então, sem aviso, ele se afasta. Seus passos são firmes, pesados, um contraste gritante com a suavidade inesperada do seu gesto ao me cobrir com seu sobretudo momentos antes. Ele simplesmente sai do quarto, deixando-me ali, sozinha, envolta no calor de seu casaco e no eco sufocante do que acabou de acontecer.

Meus músculos ainda estão tensos, como se meu corpo não tivesse entendido que o perigo imediato já passou. Mas ele passou? Meus dedos tremem enquanto luto para desamarrar as cordas que ainda prendem meus tornozelos. Assim que consigo me livrar completamente das amarras, me impulsiono para frente, o sobretudo deslizando um pouco pelo meu ombro. Meu único pensamento agora é ir atrás dele.

Mas antes que eu possa sair do quarto, um vulto familiar surge na porta. Karl. Meu namorado está afoito, nervoso. Ele me puxa para os seus braços, me envolvendo em um abraço exagerado.

“Pelos deuses, você está a salva agora! Está tudo bem, minha querida,” Karl declara eufórico e nervoso. Ele ajeita o sobretudo em meu corpo. “Eu estou aqui, está tudo bem. Eu estou aqui!”

Mas não está tudo bem. Meu coração ainda martela contra minhas costelas, meu corpo ainda carrega o peso do terror que acabei de enfrentar. E o abraço dele, ao invés de trazer conforto, me faz sentir presa.

Tento me afastar, preciso sair dali, preciso ver quem mais está por perto. Quero encontrar aquele lobisomem de olhos azuis. No entanto, Karl me impede. Suas mãos continuam firmes em meus ombros, como se estivesse tentando me ancorar ali, sem me deixar escapar.

“Ela está aqui! Eu a salvei, ela está bem!” Karl grita em direção à porta e eu arqueio a sobrancelha em sua direção.

Antes que eu possa dizer algo, Karl em um movimento rápido, me pega no colo e sai do quarto comigo em seus braços. Vejo no corredor vários integrantes da minha matilha Killmoon.

“Oh, graças aos deuses, você a salvou, Karl!” Meu pai diz aliviado. 

Continue lendo no Buenovela
Digitalize o código para baixar o App

Capítulos relacionados

Último capítulo

Digitalize o código para ler no App