Danielle
Enquanto a Talita contava tudo sobre seu relacionamento, desde o início do seu namoro com o grande empresário Miguel Pontes até os dias atuais, o que não era muito tempo, uma vez que eles se conheceram há pouco mais de um ano, eu me perdia em pensamentos.
Sempre tive a capacidade de me concentrar no que uma pessoa falava e trazer outros fatos ao pensamento, a todo o momento alinhando informações, mas naquele instante, tudo o que passava por minha cabeça eram as imagens do belíssimo e cretino, homem com o qual a minha amiga havia se casado.
Eu havia tido o desprazer de conhecer o empresário riquíssimo e arrogante ao extremo, Miguel Pontes durante uma festa promovida pelo sócio majoritário do escritório para o qual eu trabalhava e assim que coloquei os olhos naquele homem, eu senti algo diferente, uma antipatia, eu diria.
Não gostei do Miguel Pontes e não disfarcei os meus sentimentos nem por um minuto e a todo o momento em que eu o olhava, a minha expressão deixava claro o que eu estava sentindo.
Alguns colegas de trabalho chegaram a questionar qual o problema e se eu estava chateada com algo que aconteceu na festa, mas eu apenas negava e voltava a olhar na direção daquele homem infame e lindo, eu não podia negar.
Mas ele não se deu conta da minha presença em momento algum e uma outra pessoa mais atenta poderia dizer que esse foi o motivo maior da minha hostilidade gratuita.
Enquanto isso, ele esteve todo o tempo cercado por várias mulheres, todas lindas e que pareciam muito dispostas a lhe agradar a cada instante e Miguel distribuía sorriso para todas e conseguia manter todas elas satisfeitas com a atenção que estavam recebendo do empresário bilionário.
Aquilo foi algo que me deixou enojada, pois ele parecia bastante satisfeito em ser o centro das atenções e, quando o vi sair acompanhado por duas delas, aquilo torceu o meu estômago completamente, visto que eles nem mesmo disfarçaram quais eram as intenções do “trisal” e cada uma foi agarrada a um dos braços dele.
Apesar daquele evento ter sido uma forma de fazer negócios, voltado totalmente para o lado empresarial, Miguel Pontes parecia estar em uma boate de quinta, se comportando como um espécie de deus, sorrindo e bebendo, sua atenção inteiramente naquelas mulheres que pareciam estar se oferecendo de forma tão descarada para ele, sem se importar com o fato de serem várias disputando a atenção daquele homem.
Quando a Talita me contou que o estava namorando, quase revelei as minhas impressões sobre ele, mas como ela estava notavelmente encantada pelo CEO da empresa Pontes e até mesmo havia se afastado de mim, desde então, nós não estávamos mais tão próximas e eu não me senti confortável para interferir em sua felicidade, como também não tinha certeza sobre como a minha impressão seria recebida por minha até então melhor amiga.
Eu também só o tinha visto uma única vez, durante o evento do escritório e decidi que aquele não era parâmetro suficiente para elaborar um perfil completo sobre determinada pessoa, apesar de que a amostra não tinha sido das melhores, ele poderia apenas estar aproveitando o seu status de solteiro.
De qualquer forma, quando poucas semanas depois, ela me contou que iria casar com ele, eu terminei por dizer a ela sobre a festa e a forma como ele parecia ser um mulherengo, mas a Talita não se importou com aquilo, apenas seguiu em frente com seus planos e em pouquíssimo tempo, ela já estava se casando com o Miguel Pontes.
Quando isto aconteceu, eu estava fazendo uma especialização na minha área, fora do país e não pude comparecer ao megaevento que foi realizado, mas tudo havia sido amplamente divulgado pela mídia e eu imaginei apenas que havia me enganado com o empresário, pois como diz o famoso ditado, as aparências enganam.
Agora, no entanto, ao ouvir tudo o que a Talita me contava, constatei que eu estava mais certa do que eu supunha e o cara era realmente um tremendo galinha, que não respeitava a sua esposa, assim como o fato de ser um homem casado não havia alterado em nada a sua vida “amorosa” livre e movimentada.
— Eu entendo que o amor faz as pessoas aceitarem várias coisas do outro. Mas acredito também que tudo tem limite, Talita. E você aguentou demais!
— Eu o amo, Dani. Muito. E ele sempre prometeu que aquela seria a última vez. E a última…
— Sei bem como é.
Apesar de nunca ter me casado, ou mesmo de ter tido qualquer relacionamento mais sério, eu já havia ouvido histórias o suficiente para entender o que ela dizia. As minhas clientes sempre tinham histórias semelhantes.
A minha própria mãe passou por tudo aquilo e, mesmo eu sendo apenas uma criança, sempre repetia para ela que aquilo não precisava acontecer. Que ela poderia sair daquele círculo vicioso. Não era porque o homem em questão era o meu pai, que eu iria ser de acordo com o que ele fazia.
Cresci com esse pensamento e hoje eu tentava ajudar as mulheres a saírem desses relacionamentos abusivos e as ajudava a dar a volta por cima. Se no processo elas ainda poderiam também ter ganhos financeiros, melhor ainda. Nós iríamos tirar até o último centavo desses canalhas.
— Eu vou representar você na sua ação de divorcio, amiga. E Miguel Pontes vai se arrepender de tudo o que ele fez para você , pode ter certeza disso.
— Fico tão feliz por ter você ao meu lado, Dani. Você sempre foi tão inteligente e esforçada. Tenho muito orgulho de você, sabia?
Talita se aproximou de mim e me abraçou apertado, as lágrimas já esquecidas e um belo sorriso em seu semblante. Era isso que eu buscava em minha profissão. Tirar a tristeza dos rostos das minhas clientes e trazer a esperança de justiça, pois elas mereciam mais que um homem para as enganar com falsas promessas de amor e fidelidade.
— Miguel Pontes nem vai saber o que o acertou. Ele vai pagar por todas as traições onde mais dói nele, que é o seu bolso.
Nos afastamos e nos olhamos com a cumplicidade de amigas de infância e vi novamente ali diante de mim a menina que conheci antes, uma pessoa cheia de sonhos e expectativas de um futuro melhor.
Miguel Olhei pela janela do meu escritório no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro, e a sensação que eu tinha era de ter sido feito totalmente de idiota e que o único culpado por aquilo era eu mesmo e aquilo me deixava bastante irritado. Eu não havia sido completamente enganado por uma mulher, pois dizer aquilo seria uma grande hipocrisia da minha parte, quando todos, mas todos mesmo, não apenas a minha família e os amigos também, tentaram me avisar sobre quem ela era de verdade. Além dessas pessoas mais próximas, até mesmo alguns funcionários e parceiros de negócios insistiam que eu deveria pensar melhor sobre a ideia de casamento e que eu poderia apenas continuar como já estávamos, em um relacionamento cômodo e em que poderíamos sair a qualquer momento, sem mais problemas ou dificuldades. Mas eu, totalmente concentrado em fazer negócios e aproveitar a boceta sempre disposta e pronta para mim, não dei ouvidos àqueles que só estavam tentando ser leais a mim, ao contrário do que acon
MiguelLevantei da minha confortável cadeira de CEO do grupo Pontes e fiquei andando por minha sala ricamente decorada em tons de ocre e bege, com as mãos em punho. Aquela havia sido a sala do meu pai por anos, enquanto ele foi o homem por trás do Grupo Pontes, ou GA, como os funcionários costumavam chamar. — Cuidado com suas ações, Miguel. – Eduardo alertou mais uma vez. – Por mais que a Talita tenha aprontado com você, foi você que a deixou entrar em sua vida. — Preciso de um drinque. – Falei ao parar próximo a porta da sala. – Vamos ao clube? Tenho saudades do nosso lugar preferido. Estava brincando na verdade, apenas na tentativa de descontrair um pouco o clima, uma vez que me sentia muito tenso e o clube Season Hot sempre foi um lugar que o Eduardo e eu frequentamos, mas que, desde que comecei a me relacionar com a Talita, me abstive de ir. Aquela era só mais uma coisa que me privei, para me ver ainda ser taxado de traidor por aquela mulher fútil e mentirosa. — Você a
Danielle Olhei para Miguel Pontes jantando com seu então melhor amigo, que também era seu advogado, me fez pensar no fato de que a audiência de conciliação para o acordo de divórcio da minha melhor amiga seria amanhã. E enquanto ela estava em casa se sentindo infeliz por ter que encarar ao homem que ela amava e com que ela esperava construir uma família em um processo para o fim do casamento entre os dois, o seu ex-marido estava prestigiando a inauguração de um restaurante chique e conversando de maneira bastante tranquila com seus amigos ricos e poderosos. Cheguei a bufar de raiva pelo absurdo da situação e o quanto aquilo era injusto, pois ele não parecia nenhum pouco incomodado de que estaria em sua audiência de divórcio no dia seguinte. Apesar disso, não poderia dizer que estava de todo surpresa, pois eu não estava. Quando não se tinha nenhuma expectativa em alguém, como era o caso, não causava espanto quando as atitudes daquela pessoa eram insensíveis ou algo do tipo. O fa
DanielleOlhei novamente para o lado e uma mulher havia chegado à mesa do Miguel, algo que me deixou extremamente chateada. Claro que a minha raiva era devido a Talita e não por qualquer outro motivo. A mulher parecia ter acabado de chegar ao restaurante e ter parado para falar com os dois homens, mas sua atenção estava concentrada apenas em um deles, o que me fazia ferver de raiva, pois mesmo estando em processo de divórcio, a audiência marcada para amanhã, ele ainda estava aproveitando bastante a situação. — Cretino. — Resmunguei, sem conseguir me controlar. — Ele não está retribuindo o interesse dela. — Carlos apontou. Me espantei com a sua colocação e olhei de imediato para o Carlos, sentindo um ardor na face, pois pelo visto ele havia ouvido o que eu falei e entendido a quem eu estava me referindo, o que era ainda pior. — Não importa se ele não está devorando-a com os olhos como ela está fazendo com ele. — Optei então por defender meu ponto, uma vez que já tinha passado a ve
Miguel Depois que voltei a minha mesa, após tentar confrontar a advogada da minha querida ex-esposa, chamei o Eduardo para ir embora, pois eu não tinha mais nenhum pouco de vontade de continuar ali, depois de toda a frieza com a qual aquela advogada me tratou e aquela noite já havia rendido muito mais do que eu pretendia. Meu amigo, no entanto, ainda estava terminando sua refeição e como sempre acontecia, não parecia ter pressa alguma, como se ele tivesse todo o tempo do mundo e eu constatei, por toda a minha experiência com o Eduardo, que o melhor a ser feito era sentar novamente e esperar por ele. Olhei para a mesa ao lado, para olhar mais uma vez para a pedante Danielle, e foi a tempo de ver que o casal estava se levantando e saindo do restaurante. A expressão de entojo no rosto da advogada quase me fez rir, mas a irritação vendeu qualquer divertimento que eu pudesse sentir. — Você por acaso teria tentado falar com a doutora Danielle ou foi impressão minha? — Eduardo pergun
MiguelCheguei na casa dos meus pais, local onde eu voltei a morar após a minha separação, deixando para a Talita a minha cobertura na Barra, a qual eu possuía desde antes do nosso casamento, ainda era cedo, considerando os meus horários de quando era adolescente, antes de decidir morar sozinho. Eu havia pedido o divórcio e solicitado que a Talita saísse do meu apartamento, mas quando ela deixou bastante claro que não sairia de lá de forma alguma, assim como também não aceitava o pedido de divórcio, eu mesmo saí. O fato é que eu não aguentava mais ver aquela mulher na minha frente e antes que chegássemos a um pouco ainda mais desgastante, era melhor ceder. Mas não o faria novamente, no entanto. — Só chegou agora da empresa? - Minha mãe me perguntou, quando nos esbarramos no corredor que levava aos quartos da família. — Não. Estava jantando com o Eduardo. Aproximei-me da belíssima e ainda jovem mulher que era a minha mãe e dei um beijo breve em sua face, sentindo o perfume famili
Danielle Cheguei ao local onde aconteceria a audiência de conciliação com antecedência de meia hora, mas não encontrei a Talita em lugar algum, como havíamos combinado na noite anterior. Ela havia me mandado algumas mensagens, pedindo algumas orientações sobre como deveria vestir-se para a ocasião, como se portar e até mesmo o que dizer. Eu disse que ela deveria falar apenas a verdade e que nada além disso se fazia necessário, pois era suficiente dizer tudo o que realmente aconteceu. Eu conferi o horário novamente e quando já haviam se passado mais de quinze minutos, resolvi ligar para a minha amiga, pois jamais havia me atrasado para uma audiência e não gostaria nenhum pouco, caso aquilo acontecesse hoje e ainda mais em se tratando de uma pessoa das minhas relações pessoais. Quando insisti novamente e ainda assim a Talita não me atendeu, mesmo após várias tentativas, eu fiquei realmente muito contrariada e a minha amiga precisaria ter uma boa desculpa para o seu comportamento.
Danielle A audiência tinha terminado sem que chegássemos a um consenso e uma nova foi marcada para dali a quinze dias e eu estava mais que satisfeita com o desenrolar dos acontecimentos. A outra parte, no entanto, saiu da sala parecendo soltar fogo pelo nariz, visivelmente irritado e mostrando todo o seu descontentamento com o que aconteceu dentro da sala de conciliação e eu, que não me sentia na obrigação de fingir nada para poupar ele, sorri descaradamente com a expressão de raiva que Miguel exibia naquele momento, quando todos nós saiamos da sala, após a audiência. — Aquele vídeo é uma mentira e você não vai conseguir nada de mim, agindo dessa forma, Talita! — Miguel falou em tom alterado, com o dedo em riste, repetindo o mesmo comportamento de quando tomou conhecimento sobre a existência de tais imagens . — Vamos, Miguel. — O advogado o chamou, puxando-o pelo braço e tentando fazer com ele o acompanhasse. — Você não vai sair vitoriosa dessa história, Talita! Não vai! — Ele p