Quando o sonho vira pesadelo

Diante de todas as adversidades, Marta não desiste. A fome a acompanha como uma sombra cruel dos últimos meses. O frio corta sua pele, os pés latejam, mas a necessidade de seguir em frente é maior do que o desespero.

O dia inteiro foi assim, batendo de porta em porta, insistindo até o limite. Quando o cheiro de café quente invade suas narinas, Marta percebe o quanto está fraca. Seus bolsos vazios são a prova de que o pouco que tinha se esvaiu em uma passagem de ônibus, comprada com a esperança de um trabalho, onde a promessa de uma vaga de atendente evaporou assim que ela cruzou a porta e ouviu o gerente dizer:

— Desculpe, a vaga já foi preenchida.

Agora, ela vaga por ruas desconhecidas, sentindo o peso da cidade grande esmagá-la a cada "não" que recebe.

— Só mais uma… só mais uma tentativa. — murmura para si mesma, tentando ignorar a dor latejante nos pés e a sensação de que está cada vez mais distante da vida que sonhou.

Marta aperta o casaco surrado contra o corpo, mas o tecido fino não é páreo para o vento gelado que a corta até os ossos. Cada passo parece um esforço sobre-humano. Seus pés doem, a barriga ronca, e a exaustão pesa sobre os seus ombros como uma âncora.

A sensação de fracasso a consome. Porta após porta, “não estamos contratando”, “volte outro dia”, “só estamos aceitando currículos online”. Palavras vazias, portas fechadas, esperanças esmagadas.

Ela junta o resto de força que ainda tem e anda mais um pouco, para diante de um pequeno café, a placa de "Aberto" balançando na porta de vidro embaçada. O cheiro de pão e café quente atravessa a fresta, e seu estômago reage com um rosnado audível. Marta respira fundo e empurra a porta, o sininho acima tilinta avisando a sua presença.

O dono do café, um homem de meia-idade com avental sujo de farinha, levanta os olhos cansados.

— Boa noite… posso ajudar? — diz ele, enxugando as mãos em um pano.

Marta umedece os lábios, a vergonha queimando em sua garganta.

— Eu… estou procurando um emprego. Qualquer coisa. Eu lavo pratos, limpo o chão, faço o que for. Por favor, preciso trabalhar. — Sua voz falha no final, quase um sussurro.

O homem a observa por um momento longo demais. Ela sabe o que ele vê, uma garota com roupas gastas, cabelos grudados pela chuva e olhos desesperados.

— Não estou precisando de ninguém agora… — ele começa, mas então seu olhar recai sobre a mão dela, que repousa contra a barriga roncando. 

— Você está com fome?

Marta aperta os lábios, mas não consegue segurar a verdade.

— Sim. — responde, quase num fio de voz.

O homem suspira, balançando a cabeça, e vai até o balcão. Pega uma bandeja com salgados do dia, esfihas, coxinhas meio murchas, empadas, que não servirão para amanhã. Coloca tudo em um pratinho de papel, junto com uma xícara de café com leite.

— Come. São os que sobraram do dia, ia jogar fora mesmo. — A voz dele é dura, mas há um brilho de compaixão em seus olhos.

Marta quase desaba de alívio.

A garoa fina transforma-se em chuva pesada, batendo contra o asfalto como um tambor implacável.

— Obrigada… muito obrigada, de verdade… — ela murmura, as mãos trêmulas segurando a xícara quente como se fosse um tesouro.

Ela come devagar, saboreando cada pedaço, cada gole do café, mesmo amargo. A cada mordida, sente o gosto não só da comida, mas da sua própria realidade cruel.

Depois de terminar, Marta se levanta e, sem pensar duas vezes, caminha até a pia.

— Eu posso lavar a louça… em troca. — sua voz sai suave, mas determinada.

O homem a observa por um segundo, mas não recusa. Apenas dá de ombros.

— Fique à vontade.

A água fria maltrata os seus dedos, mas ela esfrega prato por prato, copo por copo, até que tudo brilhe. Quando Marta finalmente termina, o homem já está fechando as portas do café.

— Está tarde… tenho que fechar — diz ele, girando a chave na fechadura.

Marta sente a onda de pânico rastejar por sua espinha. A chuva lá fora continua feroz, e a noite está ainda mais fria.

— Claro… eu entendo. — sua voz quebra um pouco.

Ao cruzar a porta, um vento cortante a atinge em cheio, empapando ainda mais suas roupas. A porta se fecha atrás dela com um clique seco. Marta encara a rua deserta, a chuva caindo sem piedade.

Ela aperta o casaco ao redor de si e dá um passo para a frente, a água fria invadindo seus sapatos. Seus olhos brilham de lágrimas que ela se recusa a derramar.

Sozinha. Longe de casa, porém com algo no estômago.

E, no meio da tempestade, Marta segue, sem saber que sua jornada está apenas começando.

A pensão onde está hospedada ainda está distante, é pequena, abafada, e a dona só a tolera porque, em dias bons, Marta limpa os corredores e lava a louça em troca de um teto. Mas a cada novo dia sem um emprego fixo, o olhar da mulher endurece, carregado de impaciência.

— Você precisa me pagar, Marta — dissera ela pela manhã, cruzando os braços na porta, provavelmente envenenada pelo ódio do marido. 

— Ou não vai ter mais onde dormir.

Essas palavras ecoam em sua mente enquanto a noite cai, e a chuva aperta. O frio corta sua pele, mas a dor maior vem do medo que cresce em sua mente. E agora? ela já não tem para  onde ir? E se ontem foi a sua última noite sob um teto?

Ela fecha os olhos, e uma lágrima solitária escorre pelo seu rosto.

Afinal, quando o sonho vira pesadelo?

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