O envelope desliza suavemente pela mesa, interrompendo a observação cuidadosa de Marta. Ela ergue os olhos para Jonathan, que a observa com a expressão indecifrável de sempre.— Seu salário está depositado na conta. O cartão está dentro do envelope, junto com os detalhes. Tudo conforme o contrato, incluindo as horas extras e o adicional das refeições que você prepara para mim. Profissional, direto, sem brechas. Mas o ar entre eles parece carregado por algo que vai além de um simples acerto financeiro.Ela agradece com um sorriso tímido, mas ele já se distrai com o café e a tapioca que encontra sempre no mesmo lugar, preparados por ela. Come em silêncio, lança um olhar rápido na direção dela, depois desvia. Marta assente, sem conseguir esconder o brilho satisfeito nos olhos. Seu primeiro salário. Uma conquista que parecia impossível há pouco tempo.Jonathan termina o seu café da manhã, agradece a Marta. Ele se levanta, pronto para sair.— O que o senhor gostaria de comer na janta? —
Um mês depoisJonathan sente o peso do dia logo ao acordar, mas não sabe explicar o motivo. Algo dentro dele está inquieto. Como sempre, a xícara de café já o espera na mesa, preparada por Marta. Mas dessa vez, ele não come. Apenas toma um gole do café e sai sem dizer nada. A ausência de palavras parece criar um abismo entre eles, mas Marta não questiona. Apenas observa sua partida com um olhar que ele nunca percebe.Ele dirige sem rumo pela cidade, tentando organizar os próprios sentimentos, até que decide voltar para casa. Mas ao chegar, algo o surpreende. Marta não está lá. Ela nunca sai de casa. Onde diabos ela está?Sem conseguir ignorar a inquietação, vai até o escritório, tenta trabalhar, mas sua concentração é inútil. Levanta-se e vai até a cozinha. A garrafa de café ainda está lá. Ele se serve, sentindo a estranha ausência dela. Por onde anda, Marta?Horas depois, ao checar as câmeras do carro, vê que ele está em movimento. Com um clique, a imagem surge na tela, e ele a vê. M
3 meses depoisJonathan sente o corpo queimar de dentro para fora, ainda sente o gosto dela em sua boca, consegue ouvir o som dos seus gemidos, mesmo trancado em seu escritório, os olhos fixos na tela do computador, mas a mente vaga longe. Ele veio a evitando de todas as formas, passa direto, vira o rosto e nunca olha para a porta do quarto dela, evita ficar próximo a ela muito tempo, mas aprendeu a elogiar as refeições e isso tem feito bem a ela e a ele mesmo, ele imagina que assim evita repetir aquele oral que fez para ela, cena que ainda o castiga diariamente, quando sente o seu gosto na boca e ainda ouve os seus gemidos, o para piorar o castigo, nenhuma mulher com quem se aliviou conseguiu satisfazê-lo de verdade..Ele a viu rindo. Rindo com Eduardo, aceitando aquele maldito convite para o cinema e para mata-lo de raiva, ontem ouviu eles combinando de passar o final de semana juntos, na casa de Eduardo. A imagem da risada dela, leve, solta, enquanto aquele homem a olhava, não com
O desejo reprimido é como um incêndio subterrâneo. Queima em silêncio, invisível, até que algo o faça emergir e consumir tudo ao redor. Jonathan sente esse fogo dentro dele toda vez que olha para Marta. E tenta ignorar. Mas como ignorar algo que o persegue até nos sonhos?A rotina na mansão se mantém, ambos fingindo que nada existe além do que foi estabelecido desde o começo. Ele toma seu café da manhã, hoje com bolo caseiro e pão feitos por Marta. O aroma delicioso preenche a cozinha, mas não tanto quanto a presença dela, que o observa discretamente enquanto ele come. Jonathan sente o olhar sobre ele e se força a não encará-la. Engole o café e, ao sair, avisa:— Hoje não precisa fazer o jantar para mim. Vou sair, não tenho horário para voltar.Ela apenas assente com um pequeno sorriso, escondendo qualquer vestígio de desapontamento. A verdade é que Marta já se acostumou a esperar por ele, a servi-lo, a manter o ritmo da casa de acordo com a presença dele. E quando ele não está... alg
A noite está densa, carregada de um silêncio inquietante que parece vibrar sob a pele de Jonathan. As luzes da boate ainda piscam em sua mente, ecos de uma diversão vazia que já perdeu o sentido. Ele sai sem que os amigos percebam, cada passo firme, decidido, como se algo o puxasse para um destino inevitável. Seu corpo pulsa com adrenalina, mas sua mente? Sua mente está em Marta. Sempre nela.O caminho até a mansão é um borrão. Ele só percebe que chegou quando a porta se fecha atrás de si, cortando a escuridão lá fora. E então a vê. Ali, adormecida no sofá, a respiração calma, os lábios entreabertos. O baby doll fino desenha sua silhueta, revelando mais do que esconde. A alça escorregada expõe o ombro delicado e o sei0 arrebitado, a barra levantada deixa a pele macia brilhar sob a luz amarelada da luminária. Jonathan sente um nó no estômago. O desejo é brutal, primitivo, mas há algo mais: uma necessidade crua de possuí-la, de marcar seu território de uma vez por todas.Sem pensar, ele
Marta atravessa a rua com uma mão na barriga, protegendo as vidas que carrega. O suor escorre pela sua nuca, a vertigem ameaça dobrar os seus joelhos, mas ela inspira fundo. Falta pouco. Falta muito pouco.E então, tudo acontece.O som de pneus cantando invade o ar como um grito. Um carro desgovernado surge do nada, avançando na direção dela como um predador. O impacto é brutal. Marta é lançada para o asfalto, seu corpo se choca contra o asfalto quente, e a dor vem antes mesmo que a consciência se apague. Seu último pensamento é uma súplica silenciosa: "Por favor… meus bebês…"— Meu Deus! — exclama uma senhora de cabelos grisalhos, que assistiu a tudo da calçada. Sem hesitar, ela faz um gesto rápido para um homem ao seu lado. — Ajude-a! Ligue para a emergência agora!A mulher se ajoelha ao lado de Marta, segurando a sua mão fria, seus olhos percorrendo o rosto pálido da jovem e sua barriga grande.— Aguente firme, querida… — sussurra, apertando os lábios. — Você não pode desistir ag
Diante de todas as adversidades, Marta não desiste. A fome a acompanha como uma sombra cruel dos últimos meses. O frio corta sua pele, os pés latejam, mas a necessidade de seguir em frente é maior do que o desespero.O dia inteiro foi assim, batendo de porta em porta, insistindo até o limite. Quando o cheiro de café quente invade suas narinas, Marta percebe o quanto está fraca. Seus bolsos vazios são a prova de que o pouco que tinha se esvaiu em uma passagem de ônibus, comprada com a esperança de um trabalho, onde a promessa de uma vaga de atendente evaporou assim que ela cruzou a porta e ouviu o gerente dizer:— Desculpe, a vaga já foi preenchida.Agora, ela vaga por ruas desconhecidas, sentindo o peso da cidade grande esmagá-la a cada "não" que recebe.— Só mais uma… só mais uma tentativa. — murmura para si mesma, tentando ignorar a dor latejante nos pés e a sensação de que está cada vez mais distante da vida que sonhou.Marta aperta o casaco surrado contra o corpo, mas o tecido fin
O som do despertador ecoa pelo quarto como um lembrete de que mais um dia começou. Mas Jonathan já está desperto há muito tempo. O teto acima dele é apenas uma prova em meio às sombras que nunca o deixam. Luxo, poder, sucesso... Nada disso tem efeito sobre ele. Porque, no fim das contas, nenhum império construído com suor e estratégia consegue preencher o vazio deixado por uma perda irreparável.Jonathan fechou os olhos, e a lembrança de Aira o envolveu como um abraço invisível. Eles eram perfeitos juntos, duas metades que se encaixavam sem esforço. O riso fácil, as conversas que varavam a madrugada, o simples toque dela incendiando a sua pele.Ele já havia tido inúmeras mulheres, mas nenhuma como Aira. O amor deles era palpável, intenso, uma força arrebatadora. No sexo, encontravam um refúgio onde tudo desaparecia, só existiam eles, ofegantes, consumidos por um desejo insaciável. Nunca, em toda sua experiência, conheceu algo tão avassalador.Com ela, conheceu o auge da felicidade. E