E agora, o jovem policial ficou em choque.Eles eram experientes o suficiente para entender a única explicação possível:Eu já estava morta.Ao perceber que finalmente haviam chegado a essa conclusão, suspirei aliviada:— Isso mesmo, senhores policiais. Agora, por favor, me encontrem logo. Se demorarem muito, só vão achar meus ossos.Os investigadores reuniram todas as pistas e voltaram para falar com meu pai.— Sr. Garcia, acreditamos que Taiane possa ter sofrido um atentado. Precisamos que o senhor colabore com a investigação.Meu pai soltou uma risada sarcástica.— Impossível. Ela estava bem viva outro dia, dirigindo um carro para tentar matar minha esposa. Como pode ter sofrido um atentado?O policial manteve o tom sério:— Mas, Sr. Garcia, antes desse acidente, Taiane simplesmente… desapareceu do mundo. Nenhuma compra, nenhuma ligação, nenhum rastro. Isso faz sentido para o senhor?Meu pai cruzou os braços, irritado.— Claro que faz! Eu cortei todos os cartões dela. Se não tem mov
Gabriel deu um passo à frente, mas antes que pudesse dizer algo, meu pai se agarrou à barra de sua calça.— Inspetor Gabriel… isso é falso, não é? Essa coisa aí não pode ser minha filha…Havia um brilho de esperança em seus olhos.Por um instante, parecia apenas um pai desesperado, temendo pela vida da filha.Mas Gabriel não caiu nessa.Com um chute firme, afastou meu pai e, sem hesitar, puxou um par de algemas.— Sr. Garcia… seu ex-mordomo nos procurou e denunciou o assassinato e ocultação de cadáver. E sabe o que é pior? Temos as imagens.Ele ergueu o celular e balançou levemente, mostrando a gravação.— Infelizmente para você… essa aí é sim a sua filha.O desespero invadiu o rosto do meu pai.— Não! NÃO! Minha filha não está morta! É mentira! Ela está viajando, se divertindo! Isso é só um corpo qualquer que inventaram pra me enganar!Ele se debatia como um louco, tentando se livrar das algemas.Seus olhos… cheios de horror.E eu, do lado, observava tudo em silêncio.Naquele instante
— Aquela ingrata… já implorou por perdão?A voz do meu pai ecoou pela imensa mansão, rompendo o silêncio como um trovão.O mordomo hesitou, sua voz tremia ao responder:— Senhor… a senhorita ainda não saiu.Os dedos do meu pai, que seguravam um charuto, pararam no ar por um instante.Depois, ele simplesmente retomou a pose despreocupada.— Sempre fui mole demais com ela. Agora ficou assim, descontrolada. Como ousa trancar a Mafalda dentro do carro? Tem que aprender a lição.O mordomo parecia relutante.— Mas, senhor, lá fora está fazendo mais de 40℃… E dentro do carro, com esse calor… será que a senhorita vai aguentar?Meu pai soltou um riso frio.— Calor? É exatamente isso que ela precisa sentir. Quero ver se depois disso ela ainda terá coragem de fazer algo assim com Mafalda. Se não aprender pelo bem, vai aprender pela dor.Sua voz era indiferente.Como se ele tivesse esquecido que eu estava trancada no porta-malas há sete dias.O mordomo ainda queria insistir, mas foi cortado com im
Vinte anos atrás, Adriana terminou com meu pai. Seguiu o que sua família queria e se casou com um homem rico e influente.Mas o tempo passou.O homem perdeu tudo.Enquanto isso, meu pai, que antes era só um pobretão, casou-se com minha mãe e deu a volta por cima.O destino brincou com todos.Depois, minha mãe morreu.Adriana se divorciou.Para o meu pai, foram duas boas notícias.E foi assim que eles reataram.E Adriana, junto com sua filha, roubou tudo de mim.Minhas roupas. Meu quarto. Meu pai.Sete dias atrás, Mafalda chegou em casa radiante. Tinha acabado de tirar a carteira de motorista.Meu pai, todo orgulhoso, disse que compraria um carro para ela.Mas ela hesitou por um instante, fingiu timidez e murmurou:— Aquele carro rosa na garagem é tão bonito…Meu tom foi frio.— Esse carro foi presente do meu pai para mim. Se quiser um, peça para o seu. Você não tem um pai, Mafalda?Aquele carro foi um presente do meu pai quando tirei minha carteira.Um presente especial.Eu achava que
Noite.O mordomo esperou até que todos na mansão estivessem dormindo e caminhou até a garagem.Antes mesmo de se aproximar do carro, um odor insuportável invadiu suas narinas.Quanto mais avançava, pior ficava.No chão, um líquido escuro e viscoso já começava a se mover.Vermes rastejavam por entre as frestas do porta-malas.Um pressentimento horrível lhe subiu à cabeça.Meu espírito se colocou na frente dele.— Volta.Minha voz foi firme.— Não olha. Vai se arrepender. Nunca mais vai conseguir comer na vida.O mordomo sempre foi um homem bom.Tentou interceder por mim antes…Mas era um empregado e precisava daquele trabalho. Não podia fazer nada.Por um instante, hesitou.Depois, deu alguns passos para trás e virou as costas. Se foi, sem olhar para trás.Manhã seguinte.O dia amanheceu, e meu pai estava de ótimo humor.Depois do café da manhã, pegou um presente cuidadosamente embrulhado.Esperou o momento certo e, quando Mafalda não estava prestando atenção, colocou a caixa diante del
O calor havia deformado o corpo. O rosto já não tinha feições reconhecíveis.Mas os olhos… Ainda estavam arregalados.Em alguns pontos, a pele já se desfazia, expondo ossos brancos.Nos outros, as larvas se contorciam em meio à carne podre.Assim que o porta-malas foi aberto, as moscas se agitaram, zunindo pelo ar.— Urghh…Os empregados vomitaram na hora.Meu pai deu um passo à frente.O olhar fixo naquele amontoado de carne e ossos.Então, berrou:— Onde está Taiane?! Isso não pode ser ela! Isso é algum truque!O rosto apodrecido lhe causava repulsa.A testa, quase desfeita, já mostrava o osso por baixo.Mesmo eu tive dificuldade em acreditar que aquele era meu corpo.O mordomo perdeu a paciência. Sua voz ecoou na garagem:— Essa é a senhorita Taiane. Ela está morta.Meu pai o encarou como se fosse um louco.— Velho imbecil! Isso não é Taiane! Ela está viva!Sua voz tremeu.— OITO dias trancada?! Ela teria morrido!O mordomo riu com desprezo.— Então por que o senhor não foi ver ante
— O mordomo e os empregados nem ousavam olhar para o corpo, que dirá mexer nele.— Mordomo, e agora? Eu não tenho coragem de tocar nisso. — Uma das empregadas perguntou, hesitante.O mordomo suspirou, tirou as luvas brancas e as jogou no chão.— Estou me demitindo. Sejam espertos e façam o mesmo.Assim que ele disse isso, os outros rapidamente tomaram a mesma decisão. Afinal, havia um cadáver ali, e eles eram empregados, não legistas. Cuidar de corpos não fazia parte do trabalho.Além do mais, muitos deles tinham acabado de ver meu corpo. Aquilo ia deixar uma marca que nem um salário gordo conseguiria apagar.Agora, mesmo que oferecessem mais dinheiro, ninguém ficaria.— Eu também não fico. Um corpo dentro de casa? Nem pensar!— Pois é, um homem que mata a própria filha... Eu não fico aqui nem mais um segundo.Sem hesitar, todos os empregados largaram as luvas e aventais e foram embora às pressas.O mordomo foi o último a sair. Trabalhara ali por muitos anos.Um dos empregados mais jov
À noite, Mafalda estava deitada na cama quando puxou um celular debaixo do travesseiro.Só então percebi que o celular era meu. Nem sei quando ela pegou.Ela abriu a conversa no WhatsApp e digitou algo rapidamente antes de enviar.No instante seguinte, uma explosão de raiva veio do quarto do meu pai.— Eu sabia! Aquela desgraçada tava só fingindo! Como ousa me ameaçar? Eu não tenho filha nenhuma! É bom que tenha morrido de vez, e bem longe daqui!Curiosa, me aproximei para ver o que Mafalda tinha escrito para deixá-lo tão furioso.— Velho desgraçado, se você cancelar meu cartão, eu me mato!Estalei a língua, desapontada.— Só isso? Ah, fala sério, faltou impacto.A essa altura, tudo o que eu sentia por aquele homem era ódio. Nada mais.Se Mafalda queria xingá-lo por mim, que bom. Até agradeço.Agora que eu estava morta, ele não podia mais me ameaçar.Ela continuou rolando pelo WhatsApp. Muitas mensagens de amigos. Mafalda leu uma por uma, sem responder nenhuma.Depois, pegou seu própri