O Amor que Nunca Veio
O Amor que Nunca Veio
Por: Sutilexato
capítulo 1
— Aquela ingrata… já implorou por perdão?

A voz do meu pai ecoou pela imensa mansão, rompendo o silêncio como um trovão.

O mordomo hesitou, sua voz tremia ao responder:

— Senhor… a senhorita ainda não saiu.

Os dedos do meu pai, que seguravam um charuto, pararam no ar por um instante.

Depois, ele simplesmente retomou a pose despreocupada.

— Sempre fui mole demais com ela. Agora ficou assim, descontrolada. Como ousa trancar a Mafalda dentro do carro? Tem que aprender a lição.

O mordomo parecia relutante.

— Mas, senhor, lá fora está fazendo mais de 40℃… E dentro do carro, com esse calor… será que a senhorita vai aguentar?

Meu pai soltou um riso frio.

— Calor? É exatamente isso que ela precisa sentir. Quero ver se depois disso ela ainda terá coragem de fazer algo assim com Mafalda. Se não aprender pelo bem, vai aprender pela dor.

Sua voz era indiferente.

Como se ele tivesse esquecido que eu estava trancada no porta-malas há sete dias.

O mordomo ainda queria insistir, mas foi cortado com impaciência:

— Já chega. Sei muito bem que alguém deve estar levando comida pra ela escondido. Está viva, não vai morrer.

Eu ri.

Mas ninguém ouviu.

Porque eu já estava morta.

Morta há quatro dias.

Desde então, meu espírito não saiu do lado do meu pai.

— Não fique mais irritado… Deixe-a sair. Com esse calor, deve estar sofrendo muito.

A voz suave veio do andar de cima.

A porta do meu antigo quarto se abriu.

Mafalda Gilberto apareceu, vestindo um vestido branco puro, como uma flor de jasmim.

O olhar do meu pai se suavizou na mesma hora.

Um carinho que eu nunca vi nele.

Mafalda se sentou ao lado dele, com delicadeza.

— Deixe-a pra lá. Você é bondosa demais. Ela te trancou no carro, fez você desmaiar de insolação… merece um castigo.

Quando falou de mim, seus olhos eram frios.

Como se estivesse falando de um estranho.

Ou pior…

De um inimigo.

Mas por quê? Eu não foi filha dele?

O mordomo caminhou até a cozinha, resmungando baixinho:

— Que absurdo… Ignorar a própria filha para bajular outra?!

No salão, Mafalda se aconchegava no ombro do meu pai, a voz embargada:

— Você é tão bom… Se ao menos fosse meu pai de verdade…

Ele sorriu, com ternura.

— Garota boba. Se quiser, serei seu pai.

Mafalda sorriu docemente.

— Mafalda, já está crescida, para de fazer manha.

A voz veio da porta.

A mulher que meu pai mais amou em toda a vida tinha acabado de entrar.

Adriana Gilberto.

Antes dela aparecer, eu sempre achei que o grande amor do meu pai tivesse sido minha mãe.

Mas quando minha mãe morreu, tudo mudou.

Certo momento, achei que ela teve sorte.

Pelo menos, não viveu para ver o verdadeiro rosto do homem que amou.

A crueldade.

A traição.

E eu?

Em breve, estarei com ela.

Na minha próxima vida…

Nem que eu vire um cachorro, um gato…

Mas filha dele, nunca mais.

— Saulo, já chega. O castigo foi suficiente. Taiane ainda é sua filha.

Mãe e filha se revezavam perfeitamente nos papéis de boazinhas.

Mas se realmente fossem tão boas…

Teriam me defendido.

Não teriam ficado paradas vendo meu pai me deixar sete dias e sete noites presa no porta-malas.

O mais irônico?

Aquele carro foi meu presente de aniversário.

Agora, era meu túmulo.
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