Não vou negar, fiquei meio paralisado quando vi a mulher parada diante de mim, se ela não fosse uma boa canditada para trabalhar, pelo menos era um belo colírio para os olhos, seus longos cabelos escuros emolduravam seu rosto e desciam como uma cascata por suas costas, belos olhos verdes, que eu também podia notar, tinham uma expressão levemente assustada ao me ver, era uma expressão comum em entrevistas de trabalho certamente.
Sua pele clara contrastava com a camisa azul que ela estava usando, e seus lábios tinham um batom suave, um pensamento muito rápido me atravessou, como será que deveria ser beija-la? O QUE? Peraí, que porra é essa Leonardo, ela é sua potencial funcionária e isso não é nada profissional, foco.
Ela estende a mão para me cumprimentar, um cumprimento respeitoso, mas noto seu aperto firme, demonstrando segurança, faço sinal para que ela entre na sala, ela entra e se acomoda na cadeira frente a minha mesa, sua feição até agora é inabalável, mas ela será a certa para a função? Vamos descobrir.
- Vejo em seu currículo que trabalhou por um longo período em outra empresa, por que a saida?
- Bem Sr. Rossi, acredito que não seja segredo que a empresa está passando por dificuldades financeiras, infelizmente fui um corte de gastos
Ao contrário do que pensam, quando uma empresa passa por um problema financeiro, geralmente descartam os funcionários da base da pirâmide alimentar primeiro, tentando salvar os seus belos pescoços de colarinho branco, entendo o que ela quer dizer com isso.
- Entendo, Srta. Duarte não deve ter sido agradável como finalizaram seu contrato
Ela suspira
- Meu antigo chefe sempre foi muito bom, inteligente e respeitoso, tenho total respeito pelos anos que trabalhei lá Sr. Rossi, eles estão fazendo o que acreditam ser necessário para salvar a companhia, não sou eu quem vai julga-los
Elogiando o chefe? Essa é nova.
Ela me fala um pouco sobre suas antigas atribuições e sua experiência de trabalho, de fato ela parece boa no que faz, mas somente boa não é o bastante, quero ver o quanto ela aguenta.
Ela continua respondendo uma por uma das minhas perguntas sem sequer piscar, ela não gagueja, sua postura não se abala, estou começando a achar que Lúcia estava certa, eu realmente gostei dela, e vou para a última pergunta.
- Você é casada Srta. Duarte?
Sim, eu sei que é indelicado de se perguntar, mas gosto de saber com o que estou lidando, já passei por isso antes, a depender da resposta, algumas pessoas vão verificar esse relacionamento, não tenho o menor interesse em maridos ciumentos atrapalhando o trabalho das minhas funcionárias.
Eu sei que sou um homem atraente, não é prepotencia, o espelho é claro como o dia, e secretárias executivas passam muito tempo com seus chefes, viajam acompanhando o trabalho, as vezes precisam ficar depois do horário, quero saber da disponibilidade dela, se não terá um marido dando escandalo na porta da empresa inventando um suposto caso comigo, o que não aconteceria de forma alguma porque eu tenho uma regra muito clara, nada de se envolver com funcionárias.
Mesmo assim, depois de passar por todo tipo de pergunta profissional com inteira destreza, é essa pergunta que a abalou, percebo que ela engole seco, em uma olhada rápida em suas mãos vejo que ela não usa qualquer aliança, mas mesmo que não tenha marido, nada impede de ser um namorado.
Seu olhar até então amigável, se endurece, provavelmente toquei um ponto sensível, interessante, vamos ver como ela lida com a pressão.
- Uma pergunta um tanto invasiva para uma entrevista de emprego não acha Sr. Rossi?
Ela não perde a compostura, permanece educada e firme, mas não deixo de notar sua lingua afiada.
- Bom Srta. Duarte, gosto de saber sobre meus funcionários
- Ainda não sou sua funcionária, e não vejo como isso muda minha candidatura, a não ser claro que ser uma mulher solteira seja um novo requisito no mercado de trabalho
Estreito os olhos em sua direção, claro que prezo por meus funcionários saberem se posicionar, e ela pode ser afiada, mas é bom se lembrar que o dono da empresa sou eu.
- Gostaria de lembrá-la que o chefe aqui sou eu Srta. Duarte
Ela me olha com desdém, COM DESDÉM, e se não fosse por sua postura inabalável até agora, eu juraria que ela iria arrancar meus olhos.
- E se por ser o chefe o senhor pensa que pode passar dos limites Sr. Rossi, isso diz muito sobre o senhor
Meu queixo cai, atrevida, insubordinada, como ela ousa dizer que eu falto com respeito com meus funcionários? Ela nem me conhece porra.
- Olha Srta. Duarte - digo mais duro do que pretendia - Acho que a senhorita está enganada a meu respeito.
- Espero que sim Sr. Rossi, caso contrário peço por gentileza que desconsidere minha candidatura a vaga, acabamos?
Faço que sim com a cabeça e ela se levanta e sai da sala sem olhar para trás, me deixando literalmente sem palavras.
*
*
*
- Fala Léo - Lúcia atende do outro lado da linha
- Lúcia...
- Eu
- Então...
- Fala logo Leonardo
- Não, é que...
- HÁ, eu disse, você gostou dela não foi? - Ela me interrompe com uma voz vitoriosa
Passo a mão pelo rosto, cansado, aquilo era uma droga, ela era competente, mas era uma mulher, bom... tinhosa talvez seria o termo, não sei se ela será a certa para a função, considerando meu temperamento um pouco, vejamos... dificil, mas dentre todas as candidatas que vi, ela com certeza se destacou. Começamos com o pé esquerdo com certeza, mas sim, eu gostei dela.
- Espere um dia Lúcia, aumente o salário em 30% e ofereça a vaga a ela
- E por que esse aumento?
- Porque senão ela não vai aceitar.
- Aquele filho da mãe! Mesquinho! Arrogante! Quem ele pensa que é? - Estou muito irritada com aquele idiota que não vou nem citar o nome, agora para mim ele é como o Voldemort, inominável.- E gatíssimo - Malu ri, por que ela é minha amiga mesmo?- E babaca, soberbo, um completo idiota- E gostoso - ela continua- Porra, você tá do lado de quem?Ela levanta as mãos em rendição, rindo enquanto eu estou praticamente soltando fogo de tanta raiva, aquele fatídica entrevista já foi ruim por si só, ele foi invasivo e arrogante, homenzinho prepotente! A Malu não estava errada claro, era um Sr. Gostoso? E como, o homem parecia uma geladeira frostfree ombros largos e mesmo com a roupa social, era muito visível que ele tinha músculos ali para dar e vender, os cabelos e olhos escuros como a noite, combinados com uma barba baixa e um maxilar marcado, aquele homem com certeza era a perdição de muitas mulheres por ai, e eu sequer as julgava, se não o tivesse conhecido, com certeza perderia pelo men
Quase não acreditei quando Lúcia me avisou que ela tinha aceitado a oferta de trabalho, depois daquela bola fora na entrevista de emprego dela, cheguei mesmo a imaginar que ela não aceitaria.Sabe, não me entenda mal, eu sei ser um babaca com certeza, mas apesar do alto nível de exigência do escritório, eu costumo tratar meus funcionários com respeito, a pergunta sobre seu estado civil na verdade era só para me poupar de problemas futuros com namorados e maridos que no começo adoram ter uma mulher trabalhadora e independente, mas depois começam a arrumar problemas para elas e consequentemente para mim, sei que não é uma pergunta que todos gostam de responder, mas mesmo assim, era só responder com um simples "sim" ou "não", não entendo porque ela ficou tão na defensiva.Em todo caso, no que se diz ao trabalho, a entrevista dela realmente foi anos luz melhor do que qualquer outra entrevistada, ela era exatamente o que eu buscava, com o bônus de ter um rosto absurdamente lindo.Peraí, que
Acho que consegui disfarçar bem meu mau humor de ter que olhar para cara daquele cretino, mas aqui, como funcionária, tenho total respeito e profissionalismo pelo meu chefe, claro, isso se ele não for um perfeito idiota como acredito que seja o caso.Lúcia por outro lado, é um amor de pessoa, é uma mulher na casa dos cinquenta anos, com jeito de mãezona, ela até poderia ser um personagem de TV nessas sérias onde a mãe é comica, com certeza o papel cairia como uma luva para ela.Não pude deixar de notar que ela é a única que se refere ao temido Leonardo Rossi como "Léo", os demais todos o chamam de Sr. Rossi ou Sr. Leonardo, mas ela, exclusivamente o chama de Léo, quase como se tivesse chamando pelo próprio filho, é uma relação legal de se assistir, principalmente quando estou sentada na minha mesa verificando a agenda da semana do meu novo chefe e ela passa batendo os pés, o chamando de "moleque" e que com certeza ele ainda vai "me enlouquecer", não pude conter o riso.Também notei qu
Mas que droga de dia, ao sair de casa naquela manhã eu sabia que algo parecia errado, era quase como uma sirene tocando no fundo da minha mente "tem alguma coisa errada", mas eu não ouvi, ou melhor, fingi que não ouvi.Comecei minha manhã normalmente, fiz o café da manhã pra mim e para o Rodrigo, meu noivo, que também já estava pronto para o trabalho.Eu e ele estamos juntos a quase 6 anos, no ano passado ele me pediu em casamento e eu prontamente disse sim, é claro, nós já morávamos juntos, nos dávamos muito bem, era o passo óbvio, casamento, fiquei animada com a ideia, marcamos a data para novembro, ou seja, daqui 6 meses, como planejamos uma comemoração pequena, não precisaríamos de tanto tempo assim para planejar, tudo ia dar certo.Estou me servindo de café, sentada à mesa quando Rodrigo sai do quarto esbaforido.- Perdi a hora amor...É claro que perdeu, ficou enrolando na cama, no celular enquanto o despertador gritava atrás dele, pedindo pelo amor de Deus que ele levantasse.-
Aquele sentimento chegou a me embrulhar o estômago, eu sei que o dia teve muitas emoções mas não esperava sentir essa angustia dentro da minha própria casa.Resolvo tirar aquela roupa já que não vou mais trabalhar hoje e depois fazer um chá para acalmar os animos, depois vou ligar para Rodrigo para contar o que aconteceu, coloco minha bolsa em cima do balcão e sigo rumo a escada para subir para o quarto, enquanto faço aquele caminho sinto meu coração apertar, quase como se estivesse me preparando para algo.É bom ressaltar que nada me prepararia para o que eu vi quando abri a porta do meu quarto, meu quarto, o quarto que eu dormia todos os dias, onde conversava com meu noivo todos os dias, onde ouvi as juras de amor e faziamos planos para o futuro, meu quarto, onde estão minhas coisas, onde meu cheiro paira no ar, meu quarto, onde eu deveria sentir total conforto, mas agora, com a porta do quarto escancarada e vendo meu noivo com outra na nossa cama, a última coisa que eu sinto é conf
Com as malas prontas, olho em volta com um pouco de nostalgia, esse era meu lar e agora são apenas paredes com um homem que eu desconheço e um história quebrada. Vejo o rosto do Rodrigo atrás de mim, ele continua me seguindo para lá e para cá, tentando argumentar coisas que eu sinceramente não estou ouvindo, firmo meus olhos para se focarem a realidade, acho que estava presa em um stand-by enquanto pegava minhas coisas.Vejo Rodrigo pálido, escorrem lágrimas por seu rosto, em seis anos de relacionamento eu nunca vi Rodrigo chorar, nunca, nenhuma vez sequer, nem no velório da avó dele, nunca, não sei dizer se ele está triste pelo fim do relacionamento ou porque foi pego na traição, e isso pouco importa.Desço as escadas com algumas malas, e vou para garagem colocar as coisas no carro, vou ter que subir para pegar o restante mas tenho que fazer isso rápido, preciso sair daqui.Subo e desço como um foguete, jogando as malas nos bancos dos passageiros e no porta malas sem qualquer cerimôn
Hoje faz uma semana que minha vida virou do avesso e estou na casa da Malu, ela tem sido incrível, é como uma festa do pijama sem fim, mas não posso abusar da boa vontade dela, sei que ela gosta de estarmos juntas, mas somos adultas, não dá para ficar vivendo como se o mundo não estivesse girando lá fora.Vi alguns apartamentos durante a semana, alguns eram fora do meu orçamento e outros muito mal localizados, já estava sem esperanças quando fui visitar o último da lista, mas para minha surpresa, daquela vez a sorte estava do meu lado, o apartamento era lindo, claro que não se comparava ao tamanho da minha antiga casa, mas era perfeito para mim e para minha fase atual, dois quartos, uma boa cozinha, uma sala razoavelmente grande com uma sacada com vista para cidade.Eu com certeza conseguia me ver morando ali, tomando um vinho e relaxando, a localização era ótima, perto de tudo e o valor, quase cai para trás, estava dentro do que eu procurava, finalmente achei minha nova casa.Quando
Pinço a ponta do nariz com os dedos e respiro profundamente, minha paciência está indo pelo ralo, não aguento mais fazer entrevistas de gente incompetente, puta que me pariu, e olha que Lúcia, responsável pelo RH é muito boa no que faz, a primeira entrevista das candidatas é com ela, e então, ela só passa para continuar a entrevista comigo aquelas que ela considera com um mínimo de capacidade para o trabalho.O que eu não entendo é como essas mulheres estão chegando até a minha sala e passando pela Lúcia, a última entrevista que acabei de fazer a candidata sequer conseguia olhar para mim, parece que estava vendo o próprio demônio encarnado, ela olhava para o chão e gaguejava, faça-me o favor, como vou contratar uma secretária executiva que não sabe fazer a função básica dela: FALAR.Não é possível que não existam mais secretárias boas por ai, eu sei que sou exigente, minha empresa é de alto nível, assim espero que todos aqui também sejam, que todos deem o seu melhor no trabalho, busca