Hoje faz uma semana que minha vida virou do avesso e estou na casa da Malu, ela tem sido incrível, é como uma festa do pijama sem fim, mas não posso abusar da boa vontade dela, sei que ela gosta de estarmos juntas, mas somos adultas, não dá para ficar vivendo como se o mundo não estivesse girando lá fora.
Vi alguns apartamentos durante a semana, alguns eram fora do meu orçamento e outros muito mal localizados, já estava sem esperanças quando fui visitar o último da lista, mas para minha surpresa, daquela vez a sorte estava do meu lado, o apartamento era lindo, claro que não se comparava ao tamanho da minha antiga casa, mas era perfeito para mim e para minha fase atual, dois quartos, uma boa cozinha, uma sala razoavelmente grande com uma sacada com vista para cidade.
Eu com certeza conseguia me ver morando ali, tomando um vinho e relaxando, a localização era ótima, perto de tudo e o valor, quase cai para trás, estava dentro do que eu procurava, finalmente achei minha nova casa.
Quando contei para Malu foi um misto de alegria e saudade, ela já estava sofrendo por antecipação, mas estava feliz por mim, as coisas pareciam estar entrando nos trilhos, é claro que eu ainda não tinha emprego então não podia passar do meu orçamento de jeito nenhum, precisava sobreviver da minha poupança até conseguir outro trabalho, o que eu torcia para que acontecece logo.
*
*
*
- Essa caixa vai pra onde Mila?
Tento ver por dentro da caixa que minha amiga leva nos braços, não tenho muita coisa para trazer de mudança, minhas coisas pessoais estavam todas na casa da Malu e algumas coisas ela fez questão de ir buscar pra mim na casa do Rodrigo, disse que ele ficou com a maior cara de tacho quando a viu, não sei se esperava me ver, ou se novamente só estava chateado por perder a pose de bom moço.
- Cozinha
Ela deixa a caixa na bancada e vai até mim na sala, que está vazia, a não ser pela TV na parede.
- Sabe que eu acho que você deveria ter pego muito mais né? Era sua casa também - Ela diz apontando para a TV que estou olhando.
- Eu sei, eu sei... Mas sabe, a verdade é que eu não queria, se não estivesse sem trabalho não teria pego nada, tenho asco só de lembrar dele
- Mas é seu direito
- Eu sei Malu, eu entendo, só quero acabar com isso logo, o que você pegou está ótimo, e de quebra, com certeza irritou ele, o que é melhor que qualquer eletrodoméstico!
Caímos na risada.
- Bom, com certeza ele não gostou muito de me ler levando a cafeteira embora
- Ó meu Deus - faço em um falso sentimentalismo - E agora, quem fará o cafezinho dele?
- Por mim que ele vá tomar café na casa do caralho
- É por isso que eu te amo
- Eu sei - ela pisca pra mim.
Continuamos desarrumando as coisas, umas que ela pegou na casa, outras novas que comprei e algumas que ainda iriam chegar, como por exemplo meu sofá, por enquanto minha sala era TV e chão, chiquissimo.
- Está animada com a entrevista? - Malu pergunta e eu olho no relógio, não posso ir dormir tarde, amanhã tenho uma entrevista de emprego e é pela manhã, não quero parecer uma maluca, preciso do trabalho.
- Sabe que tinha até esquecido
- Onde é mesmo?
- Na Inova
Malu arregala os olhos tão bruscamente que quase acho que eles vão cair de seu rosto, quando ela continua:
- Inova Marketing Digital?
- Isso mesmo
- Milena, você sabe da fama de lá não sabe?
Suspiro profundamente, é claro que sei, mas no momento não posso me dar ao luxo de ficar escolhendo onde trabalhar, entre achar o apartamento e a mudança foram quase quinze dias, eu fiz outra entrevista mas eles não me retornaram até agora, preciso tentar tudo que estiver disponível.
- Sei, claro
- E você acha uma boa ideia?
- Não é como se eu tivesse muita opção Malu, preciso de trabalho, minha poupança vai me manter por um tempo mas tenho que pagar o apartamento, tive que comprar móveis, não posso acabar com tudo que tenho na conta - Passo a mão pela testa, só de lembrar das minhas contas já me dava arrepios.
- Eu sei amiga, só quero dizer que... Bom, você sabe, ninguém para lá, dizem que o CEO é um escroto
- Pode ser só boato - respondo mas a verdade é que também não acredito nisso, conheço a fama do CEO da Inova e sempre pesquiso a empresa antes de uma entrevista, o que dizem, no melhor dos comentários, é que ele é um homem exigente, no pior, que ele é um merdinha arrogante.
- Espero que sim, era só o que faltava, depois de tudo isso você ainda ter que lidar um um chefe tóxico
- O máximo que pode acontecer é eu ter que procurar trabalho de novo - dou de ombros - e nem sabemos se eles vão me chamar, aquela outra entrevista que fiz até hoje não deram retorno, provavelmente já até contrataram alguém e tocaram o foda-se para os outros candidatos
- Se quiser, posso pegar seu currículo e entregar pro meu chefe Mila, você poderia trabalhar comigo
- Como estilista?! Tá maluca? Não entendo nada disso
Ela ri.
- Ah, você pode aprender - ela sorri
- Meu Deus do céu Malu, coitada da mulher que tivesse que se vestir com alguma coisa que eu desenhasse, seria melhor um saco de batatas
Rimos da constatação, apesar de me considerar uma pessoa antenada com a moda, desenhar não era comigo, seria um caos.
- Tá certo - ela levanta as mãos em rendição - só espero que o trabalho seja bom e que esse cara não seja um idiota
- É, eu também amiga.
Pinço a ponta do nariz com os dedos e respiro profundamente, minha paciência está indo pelo ralo, não aguento mais fazer entrevistas de gente incompetente, puta que me pariu, e olha que Lúcia, responsável pelo RH é muito boa no que faz, a primeira entrevista das candidatas é com ela, e então, ela só passa para continuar a entrevista comigo aquelas que ela considera com um mínimo de capacidade para o trabalho.O que eu não entendo é como essas mulheres estão chegando até a minha sala e passando pela Lúcia, a última entrevista que acabei de fazer a candidata sequer conseguia olhar para mim, parece que estava vendo o próprio demônio encarnado, ela olhava para o chão e gaguejava, faça-me o favor, como vou contratar uma secretária executiva que não sabe fazer a função básica dela: FALAR.Não é possível que não existam mais secretárias boas por ai, eu sei que sou exigente, minha empresa é de alto nível, assim espero que todos aqui também sejam, que todos deem o seu melhor no trabalho, busca
Não vou negar, fiquei meio paralisado quando vi a mulher parada diante de mim, se ela não fosse uma boa canditada para trabalhar, pelo menos era um belo colírio para os olhos, seus longos cabelos escuros emolduravam seu rosto e desciam como uma cascata por suas costas, belos olhos verdes, que eu também podia notar, tinham uma expressão levemente assustada ao me ver, era uma expressão comum em entrevistas de trabalho certamente.Sua pele clara contrastava com a camisa azul que ela estava usando, e seus lábios tinham um batom suave, um pensamento muito rápido me atravessou, como será que deveria ser beija-la? O QUE? Peraí, que porra é essa Leonardo, ela é sua potencial funcionária e isso não é nada profissional, foco.Ela estende a mão para me cumprimentar, um cumprimento respeitoso, mas noto seu aperto firme, demonstrando segurança, faço sinal para que ela entre na sala, ela entra e se acomoda na cadeira frente a minha mesa, sua feição até agora é inabalável, mas ela será a certa para
- Aquele filho da mãe! Mesquinho! Arrogante! Quem ele pensa que é? - Estou muito irritada com aquele idiota que não vou nem citar o nome, agora para mim ele é como o Voldemort, inominável.- E gatíssimo - Malu ri, por que ela é minha amiga mesmo?- E babaca, soberbo, um completo idiota- E gostoso - ela continua- Porra, você tá do lado de quem?Ela levanta as mãos em rendição, rindo enquanto eu estou praticamente soltando fogo de tanta raiva, aquele fatídica entrevista já foi ruim por si só, ele foi invasivo e arrogante, homenzinho prepotente! A Malu não estava errada claro, era um Sr. Gostoso? E como, o homem parecia uma geladeira frostfree ombros largos e mesmo com a roupa social, era muito visível que ele tinha músculos ali para dar e vender, os cabelos e olhos escuros como a noite, combinados com uma barba baixa e um maxilar marcado, aquele homem com certeza era a perdição de muitas mulheres por ai, e eu sequer as julgava, se não o tivesse conhecido, com certeza perderia pelo men
Quase não acreditei quando Lúcia me avisou que ela tinha aceitado a oferta de trabalho, depois daquela bola fora na entrevista de emprego dela, cheguei mesmo a imaginar que ela não aceitaria.Sabe, não me entenda mal, eu sei ser um babaca com certeza, mas apesar do alto nível de exigência do escritório, eu costumo tratar meus funcionários com respeito, a pergunta sobre seu estado civil na verdade era só para me poupar de problemas futuros com namorados e maridos que no começo adoram ter uma mulher trabalhadora e independente, mas depois começam a arrumar problemas para elas e consequentemente para mim, sei que não é uma pergunta que todos gostam de responder, mas mesmo assim, era só responder com um simples "sim" ou "não", não entendo porque ela ficou tão na defensiva.Em todo caso, no que se diz ao trabalho, a entrevista dela realmente foi anos luz melhor do que qualquer outra entrevistada, ela era exatamente o que eu buscava, com o bônus de ter um rosto absurdamente lindo.Peraí, que
Acho que consegui disfarçar bem meu mau humor de ter que olhar para cara daquele cretino, mas aqui, como funcionária, tenho total respeito e profissionalismo pelo meu chefe, claro, isso se ele não for um perfeito idiota como acredito que seja o caso.Lúcia por outro lado, é um amor de pessoa, é uma mulher na casa dos cinquenta anos, com jeito de mãezona, ela até poderia ser um personagem de TV nessas sérias onde a mãe é comica, com certeza o papel cairia como uma luva para ela.Não pude deixar de notar que ela é a única que se refere ao temido Leonardo Rossi como "Léo", os demais todos o chamam de Sr. Rossi ou Sr. Leonardo, mas ela, exclusivamente o chama de Léo, quase como se tivesse chamando pelo próprio filho, é uma relação legal de se assistir, principalmente quando estou sentada na minha mesa verificando a agenda da semana do meu novo chefe e ela passa batendo os pés, o chamando de "moleque" e que com certeza ele ainda vai "me enlouquecer", não pude conter o riso.Também notei qu
Mas que droga de dia, ao sair de casa naquela manhã eu sabia que algo parecia errado, era quase como uma sirene tocando no fundo da minha mente "tem alguma coisa errada", mas eu não ouvi, ou melhor, fingi que não ouvi.Comecei minha manhã normalmente, fiz o café da manhã pra mim e para o Rodrigo, meu noivo, que também já estava pronto para o trabalho.Eu e ele estamos juntos a quase 6 anos, no ano passado ele me pediu em casamento e eu prontamente disse sim, é claro, nós já morávamos juntos, nos dávamos muito bem, era o passo óbvio, casamento, fiquei animada com a ideia, marcamos a data para novembro, ou seja, daqui 6 meses, como planejamos uma comemoração pequena, não precisaríamos de tanto tempo assim para planejar, tudo ia dar certo.Estou me servindo de café, sentada à mesa quando Rodrigo sai do quarto esbaforido.- Perdi a hora amor...É claro que perdeu, ficou enrolando na cama, no celular enquanto o despertador gritava atrás dele, pedindo pelo amor de Deus que ele levantasse.-
Aquele sentimento chegou a me embrulhar o estômago, eu sei que o dia teve muitas emoções mas não esperava sentir essa angustia dentro da minha própria casa.Resolvo tirar aquela roupa já que não vou mais trabalhar hoje e depois fazer um chá para acalmar os animos, depois vou ligar para Rodrigo para contar o que aconteceu, coloco minha bolsa em cima do balcão e sigo rumo a escada para subir para o quarto, enquanto faço aquele caminho sinto meu coração apertar, quase como se estivesse me preparando para algo.É bom ressaltar que nada me prepararia para o que eu vi quando abri a porta do meu quarto, meu quarto, o quarto que eu dormia todos os dias, onde conversava com meu noivo todos os dias, onde ouvi as juras de amor e faziamos planos para o futuro, meu quarto, onde estão minhas coisas, onde meu cheiro paira no ar, meu quarto, onde eu deveria sentir total conforto, mas agora, com a porta do quarto escancarada e vendo meu noivo com outra na nossa cama, a última coisa que eu sinto é conf
Com as malas prontas, olho em volta com um pouco de nostalgia, esse era meu lar e agora são apenas paredes com um homem que eu desconheço e um história quebrada. Vejo o rosto do Rodrigo atrás de mim, ele continua me seguindo para lá e para cá, tentando argumentar coisas que eu sinceramente não estou ouvindo, firmo meus olhos para se focarem a realidade, acho que estava presa em um stand-by enquanto pegava minhas coisas.Vejo Rodrigo pálido, escorrem lágrimas por seu rosto, em seis anos de relacionamento eu nunca vi Rodrigo chorar, nunca, nenhuma vez sequer, nem no velório da avó dele, nunca, não sei dizer se ele está triste pelo fim do relacionamento ou porque foi pego na traição, e isso pouco importa.Desço as escadas com algumas malas, e vou para garagem colocar as coisas no carro, vou ter que subir para pegar o restante mas tenho que fazer isso rápido, preciso sair daqui.Subo e desço como um foguete, jogando as malas nos bancos dos passageiros e no porta malas sem qualquer cerimôn