Com as malas prontas, olho em volta com um pouco de nostalgia, esse era meu lar e agora são apenas paredes com um homem que eu desconheço e um história quebrada. Vejo o rosto do Rodrigo atrás de mim, ele continua me seguindo para lá e para cá, tentando argumentar coisas que eu sinceramente não estou ouvindo, firmo meus olhos para se focarem a realidade, acho que estava presa em um stand-by enquanto pegava minhas coisas.
Vejo Rodrigo pálido, escorrem lágrimas por seu rosto, em seis anos de relacionamento eu nunca vi Rodrigo chorar, nunca, nenhuma vez sequer, nem no velório da avó dele, nunca, não sei dizer se ele está triste pelo fim do relacionamento ou porque foi pego na traição, e isso pouco importa.
Desço as escadas com algumas malas, e vou para garagem colocar as coisas no carro, vou ter que subir para pegar o restante mas tenho que fazer isso rápido, preciso sair daqui.
Subo e desço como um foguete, jogando as malas nos bancos dos passageiros e no porta malas sem qualquer cerimônia, agora não é hora para isso, quando finalmente desço com a última mala olho para o céu e vejo que o tempo está fechando, claro, além de tudo vai começar a chover, nem se eu tivesse encomendado um final tão dramático teria dado certo, mas hoje é um dia daqueles.
Volto para dentro e estou tirando minha cópia da chave do meu chaveiro, colocando sobre a bancada quando Rodrigo se aproxima novamente e pega meu braço.
- Mila, vamos lá, se acalma, vamos conversar
Puxo o braço bruscamente, mas mantenho o rosto impassível.
- Não vou repetir Rodrigo, não me toque
Me viro novamente em direção à porta com ele no meu encalço, de repente me lembro de uma coisa, e paro onde estou, me virando e ficando frente a frente com ele.
- Rodrigo - Posso ver um lampejo de esperança em seu rosto quando me ouve dizer seu nome, chega a ser ridiculo
- Mil...
- Aqui - eu o corto, puxando o anel de noivado do meu dedo e entregando de volta para ele, ele o pega na mão boquiaberto mas fica em silêncio.
Sem dar qualquer chance para que ele volte a querer falar comigo, saio pela porta, entro no carro e deixo a casa, hoje me despedi da vida que eu pensava estar construindo, mas se tem uma coisa que aprendi com minha mãe é que o que não te mata te fortalece, então, dentro daquele carro, com a chuva caindo, tentando clarear minhas ideias e decidir o que fazer, pelo menos uma coisa já está muito bem definida, eu quero distância dos homens.
*
*
*
Estou tocando a campainha desesperadamente, tendo em vista que minha sanidade já está no fim e estou encharcada da chuva que resolveu cair.
- Pois não? - Ouço aquela voz tão familiar, como um sopro de calma no meu coração
- Malu, sou eu
- Mila? Entra sua maluca, tá caindo o maior toró - ela abre o portão pelo interfone e eu entro.
Ela abre a porta da frente enquanto entro na sua varanda fugindo da chuva e ao me ver toda molhada e provavelmente com a pior cara que ela já deve ter visto, não preciso dizer nada, ela sabe que algo está terrivelmente errado e antes mesmo de eu dizer qualquer coisa, me puxa para um abraço apertado.
Não consigo sufocar o choro, ele vem torrencialmente, as comportas se abriram, Malu é minha melhor amiga, minha irmã de alma, e é aqui que me sinto segura para uma vez só, me permitir chorar pelo dia de hoje, isso não vai acontecer de novo, mas preciso extravazar tudo aquilo.
- Shh... Vai ficar tudo bem - ela passa as mãos por meus cabelos
Permanecemos assim por um tempo e só quando consigo me acalmar e parar de chorar que vejo minha amiga me olhando nos olhos, morrendo de preocupação.
- Te molhei toda - Aponto para ela.
- Quem liga pra isso? Vem, entra, vou pegar uma roupa seca pra você
- Eu tenho roupas no carro - aponto para o carro estacionado.
Ela arregala os olhos, provavelmente já juntou os pontos, se eu estou no meio da tarde chorando na casa dela e com roupas no carro, o problema tem nome: Rodrigo.
- Você não vai voltar no carro com essa chuva, deixa de ser teimosa, entra, vai pro banheiro do seu quarto, lá tem toalhas, vou pegar uma roupa confortável e você me conta o que aconteceu
Concordo com a cabeça.
Gosto quando ela se refere ao quarto de hóspedes como meu quarto, fazemos isso desde sempre, como se tivessemos quarto uma na casa da outra, isso faz meu corpo relaxar.
Sigo para o banheiro e tiro minhas roupas que estão ensopadas, ligo a ducha e jogo uma água quente no corpo, torcendo para que aquilo ajude a tirar qualquer resquício do que aconteceu. Quando saio do box ela está lá parada feito uma assombração, com um pijama nas mãos.
- Porra que susto Malu
- Aqui é zero privacidade, você sabe, toma - ela me entrega o pijama - achei que ia querer uma roupa confortável
- Está perfeito, obrigada
- Se troca e vem pra sala, vou fazer um chá
Obedeço e minutos depois estou na sala, contando os pormenores daquele dia de merda para minha amiga, desde o dia começar comigo sendo demitida e continuar a saga comigo sendo corna. Só alegria.
- Mas que pau no cú! - Ela sacode as mãos no ar, seu rosto está vermelho, ela está morrendo de raiva, e não posso culpa-la, se fosse o contrário, eu estaria colocando fogo no mundo por ela.
- Pois é, agora não tenho emprego, casa ou noivo, veja só que coisa... - tento fazer piada
- Bom, casa você tem, sabe que vai ficar aqui o tempo que precisar
Levo meu chá a boca.
- Eu sei Malu e te agradeço, mesmo, mas não posso ficar aqui, você tem sua própria vida pra cuidar, vou ficar só alguns dias, enquanto encontro um lugar
Ela estreita os olhos, pronta para me dar um tabefe, quando eu intervenho.
- EI, NADA DE AGRESSÃO, SOU UMA POBRE MULHER DESEMPREGADA E CORNA
Ela ri.
- Se já está fazendo piada é porque já está bem pra levar um beliscão! - Ela segura minha mão - Não existe isso de cuidar da minha própria vida, você vai ficar aqui o quanto quiser, sem pressa alguma, procure outro trabalho, tire um mês sabático, saia com um homem por dia, faça celibato, o que seu coração mandar, eu to aqui pra você!
- Eu sei
Não, posso evitar sentir meus olhos marejarem novamente,pela primeira vez naquele dia, eu sentia que finalmente alguma coisa estava certa.
Hoje faz uma semana que minha vida virou do avesso e estou na casa da Malu, ela tem sido incrível, é como uma festa do pijama sem fim, mas não posso abusar da boa vontade dela, sei que ela gosta de estarmos juntas, mas somos adultas, não dá para ficar vivendo como se o mundo não estivesse girando lá fora.Vi alguns apartamentos durante a semana, alguns eram fora do meu orçamento e outros muito mal localizados, já estava sem esperanças quando fui visitar o último da lista, mas para minha surpresa, daquela vez a sorte estava do meu lado, o apartamento era lindo, claro que não se comparava ao tamanho da minha antiga casa, mas era perfeito para mim e para minha fase atual, dois quartos, uma boa cozinha, uma sala razoavelmente grande com uma sacada com vista para cidade.Eu com certeza conseguia me ver morando ali, tomando um vinho e relaxando, a localização era ótima, perto de tudo e o valor, quase cai para trás, estava dentro do que eu procurava, finalmente achei minha nova casa.Quando
Pinço a ponta do nariz com os dedos e respiro profundamente, minha paciência está indo pelo ralo, não aguento mais fazer entrevistas de gente incompetente, puta que me pariu, e olha que Lúcia, responsável pelo RH é muito boa no que faz, a primeira entrevista das candidatas é com ela, e então, ela só passa para continuar a entrevista comigo aquelas que ela considera com um mínimo de capacidade para o trabalho.O que eu não entendo é como essas mulheres estão chegando até a minha sala e passando pela Lúcia, a última entrevista que acabei de fazer a candidata sequer conseguia olhar para mim, parece que estava vendo o próprio demônio encarnado, ela olhava para o chão e gaguejava, faça-me o favor, como vou contratar uma secretária executiva que não sabe fazer a função básica dela: FALAR.Não é possível que não existam mais secretárias boas por ai, eu sei que sou exigente, minha empresa é de alto nível, assim espero que todos aqui também sejam, que todos deem o seu melhor no trabalho, busca
Não vou negar, fiquei meio paralisado quando vi a mulher parada diante de mim, se ela não fosse uma boa canditada para trabalhar, pelo menos era um belo colírio para os olhos, seus longos cabelos escuros emolduravam seu rosto e desciam como uma cascata por suas costas, belos olhos verdes, que eu também podia notar, tinham uma expressão levemente assustada ao me ver, era uma expressão comum em entrevistas de trabalho certamente.Sua pele clara contrastava com a camisa azul que ela estava usando, e seus lábios tinham um batom suave, um pensamento muito rápido me atravessou, como será que deveria ser beija-la? O QUE? Peraí, que porra é essa Leonardo, ela é sua potencial funcionária e isso não é nada profissional, foco.Ela estende a mão para me cumprimentar, um cumprimento respeitoso, mas noto seu aperto firme, demonstrando segurança, faço sinal para que ela entre na sala, ela entra e se acomoda na cadeira frente a minha mesa, sua feição até agora é inabalável, mas ela será a certa para
- Aquele filho da mãe! Mesquinho! Arrogante! Quem ele pensa que é? - Estou muito irritada com aquele idiota que não vou nem citar o nome, agora para mim ele é como o Voldemort, inominável.- E gatíssimo - Malu ri, por que ela é minha amiga mesmo?- E babaca, soberbo, um completo idiota- E gostoso - ela continua- Porra, você tá do lado de quem?Ela levanta as mãos em rendição, rindo enquanto eu estou praticamente soltando fogo de tanta raiva, aquele fatídica entrevista já foi ruim por si só, ele foi invasivo e arrogante, homenzinho prepotente! A Malu não estava errada claro, era um Sr. Gostoso? E como, o homem parecia uma geladeira frostfree ombros largos e mesmo com a roupa social, era muito visível que ele tinha músculos ali para dar e vender, os cabelos e olhos escuros como a noite, combinados com uma barba baixa e um maxilar marcado, aquele homem com certeza era a perdição de muitas mulheres por ai, e eu sequer as julgava, se não o tivesse conhecido, com certeza perderia pelo men
Quase não acreditei quando Lúcia me avisou que ela tinha aceitado a oferta de trabalho, depois daquela bola fora na entrevista de emprego dela, cheguei mesmo a imaginar que ela não aceitaria.Sabe, não me entenda mal, eu sei ser um babaca com certeza, mas apesar do alto nível de exigência do escritório, eu costumo tratar meus funcionários com respeito, a pergunta sobre seu estado civil na verdade era só para me poupar de problemas futuros com namorados e maridos que no começo adoram ter uma mulher trabalhadora e independente, mas depois começam a arrumar problemas para elas e consequentemente para mim, sei que não é uma pergunta que todos gostam de responder, mas mesmo assim, era só responder com um simples "sim" ou "não", não entendo porque ela ficou tão na defensiva.Em todo caso, no que se diz ao trabalho, a entrevista dela realmente foi anos luz melhor do que qualquer outra entrevistada, ela era exatamente o que eu buscava, com o bônus de ter um rosto absurdamente lindo.Peraí, que
Acho que consegui disfarçar bem meu mau humor de ter que olhar para cara daquele cretino, mas aqui, como funcionária, tenho total respeito e profissionalismo pelo meu chefe, claro, isso se ele não for um perfeito idiota como acredito que seja o caso.Lúcia por outro lado, é um amor de pessoa, é uma mulher na casa dos cinquenta anos, com jeito de mãezona, ela até poderia ser um personagem de TV nessas sérias onde a mãe é comica, com certeza o papel cairia como uma luva para ela.Não pude deixar de notar que ela é a única que se refere ao temido Leonardo Rossi como "Léo", os demais todos o chamam de Sr. Rossi ou Sr. Leonardo, mas ela, exclusivamente o chama de Léo, quase como se tivesse chamando pelo próprio filho, é uma relação legal de se assistir, principalmente quando estou sentada na minha mesa verificando a agenda da semana do meu novo chefe e ela passa batendo os pés, o chamando de "moleque" e que com certeza ele ainda vai "me enlouquecer", não pude conter o riso.Também notei qu
Mas que droga de dia, ao sair de casa naquela manhã eu sabia que algo parecia errado, era quase como uma sirene tocando no fundo da minha mente "tem alguma coisa errada", mas eu não ouvi, ou melhor, fingi que não ouvi.Comecei minha manhã normalmente, fiz o café da manhã pra mim e para o Rodrigo, meu noivo, que também já estava pronto para o trabalho.Eu e ele estamos juntos a quase 6 anos, no ano passado ele me pediu em casamento e eu prontamente disse sim, é claro, nós já morávamos juntos, nos dávamos muito bem, era o passo óbvio, casamento, fiquei animada com a ideia, marcamos a data para novembro, ou seja, daqui 6 meses, como planejamos uma comemoração pequena, não precisaríamos de tanto tempo assim para planejar, tudo ia dar certo.Estou me servindo de café, sentada à mesa quando Rodrigo sai do quarto esbaforido.- Perdi a hora amor...É claro que perdeu, ficou enrolando na cama, no celular enquanto o despertador gritava atrás dele, pedindo pelo amor de Deus que ele levantasse.-
Aquele sentimento chegou a me embrulhar o estômago, eu sei que o dia teve muitas emoções mas não esperava sentir essa angustia dentro da minha própria casa.Resolvo tirar aquela roupa já que não vou mais trabalhar hoje e depois fazer um chá para acalmar os animos, depois vou ligar para Rodrigo para contar o que aconteceu, coloco minha bolsa em cima do balcão e sigo rumo a escada para subir para o quarto, enquanto faço aquele caminho sinto meu coração apertar, quase como se estivesse me preparando para algo.É bom ressaltar que nada me prepararia para o que eu vi quando abri a porta do meu quarto, meu quarto, o quarto que eu dormia todos os dias, onde conversava com meu noivo todos os dias, onde ouvi as juras de amor e faziamos planos para o futuro, meu quarto, onde estão minhas coisas, onde meu cheiro paira no ar, meu quarto, onde eu deveria sentir total conforto, mas agora, com a porta do quarto escancarada e vendo meu noivo com outra na nossa cama, a última coisa que eu sinto é conf