Capítulo 3 - Milena Duarte

Com as malas prontas, olho em volta com um pouco de nostalgia, esse era meu lar e agora são apenas paredes com um homem que eu desconheço e um história quebrada. Vejo o rosto do Rodrigo atrás de mim, ele continua me seguindo para lá e para cá, tentando argumentar coisas que eu sinceramente não estou ouvindo, firmo meus olhos para se focarem a realidade, acho que estava presa em um stand-by enquanto pegava minhas coisas.

Vejo Rodrigo pálido, escorrem lágrimas por seu rosto, em seis anos de relacionamento eu nunca vi Rodrigo chorar, nunca, nenhuma vez sequer, nem no velório da avó dele, nunca, não sei dizer se ele está triste pelo fim do relacionamento ou porque foi pego na traição, e isso pouco importa.

Desço as escadas com algumas malas, e vou para garagem colocar as coisas no carro, vou ter que subir para pegar o restante mas tenho que fazer isso rápido, preciso sair daqui.

Subo e desço como um foguete, jogando as malas nos bancos dos passageiros e no porta malas sem qualquer cerimônia, agora não é hora para isso, quando finalmente desço com a última mala olho para o céu e vejo que o tempo está fechando, claro, além de tudo vai começar a chover, nem se eu tivesse encomendado um final tão dramático teria dado certo, mas hoje é um dia daqueles.

Volto para dentro e estou tirando minha cópia da chave do meu chaveiro, colocando sobre a bancada quando Rodrigo se aproxima novamente e pega meu braço.

- Mila, vamos lá, se acalma, vamos conversar

Puxo o braço bruscamente, mas mantenho o rosto impassível.

- Não vou repetir Rodrigo, não me toque 

Me viro novamente em direção à porta com ele no meu encalço, de repente me lembro de uma coisa, e paro onde estou, me virando e ficando frente a frente com ele.

- Rodrigo - Posso ver um lampejo de esperança em seu rosto quando me ouve dizer seu nome, chega a ser ridiculo

- Mil...

- Aqui - eu o corto, puxando o anel de noivado do meu dedo e entregando de volta para ele, ele o pega na mão boquiaberto mas fica em silêncio.

Sem dar qualquer chance para que ele volte a querer falar comigo, saio pela porta, entro no carro e deixo a casa, hoje me despedi da vida que eu pensava estar construindo, mas se tem uma coisa que aprendi com minha mãe é que o que não te mata te fortalece, então, dentro daquele carro, com a chuva caindo, tentando clarear minhas ideias e decidir o que fazer, pelo menos uma coisa já está muito bem definida, eu quero distância dos homens.

*

*

*

Estou tocando a campainha desesperadamente, tendo em vista que minha sanidade já está no fim e estou encharcada da chuva que resolveu cair.

- Pois não? - Ouço aquela voz tão familiar, como um sopro de calma no meu coração

- Malu, sou eu

- Mila? Entra sua maluca, tá caindo o maior toró - ela abre o portão pelo interfone e eu entro.

Ela abre a porta da frente enquanto entro na sua varanda fugindo da chuva e ao me ver toda molhada e provavelmente com a pior cara que ela já deve ter visto, não preciso dizer nada, ela sabe que algo está terrivelmente errado e antes mesmo de eu dizer qualquer coisa, me puxa para um abraço apertado.

Não consigo sufocar o choro, ele vem torrencialmente, as comportas se abriram, Malu é minha melhor amiga, minha irmã de alma, e é aqui que me sinto segura para uma vez só, me permitir chorar pelo dia de hoje, isso não vai acontecer de novo, mas preciso extravazar tudo aquilo.

- Shh... Vai ficar tudo bem - ela passa as mãos por meus cabelos

Permanecemos assim por um tempo e só quando consigo me acalmar e parar de chorar que vejo minha amiga me olhando nos olhos, morrendo de preocupação.

- Te molhei toda - Aponto para ela.

- Quem liga pra isso? Vem, entra, vou pegar uma roupa seca pra você

- Eu tenho roupas no carro - aponto para o carro estacionado.

Ela arregala os olhos, provavelmente já juntou os pontos, se eu estou no meio da tarde chorando na casa dela e com roupas no carro, o problema tem nome: Rodrigo.

- Você não vai voltar no carro com essa chuva, deixa de ser teimosa, entra, vai pro banheiro do seu quarto, lá tem toalhas, vou pegar uma roupa confortável e você me conta o que aconteceu

Concordo com a cabeça.

Gosto quando ela se refere ao quarto de hóspedes como meu quarto, fazemos isso desde sempre, como se tivessemos quarto uma na casa da outra, isso faz meu corpo relaxar.

Sigo para o banheiro e tiro minhas roupas que estão ensopadas, ligo a ducha e jogo uma água quente no corpo, torcendo para que aquilo ajude a tirar qualquer resquício do que aconteceu. Quando saio do box ela está lá parada feito uma assombração, com um pijama nas mãos.

- Porra que susto Malu

- Aqui é zero privacidade, você sabe, toma - ela me entrega o pijama - achei que ia querer uma roupa confortável

- Está perfeito, obrigada

- Se troca e vem pra sala, vou fazer um chá 

Obedeço e minutos depois estou na sala, contando os pormenores daquele dia de merda para minha amiga, desde o dia começar comigo sendo demitida e continuar a saga comigo sendo corna. Só alegria.

- Mas que pau no cú! - Ela sacode as mãos no ar, seu rosto está vermelho, ela está morrendo de raiva, e não posso culpa-la, se fosse o contrário, eu estaria colocando fogo no mundo por ela.

- Pois é, agora não tenho emprego, casa ou noivo, veja só que coisa... - tento fazer piada

- Bom, casa você tem, sabe que vai ficar aqui o tempo que precisar

Levo meu chá a boca.

- Eu sei Malu e te agradeço, mesmo, mas não posso ficar aqui, você tem sua própria vida pra cuidar, vou ficar só alguns dias, enquanto encontro um lugar

Ela estreita os olhos, pronta para me dar um tabefe, quando eu intervenho.

- EI, NADA DE AGRESSÃO, SOU UMA POBRE MULHER DESEMPREGADA E CORNA

Ela ri.

- Se já está fazendo piada é porque já está bem pra levar um beliscão! - Ela segura minha mão - Não existe isso de cuidar da minha própria vida, você vai ficar aqui o quanto quiser, sem pressa alguma, procure outro trabalho, tire um mês sabático, saia com um homem por dia, faça celibato, o que seu coração mandar, eu to aqui pra você!

- Eu sei

Não, posso evitar sentir meus olhos marejarem novamente,pela primeira vez naquele dia, eu sentia que finalmente alguma coisa estava certa.

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