Mas que droga de dia, ao sair de casa naquela manhã eu sabia que algo parecia errado, era quase como uma sirene tocando no fundo da minha mente "tem alguma coisa errada", mas eu não ouvi, ou melhor, fingi que não ouvi.
Comecei minha manhã normalmente, fiz o café da manhã pra mim e para o Rodrigo, meu noivo, que também já estava pronto para o trabalho.
Eu e ele estamos juntos a quase 6 anos, no ano passado ele me pediu em casamento e eu prontamente disse sim, é claro, nós já morávamos juntos, nos dávamos muito bem, era o passo óbvio, casamento, fiquei animada com a ideia, marcamos a data para novembro, ou seja, daqui 6 meses, como planejamos uma comemoração pequena, não precisaríamos de tanto tempo assim para planejar, tudo ia dar certo.
Estou me servindo de café, sentada à mesa quando Rodrigo sai do quarto esbaforido.
- Perdi a hora amor...
É claro que perdeu, ficou enrolando na cama, no celular enquanto o despertador gritava atrás dele, pedindo pelo amor de Deus que ele levantasse.
- Sei... Se atrasou com calma? - respondo em brincadeira.
Ele ri.
- Pois é
Ele se senta e come tão rápido que eu tenho absoluta certeza que ele não sentiu o gosto de nada, e muito provavelmente ainda queimou a lingua com o café, se tivesse levantado no horário...
- Que horas você chega hoje? - Ele pergunta de boca cheia, já se levantando da mesa e colocando seu prato na pia.
- No horário de sempre eu acho, lá pelas 18, se nada atrasar
- Tudo bem, nos vemos a noite então - ele dá um beijo em meu rosto e eu sorrio para ele, ele sai com sua maleta correndo porta a fora.
Continuo mastigando minha torrada com tédio, agora tomando café sozinha, já que Rodrigo acha que é normal engolir a comida sem mastigar, mas tudo bem, acontece, ele se atrasou, a noite jantamos com mais calma.
Termino meu café da manhã e arrumo minha bolsa para ir trabalhar, coloco um pouco de café no meu copo térmico, para ir tomando no caminho e saio pela porta.
Como trabalho aqui perto, geralmente vou a pé, sou secretária executiva de uma companhia, e adoro meu trabalho, infelizmente a empresa não anda muito bem financeiramente, mas tenho convicção de que tudo dará certo no fim das contas, não é como se meu salário de secretária fosse quebrar a empresa, então acho que estou salva por enquanto.
O pensamento me deixa distraida, tão distraida que nem percebo quando um adolescente dirigindo uma bicicleta como um perfeito desgovernado se aproxima de mim, ele passa tão perto que no susto, acabo derrubando todo meu café no chão.
- Mas que droga!
"Foi mal tia!" Escuto o garoto gritar, já longe, era só o que me faltava, pego meu copo do chão e bufo ao ver todo o líquido esparramado pela calçada, verifico minha roupa e por um milagre não caiu café nela, menos mal.
Sigo meu caminho até a empresa, agora com o dobro de atenção, com a sorte que eu estou hoje é capaz de ser atropelada por um skate até o fim do quarteirão.
"Tem alguma coisa errada" o pensamento me volta, mas eu o espanto rapidamente e continuo andando, trabalhar vai me distrair e esse dia vai acabar logo.
*
*
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- Mila, eu sinto muito mesmo - Diz Sr. Vicente, com o olhar derrotado - Quero que saiba que eu lutei muito por seu emprego
- Tudo bem Sr. Vicente, eu entendo, sei como essas coisas funcionam - Digo tentando parecer neutra e racional, mas tenho que usar toda minha energia para não chorar.
- Sabe, a verdade é que não posso mentir pra mim mesmo, isso é questão de tempo, estamos quase fechando as portas - Ele parece cansado, e eu entendo a situação, Vicente foi um bom chefe enquanto pode, mas isso está fora da sua alçada.
Ele estica a mão por cima da mesa para um útimo aperto de mãos e eu o cumprimento.
- Estou torcendo por você garota, espero que tenha um futuro incrível
Eu saio de sua sala e me dirijo a passos largos para o banheiro, lá as lágrimas escorrem sem medo pelo meu rosto, agora estou desempregada, limpo o nariz com um lenço de papel enquanto tento me recompor.
Bom, não é como se eu precisasse trabalhar, Rodrigo ganha muito bem em seu emprego, mas como eu disse eu amo o que faço, sou boa nisso, e não me imagino sendo a esposa que fica exclusivamente em casa, não me vejo assim, mas pelo menos sei que posso contar com meu noivo até conseguir um novo emprego, é, tudo bem, vai dar certo.
Um pouco mais calma deixo o banheiro e sigo para minha mesa, agora minha antiga mesa, para recolher minhas coisas, coloco tudo em minha bolsa e sigo para sala do RH.
- Isso tudo é uma merda Mila - Diz Regina, ela trabalha no RH desde que o mundo é mundo, quase uma das fundadoras da empresa - Estão todos chateados e com medo
Concordo com a cabeça, a verdade é que não tenho forças agora para socializar, só quero que isso acabe, vou assinar esses malditos papéis e correr para casa.
Regina termina de me passar algumas orientações sobre a rescisão do meu contrato e depois de tudo assinado, sigo para fora do prédio, ao colocar meus pés na calçada não posso deixar de me virar e dar uma última olhada no prédio que passei os últimos anos, onde fiz amigos e quase me sentia em casa, suspiro profundamente, deixo o ar encher meus pulmões, verifico as horas, não é nem meio dia e eu já vivi o bastante pra uma semana, então começo o caminho de volta para casa.
Assim que pego minhas chaves na mãos elas caem no chão e eu me abaixo para pegar.
- Mas que droga de dia! O que mais pode dar errado? - Digo externalizando aqueles sentimentos.
Pergunta errada Milena, o universo pode entender isso como um desafio.
Coloco minhas chaves na fechadura e abro a porta, ao entrar em casa está um silêncio absoluto, mas um arrepio percorre meu corpo e o pensamento me volta a mente "tem alguma coisa errada".
Aquele sentimento chegou a me embrulhar o estômago, eu sei que o dia teve muitas emoções mas não esperava sentir essa angustia dentro da minha própria casa.Resolvo tirar aquela roupa já que não vou mais trabalhar hoje e depois fazer um chá para acalmar os animos, depois vou ligar para Rodrigo para contar o que aconteceu, coloco minha bolsa em cima do balcão e sigo rumo a escada para subir para o quarto, enquanto faço aquele caminho sinto meu coração apertar, quase como se estivesse me preparando para algo.É bom ressaltar que nada me prepararia para o que eu vi quando abri a porta do meu quarto, meu quarto, o quarto que eu dormia todos os dias, onde conversava com meu noivo todos os dias, onde ouvi as juras de amor e faziamos planos para o futuro, meu quarto, onde estão minhas coisas, onde meu cheiro paira no ar, meu quarto, onde eu deveria sentir total conforto, mas agora, com a porta do quarto escancarada e vendo meu noivo com outra na nossa cama, a última coisa que eu sinto é conf
Com as malas prontas, olho em volta com um pouco de nostalgia, esse era meu lar e agora são apenas paredes com um homem que eu desconheço e um história quebrada. Vejo o rosto do Rodrigo atrás de mim, ele continua me seguindo para lá e para cá, tentando argumentar coisas que eu sinceramente não estou ouvindo, firmo meus olhos para se focarem a realidade, acho que estava presa em um stand-by enquanto pegava minhas coisas.Vejo Rodrigo pálido, escorrem lágrimas por seu rosto, em seis anos de relacionamento eu nunca vi Rodrigo chorar, nunca, nenhuma vez sequer, nem no velório da avó dele, nunca, não sei dizer se ele está triste pelo fim do relacionamento ou porque foi pego na traição, e isso pouco importa.Desço as escadas com algumas malas, e vou para garagem colocar as coisas no carro, vou ter que subir para pegar o restante mas tenho que fazer isso rápido, preciso sair daqui.Subo e desço como um foguete, jogando as malas nos bancos dos passageiros e no porta malas sem qualquer cerimôn
Hoje faz uma semana que minha vida virou do avesso e estou na casa da Malu, ela tem sido incrível, é como uma festa do pijama sem fim, mas não posso abusar da boa vontade dela, sei que ela gosta de estarmos juntas, mas somos adultas, não dá para ficar vivendo como se o mundo não estivesse girando lá fora.Vi alguns apartamentos durante a semana, alguns eram fora do meu orçamento e outros muito mal localizados, já estava sem esperanças quando fui visitar o último da lista, mas para minha surpresa, daquela vez a sorte estava do meu lado, o apartamento era lindo, claro que não se comparava ao tamanho da minha antiga casa, mas era perfeito para mim e para minha fase atual, dois quartos, uma boa cozinha, uma sala razoavelmente grande com uma sacada com vista para cidade.Eu com certeza conseguia me ver morando ali, tomando um vinho e relaxando, a localização era ótima, perto de tudo e o valor, quase cai para trás, estava dentro do que eu procurava, finalmente achei minha nova casa.Quando
Pinço a ponta do nariz com os dedos e respiro profundamente, minha paciência está indo pelo ralo, não aguento mais fazer entrevistas de gente incompetente, puta que me pariu, e olha que Lúcia, responsável pelo RH é muito boa no que faz, a primeira entrevista das candidatas é com ela, e então, ela só passa para continuar a entrevista comigo aquelas que ela considera com um mínimo de capacidade para o trabalho.O que eu não entendo é como essas mulheres estão chegando até a minha sala e passando pela Lúcia, a última entrevista que acabei de fazer a candidata sequer conseguia olhar para mim, parece que estava vendo o próprio demônio encarnado, ela olhava para o chão e gaguejava, faça-me o favor, como vou contratar uma secretária executiva que não sabe fazer a função básica dela: FALAR.Não é possível que não existam mais secretárias boas por ai, eu sei que sou exigente, minha empresa é de alto nível, assim espero que todos aqui também sejam, que todos deem o seu melhor no trabalho, busca
Não vou negar, fiquei meio paralisado quando vi a mulher parada diante de mim, se ela não fosse uma boa canditada para trabalhar, pelo menos era um belo colírio para os olhos, seus longos cabelos escuros emolduravam seu rosto e desciam como uma cascata por suas costas, belos olhos verdes, que eu também podia notar, tinham uma expressão levemente assustada ao me ver, era uma expressão comum em entrevistas de trabalho certamente.Sua pele clara contrastava com a camisa azul que ela estava usando, e seus lábios tinham um batom suave, um pensamento muito rápido me atravessou, como será que deveria ser beija-la? O QUE? Peraí, que porra é essa Leonardo, ela é sua potencial funcionária e isso não é nada profissional, foco.Ela estende a mão para me cumprimentar, um cumprimento respeitoso, mas noto seu aperto firme, demonstrando segurança, faço sinal para que ela entre na sala, ela entra e se acomoda na cadeira frente a minha mesa, sua feição até agora é inabalável, mas ela será a certa para
- Aquele filho da mãe! Mesquinho! Arrogante! Quem ele pensa que é? - Estou muito irritada com aquele idiota que não vou nem citar o nome, agora para mim ele é como o Voldemort, inominável.- E gatíssimo - Malu ri, por que ela é minha amiga mesmo?- E babaca, soberbo, um completo idiota- E gostoso - ela continua- Porra, você tá do lado de quem?Ela levanta as mãos em rendição, rindo enquanto eu estou praticamente soltando fogo de tanta raiva, aquele fatídica entrevista já foi ruim por si só, ele foi invasivo e arrogante, homenzinho prepotente! A Malu não estava errada claro, era um Sr. Gostoso? E como, o homem parecia uma geladeira frostfree ombros largos e mesmo com a roupa social, era muito visível que ele tinha músculos ali para dar e vender, os cabelos e olhos escuros como a noite, combinados com uma barba baixa e um maxilar marcado, aquele homem com certeza era a perdição de muitas mulheres por ai, e eu sequer as julgava, se não o tivesse conhecido, com certeza perderia pelo men
Quase não acreditei quando Lúcia me avisou que ela tinha aceitado a oferta de trabalho, depois daquela bola fora na entrevista de emprego dela, cheguei mesmo a imaginar que ela não aceitaria.Sabe, não me entenda mal, eu sei ser um babaca com certeza, mas apesar do alto nível de exigência do escritório, eu costumo tratar meus funcionários com respeito, a pergunta sobre seu estado civil na verdade era só para me poupar de problemas futuros com namorados e maridos que no começo adoram ter uma mulher trabalhadora e independente, mas depois começam a arrumar problemas para elas e consequentemente para mim, sei que não é uma pergunta que todos gostam de responder, mas mesmo assim, era só responder com um simples "sim" ou "não", não entendo porque ela ficou tão na defensiva.Em todo caso, no que se diz ao trabalho, a entrevista dela realmente foi anos luz melhor do que qualquer outra entrevistada, ela era exatamente o que eu buscava, com o bônus de ter um rosto absurdamente lindo.Peraí, que
Acho que consegui disfarçar bem meu mau humor de ter que olhar para cara daquele cretino, mas aqui, como funcionária, tenho total respeito e profissionalismo pelo meu chefe, claro, isso se ele não for um perfeito idiota como acredito que seja o caso.Lúcia por outro lado, é um amor de pessoa, é uma mulher na casa dos cinquenta anos, com jeito de mãezona, ela até poderia ser um personagem de TV nessas sérias onde a mãe é comica, com certeza o papel cairia como uma luva para ela.Não pude deixar de notar que ela é a única que se refere ao temido Leonardo Rossi como "Léo", os demais todos o chamam de Sr. Rossi ou Sr. Leonardo, mas ela, exclusivamente o chama de Léo, quase como se tivesse chamando pelo próprio filho, é uma relação legal de se assistir, principalmente quando estou sentada na minha mesa verificando a agenda da semana do meu novo chefe e ela passa batendo os pés, o chamando de "moleque" e que com certeza ele ainda vai "me enlouquecer", não pude conter o riso.Também notei qu