Aquele sentimento chegou a me embrulhar o estômago, eu sei que o dia teve muitas emoções mas não esperava sentir essa angustia dentro da minha própria casa.
Resolvo tirar aquela roupa já que não vou mais trabalhar hoje e depois fazer um chá para acalmar os animos, depois vou ligar para Rodrigo para contar o que aconteceu, coloco minha bolsa em cima do balcão e sigo rumo a escada para subir para o quarto, enquanto faço aquele caminho sinto meu coração apertar, quase como se estivesse me preparando para algo.
É bom ressaltar que nada me prepararia para o que eu vi quando abri a porta do meu quarto, meu quarto, o quarto que eu dormia todos os dias, onde conversava com meu noivo todos os dias, onde ouvi as juras de amor e faziamos planos para o futuro, meu quarto, onde estão minhas coisas, onde meu cheiro paira no ar, meu quarto, onde eu deveria sentir total conforto, mas agora, com a porta do quarto escancarada e vendo meu noivo com outra na nossa cama, a última coisa que eu sinto é conforto.
Ainda ouço o último gemido deles antes que percebam que a porta se abriu, estou com os pés pregados no chão, não consigo me mover, não consigo tirar os olhos daquela cena.
- Milena! - Rodrigo me vê primeiro e puxa o lençol sobre o próprio corpo, a minha vontade é dizer "ótimo, ajudou muito" - Amor, olha, eu não... eu não... - ele se cala, não tem o que dizer, não tem como se defender.
Eu continuo parada, tenho certeza que minha boca está aberta, pra não dizer queixo caído, as palavras não me vem, estou completamente muda, estarrecida, ele faz menção em abrir a boca de novo e eu só consigo levantar o dedo, em sinal de silêncio.
Meu olhar é duro em sua direção, se tem uma coisa que eu não perdoo é traição, e ele sabe disso, já conversamos sobre isso, ele sabe que seria nosso fim, e o fez mesmo assim, sem a menor consideração, sem o menor pudor, dentro da nossa própria casa, eu quero mata-lo ao mesmo tempo que só quero nunca o ter conhecido.
- Querida qual seu nome? - Pergunto com toda elegância que consigo ter, sem sequer piscar, já ela, arregala os olhos, acho que não esperava que eu fosse falar com ela, deve estar com medo de apanhar, eu também estaria.
- Sofia - Ela responde, chega a estar pálida
- Hum, muito bem Sofia, você tem - olho o relógio - exatos 2 minutos para sair da minha casa, não me interessa se você vai se vestir na rua, no carro ou na porta no inferno, mas essa educação toda que você esta vendo - aponto para mim mesma - está limitada e com prazo de validade correndo, então eu se fosse você iria enquanto eu ainda quero manter meu réu primário.
Ela assente com a cabeça e engole seco, pegando suas roupas do chão e correndo escada abaixo, sem sequer olhar para Rodrigo, ou para o estrago que eles deixaram para trás.
Rodrigo permanece sentado na cama, sua cara chega a ser hilária, ele com certeza está esperando uma cena, a pobre mulher traída, ele espera por palavrões, choro, uma grande briga, mas tudo que ele terá de mim agora é o que ele merece, total e absoluta indiferença.
Respiro fundo com a pouca sanidade que me resta depois desse dia de merda, e sigo para o armário, pego todas as malas que guardamos e começo a colocar minhas coisas, Rodrigo acompanha a movimentação e dá um pulo da cama, graças a Deus se lembra de colocar sua roupa antes de vir em minha direção já com as mãos na cabeça.
- Mila, por favor, o que você está fazendo? Vamos conversar
Hilário, sequer respondo, continuo a reparar as peças e colocar na mala, não piso mais nessa casa nem por um decreto ou seja, tenho que levar tudo agora.
- Mila, por favor, olha pra mim! - Ele não desiste - Mila! Mila - Ele pega no meu braço e eu subo um olhar mortífero para ele.
- Não me toque
- Mila, por favor! Fala comigo
- O que você tem a dizer Rodrigo?
Ele coça a cabeça, acho que nunca me viu tão fria, está ficando desesperado.
- Olha me perdoa ta bom, eu errei, fiz merda, sei disso, por favor, não desiste de nós Mila, vamos resolver
Continuo calada, olhando para ele.
- Mila, qual é, 6 anos?! No lixo por um erro? Vamos conversar! Por favor
- É só isso Rodrigo? É o máximo que consegue fazer? - Ele me olha confuso, então continuo - Sabe, eu esperava um pouco mais de atuação depois de tanto tempo me enganando, queria choro e tal, mas não dá pra esperar muito de você não é mesmo?
Ele engole seco.
Essa é uma versão minha que eu mantenho escondida a sete chaves, a versão ferida e com muros altos, daqui de dentro ninguém consegue me alcançar ou me ferir, aqui estou segura, ele que lide com a merda que fez.
- Mila, não faz assim, vamos conversar
Passo as mãos pelos cabelos, vamos acabar logo com isso.
- Rodrigo, olha só, vamos esclarecer as coisas, não tem nada para conversar, eu não tenho nada a dizer, e você tem? Porque se for pra me pedir desculpa, eu não vou te desculpar, você sabe disso, se for pra me pedir pra ficar, não vai rolar, se for pra me dizer que vamos consertar as coisas, saiba que eu não quero - olho profundamente para ele, e continuo - sejamos sinceros, não fui eu que desistiu de nós, foi você - aponto para cama - não fui eu que jogou 6 anos no lixo, foi você, e eu não mereço isso, mesmo
- Mila...
- Calado, não acabei - ele arregala os olhos, mas permanece em silêncio - Estou indo embora, e você vai ficar aqui e lidar com a merda que fez, lidar com a vida que te resta agora, você não vai mais olhar pra mim, não vai mais pensar em mim, não vai mais falar comigo, não vai me procurar mais, e sequer vai lembrar da minha existência, você terá o respeito de atravessar para o outro lado da rua se me ver por ai, entendido?!
- Mila eu não posso fazer isso! EU TE AMO
- Jura? Imagina se não amasse...
Paro de olhar para ele e sigo abarrotando tudo nas malas, com pouquissima paciência, bufo, essa semana será longa.
Com as malas prontas, olho em volta com um pouco de nostalgia, esse era meu lar e agora são apenas paredes com um homem que eu desconheço e um história quebrada. Vejo o rosto do Rodrigo atrás de mim, ele continua me seguindo para lá e para cá, tentando argumentar coisas que eu sinceramente não estou ouvindo, firmo meus olhos para se focarem a realidade, acho que estava presa em um stand-by enquanto pegava minhas coisas.Vejo Rodrigo pálido, escorrem lágrimas por seu rosto, em seis anos de relacionamento eu nunca vi Rodrigo chorar, nunca, nenhuma vez sequer, nem no velório da avó dele, nunca, não sei dizer se ele está triste pelo fim do relacionamento ou porque foi pego na traição, e isso pouco importa.Desço as escadas com algumas malas, e vou para garagem colocar as coisas no carro, vou ter que subir para pegar o restante mas tenho que fazer isso rápido, preciso sair daqui.Subo e desço como um foguete, jogando as malas nos bancos dos passageiros e no porta malas sem qualquer cerimôn
Hoje faz uma semana que minha vida virou do avesso e estou na casa da Malu, ela tem sido incrível, é como uma festa do pijama sem fim, mas não posso abusar da boa vontade dela, sei que ela gosta de estarmos juntas, mas somos adultas, não dá para ficar vivendo como se o mundo não estivesse girando lá fora.Vi alguns apartamentos durante a semana, alguns eram fora do meu orçamento e outros muito mal localizados, já estava sem esperanças quando fui visitar o último da lista, mas para minha surpresa, daquela vez a sorte estava do meu lado, o apartamento era lindo, claro que não se comparava ao tamanho da minha antiga casa, mas era perfeito para mim e para minha fase atual, dois quartos, uma boa cozinha, uma sala razoavelmente grande com uma sacada com vista para cidade.Eu com certeza conseguia me ver morando ali, tomando um vinho e relaxando, a localização era ótima, perto de tudo e o valor, quase cai para trás, estava dentro do que eu procurava, finalmente achei minha nova casa.Quando
Pinço a ponta do nariz com os dedos e respiro profundamente, minha paciência está indo pelo ralo, não aguento mais fazer entrevistas de gente incompetente, puta que me pariu, e olha que Lúcia, responsável pelo RH é muito boa no que faz, a primeira entrevista das candidatas é com ela, e então, ela só passa para continuar a entrevista comigo aquelas que ela considera com um mínimo de capacidade para o trabalho.O que eu não entendo é como essas mulheres estão chegando até a minha sala e passando pela Lúcia, a última entrevista que acabei de fazer a candidata sequer conseguia olhar para mim, parece que estava vendo o próprio demônio encarnado, ela olhava para o chão e gaguejava, faça-me o favor, como vou contratar uma secretária executiva que não sabe fazer a função básica dela: FALAR.Não é possível que não existam mais secretárias boas por ai, eu sei que sou exigente, minha empresa é de alto nível, assim espero que todos aqui também sejam, que todos deem o seu melhor no trabalho, busca
Não vou negar, fiquei meio paralisado quando vi a mulher parada diante de mim, se ela não fosse uma boa canditada para trabalhar, pelo menos era um belo colírio para os olhos, seus longos cabelos escuros emolduravam seu rosto e desciam como uma cascata por suas costas, belos olhos verdes, que eu também podia notar, tinham uma expressão levemente assustada ao me ver, era uma expressão comum em entrevistas de trabalho certamente.Sua pele clara contrastava com a camisa azul que ela estava usando, e seus lábios tinham um batom suave, um pensamento muito rápido me atravessou, como será que deveria ser beija-la? O QUE? Peraí, que porra é essa Leonardo, ela é sua potencial funcionária e isso não é nada profissional, foco.Ela estende a mão para me cumprimentar, um cumprimento respeitoso, mas noto seu aperto firme, demonstrando segurança, faço sinal para que ela entre na sala, ela entra e se acomoda na cadeira frente a minha mesa, sua feição até agora é inabalável, mas ela será a certa para
- Aquele filho da mãe! Mesquinho! Arrogante! Quem ele pensa que é? - Estou muito irritada com aquele idiota que não vou nem citar o nome, agora para mim ele é como o Voldemort, inominável.- E gatíssimo - Malu ri, por que ela é minha amiga mesmo?- E babaca, soberbo, um completo idiota- E gostoso - ela continua- Porra, você tá do lado de quem?Ela levanta as mãos em rendição, rindo enquanto eu estou praticamente soltando fogo de tanta raiva, aquele fatídica entrevista já foi ruim por si só, ele foi invasivo e arrogante, homenzinho prepotente! A Malu não estava errada claro, era um Sr. Gostoso? E como, o homem parecia uma geladeira frostfree ombros largos e mesmo com a roupa social, era muito visível que ele tinha músculos ali para dar e vender, os cabelos e olhos escuros como a noite, combinados com uma barba baixa e um maxilar marcado, aquele homem com certeza era a perdição de muitas mulheres por ai, e eu sequer as julgava, se não o tivesse conhecido, com certeza perderia pelo men
Quase não acreditei quando Lúcia me avisou que ela tinha aceitado a oferta de trabalho, depois daquela bola fora na entrevista de emprego dela, cheguei mesmo a imaginar que ela não aceitaria.Sabe, não me entenda mal, eu sei ser um babaca com certeza, mas apesar do alto nível de exigência do escritório, eu costumo tratar meus funcionários com respeito, a pergunta sobre seu estado civil na verdade era só para me poupar de problemas futuros com namorados e maridos que no começo adoram ter uma mulher trabalhadora e independente, mas depois começam a arrumar problemas para elas e consequentemente para mim, sei que não é uma pergunta que todos gostam de responder, mas mesmo assim, era só responder com um simples "sim" ou "não", não entendo porque ela ficou tão na defensiva.Em todo caso, no que se diz ao trabalho, a entrevista dela realmente foi anos luz melhor do que qualquer outra entrevistada, ela era exatamente o que eu buscava, com o bônus de ter um rosto absurdamente lindo.Peraí, que
Acho que consegui disfarçar bem meu mau humor de ter que olhar para cara daquele cretino, mas aqui, como funcionária, tenho total respeito e profissionalismo pelo meu chefe, claro, isso se ele não for um perfeito idiota como acredito que seja o caso.Lúcia por outro lado, é um amor de pessoa, é uma mulher na casa dos cinquenta anos, com jeito de mãezona, ela até poderia ser um personagem de TV nessas sérias onde a mãe é comica, com certeza o papel cairia como uma luva para ela.Não pude deixar de notar que ela é a única que se refere ao temido Leonardo Rossi como "Léo", os demais todos o chamam de Sr. Rossi ou Sr. Leonardo, mas ela, exclusivamente o chama de Léo, quase como se tivesse chamando pelo próprio filho, é uma relação legal de se assistir, principalmente quando estou sentada na minha mesa verificando a agenda da semana do meu novo chefe e ela passa batendo os pés, o chamando de "moleque" e que com certeza ele ainda vai "me enlouquecer", não pude conter o riso.Também notei qu
Mas que droga de dia, ao sair de casa naquela manhã eu sabia que algo parecia errado, era quase como uma sirene tocando no fundo da minha mente "tem alguma coisa errada", mas eu não ouvi, ou melhor, fingi que não ouvi.Comecei minha manhã normalmente, fiz o café da manhã pra mim e para o Rodrigo, meu noivo, que também já estava pronto para o trabalho.Eu e ele estamos juntos a quase 6 anos, no ano passado ele me pediu em casamento e eu prontamente disse sim, é claro, nós já morávamos juntos, nos dávamos muito bem, era o passo óbvio, casamento, fiquei animada com a ideia, marcamos a data para novembro, ou seja, daqui 6 meses, como planejamos uma comemoração pequena, não precisaríamos de tanto tempo assim para planejar, tudo ia dar certo.Estou me servindo de café, sentada à mesa quando Rodrigo sai do quarto esbaforido.- Perdi a hora amor...É claro que perdeu, ficou enrolando na cama, no celular enquanto o despertador gritava atrás dele, pedindo pelo amor de Deus que ele levantasse.-