Charlotte suspirou, pensando em como estaria a patroa. De repente, havia ficado sozinha naquela fazenda enorme, Eleonore ainda havia sugerido que dormisse em sua casa, mas não queria atrapalhar o casal, então, no fim, acabou ficando. Assim, sua companhia acabou sendo Sebastian, e seu habitual silêncio.Mas nada podia ser mais perturbador do que tê-lo seguindo-a com os olhos por todo canto, como se pudessem ver o espírito que a acompanhava.– Olha, sei que é estranho, mas você não está ajudando fazendo isso – ela resmungou quando não aguentava mais.Ele retribuiu o olhar, mas não parecia entender o porquê daquela bronca.– Ou será que você a reconhece? – Charlotte resmungou, mais para si do que para ele. – Ancestral – ele respondeu, pela primeira vez, surpreendendo-a.Sua voz era baixa e muito grave, como a de um tenor. O que a fazia se arrepiar, mas ao mesmo tempo, pensava consigo mesma que combinava com eles, com seus olhos pretos quase vazios.– Então você fala! – exclamou, quase g
A companhia de Sebastian depois daquele tempo juntos, estranhamente, havia passado a se tornar algo pelo que ansiava. Ficava feliz em vê-lo pelos corredores ou no campo, perdido em seu próprio mundo. Naquela manhã, como de costume, iniciou os afazeres na fazenda, estranhando não encontrá-lo em lugar nenhum, mas tentou não pensar muito nisso, até porque, havia algo mais urgente acontecendo: o bebê de Millan e Eleonore havia nascido.No fim do dia, arrumou uma cesta com frutas e pães para a recente mamãe, seguindo para a pequena casa que não ficava muito longe. Como encontrou a porta aberta, entrou, apenas avisando de sua presença, e caminhou pelos poucos cômodos procurando pelo casal. Quando entrou no quarto, ainda estranhando o silêncio, encontrou Eleonore recostada à janela, apenas olhando a criança de longe.– Aconteceu alguma coisa? – Charlotte perguntou se aproximando.– Posso estar exagerando… Millan disse que é coisa da minha cabeça – murmurou a outra.– Do que está falando? –
Rosely encarava Eslen com uma expressão que misturava pânico e preocupação. Não podia acreditar que praticamente havia o envenenado enquanto tentava produzir uma das poções do grimório, e para piorar, ainda estavam em alto mar. “Porque você bebeu aquilo?”, se perguntava, observando-o dormir.O medo de nunca mais vê-lo acordar a apavorava. Então, qual foi sua alegria quando, no segundo dia, ele acordou, bocejando como se tivesse tido uma revigorante e longa noite de sono.– Que cara é essa ? – perguntou ao ver a expressão de choro no rosto dela.– Eu tive tanto medo – Rosely murmurou, xingando e então lançou-se em seus braços, beijando-o. – Você dormiu por um dia inteiro.– Deveria entrar em coma mais vezes – ele brincou.E como ela continuou em silêncio, completou:– Não se preocupe, é preciso muito mais que isso pra me matar – sussurrou, devolvendo o beijo.Ela nada disse, apenas continuou agarrada ao seu braço.– Acho que vi um fantasma – contou, chamando sua atenção.E como ele a
Estar naquelas terras havia sido o castigo por sua desobediência, por isso nunca imaginou que sentiria tanta falta daquele lugar, como estava sentindo naquele momento. Quando desceu da charrete, e seus olhos se encontraram aos de Charlotte, sentiu que algo estranho estava acontecendo.Teve um mau-pressentimento.– O que aconteceu? – perguntou, o rosto se fechando de mal-humor.E como a moça não respondeu, resolveu descobrir por si mesma. Adentrou a casa, olhando ao redor e então, se deparou com o homem sentado aguardando-a. Qual foi sua raiva ao reconhecê-lo.– O que faz aqui? – perguntou entre dentes, quase rosnando.– Rosely – o homem disse, erguendo-se do sofá para tentar alcançá-la.– Não ouse tocar em mim – ela sussurrou, parecendo prestes a ter um ataque, tamanho era seu estresse.– Rose, não seja assim – ele disse, fazendo questão de usar seu apelido ao vê-la acompanhada por outro homem.– Saia da minha casa, agora! – Rosely gritou, apontando para a porta. – Você não tem esse d
Na manhã seguinte, como de costume, Charlotte viu a patroa seguindo para o estábulo carregando uma maçã. Desde sua chegada à fazenda, sempre a via passear pelo pasto, então não ficou surpresa ao vê-la cavalgando para longe. Ficou feliz em ver que ela parecia bem. Contudo, quanto mais o tempo passava, a moça começava a ficar inquieta, sentindo que algo estava errado.Quando Eslen chegou à fazenda, procurando por Rosely, encontrou a moça com uma expressão de agonia. – O que aconteceu? – o homem perguntou, erguendo uma sobrancelha.– Dona Rosely não retornou ainda – ela explicou apertando as mãos pálidas.E nesse momento, como que confirmando a gravidade da situação, o cavalo surgiu sozinho, relinchando incomodado.– Esse é o cavalo dela? – Eslen perguntou, mesmo já sabendo a resposta.E ao ver que os trabalhadores balançaram a cabeça concordando, também com um semblante preocupado, Eslen não perdeu tempo e escreveu um curto bilhete destinado a Carolle, amarrou na pata do falcão e o lan
Como que deixada pelo espírito, Rosely sentiu seu corpo amolecendo. Sua visão ficou turva e seus joelhos enfraqueceram, quase fazendo-a cair no chão, mas foi amparada por Eslen que a segurou nos braços, carregando-a consigo de volta para a fazenda.Não sabia, mas os próximos dias seriam um verdadeiro arruaço. Policiais vindos da capital, fechando o cerco com suas cordas amarelas, isolando o local dos crimes, mas que não eram o suficiente para impedir os curiosos de se aproximarem.– Um cavalo havia fugido – Eslen explicou, mentindo descaradamente para o detetive. – Estava próximo, por isso ouvi o deslizamento.– Hum… – murmurou o agente da lei, fazendo anotações. – Há mais alguma coisa que queira acrescentar?– Na verdade sim, um tempo atrás encontrei um corpo enterrado há um tempo, fiz uma denuncia, mas tenho a impressão de que ninguém veio recolhê-lo – Eslen continuou, com um olhar despreocupado, como se não tivesse acabado de jogar uma bomba.Eslen observou enquanto sua fala deixav
Quando foram levados à presença do rei, a tensão no olhar de ambos os homens era palpável, mesmo que houvesse um sorriso no rosto do soberano. Como era de se esperar, suas vestes eram pomposas e mesmo não estando em um evento social, mantinha a coroa em sua cabeça, adornada em ouro e pedras preciosas. Era óbvio que sempre almejara aquilo. – Sua esposa? – perguntou, voltando seus olhos a Rosely. – Sua irmã teria amado vê-lo casado, não sabe como sinto a falta dela. – Sim. Se chama Rosely O’Neel – Eslen respondeu, passando o braço ao redor dos ombros dela. Seu tom era ameno, mas o olhar permanecia sério. – De fato, infelizmente minha irmã não conseguiu viver para tanto.– Sei que não confia em mim – disse o soberano, afastando-se alguns passos e observando pela janela. – Mas eu realmente fiz de tudo para salvá-la. – Tudo – repetiu o caçador. – Claro que faria. A tensão tornou a pesar e a conversa acabou se encerrando por alí, mas não antes de o rei pedir que se hospedassem no castel
A governanta, o sacerdote-mor e o general, todos sumiram de repente na calada da noite. Os burburinhos e a tensão logo estavam se espalhando pelo palácio, como a nevasca. Contudo, a vitória contra a insurreição na fronteira oeste havia elevado os ânimos, principalmente depois que o rei anunciou que daria uma grande festa. A verdade era que desejava mostrar a Eslen que ainda estava no controle. Mal sabia ele que era exatamente isso que o cunhado desejava. Sentado sobre a muralha, um sorriso se formava ao ver um de seus homens de confiança se aproximando dos barris de vinho. Seria uma noite agitada. Pela primeira vez, quis visitar o memorial para a irmã. Caminhou lentamente pelo local, tendo cuidado de não pisar nas flores que se enramavam pelo chão, e então, fitou o túmulo com seus olhos secos, sem lágrimas. Deslizou seus dedos gentilmente pelo granito branco, fechou os olhos, reforçando seu juramento e então, sentiu a noiva recostando a cabeça entre os músculos de suas escápulas. Q