Na manhã seguinte, como de costume, Charlotte viu a patroa seguindo para o estábulo carregando uma maçã. Desde sua chegada à fazenda, sempre a via passear pelo pasto, então não ficou surpresa ao vê-la cavalgando para longe. Ficou feliz em ver que ela parecia bem. Contudo, quanto mais o tempo passava, a moça começava a ficar inquieta, sentindo que algo estava errado.Quando Eslen chegou à fazenda, procurando por Rosely, encontrou a moça com uma expressão de agonia. – O que aconteceu? – o homem perguntou, erguendo uma sobrancelha.– Dona Rosely não retornou ainda – ela explicou apertando as mãos pálidas.E nesse momento, como que confirmando a gravidade da situação, o cavalo surgiu sozinho, relinchando incomodado.– Esse é o cavalo dela? – Eslen perguntou, mesmo já sabendo a resposta.E ao ver que os trabalhadores balançaram a cabeça concordando, também com um semblante preocupado, Eslen não perdeu tempo e escreveu um curto bilhete destinado a Carolle, amarrou na pata do falcão e o lan
Como que deixada pelo espírito, Rosely sentiu seu corpo amolecendo. Sua visão ficou turva e seus joelhos enfraqueceram, quase fazendo-a cair no chão, mas foi amparada por Eslen que a segurou nos braços, carregando-a consigo de volta para a fazenda.Não sabia, mas os próximos dias seriam um verdadeiro arruaço. Policiais vindos da capital, fechando o cerco com suas cordas amarelas, isolando o local dos crimes, mas que não eram o suficiente para impedir os curiosos de se aproximarem.– Um cavalo havia fugido – Eslen explicou, mentindo descaradamente para o detetive. – Estava próximo, por isso ouvi o deslizamento.– Hum… – murmurou o agente da lei, fazendo anotações. – Há mais alguma coisa que queira acrescentar?– Na verdade sim, um tempo atrás encontrei um corpo enterrado há um tempo, fiz uma denuncia, mas tenho a impressão de que ninguém veio recolhê-lo – Eslen continuou, com um olhar despreocupado, como se não tivesse acabado de jogar uma bomba.Eslen observou enquanto sua fala deixav
Quando foram levados à presença do rei, a tensão no olhar de ambos os homens era palpável, mesmo que houvesse um sorriso no rosto do soberano. Como era de se esperar, suas vestes eram pomposas e mesmo não estando em um evento social, mantinha a coroa em sua cabeça, adornada em ouro e pedras preciosas. Era óbvio que sempre almejara aquilo. – Sua esposa? – perguntou, voltando seus olhos a Rosely. – Sua irmã teria amado vê-lo casado, não sabe como sinto a falta dela. – Sim. Se chama Rosely O’Neel – Eslen respondeu, passando o braço ao redor dos ombros dela. Seu tom era ameno, mas o olhar permanecia sério. – De fato, infelizmente minha irmã não conseguiu viver para tanto.– Sei que não confia em mim – disse o soberano, afastando-se alguns passos e observando pela janela. – Mas eu realmente fiz de tudo para salvá-la. – Tudo – repetiu o caçador. – Claro que faria. A tensão tornou a pesar e a conversa acabou se encerrando por alí, mas não antes de o rei pedir que se hospedassem no castel
A governanta, o sacerdote-mor e o general, todos sumiram de repente na calada da noite. Os burburinhos e a tensão logo estavam se espalhando pelo palácio, como a nevasca. Contudo, a vitória contra a insurreição na fronteira oeste havia elevado os ânimos, principalmente depois que o rei anunciou que daria uma grande festa. A verdade era que desejava mostrar a Eslen que ainda estava no controle. Mal sabia ele que era exatamente isso que o cunhado desejava. Sentado sobre a muralha, um sorriso se formava ao ver um de seus homens de confiança se aproximando dos barris de vinho. Seria uma noite agitada. Pela primeira vez, quis visitar o memorial para a irmã. Caminhou lentamente pelo local, tendo cuidado de não pisar nas flores que se enramavam pelo chão, e então, fitou o túmulo com seus olhos secos, sem lágrimas. Deslizou seus dedos gentilmente pelo granito branco, fechou os olhos, reforçando seu juramento e então, sentiu a noiva recostando a cabeça entre os músculos de suas escápulas. Q
A verdade era que os contos de fadas não terminam no “final feliz”. Havia muito depois dele. E isso ficou bem evidente quando, após Eslen ascender ao trono, viu-se cheio de trabalho a fazer. O casamento foi apressado e não houve sequer festa, apenas oficializaram numa pequena capela. Sua primeira ação foi ouvir o povo.Sentado em seu gabinete, lia todos os documentos enviados pelos guardas e não demorou muito para chegar à conclusão de que as reivindicações eram somente o que já lhes era de direito.“Como conseguem pagar todos esses impostos e ainda comer?”, pensou consigo mesmo, ficando mais irritado ainda com o antigo monarca.Foi tirado de seus devaneios quando os assessores o informaram sobre o início dos julgamentos. Sentou-se em seu trono e esperou. A primeira ré era uma mulher de aparência cansada, acompanhada por duas crianças magras, todas usando roupas surradas. – Majestade… – ela murmurou, seus olhos baixos, sem conseguir encará-lo. – Por favor, não me prenda, irei pagar
Foi necessário empregar bons meses trabalhando na recuperação da população, agricultura e, enfim, da expansão no comércio. Quase deixaram os cofres reais vazios, mas valeu a pena.Agora o importante era reconquistar a confiança dos reinos vizinhos. A primeira reunião estava próxima e a ansiedade aumentava a cada dia. Naquela manhã, enquanto caminhava pelos corredores do palácio, Eslen notou a esposa no jardim e rapidamente foi assolado pela sensação de que ela não estava bem. – Um momento – disse aos conselheiros, e se aproximou dela. – Sentindo-se sozinha? – perguntou por suas costas. – Não. Quero dizer, não é isso – ela murmurou, ainda perdida em seus pensamentos.E como ele permaneceu em silêncio, apenas ouvindo, ela continuou:– É que não é um bom momento…As palavras saiam num tom decrescente, ao mesmo tempo em que seus olhos desciam para o próprio ventre. E ao ver isso, o rei arregalou os olhos.– Eu vou ser pai? – perguntou surpreso e então, um grande sorriso surgiu em seu
Caminhando pelos corredores escuros do castelo, equilibrando a lamparina sobre seus pesados livros, Rosely pensava no que poderia fazer para ajudar o marido quando, de repente, sentiu um par de mãos puxando-a para dentro de uma sala adjacente. Quase gritou com o susto, derrubando tudo no chão, e então, apertou o peito aliviada ao reconhecer de quem se tratava.– Ser rei está me deixando louco – Eslen desabafou baixinho, enfiando o rosto entre o ombro e o pescoço da esposa.– E você tem guardado tudo para si mesmo… – ela respondeu com um sorriso gentil, aproveitando a proximidade para acariciar os cabelos dele.Sentiu seu corpo sendo erguido do chão e quando deu por si, estava tendo suas costas depositadas nas almofadas confortáveis da sala de estudo. Suspirou, sentindo-o colar o rosto ao seu ventre, já bem mais aparente e aproveitou aquele momento tão necessário.– Quero te ver em vestimentas de gestante – ele disse de repente, esboçando um sorrisinho de pai orgulhoso.– Ora, não me l
Rosely viu, com surpresa, como, mesmo assolado por uma variedade de sintomas causados pelo veneno, Eslen continuava a trabalhar como se nada tivesse acontecido. E diante disso, ela pensou consigo mesma que precisava fazer algo a respeito.Remexeu nos pergaminhos enviados por Carolle.E assim, se seguiu uma série de noites em claro em seu quarto de estudo, tentando encontrar um antídoto que conseguisse neutralizar todas as toxinas identificadas. Havia conseguido neutralizadores para quase todas elas, exceto quatro – que, por algum motivo estranho –, mesmo sabendo do que se tratava, os reagentes conhecidos não funcionavam.Estava tão frustrada. Contudo, não teve tempo de se desanimar, pois, um burburinho começou a soar pelos corredores. Deixou o quarto, parando apenas para prestar atenção no que as empregadas conversavam e arregalou os olhos ao perceber que elas estavam falando sobre o veneno. Aparentemente, o culpado por trazê-lo para dentro do palácio havia sido encontrado.Entrou no