Eu sei disso enquanto encaro Ethan, que permanece parado, confuso, mas paciente, com aquele olhar que sempre parece querer entender mais do que eu estou disposta a oferecer. Ficamos ali, no corredor estreito e pouco iluminado do prédio, com a porta do apartamento me separando não apenas de Miguel, mas da verdade que deveria ter contado.Não consigo deixá-lo entrar. Não tenho coragem de permitir que ele olhe para dentro, para a bagunça que escondi por tanto tempo. Não é apenas o apartamento. É tudo. A vida que construí sem ele. As escolhas que fiz. Miguel.Ethan me observa, percebendo algo, talvez, no meu nervosismo, no modo como cruzo os braços como se precisasse de uma barreira. "Está tudo bem?" ele pergunta, a preocupação evidente em sua voz.Está? Não. Não está. Mas não consigo dizer isso a ele. Então, apenas aceno com a E, por um segundo, o silêncio entre nós se estende como uma ponte frágil sobre um abismo, carregado de tudo o que ainda não foi dito. É um silêncio que parece ter
Aquelas duas palavras ecoam na minha mente como um trovão. De alguma forma, ele sabe. Talvez não tudo, talvez não os detalhes, mas o suficiente. O suficiente para estar aqui, para dizer isso, para me encarar com aquele olhar firme e determinado que me faz sentir tão pequena e exposta."Eu..." começo, mas as palavras morrem na minha garganta. Não sei o que dizer, o que fazer. Não há como fugir dessa vez, não há desculpa ou distração que possa apagar o que está prestes a acontecer.A tensão no ar é quase palpável, como uma corda esticada ao máximo, pronta para romper a qualquer momento. Cada segundo que passa parece carregar o peso de um milhão de palavras não ditas, cada uma mais difícil de engolir do que a anterior.O silêncio entre nós é espesso, denso como neblina, preenchendo cada canto do corredor com uma expectativa sufocante. Minha respiração, embora superficial, soa absurdamente alta para mim, como se minha própria inquietação estivesse tentando preencher o vazio.Ethan está par
E, quando o faço, vejo algo que não esperava. Seus olhos estão marejados, brilhando com uma tristeza que eu nunca imaginei ver neles. Não é raiva, não é julgamento. É algo mais profundo, mais humano, como se ele estivesse sentindo a dor que eu tanto tentei esconder.O mundo ao redor parece desaparecer à medida que ele dá um passo em minha direção, mais perto, e, sem conseguir controlar, me jogo nele. Afundo meu rosto em seu peito, o peito que eu sempre conheci como um refúgio, mas agora está tão cheio de emoções quanto o meu próprio coração. As lágrimas continuam, mas agora, ao invés de me sentirem como um fardo, há algo de reconfortante no modo como ele me envolve.Eu não sei o que isso significa, não sei o que ele pensa, mas naquele momento, não importa. Eu só preciso sentir a presença dele, sentir que, pelo menos por um segundo, a dor é compartilhada. E, enquanto afundo mais fundo em seu abraço, a tensão, a culpa, tudo parece perder um pouco do seu peso, como se, finalmente, eu nã
“Então, quando o jatinho pousou, eu não estava ansioso. Eu estava feliz.” Ele suspira, a emoção transparecendo agora, mais clara e pura do que nunca. “Eu estava indo ao encontro da minha segunda chance de vida.”As palavras dele caem sobre mim como uma onda suave, levando-me em um mar de sentimentos que são ao mesmo tempo avassaladores e curadores. Eu nunca imaginei que ele pensaria assim. Que, de alguma forma, minha decisão de esconder Miguel, de cuidar dele sozinha, seria algo que ele não só compreendia, mas admirava.Eu me afasto levemente, apenas o suficiente para encará-lo, ainda com os olhos cheios de lágrimas. O espaço entre nós agora parece carregado de algo novo, algo que eu não consigo nomear, mas que está lá, pulsando entre cada batida do meu coração. Ele me observa, os olhos profundos, carregados de sentimentos que ele não precisa dizer para que eu entenda.“Você... você realmente quer isso?” A pergunta sai frágil, a voz trêmula, como se, ao perguntar, eu estivesse testand
O nome reverbera no ar, e uma onda de confusão me envolve. Eu olho de Ethan para Miguel, sem entender por que a simples menção do nome parece fazer o mundo de Miguel parar. Foi quando me dei conta — e tudo se encaixa em um relâmpago de compreensão.Ethan Banks. O nome que Miguel sempre mencionou, o nome que ele disse tantas vezes com uma adoração silenciosa, como um verdadeiro fã. Ethan não é apenas um homem que entrou em nossas vidas de forma inesperada. Ele é uma lenda para Miguel. Ele é o piloto, o herói que Miguel sempre sonhou em ser, aquele que ele admirava desde muito antes de entender qualquer outra coisa sobre a vida.Miguel, com toda a sua energia e entusiasmo infantis, corre até ele, e o abraço que ele dá nas pernas de Ethan é cheio de uma emoção tão pura e irrestrita que quase me faz chorar. Ele se agarra a Ethan como se estivesse se agarrando a um sonho realizado, e eu vejo algo nos olhos de Miguel que eu nunca tinha visto antes — uma gratidão profunda, uma felicidade ge
A simplicidade da frase parece ser a chave para tudo. É o momento em que, finalmente, ele aceita que o que estava no reino dos sonhos de Miguel, no reino das orações silenciosas, agora se torna algo palpável. Ele veio. E isso, por mais simples que seja, significa mais para Miguel do que qualquer outra coisa no mundo.“Eu já fui em uma corrida sua,” Miguel diz, a voz animada, mas ainda com um toque de nostalgia. Ele parece voltar no tempo por um momento, mergulhado em uma lembrança que agora se mistura à realidade do momento. "Me perdi do meu tio naquele dia, e a polícia foi atrás de mim." A confissão vem com uma leveza, como se ele estivesse contando uma história comum, mas a intensidade dela não escapa dos meus ouvidos. Para Miguel, aquela corrida, aquele dia, foi algo que ficou gravado em sua memória de uma forma que ele agora compartilha com uma sinceridade inocente.Ethan, que estava inicialmente paralisado pela revelação, agora se abaixa até ficar da mesma altura que Miguel. Se
Miguel, ouvindo isso, não consegue esconder a felicidade. Ele sorri de uma maneira que só uma criança poderia, com a confiança de quem sabe que, naquele momento, ele tem algo único para oferecer. Algo que, até agora, ele guardava só para si. "Eu quero te mostrar meus carros," ele diz, e seus olhos se iluminam ainda mais com a ideia. Sem hesitar, ele pega a mão de Ethan, puxando-o suavemente, com a força da empolgação que só uma criança pode ter quando está prestes a mostrar algo importante.Ethan, surpreso, mas tocado pela urgência do gesto, permite ser guiado para dentro do apartamento. Eles caminham juntos, a mão de Ethan ainda suavemente segurando a de Miguel, e, ao ver a forma como o menino o conduz com tanto entusiasmo, vejo um laço silencioso sendo formado entre eles. Algo que se constrói com gestos simples, mas carregados de significado.Eu fico para trás, observando-os com um misto de emoção. A cena diante de mim é como um quadro em movimento: Miguel, com sua energia vibrant
Eu dou um passo para trás, apoiando minhas mãos no parapeito, sentindo a frieza do concreto contra a pele. Carter está me observando em silêncio, e eu sei que ele espera mais, mas, por agora, é tudo o que eu posso dar. A verdade está lá, à vista, mas está difícil de digerir. Volkov fez parte de um jogo que eu não entendi completamente, e, talvez, ele ainda faça parte dele. - "Pare de me ameaçar como se eu ligasse"- "Você não liga para a própria vida. Acabar com esse inferno seria um favor, não? Mas eu sei, meu caro, eu sei que existe alguém por quem você teme" Volkov confidenciou.Ethan virou-se lentamente para o outro homem. De repente, aquela sala tornou-se pequena demais para a presença de ambos. Banks era um tanto quanto mais alto, e encarou Volkov com superioridade exalada. Seus olhos estavam levemente vermelhos, o que o deixava ainda menos sano.A verdade era que Ethan havia se sacrificado para proteger Blair. Após a conversa com o pai, o homem entendeu que mantê-la em sua vid