capítulo 5
No passado, a vovó não aprovou o casamento da minha mãe com meu pai, temendo que ela passasse dificuldades ao lado de um homem sem dinheiro.

Revoltada, minha mãe passou a noite bebendo, sem imaginar que acabaria sendo violentada por um marginal e, pior ainda, engravidaria.

Naquela época, ainda era jovem. Tinha opções melhores.

Mas, para punir minha avó e fazê-la se sentir culpada, decidiu seguir com a gravidez.

Quando completei três anos, um dia, ao olhar para mim, viu traços do meu pai no meu rosto e orreu para fazer um teste de DNA.

O resultado confirmou: eu realmente era filha do meu pai, e não do agressor.

Minha mãe ficou aliviada e, com isso, conseguiu reconquistar meu pai.

Mas, para os dois, eu ainda era uma mancha na história de amor que eles tanto idealizavam.

Sem pensar duas vezes, me deixaram com minha avó e partiram para longe, como se eu fosse um erro que precisavam esquecer.

Naquela época, meu pai tinha acabado de se divorciar de sua primeira esposa.

Joel já tinha dois anos.

Minha mãe derramou todo seu amor nele.

Sentindo que haviam perdido quatro anos de suas vidas, decidiram preencher esse vazio adotando uma menina de quatro anos de um orfanato.

Chamaram-na de Elisabete— um nome que, para eles, tinha um significado especial.

E foi assim que, enquanto eu, a filha biológica, era esquecida, Elisabete, a adotiva, se tornava o centro do universo deles.

Ela era tão mimada que, se pudesse, minha mãe traria até a lua para ela.

Agora, sem ter como me fazer aparecer, minha mãe apenas suspirou e disse à vovó:

— Já que veio, pelo menos coma alguma coisa.

A vovó varreu a casa com os olhos, respirando fundo para manter a calma.

— E a Jesinha?

A expressão da minha mãe revelou um traço de impaciência.

— Já não te falei? Ela tá de birra. Se não quer sair do quarto, o que eu posso fazer?

A vovó franziu as sobrancelhas.

— O que aconteceu?

Minha mãe hesitou por um momento, decidindo pular qualquer menção ao Vale do Eclipse.

No lugar, respondeu com desdém:

— Ainda é por causa da formatura. Eu e o pai dela não fomos, e ela ficou emburrada.

A vovó fechou a cara.

— Eu perguntei a ela quando seria a formatura, e ela nunca me disse! Mas vocês... vocês são os pais dela! Como puderam faltar?! Todo mundo diz que a formatura é como um pequeno casamento para um filho!

A minha mãe queria se defender, mas não sabia como.

Não podia simplesmente dizer que Elisabete arranhou o pé e fez um drama até impedir que fossem.

Se dissesse isso, só faria a vovó detestar ainda mais sua filha adotiva.

O silêncio tomou conta da mesa.

Apenas o vapor da comida subia no ar.

— Mãe, senta e come. — Meu pai quebrou o silêncio.

A vovó também não queria piorar ainda mais a relação com sua única filha.

Então, aceitou a refeição.

Era raro estarem juntos à mesa.

Isso deixou minha mãe de bom humor.

Trouxe até bebidas importadas e serviu para todos.

Mas a vovó não aprovou.

— Catarina, já teve insuficiência renal. Para de beber essas porcarias e toma mais água.

O tom dela ficou ainda mais severo.

— Ou tá esperando que a Jesinha te dê o outro rim também?

A mão da minha mãe parou no ar.

Seus olhos se ergueram na mesma hora.

— Que besteira é essa, mãe?! Todo mundo sabe que foi a Bete quem me doou o rim! Você falar isso na frente de todo mundo é uma tremenda falta de vergonha!

Ela estava convicta do que dizia.

A vovó, por outro lado, ficou vermelha de raiva.

Se levantou num pulo.

— Você é burra, Catarina! Eu te disse que essa ingrata era uma cobra! Como pode acreditar numa mentira dessas?!

Elisabete imediatamente caiu em prantos.

— Não briguem! Se a vovó quer dizer que foi Jesiane quem doou, então foi ela, pronto! Mamãe, não fique chateada...

Mas, ao invés de acalmar minha mãe, essas palavras só serviram para confirmar que a vovó estava sendo injusta.

Na mesma hora, perdeu a paciência.

— Mãe, eu não queria brigar com você, mas já que insiste em ficar do lado daquela ingrata e ainda distorcer os fatos, é melhor ir embora.

Ouvir isso me fez chorar.

Naquele ano, quando minha mãe foi diagnosticada com insuficiência renal, fui eu quem doou anonimamente o rim para ela.

Nunca soube como isso acabou virando um "sacrifício" de Elisabete.

A vovó descobriu a verdade.

Mas eu a fiz prometer que não contaria.

Eu queria que o amor da minha mãe por mim fosse sincero.

Não movido pela culpa.

A vovó também carregava sua própria culpa por ter separado minha mãe do meu pai e, indiretamente, a levado ao destino que teve.

No fundo, ela também sentia que devia algo a ela.

E por isso, concordou em se calar.

Minha mãe nunca soube da verdade.

E, mesmo quando a vovó tentou abrir seus olhos, ela simplesmente se recusou a acreditar.

O jantar terminou num clima péssimo.

Assim que a vovó saiu, o celular da minha mãe tocou.

Na tela, um nome brilhava:

"Jesiane".

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