capítulo 2
— Como fui dar à luz uma criatura tão cruel e sem coração como você?! — A vovó estava tão indignada que mal conseguia respirar. — Passei dois meses fora do país sem nenhuma notícia dela! Fiquei preocupada todos os dias, e agora que voltei, ainda não consigo falar com ela! Com certeza foram vocês que fizeram ela sofrer!

A voz dela tremeu de raiva.

— Ela não mora com vocês? Manda ela atender o celular agora!

A mãe ficou em silêncio por um instante e trocou um olhar com o pai.

Dois meses atrás, Joel teve um capricho de acampar na área proibida do Vale do Eclipse.

Eu sabia dos riscos, mas, no fundo, queria aproveitar essa oportunidade para me aproximar da família. Até tirei folga no trabalho para ir.

Nunca imaginei que Elisabete cairia na água.

E menos ainda, que ao ser resgatada, apontaria para mim e diria que eu a empurrei.

A mãe não quis ouvir explicações. Completamente cega de raiva, me deu vários tapas no rosto e me abandonou na floresta.

O que eles não sabiam... é que naquele dia, eu nunca saí de lá.

Dois meses sem nem se perguntar onde eu estava.

Nesse momento, sem conseguir contato comigo, minha mãe continuava tranquila, se justificando para a vovó:

— Ela nunca obedece. Vive com inveja da Bete, não se dá bem com o Joel... Com certeza está por aí aprontando alguma coisa!

Quando foi que minha mãe passou de simplesmente não gostar de mim para me ver como um monstro cruel?

Quando eu morava com a vovó, meus pais só apareciam quando ela insistia.

Mas, naquela época, eu ainda era o centro da atenção deles. Mesmo que não quisessem, só existia eu.

Eu era feliz assim.

Depois, eles decidiram me levar para morar com eles. Achei que, finalmente, queriam me dar um lar de verdade.

Só percebi tarde demais.

Eu era apenas uma órfã indesejada dentro da minha própria família.

A casa dos meus pais não era luxuosa como a da vovó.

Mas Elisabete tinha um quarto cheio de Barbies e vestidos.

Elisabete não gostava que eu usasse as roupas caras que a vovó me dava. Para agradá-la, meus pais simplesmente enfiaram todas elas em um velho baú esquecido num canto.

Em vez disso, eu tinha que usar as roupas que Elisabete não queria mais.

Joel tinha um kit completo de equipamentos esportivos e os eletrônicos mais modernos.

Eu só queria um computador. Me prometeram, mas nunca cumpriram.

Enquanto estive viva, sempre tentei agradá-los.

Queria apenas um pouco de atenção.

Mas agora... não preciso mais me humilhar por esse afeto miserável.

A vovó, furiosa, soltou uma última ameaça antes de desligar:

Se não falasse comigo, doaria toda a herança para a caridade.

O rosto da minha mãe ficou sombrio na hora.

Meu pai bateu a cinza do cigarro e resmungou:

— Essa desgraçada só sabe fazer birra. Nunca devíamos ter trazido ela pra cá.

A mãe se jogou no sofá, o olhar frio.

— Precisamos dar um jeito nela. Não pode continuar achando que pode fazer o que quiser.

Dito isso, o pai pegou o celular e, ele mesmo, decidiu me ligar.

Isso, por si só, já era raro.

Mas algo o surpreendeu.

Depois de tanto procurar meu número, ao finalmente discar, o celular nem chegou a chamar.

Apenas uma mensagem automática: "O celular está desligado."

O rosto dele se fechou.

— Essa ingrata tá se escondendo de propósito! Será que acha que dependemos dela pra alguma coisa?!

Os olhos arderam de fúria.

— Quero ver até quando ela vai se esconder!

Joel desceu as escadas naquele momento.

Ao ouvir a irritação dos pais, comentou, casualmente:

— Relaxem. Aquela desgraçada é doida pela vovó. No aniversário dela, aposto que vai aparecer.

Essa ideia acalmou um pouco os dois.

Joel, sem dar importância ao assunto, pegou o controle remoto e ligou a TV para ver o jogo.

Mas, ao trocar de canal, parou sem querer na notícia local.

O título da manchete era impossível de ignorar:

"Turista encontra corpo de mulher no Vale do Eclipse. Autoridades fecham a área por tempo indeterminado."

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