Enterrada, Mas Ainda Contam Comigo
Enterrada, Mas Ainda Contam Comigo
Por: Melurso
capítulo 1
Dois meses depois de eu ter adormecido para sempre naquela floresta, meus pais enfim se lembraram de que me deixaram para trás na volta da viagem pelo vale.

Meu pai franziu a testa, impaciente:

— Era só dar um jeito de voltar. Precisa desse drama todo?

Meu irmão abriu nossa conversa, enviou um emoji debochado e digitou:

— Melhor morrer por aí. Assim, tudo fica para mim e para a Bete.

Silêncio.

Minha mãe, sem expressão, ordenou:

— Diga que, se aparecer no aniversário da avó, esqueço essa história de ter empurrado a Bete na água.

Nunca acreditaram que eu não tivesse saído daquela floresta.

Vasculharam, cavaram, reviraram a terra.

Até encontraram meus ossos na mata fechada.

...

Sem conseguir falar comigo e pressionados pela vovó, essa "família unida" finalmente veio parar, a contragosto, diante de um cortiço caindo aos pedaços.

— Que nojeira! Essa vadia mora num buraco desses? Eu não vou entrar!

Joel Silva tapou o nariz, com nojo.

— Tá bom, então você e a Bete voltem pra casa. Eu e seu pai resolvemos isso. — disse a mãe.

— A mana é muito ingrata. Não atende o celular, não responde no WhatsApp... Ainda faz vocês virem até aqui. — Elisabete Silva, abraçada ao braço da mãe, fez cara de piedade.

— Quando eu encontrar essa garota, ela vai ver só!

Nos olhos da mãe brilhou um lampejo de rancor antes de puxar o pai e entrar no prédio.

Depois de subirem quatro lances de escada, pararam ofegantes em frente à porta 401.

Bateram. Quem abriu foi um homem de meia-idade, sem camisa.

— Tá procurando quem?

O pai, ao vê-lo, se encheu de fúria.

— Que relação você tem com minha filha? Por que tá morando aqui?

A mãe, furiosa, já foi entrando sem pedir licença.

— Jesiane, aparece agora! Tá achando que pode esconder da gente que tá morando com homem?!

Foi quando uma mulher grávida surgiu no corredor.

— Acho que vocês erraram de endereço. Eu e minha família nos mudamos pra cá faz dois meses.

A mãe crispou os lábios, impaciente.

— Isso é impossível! Minha filha me passou esse endereço! Como pode estar errado?

O homem bufou, perdendo a paciência, e a empurrou para fora.

— Sumam daqui! Nem sabem onde a própria filha mora e ainda vêm causar? Que belo casal de pais vocês são!

— Jesiane era a antiga moradora? — A grávida pareceu lembrar de algo e acrescentou. — O dono disse que ela ficou devendo um mês de aluguel. Como não conseguiram contato, ele alugou o lugar pra gente.

Ao ouvir isso, a mãe franziu as sobrancelhas, furiosa:

— Se mudou e nem avisou! Fez a gente perder tempo à toa! Essa ingrata!

Os dois estavam prestes a ir embora quando o proprietário do apartamento chegou. Assim que soube quem eram, foi direto ao ponto.

— Então vocês são os pais dela? Ótimo. Tratem de pagar o aluguel atrasado. E levem logo as coisas que ela deixou pra trás, não quero essa tralha ocupando meu espaço!

Os dois se entreolharam, incrédulos, mas logo foram guiados pelo homem até um depósito onde minhas coisas estavam guardadas.

Ninguém mexia ali havia dois meses. Poeira cobria tudo.

O pai reconheceu algumas peças de roupa que eu costumava usar.

— São dela.

A mãe franziu o cenho, gelada.

— Essa ingrata fez de propósito? Mudou e deixou esse monte de lixo aqui esperando a gente vir limpar?

O dono do imóvel não aguentou ouvir aquilo e interveio:

— Não é lixo. Pelo que vi, são coisas importantes pra ela. Tem álbuns de fotos, documentos... A menina parecia gente boa, então resolvi guardar.

A mãe ignorou, sem o menor interesse.

O cheiro de mofo no depósito era forte. Com nojo, ela tampou o nariz e saiu. Do lado de fora, sacou o celular e discou meu número.

Sem resposta. Irritada, deixou uma mensagem de voz.

— Jesiane, já chega dessa palhaçada! Eu e seu pai estamos no seu apartamento. Não se atreva a nos fazer esperar!

Seu tom era o de sempre, altivo, carregado de desprezo.

Ignorar a mensagem do meu irmão? Isso era a coisa mais normal do mundo.

Desde que Elisabete começou a envenenar nossa relação, nos tornamos praticamente inimigos.

Mas ignorar até os recados da minha mãe?

Isso era inédito.

Ela perdeu a paciência de vez.

— Deixa pra lá. Vamos embora, esse lugar é um nojo! — disse ao meu pai, indiferente.

O dono do apartamento ouviu e ficou furioso.

— Ei, vê como fala!

— Vão levar as coisas da sua filha ou não? Se não levarem, vou jogar tudo fora.

Já tinha entendido que não veria a cor do aluguel atrasado, então nem insistiu.

A mãe não respondeu. Nem olhou pra trás.

O homem bufou, inconformado.

— Vocês não têm um pingo de humanidade, não? Sua filha some por dois meses e vocês nem se preocupam se aconteceu alguma coisa?!

A resposta veio carregada de sarcasmo:

— Aquela desgraçada? Essa aí tem mais vidas que um gato! Se algo acontecesse com ela, seria um milagre.

Ao chegar em casa, a primeira coisa que fez foi ligar para a vovó.

— Mãe, por que a senhora ainda perde tempo pensando naquela ingrata? No fim, tudo que é seu vai ser da Bete e do Joel. Esquece ela!

Flutuando ali ao lado, sem poder fazer nada, só consegui soltar um riso amargo.

Mãe… eu sou sua única filha de verdade. Por que me odeia tanto?

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