Aquele pedaço de papel, cada palavra impressa nele Bruno leu e releu incontáveis vezes, até que seus olhos ficaram ardendo de cansaço. De repente, ele compreendeu a dor de Helena, as lágrimas de Helena. De repente, ele entendeu por que, naquela noite no estacionamento, Helena desmoronou e o questionou desesperadamente: "Bruno, você não pode me dar nem um minuto do seu tempo? Depois de quatro anos de casamento, eu não valho ao menos isso para você?" Sua Helena não podia mais ter filhos! Ele não amava Helena. Mas Helena era uma pessoa importante para ele. Ela esteve ao seu lado por quatro anos, acompanhando ele durante os momentos mais sombrios de sua vida, testemunhando sua ascensão ao topo do poder. Quando se casaram, prometeram ter dois filhos, depositando neles seus mais belos desejos. Um se chamaria Sofia Lima. O outro, Gonçalo Lima. Bruno se sentou lentamente na beira da cama. Seu rosto, sempre tão marcante e imponente, naquele instante carregava uma rara expressão
O desejo de Bruno foi despertado por ela. Helena estava um pouco irritada. Não queria vê-lo; os advogados cuidariam do divórcio. Ela tentou fechar a porta, mas Bruno foi mais rápido. Com um simples movimento do pé, impediu que ela se fechasse e, sem esforço algum, entrou no apartamento... Assim que a porta se fechou, Helena foi envolvida pelos braços do homem. Bruno a segurou pela cintura fina, puxando ela com força contra si. Ele a beijava com uma intensidade quase insana, e Helena não conseguia se desvencilhar. Entre tropeços e suspiros entrecortados, os dois acabaram diante do sofá. No macio estofado, Bruno claramente tinha vantagem. Ele nunca havia sido assim! A luz intensa iluminava a sala, e a voz suave e ofegante de Helena parecia incapaz de trazê-lo de volta à razão. Só quando Bruno avistou uma pequena pinta avermelhada é que seu ímpeto cego arrefeceu um pouco. Com a respiração pesada, ele aproximou os lábios quentes da orelha de Helena e perguntou, com a voz ro
Helena sentia que havia algo errado com ele. Com certeza, tinha levado um fora. Mas a vida pessoal do ex-marido não era da sua conta. Uma mulher sensata sabia que esse era um princípio básico. Helena não podia expulsá-lo, mas também não tinha o menor interesse em ficar observando ele fumar. Então, prendeu os cabelos úmidos para trás com um simples grampo, calçou os chinelos e seguiu para a cozinha, disposta a preparar algo simples para si mesma. Na verdade, Helena cozinhava bem, mas, depois de se casar com Bruno, raramente tinha a oportunidade de pôr a mão na massa. Agora que morava sozinha, fazia suas próprias refeições no dia a dia. Em pouco tempo, o aroma dos pratos começou a se espalhar pela cozinha, impregnando o ambiente com um leve toque de aconchego. Bruno estava sentado no sofá e, por acaso, avistou o perfil dela. Ainda vestia aquela camisa preta que revelava as pernas, exalando sensualidade, mas, ao vê-la inclinada sobre o fogão, preparando a comida, havia nela
No amanhecer, o primeiro caminhão-pipa da cidade passou sob o prédio do apartamento. A música que tocava no alto-falante era uma das favoritas de Helena, chamada "O adeus é um estranho". Um raio tímido de luz da manhã atravessou o quarto, fazendo a cortina ondular suavemente. Bruno já não estava ao seu lado na cama. Na noite anterior, ele não a forçou a nada, apenas despertou várias vezes e a beijou outras incontáveis vezes... Parecia estar se contendo havia muito tempo. E, entre aqueles beijos sonolentos e entrecortados, Helena teve a impressão de ouvir Bruno murmurar: — Helena, vamos recomeçar. Recomeçar... Essas palavras tinham um poder quase irresistível para Helena, mas os sofrimentos do passado a deixavam receosa. Aquele dia no Clube Furtivo, a expressão furiosa de Bruno também a assustou. Ela temia que, no fim, tudo não passasse de um sonho efêmero. Nos dias que se seguiram, Bruno veio vê-la por três ou quatro noites seguidas. Nada de extraordinário aconteceu.
Ela não pôde deixar de pensar: — Quanta devoção é necessária para ignorar os rumores do mundo? Helena não quis olhar por mais tempo. Se virou para ir embora, mas, às suas costas, ouviu a voz delicada de Camila chamando: — Sra. Lima. Helena se virou e os encarou. Camila envolvia o pescoço de Bruno com os braços e, com um tom ainda mais manhoso, chamou novamente: — Sra. Lima, não há nada entre mim e o Bruno! Eu não estava me sentindo bem, por isso ele me carregou. Antes que Helena pudesse responder, a Sra. Fernandes, com uma cortesia fria e distante, interveio: — Você é a esposa do Bruno, não é? Ele e a Camila se conhecem desde a infância, são grandes amigos. É natural que ele cuide dela de vez em quando. Você não se importa com isso, não é? Helena olhou para Bruno. Seu marido ainda segurava Camila nos braços, sem soltá-la, apenas franzindo levemente as sobrancelhas. Ela não tinha disposição para se importar. O que lhe causava verdadeiro desgosto era a família Fernand
A noite já estava evidente quando Helena dirigiu de volta para casa. Assim que estacionou o carro e soltou o cinto de segurança para sair, seu olhar congelou por um instante. O carro de Bruno estava parado sob uma árvore do outro lado da rua. Ele vestia preto da cabeça aos pés e se apoiava contra a lataria, a cabeça levemente inclinada para trás enquanto fumava. O pomo-de-Adão, bem marcado, se movia de forma absurdamente sedutora. A fumaça azulada subia, envolvendo seu rosto esculpido antes de ser suavemente dissipada pelo vento noturno. A escuridão era densa, e ele parecia fazer parte dela. Ao vê-la, Bruno a encarou com um olhar profundo. Depois de alguns segundos, jogou o cigarro no chão, apagando ele com o sapato, e começou a caminhar em sua direção. Helena não queria vê-lo. Assim que saiu do carro, se apressou em direção ao elevador, ouvindo os passos dele atrás de si, calmos, sem pressa. No final, ele a encurralou na porta do apartamento. — Helena, podemos conversa
Agora, Helena não gostava mais dele. Em que momento, afinal, ele havia perdido o amor de Helena? ... Três dias depois, na sala da presidência do Grupo Glory. Bruno estava claramente de mau humor. Sobre sua mesa repousava uma intimação judicial. A autora da ação era sua esposa, Helena, que havia solicitado o divórcio e a partilha dos bens conjugais. Recostado no sofá, com as longas pernas cruzadas, Bruno pegou a intimação com uma das mãos. Ele perguntou em voz baixa à secretária Juliana, que estava ao seu lado: — Ela já contratou um advogado? Juliana respondeu com sinceridade: — Sim, ela contratou o Roberto Leite, um nome renomado no meio jurídico. Ele é extremamente competente... Se for ele a assumir o caso, temo que nem mesmo o advogado Manuel consiga vencer essa disputa. Bruno lançou um olhar para ela e, com um tom indiferente, disse: — Quem disse que eu vou disputar esse caso com a Helena? Esse é um desejo unilateral dela. Eu, por minha vez, não tenho intençã
Manuel estava vestido de maneira extremamente formal. Uma camisa azul-escura, um terno preto impecável e uma gravata preta que complementava sua aparência elegante. Ele olhou para Helena e sorriu levemente. — Posso me sentar para tomar um café? Depois de um longo momento, Helena também sorriu suavemente. — Claro. Manuel colocou a pasta sobre a mesa e, assim que se sentou, um garçom se aproximou educadamente. — Que café o senhor deseja? Com os dedos longos e bem definidos, Manuel tocou levemente a mesa para indicar seu pedido. O garçom assentiu e se retirou. Quando ficou sozinho com Helena, Manuel se recostou na cadeira. Por hábito, levou a mão ao bolso em busca de um cigarro, mas ao se lembrar do ambiente em que estavam, franziu levemente a testa e desistiu, voltando seu olhar para ela. Fazia alguns dias que não a via, e Helena parecia ter mudado bastante. Usava um vestido longo de lã branca, que delineava suas curvas esguias e delicadas. Os cabelos longos e neg