Respiro profundamente, decidindo que preciso de um momento para mim mesma. Dirijo-me ao banheiro, e ao me ver no espelho, percebo que não é só o corpo que precisa de um banho, mas também a alma. Tomo um banho quente, deixando a água escorrer pelo meu corpo, tentando afastar as preocupações e ansiedades, ainda que seja de forma temporária. Sigo para o quarto e escolho o vestido branco que Raed comprou para mim na Itália. Ele é lindamente delicado, com babados sutis no busto e um corte acinturado, que valoriza minha silhueta, mantendo uma elegância respeitosa aos padrões árabes. O modelo tomara que caia é simples, mas traz uma sofisticação e frescor, como se fosse um presente para me lembrar da sua atenção para comigo.Visto-me com cuidado, sentindo a seda do tecido contra minha pele, e sigo até a sala de jantar. Sento-me na grande cadeira estofada, a mesa à minha frente impecavelmente arrumada, como se o mundo tivesse se organizado ali só para mim. Hamira chega, colocando uma taça de s
Eu tento me distrair com o resto do dia, mas o peso do que ouvi continua me perseguindo. À tarde, descanso um pouco, mas minha mente está longe, vagando pelos labirintos da dúvida.Agora, oito horas da noite, estou deitada na cama, mas o sono não vem. A porta se abre lentamente, e Raed entra. Quando me vê, um sorriso tímido tenta brotar em seus lábios, mas a dor em seus olhos é inegável. Seu semblante, geralmente confiante, agora está carregado de cansaço e preocupação. Ele parece mais velho, a tristeza do momento visível em sua face.Levanto-me da cama imediatamente, e ele me abraça com força, como se meu abraço fosse a única coisa capaz de ancorá-lo. Ele repousa o queixo sobre minha cabeça, e, por um longo momento, ficamos assim, em silêncio, como se o tempo tivesse parado para que pudéssemos nos reconectar.— E seu pai? — pergunto, minha voz suave.Ele solta um suspiro profundo.— Vai passar por uma operação delicada. Terá que colocar pontes de safena.— Sinto muito. Posso ajudar e
Dois dias se passaram. A operação do Sheik foi um sucesso. Pouco vi Raed. Agora com o pai no hospital, ele está se dividindo entre o trabalho e as visitas na UTI. Segundo Raed, ele está se recuperando bem, mas ainda não está consciente.Não sei como o Sheik irá reagir quando ele ver o filho face a face.Será que o sentimento de ter quase morrido amenizará as coisas?Ou ele fará Raed se sentir mais culpado? Esses questionamentos têm me angustiado.Agora estou sentada na cama, pensando que tenho sobrevivido a mais um dia de vida a espera que tudo fique bem. Sem emprego...Sem estudar....Mas isso é o que menos está me pegando. Só que a ociosidade traz ansiedade.Agora estou aqui, esperando Raed chegar. Os dias tem se arrastado para mim e a ausência de Raed só piora as coisas. Sempre fui muito ativa, não estou acostumada a ver o tempo passar e esperar as coisas acontecerem.Penso em fazer alguma coisa, mas nesse momento tenho receio de tocar nesse assunto com Raed. Ele já tem se preocup
Raed chega à tardinha. As olheiras abaixo dos olhos indicam uma noite sem dormir. Meu coração acelera quando eu o vejo. Sim, eu o amo e me será muito penoso deixa-lo, mas ele merece uma vida normal, e não um erro. Tentando ignorar a tristeza que me invade quando penso nisso, eu me aproximo dele. Raed abre os braços para mim. Eu o abraço sentindo o calor do corpo dele e seu cheiro. Fecho os olhos, deixando que a emoção de o ver me domine, mas com muito esforço, reprimo minhas lágrimas, não quero preocupa-lo. Ele se afasta um pouco, eu abro os olhos. Ele me olha com intensidade. —Está tudo bem com você? —Sim, Raed. Não se preocupe. Ele solta o ar e dá um leve sorriso. —Estou tão cansado! Esses dias não tem sido fáceis. —E seu pai? —Está se recuperando, mas quando ele recobrou a consciência ele estava muito agitado, os médicos então acharam melhor sedá-lo. —Quer comer algo? Você conseguiu almoçar? Raed assentiu. —Sim, almocei. Agora só quero tomar um banho e me deitar. Acho
Pensei em várias possibilidades de senha, tentando conectar datas importantes ou combinações óbvias. Desisti por ora e fui para a sala de jantar, onde Hamira apareceu.— Quer mais alguma coisa?— Não, obrigada. Quando Raed ligar, quero falar com ele.— Está certo.De volta ao quarto, comecei a arrumar uma bolsa com roupas leves. Precisava ser prática. Estava finalizando quando Hamira bateu à porta.— O príncipe.Peguei o telefone na sala, sabendo que ele mantinha o aparelho longe de mim como um lembrete de minha falta de liberdade.— Raed?— Consegui marcar sua consulta para hoje à tarde, às 13 horas. Já falei com Hamira, e ela irá com você — informou Raed, com sua habitual voz firme e calma.— Raed, eu preciso de algumas coisas. Preciso de dinheiro — interrompi, tentando soar neutra.Do outro lado da linha, o silêncio foi palpável. Eu sabia que havia mexido em um terreno delicado.— O que você precisa? Eu mando comprar para você — ele respondeu, com um tom levemente defensivo.Era ex
RaedDepois do telefonema de Hamira volto para casa como um louco. Dirigindo pelas ruas como se tivesse participando de um racha com alguém. Estaciono meu carro e salto dele o deixando com a porta aberta. Ofegante, entro no palácio. Hamira já me espera, ela sentiu como eu estava nervoso ao telefone quando ela me ligou dizendo que Isabella tinha sumido.—Por Allah! Hamira. Explique-me isso direito. —Esbravejo. — Como Isabella foi embora? Como?Ela chora.—Depois do procedimento, ela simplesmente me deu um beijo e saiu. Eu fiquei aturdida olhando ela ir embora, sem entender seu gesto. —Então vocês chegaram a ir ao médico?—Sim. —Hamira me olha ofegante. —Ela perdeu o bebê.Eu estremeço.—Como assim, ela perdeu o bebê? Se ela tivesse perdido, nós saberíamos, não saberíamos?Hamira aperta as mãos em aflição.—Nem sempre. Ela pode ter perdido o bebê e não ter falado nada. A ultrassom revelou que havia tecidos placentários apenas. Eu até me admirei com a atitude dela, era como se ela já e
IsabellaSentei-me na poltrona de veludo vermelho, o tecido macio contra a pele, mas incapaz de me oferecer o conforto emocional de que eu precisava. A poltrona, uma peça restaurada com esmero, parecia refletir a personalidade de minha tia Raquel: vibrante, marcante, uma sobrevivente do tempo. Aos sessenta e dois anos, ela exalava uma energia juvenil que era difícil de ignorar. Seu cabelo vermelho, sempre impecavelmente tingido, contrastava com as rugas suaves que apenas sugeriam sua idade. Raquel era como uma chama que nunca se apagava, uma força da natureza que parecia imune às adversidades.Ela entrou na sala cantando “Space Oddity” de David Bowie, seu corpo balançando no ritmo da música. Ri sem conseguir evitar. Era isso que ela fazia — tirava um sorriso mesmo nos dias mais sombrios.— Ah, tia, só a senhora para me fazer rir. Mas acredite, não pretendo ficar muito tempo. Hoje mesmo tenho uma entrevista. — Minha voz soou mais firme do que eu esperava.Raquel piscou para mim com aque
IsabellaEu já estou acostumada com as excentricidades de minha tia. Com "Save a Prayer", do Duran Duran, tocando ao fundo, saio de casa em direção ao Hilton. Hoje, tenho mais um serviço temporário.O meu chefe do restaurante Sultão, onde trabalho, me indicou para essa vaga. O mês de experiência já passou, e acredito que estou perto de ser registrada. Apesar disso, o salário não é lá grande coisa, e eu preciso complementar a renda com esses bicos. Eles têm sido um alívio para fechar as contas no final do mês.Caminho até a área de funcionários e visto o uniforme. Hoje à noite, o movimento será intenso. Todo o hotel foi preparado para uma festa beneficente. Me sinto apreensiva. É a primeira vez que trabalho em um evento desse porte como hostess.O gerente, um senhor de sessenta anos com postura rígida, se aproxima de mim.— Os cardápios estão aqui. Você já sabe o que fazer?— Sim, senhor. Eu verifico a numeração no convite, acompanho o convidado até a mesa correspondente, entrego o card