Dois dias se passaram. A operação do Sheik foi um sucesso. Pouco vi Raed. Agora com o pai no hospital, ele está se dividindo entre o trabalho e as visitas na UTI. Segundo Raed, ele está se recuperando bem, mas ainda não está consciente.Não sei como o Sheik irá reagir quando ele ver o filho face a face.Será que o sentimento de ter quase morrido amenizará as coisas?Ou ele fará Raed se sentir mais culpado? Esses questionamentos têm me angustiado.Agora estou sentada na cama, pensando que tenho sobrevivido a mais um dia de vida a espera que tudo fique bem. Sem emprego...Sem estudar....Mas isso é o que menos está me pegando. Só que a ociosidade traz ansiedade.Agora estou aqui, esperando Raed chegar. Os dias tem se arrastado para mim e a ausência de Raed só piora as coisas. Sempre fui muito ativa, não estou acostumada a ver o tempo passar e esperar as coisas acontecerem.Penso em fazer alguma coisa, mas nesse momento tenho receio de tocar nesse assunto com Raed. Ele já tem se preocup
Raed chega à tardinha. As olheiras abaixo dos olhos indicam uma noite sem dormir. Meu coração acelera quando eu o vejo. Sim, eu o amo e me será muito penoso deixa-lo, mas ele merece uma vida normal, e não um erro. Tentando ignorar a tristeza que me invade quando penso nisso, eu me aproximo dele. Raed abre os braços para mim. Eu o abraço sentindo o calor do corpo dele e seu cheiro. Fecho os olhos, deixando que a emoção de o ver me domine, mas com muito esforço, reprimo minhas lágrimas, não quero preocupa-lo. Ele se afasta um pouco, eu abro os olhos. Ele me olha com intensidade. —Está tudo bem com você? —Sim, Raed. Não se preocupe. Ele solta o ar e dá um leve sorriso. —Estou tão cansado! Esses dias não tem sido fáceis. —E seu pai? —Está se recuperando, mas quando ele recobrou a consciência ele estava muito agitado, os médicos então acharam melhor sedá-lo. —Quer comer algo? Você conseguiu almoçar? Raed assentiu. —Sim, almocei. Agora só quero tomar um banho e me deitar. Acho
Pensei em várias possibilidades de senha, tentando conectar datas importantes ou combinações óbvias. Desisti por ora e fui para a sala de jantar, onde Hamira apareceu.— Quer mais alguma coisa?— Não, obrigada. Quando Raed ligar, quero falar com ele.— Está certo.De volta ao quarto, comecei a arrumar uma bolsa com roupas leves. Precisava ser prática. Estava finalizando quando Hamira bateu à porta.— O príncipe.Peguei o telefone na sala, sabendo que ele mantinha o aparelho longe de mim como um lembrete de minha falta de liberdade.— Raed?— Consegui marcar sua consulta para hoje à tarde, às 13 horas. Já falei com Hamira, e ela irá com você — informou Raed, com sua habitual voz firme e calma.— Raed, eu preciso de algumas coisas. Preciso de dinheiro — interrompi, tentando soar neutra.Do outro lado da linha, o silêncio foi palpável. Eu sabia que havia mexido em um terreno delicado.— O que você precisa? Eu mando comprar para você — ele respondeu, com um tom levemente defensivo.Era ex
RaedDepois do telefonema de Hamira volto para casa como um louco. Dirigindo pelas ruas como se tivesse participando de um racha com alguém. Estaciono meu carro e salto dele o deixando com a porta aberta. Ofegante, entro no palácio. Hamira já me espera, ela sentiu como eu estava nervoso ao telefone quando ela me ligou dizendo que Isabella tinha sumido.—Por Allah! Hamira. Explique-me isso direito. —Esbravejo. — Como Isabella foi embora? Como?Ela chora.—Depois do procedimento, ela simplesmente me deu um beijo e saiu. Eu fiquei aturdida olhando ela ir embora, sem entender seu gesto. —Então vocês chegaram a ir ao médico?—Sim. —Hamira me olha ofegante. —Ela perdeu o bebê.Eu estremeço.—Como assim, ela perdeu o bebê? Se ela tivesse perdido, nós saberíamos, não saberíamos?Hamira aperta as mãos em aflição.—Nem sempre. Ela pode ter perdido o bebê e não ter falado nada. A ultrassom revelou que havia tecidos placentários apenas. Eu até me admirei com a atitude dela, era como se ela já e
IsabellaSentei-me na poltrona de veludo vermelho, o tecido macio contra a pele, mas incapaz de me oferecer o conforto emocional de que eu precisava. A poltrona, uma peça restaurada com esmero, parecia refletir a personalidade de minha tia Raquel: vibrante, marcante, uma sobrevivente do tempo. Aos sessenta e dois anos, ela exalava uma energia juvenil que era difícil de ignorar. Seu cabelo vermelho, sempre impecavelmente tingido, contrastava com as rugas suaves que apenas sugeriam sua idade. Raquel era como uma chama que nunca se apagava, uma força da natureza que parecia imune às adversidades.Ela entrou na sala cantando “Space Oddity” de David Bowie, seu corpo balançando no ritmo da música. Ri sem conseguir evitar. Era isso que ela fazia — tirava um sorriso mesmo nos dias mais sombrios.— Ah, tia, só a senhora para me fazer rir. Mas acredite, não pretendo ficar muito tempo. Hoje mesmo tenho uma entrevista. — Minha voz soou mais firme do que eu esperava.Raquel piscou para mim com aque
IsabellaEu já estou acostumada com as excentricidades de minha tia. Com "Save a Prayer", do Duran Duran, tocando ao fundo, saio de casa em direção ao Hilton. Hoje, tenho mais um serviço temporário.O meu chefe do restaurante Sultão, onde trabalho, me indicou para essa vaga. O mês de experiência já passou, e acredito que estou perto de ser registrada. Apesar disso, o salário não é lá grande coisa, e eu preciso complementar a renda com esses bicos. Eles têm sido um alívio para fechar as contas no final do mês.Caminho até a área de funcionários e visto o uniforme. Hoje à noite, o movimento será intenso. Todo o hotel foi preparado para uma festa beneficente. Me sinto apreensiva. É a primeira vez que trabalho em um evento desse porte como hostess.O gerente, um senhor de sessenta anos com postura rígida, se aproxima de mim.— Os cardápios estão aqui. Você já sabe o que fazer?— Sim, senhor. Eu verifico a numeração no convite, acompanho o convidado até a mesa correspondente, entrego o card
Kate Monroe WindsorSou relações públicas do congressista Luke há aproximadamente seis meses. Fui contratada com a missão de melhorar sua imagem pública, e meu trabalho exige que eu esteja sempre alerta e com o feeling afiado.Luke tem tudo para vencer: é inteligente, seguro de si e, mais importante, realmente acredita nas causas que defende. Ele luta com paixão pela igualdade social e contra a pobreza, entregando discursos que tocam a alma. É genuíno, e isso transparece.Porém, há uma pedra no caminho: Luke é alérgico a compromissos sérios. Essa resistência tem aberto brechas para seus concorrentes, que não perdem tempo em explorar isso. Insinuam que ele não é confiável e o comparam a um amante superficial, alguém mais interessado em flertes do que em governar. E o pior? Isso tem surtido efeito.Embora Luke tenha conquistado um enorme apelo entre as mulheres, a atenção delas tem se voltado para os motivos errados. O resultado é que ele começou a cair nas pesquisas eleitorais.Hoje à
IsabellaPercebo o candidato se levantar de sua cadeira. Sua camisa está completamente manchada de vinho, uma mancha tão marcante que é impossível ignorar. Procuro Karina com os olhos, mas ela desapareceu, provavelmente fugindo de alguma tarefa extra. Então, o gerente se aproxima rapidamente, segurando um pano úmido embebido em algum produto com perfume forte.— Ofereça este pano para ele. Vamos! — Ele me ordena em um tom baixo, mas firme.Respiro fundo, ajusto minha postura sobre os saltos altos e caminho na direção do homem, segurando o pano com cuidado. Quando me aproximo, ele me encara.— Olá, sou Isabella Saladino. Trouxe um pano para o senhor.Seu olhar é intenso, quase penetrante, enquanto analisa cada detalhe meu com um misto de curiosidade e charme. Ele é um homem forte, imponente, com músculos evidentes mesmo sob a camisa manchada. Lembra-me de Raed em termos de físico, mas há algo de diferente nele, algo mais polido, talvez até calculado. Sua aparência é rija como uma rocha