Castelo de Espinhos
Castelo de Espinhos
Por: Alessandra F
Prólogo

CORTE DO AR- HÁ 50 ANOS

Ele encarava seu reflexo observando como suas íris destilavam ódio.

Um criado ajeitava seu terno branco enquanto Troye analisava ao redor, com um ar enojado. De sua janela conseguia ver as grandes torres de pedra infestadas de soldados armados e os muros decorados de rosas vermelhas com fadas do fogo enfeitando seus portões. Sentia o cheiro do pó mágico invadindo suas narinas e ouvia as criaturas das três cortes chegando em seus portões. O vento forte sussurrava em seus ouvidos que os minutos estavam passando rápido demais e que o tempo não possuía paciência alguma diante de sua situação.

Troye odiava tudo o que seus olhos capturavam. Seu castelo estava com a decoração mais feia que já tinha visto e seus criados já não eram mais os mesmos. A rosa tatuada em seu pulso estava quase aberta por completo e o impaciente tempo estava prestes a terminar. Quando a coroação chegasse, seria seu fim. O fim de sua vida. O fim de seu reinado. Ninguém gostaria de ter um monstro como soberano.

Sua frustração o consumia, assim como o medo. Troye mirou os olhos naquele que estava lhe tocando. O criado lhe dava nojo. Como alguém pode ansiar trabalhar para o futuro rei não consegue ao menos arrumar um terno com pressa? Ele devia mandá-lo embora, mas sua arrogância, como disse a bruxa, já tinha o colocado em uma situação difícil. Deste modo, o futuro rei se controlou deixando que o vento lhe contasse histórias do vilarejo próximo. Apesar disso, Troye também podia ouvir o barulho dos ponteiros invadindo sua mente como se gritassem que a hora de sua transformação grandiosa estava chegando. Ele não precisava que ninguém o lembrasse de seu destino fracassado.

Olhou novamente para o espelho. Troye Wright. O futuro rei da corte do Ar, que logo seria levado à ruína quando a coroa de ouro fosse posta em sua cabeça. Com um suspiro dolorido seu maior medo começava a crescer. Ela estará lá, a bruxa. Troye sentia que ela estaria lá apenas para zombar de seu próprio feito, com seus dentes podres e aparência horrível. Entretanto Troye não poderia mais falar sobre aparências já que estava prestes a se tornar algo abominável.

— Saia— Pediu a seu criado.

A criatura idosa ergueu a cabeça com dificuldade, engolindo em seco e piscando seu único olho.

— O terno não está pronto, senhor —Disse ele com a voz trêmula.

—Mandei SAIR!— Berrou lhe dando um tapa.O pobre criado choramingou e se levantou com certa dificuldade. Troye teria que mandá-lo embora.

Depois que ficou sozinho, se lembrou detalhadamente de como conheceu a bruxa. Ele a odiou no momento em que a viu. Seu sorriso traiçoeiro, as garras de ferro...Ele devia ter percebido que uma maldição cairia sobre ele apenas por observá-la.

Troye estava do lado de fora dos portões na cavalaria, conferindo seus guardas. Ele nunca saia de sua fortaleza de pedra, mas naquele dia sentiu que precisava verificar algo. A bruxa estava nas grades do portão quando ele chegou. Seu sorriso era largo como se tivesse prestes a matá-lo.

— Bom dia, futuro rei— Disse a velha, produzindo um som engasgado que provavelmente era uma risada.

Troye se sentiu enojado por estar respirando o mesmo ar que aquela velha enrugada. O mesmo encarou-a dos pés à cabeça, observando as unhas de ferro sujas e os cabelos espichados. Odiava bruxas, principalmente as miseráveis.

—Saia do meu portão— Disse o futuro rei de modo seco— Pessoas como você não deveriam ao menos se incomodar em encostar nas grades de meu castelo.

A velha não pareceu ofendida, inclinou a cabeça para trás e soltou uma risada estranha.

— Vim lhe pedir apenas um pouco de comida— Troye fez uma careta ao ver novamente os dentes podres— Um pouco de pão e água não lhe fará falta, eu acredito.

Ele olhou para seus guardas e novamente para a velha enrugada. Não lhe daria uma migalha de seu pão macio ou um gole de sua água. A culpa não era dele se a mulher era uma necessitada. Sua fome e sede também não eram de sua conta. O futuro rei deu um sorriso irônico e lhe deu as costas, seguido de seus guardas. A velha resmungou e disse com a maior calma:

—Sua arrogância e má vontade ainda vão lhe prejudicar, meu caro — Troye se virou e dessa vez estremeceu com a ameaça — Sua hora chegará.

Ele engoliu em seco e continuou seu caminho de volta. O restante do dia, Troye pensou no que a velha disse, como se fosse uma praga encantada. Mas as bruxas negras estavam muito longe do castelo para se darem o trabalho de chegar até sua grade apenas para amaldiçoá-lo. Era apenas uma bruxa branca inútil tentando assustá-lo.

Troye desistiu de se preocupar com pouca coisa, mas a noite logo chegou e com ela a maldição. O vento soprou forte através de sua janela, assim como um barulho alto de trovão ressoou, estremecendo sua pele. Troye se sentou na cama e acendeu a vela, a mesma se apagou com um sopro lento do vento da noite. Ele estava no escuro, sozinho.

O herdeiro respirou fundo, tentando enxergar através da escuridão. Sem sucesso, se aproximou da janela, onde a claridade da lua não o fazia sentir-se temeroso. Assim que se aproximou, um vulto surgiu, assustando-o como um garotinho.

A mulher apareceu em sua frente como uma assombração. Ele sentiu sua respiração acelerar quando a bruxa enfim apareceu . Os olhos esbugalhados não possuíam íris, apenas escuridão e vazio. Os braços magros e enrugados possuíam marcas que iluminavam o quarto inteiro. Rosas. Troye reconheceu os desenhos assim que se recuperou da surpresa. Diversas rosas espalhadas pelos braços e pernas.

—O que está fazendo aqui?—O homem se mexeu, tentando chamar seus guardas, que já deviam ter impedido a estranha de entrar.

— Sua hora chegou —Ele estremeceu quando a velha sorriu.

Uma queimação incomoda atingiu o futuro soberano. Em seu pulso uma rosa surgiu. Troye arfou e sacudiu o braço em uma tentativa inútil de parar a magia. Em poucos segundos a marca estava pronta e o desenho ficava nítido e permanente. Era o caule de uma rosa com espinhos e suas pétalas estavam todas fechadas.

Troye parou de respirar por um momento sentindo o corpo tremer sem controle algum. Seus pelos estavam arrepiados, assim como o bater frenético de seu coração era tão alto que o rei conseguia ouvi-lo. O vento estava descontrolado, gritando em seus ouvidos um aviso que naquele instante Troye não conseguia entender.

— Você é mais fraco do que pensei, futuro rei—A bruxa continuava a falar — Sou a rainha da Torre Negra, e lhe rogo esta maldição. Sua coroação está chegando, e com ela seus piores medos.

— Quem é você? Eu ordeno que tire isso do meu corpo!—Rugiu Troye quase em lágrimas.

A bruxa sorriu falsamente triste.

— Você não me dá ordens. Agora ouça. Quando a coroa for posta em sua cabeça, sua aparência mudará, e a… — Riu a bruxa abertamente— Será pior que uma velha enrugada, como eu. Você se tornará o que é por dentro. Um monstro! Uma fera!

— Do que você está falando? Não seja maluca!— Troye só podia estar sonhando.

A bruxa soltou uma de suas risadas esquisitas.

— Uma fera, meu caro — Disse ela — Lembre-se disso.

—Não!— Gritou ele— Não pode me transformar em uma fera, eu sou o futuro rei!

A bruxa que já estava de costas, se virou para encará-lo novamente.

—Tem um jeito do feitiço ser revertido. As rosas de seu pulso vão se abrir — Disse de forma calma e soberba— Até lá, ache alguém que te ame pelo que você é. Você tem até a sua coroação para achar esse alguém. Se continuar agindo de forma arrogante, o feitiço nunca irá se quebrar.

Troye engasgou um soluço.

— Eu não sou arrogante!—Berrou ele.

Ela trincou os dentes.

— Sua teimosia já lhe prejudicou demais, rapaz —As luzes de suas marcas começaram a desaparecer — Não deixe que a situação piore.

E então ela se foi. A luz da vela reacendeu magicamente e Troye se encolheu na cama encarando a marca que agora possuía em seu pulso deixando lágrimas grossas escorrerem por seu rosto.

Saindo de suas lembranças, o herdeiro trincou os dentes, evitando o medo.O dia da coroação havia enfim chegado e ele permanecia isolado. O herdeiro não via motivos para achar alguém que o amasse. Ninguém o amava e ninguém era digno de seu amor. Ele odiava esse sentimento mentiroso e venenoso. Então decidiu enfrentar seu destino.

O badalar alto do relógio foi o último som nítido que Troye escutou antes do vento invadir seu quarto, gritando e suplicando para que o príncipe não a encontrasse. Entretanto, ele não deu ouvidos a seu dom de sangue e seguiu até a porta de seu quarto, pronto para enfrentar sua sina. Sua maldição.

Quando saiu de seu quarto, andou lentamente pelos corredores decorados por diversas flores silvestres, plantadas especialmente por sua mãe. Uma pontada de dor afetou o coração do príncipe com a lembrança, mas ele se manteve firme percorrendo o castelo branco. Cada corredor possui uma lembrança dolorosa, assim como segredos sangrentos que Troye por muitos anos não imaginava existir. Mas eles sempre estiveram lá, escondidos, corroendo seus soberanos até que não lhe sobrasse ninguém.

Troye não conseguia enxergar de verdade o que estava a sua frente. Não viu seus guardas a postos, vestidos com uniformes cerimoniais. Não enxergou a decoração brilhante de rosas vermelhas destacadas pelas pedras preciosas cor de gelo. Não ouvia sua criada lhe chamar para mostrar o caminho correto, onde devia entrar com as vestimentas reais feitas especialmente para sua gloriosa coroação.

Seu corpo seguia inconscientemente todas as instruções, mas seus olhos estavam opacos, longe do castelo de rosas. Longe da realeza. Longe do vento. Troye estava longe de tudo que significava seu sangue. Estava preso em algum lugar de si que nunca havia alcançado. Sentia-se um boneco controlado por forças desconhecidas.

Muitas mãos estavam em si, arrumando qualquer imperfeição que pudesse ser aparente. Sentiu o peso da túnica vermelha ser colocada em seus ombros e alguém lhe deu os instrumentos reais banhados a ouro. Sem perceber, Troye estava caminhando até a porta do salão, prestes a entrar em sua cerimônia. Então quando se deu conta, a imensa porta marfim se abriu, revelando um salão gigantesco.

Várias criaturas o esperavam. A maioria da corte, como duques, lordes, damas reais, rainhas do gelo e do fogo. Alguns seres elementares e ciclopes. Ele não viu a bruxa, mas o herdeiro não via muita coisa, já que sua mente estava turbulenta.

Deu um passo lento, pousando os olhos no fim do tapete de veludo, estendido para que caminhasse. Lá estava ele. O trono. A respiração de Troye falhou por um breve momento, sentindo enfim um silêncio abrupto invadir o local. O vento já não gritava em seus ouvidos, as vozes e barulhos do salão não lhe chamavam atenção. Existia apenas o silêncio. O terrível silêncio que fez Troye perceber aonde estava indo. Sentiu-se como se tivesse controle de seu corpo novamente. Se sentiu como seu antigo eu. Como alguém não corrompido.

Mas a sensação durou apenas por um mísero minuto, pois o futuro rei foi inundado pelo barulho do mundo, fazendo-o se lembrar do que era no agora. E do que estava prestes a se tornar…

Troye caminhou até seu trono com os pensamentos novamente nublados. As pessoas comentavam, riam, pareciam genuinamente felizes. Mas o príncipe atravessava o salão com gotas de suor caindo em sua testa e um zunido alto soando dentro de seus tímpanos. Não possuía foco, apenas caminhava até sua coroa.

Quando chegou a seu destino, foi ovacionado por seus súditos. Eles confiavam em si, viam um futuro bom para o reino. Se soubessem o que o destino lhes preparava… um banho de sangue incontrolável.

Troye sentia o gosto amargo na boca. O gosto da decepção. Passou toda cerimônia aguardando a aparição da bruxa, não conseguindo prestar atenção em nada que não fossem as palavras ensaiadas e promessas vazias que fazia como próximo soberano. Ele era uma farsa.

O ciclope baixinho que realizava a cerimônia o abençoou pegando a coroa de ouro. Troye respirou fundo observando o objeto amaldiçoado. Todos os olhos estavam em si com expectativas enormes que Troye não poderia cumprir. E então, a coroa foi posta em sua cabeça.

Neste momento o relógio soou tão alto que calou todos os convidados.

Troye sentiu a tatuagem se modificando então passou a observá-la, com lágrimas se formando inconscientemente em seus olhos. A rosa se abriu por completo, nascendo como uma flor gloriosa em um jardim infértil. Assim como a rosa, Troye nasceu de novo. Naquele instante, ele havia dado vida a uma parte de si que nunca mais iria embora.

Com as mãos trêmulas, o agora soberano encarou todos que estavam fazendo os votos a si. Reverenciado-o, com felicidade e esperança. Esperança em si.

Troye saiu correndo do local.

O grande rei suava frio quando chegou aos corredores. Retirou a túnica e o paletó branco que vestia e deixou a coroa de ouro perto de uma estátua.O corredor estava estranhamente vazio, embora existissem muitos guardas naquela região do palácio. Troye respirava com dificuldade, sentindo os pulmões queimarem e o estômago doer. As mãos começaram a tremer e os dentes rasgavam suas gengivas dando origem a presas pontudas e afiadas. Troye sentiu as unhas virarem garras, acompanhadas de mãos peludas e, sem que pudesse controlar, um filete de sangue escorreu pelo seu queixo após morder a própria língua.

Em meio a seu desespero, som de sapatos soaram alto preenchendo todo o cômodo.

A barra do vestido preto foi a primeira coisa que o rei enxergou. Em seguida subiu o olhar para uma mulher espetacular que possuía um sorriso vitorioso.

— Boa noite, rei —Zombou ela — Parece que sua hora realmente chegou.

Troye sentiu a garganta se fechar ao perceber que a mulher era a bruxa. Seus cabelos eram pretos e longos, combinando com o vestido rendado. Os olhos eram de um verde brilhante e o sorriso foi o que mais impressionou. Largo, branco, perfeito…

Ele não conseguiu falar, pois seus caninos ainda lhe atrapalhavam. A dor da transformação o incomodava, mas seu coração se partiu quando sentiu seus poderes desaparecerem. Era tudo que ele tinha. Era a única lembrança que havia ficado de sua linhagem.

—Talvez não me reconheça, então vou fazer uma apresentação completa —A mulher se abaixou e sorriu — Sou Amhélydha, soberana da Corte das Bruxas. Primeira e única herdeira da Torre Negra.

Troye não conseguiu falar novamente. A mudança radical de seu corpo tomava toda sua atenção. Mas ele sabia que não haveria voltas. Ele soube no instante em que se recordou do nome anunciado.

— Eu tenho uma proposta para você.

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