Capitulo 1

Seus passos eram desleixados pela floresta densa e esbranquiçada. A neve caia em peso grudando em sua capa comprida e quente enquanto ela vagava por entre as árvores sem folhas, afundando os pés na neve fofa e gélida. A garota sentiu alguém se aproximando, mas não se importou em verificar quem poderia ser, apenas continuou sua caminhada arrastando o vestido vermelho como sangue pelo cenário claro.

Evie sentiu a presença estranha cada vez mais próxima, estava perto o bastante para que conseguisse enxergar a silhueta masculina, embora não conseguisse identificar suas feições, pois seu rosto era um borrão escuro e esganiçado. Desse modo, ela desistiu de observar o homem sem rosto e seguiu para longe, se emanharando nos confins da floresta. O sol estava se pondo junto ao sorriso genuíno que a menina possuía ao começar sua caminhada inocente. Avistou de longe algo que lhe chamou atenção. Era vermelho, da cor de seu vestido, e cintilava sobre a neve branca.

A rosa vermelha brilhava intensamente na penumbra. Evie a tomou nas mãos, largando-a instantaneamente quando um de seus espinhos perfurou seu dedo. As gotas de sangue caíram na neve, formando três pontos rubros. Evie sentiu o vento forte soprar o capuz de sua longa capa para trás, expondo os cabelos longos; eles logo se embaraçam com o vento e antes que ela pudesse optar por voltar de onde veio, um rugido feroz lhe aguçou os ouvidos.

A menina estremeceu de leve quando o rugido se repetiu, e logo levantou a saia do vestido para que pudesse correr de volta à mansão. Sua capa, seu vestido e seus cabelos balançavam ferozmente sobre o vento enquanto ela corria por entre as árvores escuras. Evie tinha dificuldades em correr rápido, seus pés afundavam na neve e vez ou outra ela tropeçava nos próprios sapatos. Outro rugido próximo a assustou. Ela engoliu um grito e tentou ser mais rápida.

A sensação de perseguição retornou fortemente. Dessa vez, Evie sentiu que correr não seria o suficiente, mesmo assim continuou seu caminho desesperada. Ele estava próximo de si. Ela conseguiu ouvir os passos bruscos se aproximando…lhe predando. Então sentiu um puxão violento em sua capa, fazendo-a cair de costas na neve.

Sua boca estava tremendo quando virou para enxergar seu predador. O medo e desequilíbrio fez sua respiração falhar, mas assim que viu a fera, instantaneamente se acalmou. Era estranho, mas os olhos pretos do monstro a acalmavam, como se ele não pudesse lhe fazer mal algum e não fosse nada mais que um cachorrinho ao qual ela podia brincar tranquilamente.

A fera era enorme, com garras e dentes afiados. Os olhos eram negros como a noite sem lua e seu corpo era coberto de pelos igualmente pretos.O monstro se aquietou e rondou Evie de maneira peculiar, deixando-a se recuperar do folêgo perdido. A garota queria abraçá-lo , com uma saudade estranha de algo que estava vendo pela primeira vez.

Então de repente, o cenário inteiro tomou outra forma. Já não existia mais feras, neves ou florestas. Sua mente foi inundada de imagens distorcidas de sangue, corpos e o som grotesco do rugido feroz que agora lhe era familiar.

Evie se encolheu quando prestou atenção no cenário novo. Ela gritou quando percebeu que os corpos eram de sua família.

(...)

Evie despertou sentindo o ar lhe faltar.

A camisola fina estava grudada em suas costas por conta do suor excessivo. Já era a terceira vez que o sonho a atormentava, com os rugidos, corpos, e sangue. Sua respiração estava pesada por conta do tormento e ao olhar para as janelas abertas — que permaneciam fechadas antes que ela se deitasse — seu rosto ficou extremamente pálido.

A menina queria ter certeza que suas irmãs estavam bem, então de maneira afoita jogou os cobertores para o lado e respirou fundo antes de se levantar e pegar a lamparina que estava ao lado de sua cama. Evie acendeu novamente a vela e engoliu em seco antes de sair pela mansão escura. Apesar do suor acumulado pelo seu corpo, ela sentia tremores de frio. O vento da madrugada era cruel e a mistura de sensações que o pesadelo lhe causou, fazia seu corpo arrepiar de medo.

Os corredores da residência sempre a deixavam incomodada, mas não tanto quanto nos últimos dias, onde começou a ter pesadelos com feras e cadáveres. Evie estava completamente arrependida por não ter se agasalhado, sentindo o vento da noite entrar por uma das janelas que estavam abertas. Ela hesitou em ir fechá-la, pois estava com medo de que algo pulasse da noite a fora. No fim, desistiu de qualquer ato que pudesse piorar a sensação desconfortável que deixava o ambiente tenebroso.

A porta do quarto de uma de suas irmãs ficava no próximo corredor, onde restavam nada menos que quartos dos hóspedes que não tinham. Além de seus passos não havia barulho, como se ninguém vivesse naquela mansão enorme. Os poucos serviçais não ousariam fazer barulho tão tarde da noite e suas irmãs estavam muito provavelmente sonhando.

O quarto de Beatriz era próximo a escada. Evie abriu a porta fazendo uma careta de desgosto com o rangido terrível que soou do pedaço de madeira. Assim que o som incômodo cessou, a garota observou dentro do quarto iluminado pela luz da lua. Quando pousou os olhos nos cabelos dourados de sua irmã esparramados pelo travesseiro, ela respirou aliviada. Voltou a fechar a porta e desceu as escadas sem fazer qualquer barulho imprudente. Por fim, avistou a porta de Heloisa, abrindo-a rapidamente e seguindo o mesmo processo de observação. Viu Heloisa embolada em seu cobertor.

Com sua inspeção feita, Evie resolveu ir até a biblioteca, já que não conseguiria mais dormir. Não quis conferir se o pai estava bem pois se algo grave tivesse acontecido com o duque, ela com toda certeza saberia.

Subiu pelas escadas novamente, assistindo a neve cair pela janela. Lembrou-se do sonho e pela primeira vez, não se concentrou nos cadáveres ensanguentados e sim, nos olhos pretos que ironicamente a acalmaram. O monstro tinha uma aparência horrenda, embora Evie não se sentisse assustada quando se lembrava dele. A garota suspirou e continuou seu caminho até o mundo dos livros, pois sentia-se tola por fantasiar e se preocupar com o seu inconsciente. Foi apenas um sonho bobo que não tinha como ser real.

A porta da biblioteca fez um rangido esganiçado assim que Evie a empurrou. Ela deixou a luminária em cima de uma das mesas e se sentou, pensando o que desejaria ler. A garota era uma das poucas pessoas que leram metade daquela biblioteca, já que um de seus maiores confortos era se perder em diversos mundos que fossem bem distantes de sua realidade.

— Devo retornar às fantasias — Murmurou a si mesma.

Agarrando um de seus livros de capa dura, ela começou a folheá-lo, encontrando sua parte favorita da história. Evie adorava aquele livro, adorava principalmente o protagonista e não se cansava de ler e reler as mesmas páginas. Não demorou muito para a menina adormecer e sonhar com os olhos pretos que a atormentavam de diversas formas.

(...)

— Evie, você está com olheiras horríveis! — Beatriz olhava para a irmã com uma careta.

— Sim, não dormi muito bem es-esta noite — E com isso a mais nova das irmãs bocejou abertamente.

Heloisa revirou os olhos enquanto comia um pedaço de bolo. Evie havia acordado cedo, com as costas doloridas por conta da cadeira que havia adormecido. Ela se consolou, pensando que pelo menos não havia sonhado com uma fera e cadáveres, mas ainda assim teve um sonho peculiar. Dessa vez com um homem muito bonito.

Não foi nada muito emocionante. Algo como um par de olhos escuros e um sorriso branco. Naquele sonho, Evie estava em um lugar completamente diferente, um lugar que parecia ser feito de flores. Era colorido, deslumbrante e acolhedor. Ela não queria acordar.

— Está me ouvindo? — A voz de Heloisa tirou Evie de seus devaneios.

— Não estava— Murmurou sem graça — Me perdoe.

Heloisa riu.

— Evie, você não pode ser tão distraída— Gargalhou outra vez — Especialmente hoje!

Evie observou Bia e Heloisa baterem palmas enquanto sorriam animadas. Ela sentiu que havia esquecido de algo, mas não quis dizer em voz alta ou então suas irmãs lhe dariam outro sermão. A garota apenas limpou os farelos de bolo que lhe caiam na roupa e levantou-se com um sorriso amarelo,pedindo licença para ir até seu quarto.

Quando estava subindo as escadas ela ouviu vozes, reconhecendo a de seu pai. Evie se aproximou da porta, conferindo os corredores a fim de não ser pega. Sentindo-se uma bisbilhoteira, Evie inclinou a cabeça, pousando os ouvidos na porta, ouvindo a voz de seu pai e de outro homem.

Demorou um pouco, mas ela conseguiu se lembrar de quem era a voz misteriosa. Evie quase gritou ao perceber que o Visconde Howard estava em sua casa. Ela o odiava, especialmente por se oferecer tão descaradamente à sua irmã, Bia. Evie se inclinou um pouco mais sobre a porta, mas infelizmente acabou a abrindo por completo, caindo para dentro da sala.

Os olhos azuis do duque exalavam raiva quando ela invadiu a sala como um animal. Evie e recompôs, clareando a garganta e ensaiando um sorriso inocente.

— Bom dia, meu pai— Tudo que ela queria era se esconder embaixo daquele maldito tapete.

Johnny Howard deu o seu mais cafajeste dos sorrisos, inalando o ar lentamente como se estivesse decepcionado. Evie trincou os dentes enquanto encarava os olhos verdes do visconde, imaginando como seria furá-los com a ponta da pena que estava na mesa de seu pai.

— Não gosto que ouçam minhas conversas— Seu pai disse em tom seco.

Evie engasgou uma desculpa, mas assentiu com a cabeça. De repente se lembrou do que havia esquecido. O dia especial, a noite que suas irmãs falavam. Era o aniversário de seu pai!

— Perdoe-me— Ela disse tentando sorrir— Quis ser a primeira a lhe dar parabéns!

O Duque Beaumont sabia que a filha sequer havia se lembrado de seu aniversário, entretanto decidiu contribuir com a armação. Evie mordeu o lábio inferior enquanto trocava olhares com o Visconde e o Duque, que permaneciam tensos. Louis a lançou um sorriso zombeteiro e disse:

—Pois bem, Evie — Seu olhar poderia fazê-la se encolher até ficar do tamanho de uma pedrinha — Obrigada pelo entusiasmo.

Ela assentiu nervosamente e sorriu para o Visconde que ainda se encontrava completamente imóvel.

— Senhor Howard, não sabia que nos visitaria tão cedo— Piscou os olhos docemente — Vejo que o assunto é de extrema importância.

Seu pai lançou o último olhar em aviso, mas a menina não sairia de lá até saber do que se tratava a visita indesejada. Johnny tornou a sorrir para Evie, com seu jeito soberbo e ignorante.

— Um assunto de extrema importância sim — Concordou parecendo se divertir — Um assunto que com certeza lhe interessaria, mademoiselle.

O Duque estava tão vermelho que a menina quis perguntar se estava tudo bem, mas em poucos segundos percebeu ser raiva dela. Depois de dar um sorriso afiado e arriscado ao pai, Evie voltou sua atenção ao Visconde novamente.

— Estou disposta a ouvir — Ela disse em um tom autpritário.

— Não é um assunto que lhe diz respeito, Evie !— Berrou o pai fazendo-a se afastar — Não devia ao menos estar aqui. Onde está a governanta?!

Louis seguiu até a porta com uma carranca, berrando o nome da governanta que decerto nem havia voltado da vila. Por um momento, a garota se arrependeu de sua teimosia, pois sabia que no final do dia a explosão de raiva de Louis recairia não só em si, mas nos empregados.

— Ora, Louis — Johnny se aproximou como uma cobra sorrateira — A senhorita Beaumont irá saber de toda maneira.

Evie já começava a se preocupar com o conteúdo do assunto. Algo que ela iria saber não parecia ser algo bom de se ouvir. Não quando era dito pelo homem que ela mais odiava.

— Não se atreva!— Disse o Duque ao mesmo tempo em que ela disse:

- — Diga!

O Visconde olhou de um para o outro, claramente se divertindo com a situação. Evie nunca quis tanto voar em seu pescoço e torcê-lo, porém se controlou para receber a notícia tão importante que seu pai insistia em lhe esconder.

— Pois bem— Johnny colocou as mãos atrás das costas enquanto sorria descaradamente — Fiz de sua irmã minha noiva. Me dê as boas-vindas a família Beaumont!

A garota quase caiu sentada. Sua respiração parou exatamente no momento em que ele mencionou sua irmã. Ela teria ouvido direito?

— O que? — Perguntou num sussurro.

— Por que disse a ela?— O Duque continuou com seus berros.

O Visconde deu de ombros e voltou a sorrir maliciosamente para Evie. Ela infelizmente sabia que não havia se enganado. Estava ciente da veracidade das palavras do homem detestável.

— Pai!— Gritou quase em lágrimas — Vai deixar que a Bia se case com ele? Justo com ele?

Seu pai a agarrou pelo braço fazendo-a soluçar. Louis parecia um animal selvagem, raivoso e sedento pelo ódio. Seus dentes estavam trincados, os olhos arregalados e chamuscados de decepção. Evie não o compreendia. Ela queria se soltar e fugir, levar suas duas irmãs para longe daquela mansão amaldiçoada. Quem sabe ela não seria mais feliz.

— Não me diga como cuidar de Beatriz— Rosnou — Agora volte para onde quer que você estava e não conte nada a ninguém. Se abrir essa maldita boca irá pagar caro, está me escutando?

Evie puxou seu braço com força. Encarou o Visconde que parecia satisfeito com sua perturbação. Ela tinha tanto nojo que sequer podia aguentar. Engolindo em seco seguiu até a porta, mas antes de fechá-la empinou o queixo para os dois homens que a enfrentavam e disse em voz baixa e fria:

— Esse casamento não vai acontecer— Encarou os olhos do pai— Eu não vou deixar.

Praticamente rugindo, ela bateu a porta e seguiu até o seu quarto. A garota sentia-se prestes a explodir. Não conseguia parar de bufar, necessitando de um milagre para retirar o sentimento de insegurança de seu corpo.

Ele fez de propósito. Johnny sabia que todos naquela casa o odiavam, especialmente Bia que além de odiá-lo sempre fez o possível para se manter afastada. Já Johnny Howard fazia de tudo para conseguir ser o libertino que era. Evie não sabia exatamente o que estava sentindo, se raiva ou tristeza. Talvez os dois juntos, afinal ela queria chorar e ao mesmo tempo socar algo — de preferência a cara do Visconde.

Ele se casaria com Bia. Ele se casaria com Bia!

Seus piores pesadelos estavam se tornando realidade. E o que mais a preocupava era a insegurança de não conseguir cumprir sua promessa, afinal o que ela poderia fazer?

Sufocando um grito, Evie se trancou no quarto e pensou no que faria nessa noite, no baile de aniversário de seu pai. Ela faria algo. Algo tão horrível que nem mesmo o Visconde seria capaz de suportar. E se para isso precisasse enfrentar seu pai, ela faria.

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