Lúcia suspirou, sentindo o peso das pílulas em sua mão, como se fossem feitas de chumbo.— Por que você está pesquisando isso? Você não tem câncer. — A voz de Sílvio, leve e despreocupada, ecoou pelo ambiente.Lúcia desviou o olhar da bula e olhou diretamente para ele:— O que você acha?Ele a encarava com uma expressão confusa e quase inocente.Era ridículo. Ela realmente estava vendo inocência nos olhos de Sílvio?Se Basílio não tivesse contado que ele já sabia sobre o câncer, ela certamente teria caído na atuação impecável de Sílvio.Ele, acreditando que Lúcia estava apenas relutante em ter o bebê, tentou explicar pacientemente:— Lúcia, esses remédios são para proteger o bebê. Se você os tomar, nosso filho vai nascer saudável.Só com o nascimento da criança tudo voltaria ao normal.— Você realmente acha que essa criança vai nascer? Acha que ela está saudável no meu ventre? — Lúcia soltou uma risada cheia de amargura.Seu médico já havia sido bem claro: o bebê, devido à multiplicaçã
Sílvio teve um momento de desorientação. Inúmeros comprimidos caíam freneticamente em seu rosto, causando uma dor fina e constante.Lúcia, cada vez mais irritada, pegou o copo de vidro que estava em suas mãos e jogou a água quente diretamente no rosto sério de Sílvio.— Sílvio, eu estou farta de você! Farta! — Gritou ela, tomada pela fúria.A água escaldante fez com que Sílvio franzisse o cenho, enquanto passava a mão no rosto molhado.Num movimento rápido, Sílvio agarrou o pulso de Lúcia com força: — Você tá maluca?— É claro que eu tô maluca! Você não sabia? — Lúcia se desvencilhou, lágrimas escorrendo pelo rosto. Num acesso de raiva, ela deu um tapa com força no rosto de Sílvio. — Desgraçado! O que foi que eu fiz pra merecer isso? Você é só um segurança de quinta! Sem mim, o que você seria? Sem mim, você não é nada! Sílvio, você não é nada! Você me prometeu gratidão, que seria bom pra mim, que me recompensaria! É assim que você me retribui? Você vai ser amaldiçoado, Sílvio! Vai pag
As lágrimas corriam incessantemente pelo rosto dela, e Lúcia balançava a cabeça sem parar. Ela não queria tomar o remédio, não queria morrer. Ainda queria viver um pouco mais, queria passar o Natal com seus pais.Mas Sílvio não tinha a menor ideia de toda a dor que ela sentia.— Calma, fica quietinha e toma o remédio, e eu prometo que vou cuidar dos seus pais. A dívida entre mim e seu pai vai ser perdoada. — O rosto de Sílvio encostou-se ao de Lúcia, tentando acalmá-la com um tom suave.Ele não sabia da real condição de saúde de Lúcia, só entendia que o filho que ela carregava era o elo que ainda os unia.Sílvio estava desesperado para voltar ao que tinham antes. Se pudesse recuperar a Lúcia que o amava, ele faria qualquer coisa.Ao ouvir aquelas palavras, Lúcia parou de resistir. Ela desistiu de lutar e se deixou ser abraçada com força por Sílvio.— Lúcia, se você tiver nosso filho, vamos voltar a ser felizes como antes. Tudo vai ser como era, vamos ser muito felizes, muito felizes.F
Sandra ligou de repente para Lúcia, a voz carregada de preocupação:— Filha, você está bem? O Sílvio não te fez nada, fez?Lúcia segurou o celular, sentindo uma angústia sufocante por dentro. Como poderia não ter feito? Ela acabara de tomar uma porção de remédios que uma paciente com câncer jamais deveria ingerir.Mas não queria preocupar a mãe, então fingiu indiferença e respondeu:— Mãe, por que está perguntando isso?— Seu pai acordou da soneca da tarde e, não sei por quê, ficou insistindo em te ver. Ele disse que só janta depois de te ver, Lúcia. Volte para casa o mais rápido possível. — Sandra chorava do outro lado da linha.Sabendo que seu pai estava fazendo birra novamente, Lúcia desligou o telefone rapidamente, foi até o closet, trocou de roupa e pegou um táxi para a Mansão Baptista.Sandra estava com uma tigela de comida nas mãos, como se estivesse alimentando uma criança. Ela pegou um pedaço de bacalhau e tentou dar para Abelardo.Abelardo virou o rosto, recusando a comida. S
— Pai, você precisa comer as três refeições do dia, sempre na hora certa e na quantidade certa. Nem que seja por mim. — Lúcia mordeu os lábios, tentando controlar a emoção. — Não se preocupe comigo, eu estou bem. Não dê ouvidos ao que a mamãe diz, ela só enxerga as coisas pela metade. O Sílvio tem sido bom para mim, e é ele quem está pagando suas despesas médicas.Ao ouvir o nome de Sílvio, Abelardo suspirou, e uma expressão complexa tomou conta de seu rosto. Ele parecia envergonhado e murmurava algo incompreensível.Lúcia, conhecendo bem o pai, parecia entender o que ele queria dizer.— Pai, você acha que se tornou um peso para mim?Abelardo acenou com a cabeça, e seus punhos começaram a golpear suas próprias pernas, como se estivesse frustrado com sua condição.Lúcia rapidamente segurou suas mãos:— Pai, não pense assim. Se você é um peso, então eu sou ainda mais. Não se permita esses pensamentos. Por mais de vinte anos, você sustentou este lar para mim e para a mamãe, nos deu tudo.
Abelardo olhou para Lúcia com um olhar complicado. No fundo, ele não queria que a filha fosse embora. Desejava que ela ficasse ao seu lado para sempre.Mas ele não queria ser um peso para ela. Seus lábios se moveram, como se fosse dizer algo para tentar convencê-la a ficar, mas as palavras se perderam antes de serem ditas.Nesse momento, Sandra voltou para casa com uma árvore de Natal, enfeites coloridos e um adorável Papai Noel de pelúcia.Lúcia observou enquanto a mãe orientava os empregados a montarem a árvore e pendurarem as luzes.Abelardo, ao ver sua esposa tão animada, organizando tudo para o Natal, e a harmonia familiar que reinava naquele instante, deixou escapar um raro sorriso em seu rosto levemente inchado.Lúcia, percebendo a felicidade de seu pai, também sorriu. Ela fez uma promessa silenciosa a si mesma: ela resistiria até o Natal, passaria o último Ano Novo com seus pais, participaria da última ceia em família e assistiria ao último show de fogos de artifício juntos.Sa
Ele estava recostado no travesseiro, com os olhos turvos, olhando para o lustre no estilo europeu.Sandra falava enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. Abelardo, em silêncio, deu um leve tapinha em seu ombro e a abraçou. Ele se sentia profundamente culpado, inútil por não conseguir proteger sua esposa e filha. Ser humilhado por Sílvio e não poder fazer nada a respeito só aumentava essa sensação.Depois que sua esposa adormeceu, Abelardo fechou os olhos, mas os pensamentos sobre as palavras de Sandra não o deixavam em paz. Ele cuidadosamente retirou o braço dela, que estava sobre ele, e, com grande esforço, desceu da cama, indo até sua cadeira de rodas. Lentamente, deslizou a cadeira até sair do quarto.Notou que o quarto de Lúcia ainda estava iluminado e, curioso, foi até lá.Ao entrar, viu Lúcia de costas para ele, caída sobre a mesa, como se tivesse adormecido enquanto trabalhava.Abelardo estava prestes a acordá-la para que fosse descansar na cama e não pegasse um resfriado, ma
Lúcia ouviu o nome de Sílvio e, imediatamente, sentiu o coração apertar.É claro, como ela não pensou nisso antes? Devia ter sido ele!— Lúcia, você brigou com ele de novo, não foi? — Sandra perguntou, chorando, com o tom de quem já sabia a resposta.Lúcia não queria preocupar a mãe e negou, contrariando seus próprios sentimentos:— Não, não brigamos.— Como não? E por que seu pai desapareceu de repente? Só pode ter sido Sílvio. Quem mais teria motivo para fazer isso? Você já esqueceu quando ele empurrou seu pai da cadeira de rodas? — Sandra enxugou as lágrimas com a manga da blusa. — O Natal está quase aí, e esse ingrato ainda quer causar mais confusão!De repente, Lúcia lembrou do dia anterior, quando Sílvio a forçou a tomar o remédio, e ela, num impulso de raiva, arranhou o rosto dele e ainda lhe deu alguns tapas.Não imaginava que a vingança viria tão rápido. Agora, ela sabia que suas ações impulsivas sempre tinham um preço.— Mãe, eu vou encontrá-lo. Não se preocupe, está bem? Síl