~NICOLAS~Assistir às gravações era como rasgar uma ferida que mal havia cicatrizado. Estávamos sentados no escritório da minha casa, Ayla ao meu lado, a respiração curta enquanto os vídeos do momento do acidente passavam na tela. A cada segundo que se desenrolava, o ar ficava mais pesado, como se a dor daquele dia voltasse para nos assombrar.Ayla segurava a borda da mesa com força, os dedos pálidos. Quando o carro dela apareceu na tela, acelerando antes de bater no meu, girando descontroladamente e colidindo violentamente conta o poste, ela quase perdeu o controle. Seus ombros começaram a tremer, e ela cobriu a boca com a mão, como se estivesse tentando conter um grito. Olhei para ela, sentindo o mesmo desconforto ao ver as imagens. Não era fácil para mim também. Ver meu próprio carro desviando às pressas, meu irmão fugindo do local em pânico, era como reviver a pior decisão que já tomei ao não bater de frente com ele naquele dia mais cedo.— Como você conseguiu essas gravações? — A
O som insistente das notificações no meu celular me arrancou do sono. Pisquei algumas vezes, tentando me situar, antes de esticar a mão para pegar o aparelho ao lado da cama. Era uma mensagem de Nicolas.“Estou te esperando na entrada do seu prédio. Quer tomar um café comigo? Já que estou por perto…”Franzi a testa, relendo a mensagem duas vezes. Por perto? A ideia de Nicolas Sartori simplesmente circulando pela vizinhança às oito da manhã parecia absurda. Sentei-me na cama, ainda tentando acordar direito, quando Teri, apareceu na porta do quarto com uma xícara de café na mão, provavelmente curiosa pela movimentação.— O que foi? Está com essa cara de quem viu um fantasma. — Ela perguntou, curiosa.— Nicolas está me esperando lá embaixo. Quer tomar um café comigo. Disse que estava por perto. — Respondi, sem conseguir disfarçar a estranheza na minha voz.Teri arqueou uma sobrancelha antes de soltar uma gargalhada.— Por perto? Ah, claro! Aposto que atravessar a cidade só para tomar caf
Fiquei paralisada por um momento, sentindo o clima ao redor da mesa mudar drasticamente. Olhei para Nicolas, que cerrou a mandíbula, claramente irritado. Ricardo apenas observava a cena com um sorriso de canto, enquanto Sofia parecia genuinamente satisfeita por estar ali.E foi assim que o café tomou um rumo completamente inesperado.— Eu e Nicolas somos apenas… somos apenas… — comecei, mas a frase morreu antes que eu conseguisse terminá-la.O que exatamente éramos? Ele não era mais meu cliente, mas também não chegávamos a ser amigos. Havia familiaridade entre nós, um tipo de cumplicidade que nem eu conseguia entender. Mas dar um nome a isso? Era impossível.Antes que eu precisasse encontrar uma resposta, Nicolas me poupou da obrigação, desviando sua atenção para Ricardo. Sua expressão estava dura, os olhos frios, como se já estivesse esperando uma justificativa.— O que vocês estão fazendo aqui?Ricardo, ao contrário de Nicolas, parecia absolutamente relaxado. Ele deu um sorriso fáci
O cheiro de carvão aceso e carne grelhando emanava da laje, misturando-se ao burburinho animado dos vizinhos que já começavam a se reunir para o churrasco. Eu estava na entrada do prédio, ajustando a alça do vestido de alcinhas, tentando disfarçar a inquietação que me consumia.O motivo? Nicolas Sartori estava vindo.Olhei para a rua mais uma vez. O trânsito ali não era intenso, mas eu conseguia identificar de longe um carro que não pertencia à rotina do bairro. Quando um sedan de luxo preto virou a esquina e parou suavemente em frente ao prédio, meu coração bateu um pouco mais rápido.Nicolas saiu primeiro, os cabelos levemente desalinhados pelo vento, vestindo uma camisa branca de botões com as mangas dobradas, o tecido justo o suficiente para destacar o físico sem esforço. Ele parecia deslocado naquele cenário, mas, ao mesmo tempo, estranhamente confortável.A porta do passageiro abriu logo em seguida, e para minha surpresa, Ricardo saiu do carro também.— Ricardo? — Perguntei, fra
E foi quando uma voz cortante rasgou o ar entre nós como uma lâmina afiada.— Eu não sabia que, além de dançar naquele lugar, você também fazia apresentações gratuitas por aqui. Ou não são exatamente gratuitas?O encanto se quebrou instantaneamente.Fechei os olhos por um segundo, sentindo a frustração me atingir como um balde de água fria. Nicolas se afastou levemente, sua expressão fechando-se no mesmo instante.Dona Marta.Aquela mulher tinha um talento especial para aparecer nos piores momentos.Ele inclinou-se para sussurrar:— Como você suporta isso?— No fundo, ela é uma boa pessoa.Ele arqueou uma sobrancelha.— Tem certeza?Assenti.— O marido dela a traiu quando ainda estava grávida, foi embora com outra, uma mulher bem mais jovem. Desde então, ela tem um desprezo por mulheres como eu e Teri, como se fossemos culpadas por algo que nunca fizemos. Mas, no fundo, Marta não é tão cruel quanto gosta de aparentar.Nicolas arqueou uma sobrancelha, claramente cético.— E o que te fa
Levantei os olhos e encontrei Nicolas parado diante de mim, as mãos nos bolsos, o olhar fixo em mim com uma intensidade que me fez prender a respiração por um instante. Ele parecia hesitante, como se ponderasse se deveria ou não se aproximar, mas, no momento seguinte, simplesmente se sentou ao meu lado no banco estreito da recepção, sem pedir permissão, como se aquele fosse o lugar dele.— Se eu não tivesse comprado esse prédio, outra pessoa teria feito isso. — Sua voz soou baixa, quase cuidadosa, como se quisesse me convencer sem me pressionar. — Essa região está crescendo rápido. Era só uma questão de tempo.Mantive o olhar fixo no chão, sentindo o peso daquelas palavras afundar ainda mais em meu peito.— Não tinha como um prédio assim continuar de pé por muito mais tempo. — Ele acrescentou, como se quisesse me fazer entender que aquilo era inevitável.Eu sabia que ele estava certo. Sabia que, cedo ou tarde, alguém apareceria com um projeto ambicioso e dinheiro suficiente para varre
O apartamento já não parecia mais o mesmo. As caixas empilhadas nos cantos, algumas lacradas, outras ainda esperando serem preenchidas, davam um ar de transição desconfortável. Era como se estivéssemos nos preparando para desaparecer daquele lugar que, por tanto tempo, foi o nosso lar. O cheiro de incenso, que sempre pairava no ar graças ao hábito de Teri, estava se dissipando, substituído pelo odor frio de papelão e fita adesiva.As paredes vazias, antes cheias espelhos, quadros e pequenas marcas de nossa presença, agora pareciam estranhas. Vazias. Como se o apartamento já não nos pertencesse.Ainda não sabíamos para onde iríamos, mas o fato era que estávamos empacotando nossa vida.Sentei-me no chão, dobrando uma pilha de roupas com mais cuidado do que o necessário, apenas para ocupar minha mente. Teri estava do outro lado da sala, dobrando algumas de suas peças de couro e jeans, enquanto uma música baixa tocava.O clima estava carregado. Não falávamos sobre o futuro, porque cada ve
O teatro pequeno, mas acolhedor, estava cheio de pais, irmãos e familiares ansiosos para assistir às apresentações das crianças. As cortinas vermelhas fechadas e o brilho quente das luzes do palco me trouxeram uma nostalgia avassaladora. Quantas vezes eu mesma estivera ali, orientando pequenas bailarinas e preparando-as para aquele momento?Era um teatro simples, mas especial. Quando eu ainda era professora, sempre alugávamos esse espaço para que as crianças da turma inicial sentissem o que era pisar em um palco de verdade pela primeira vez. Lembro-me da excitação nos olhos delas, da mistura de nervosismo e felicidade ao se apresentarem. Agora, ali sentada, cercada por Nicolas, Sofia e Fabrício, sentia-me deslocada.Era um encontro? Talvez. Mas eu nem sabia se podia chamar aquilo assim. A bem da verdade, eu e Nicolas sequer sabíamos o que éramos. Não éramos mais cliente e acompanhante, mas também não éramos exatamente amigos. Era uma conexão intensa e silenciosa, algo que nos puxava u