~TERI~A porta se abriu devagar, revelando Ricardo sentado em uma poltrona de couro já desgastada, com um copo de uísque equilibrado entre os dedos. Ele parecia à vontade demais naquele ambiente, entregando que não era sua primeira vez em um lugar como aquele. O sorriso despreocupado em seu rosto foi a primeira coisa que notei, seguido pelo olhar ligeiramente avaliador que ele lançou em minha direção.— Até que enfim — ele disse, levantando o copo em uma saudação preguiçosa. — Achei que fosse me deixar esperando a noite toda.Cruzei os braços e encostei-me à porta, lançando um olhar provocador.— Não está acostumado a aguardar por algo bom?Ele riu, tomando um gole do uísque e me observando com aquele olhar casual que misturava charme e atrevimento.— Para algo realmente bom, eu espero o tempo que for necessário.— Direto aos negócios? — perguntei, com um sorriso travesso.Ele arqueou a sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.— Qual deles?Ri enquanto arrastava a mala para dentr
~AYLA~O teto parecia se mover enquanto eu permanecia deitada, imóvel, nua, a pele úmida de suor. O calor era insuportável, como se estivesse em um forno. Meus pulmões começavam a pesar, e eu pisquei, confusa. Fogo. Miguel disse que estava pegando fogo? As palavras dele ecoavam em minha mente, mas tudo parecia surreal, como se eu estivesse presa em um sonho do qual não conseguia despertar.Eu não sabia se queria lutar pela minha vida. Havia algo dentro de mim que dizia que era mais fácil desistir, deixar que as chamas resolvessem tudo. Mas então, uma voz clara, insistente, surgiu em minha mente. “Lembre-se. Você pode ter sua família de volta.”A voz me atingiu como um choque. Minha família. Meus filhos. As palavras escaparam dos meus lábios em um sussurro rouco, como se tivessem sido arrancadas de dentro de mim.— Meus filhos... — murmurei, antes de me erguer abruptamente, ignorando a dor que percorria meu corpo. — Preciso sair daqui.Corri pelo quarto, apanhando o vestido no chão e c
A primeira coisa que senti foi o cheiro. Antisséptico, limpo demais, e um leve toque de algo floral. Pisquei os olhos algumas vezes, ajustando a visão embaçada. O teto branco e sem graça me encarava de volta. Confusão tomou conta de mim por um instante. Onde eu estava? Tentei me mexer, mas meu corpo parecia pesado, como se cada célula precisasse de um esforço sobre-humano para reagir.Foi então que meus olhos pousaram no nome bordado na roupa de cama: Mercy Hospital. Meu coração disparou. O Mercy? Como eu fui parar no hospital mais caro da cidade? Um pânico irracional tomou conta de mim. Eu precisava sair dali, e rápido. Não tinha como pagar por aquilo. Já fazia menção de me levantar quando mãos firmes me empurraram de volta contra o colchão.— Vai com calma! — A voz de Nicolas soou próxima, e quando olhei para ele, seu semblante carregava preocupação genuína.— Onde... onde estou? — perguntei, tentando confirmar. Minha voz rouca e fraca, mal reconhecendo o som saindo da minha boca.—
A luz fraca da madrugada entrava pelas janelas do carro, criando sombras tênues que dançavam nas paredes internas do veículo conforme Nicolas dirigia pelas ruas quase vazias. O silêncio dentro do carro era tão denso quanto a fumaça que eu havia respirado algumas horas antes. Ainda podia sentir o cheiro estéril do hospital impregnado na pele, uma lembrança da minha alta apressada, assinada quase à força porque eu não suportava a ideia de passar mais tempo ali. Tudo parecia surreal.Eu me sentia estranhamente leve, como se parte do meu corpo ainda estivesse presa em algum lugar entre o pânico e a realidade. Meus dedos acariciavam distraidamente o tecido da calça que Nicolas havia providenciado para mim, uma substituição ao vestido destruído no incêndio. Eu estava grata, mas, ao mesmo tempo, desconfortável. Ele estava tão perto, guiando o carro com uma expressão impassível que contrastava com a tempestade que eu sabia estar crescendo dentro de mim.— Você não precisa me levar até em casa
A casa de Nicolas parecia maior do que qualquer mansão que eu já tinha visto. E, por já ter visto, eu queria dizer em filmes ou seriados, é claro. Enquanto ele dirigia pelo longo caminho de entrada, meus olhos não conseguiam captar tudo. As luzes externas iluminavam as imensas janelas e paredes de vidro que refletiam o brilho da madrugada. Quando o carro parou na garagem, quase perdi o fôlego. Havia espaço para mais de dez carros ali, e o lugar era tão impecável que parecia mais uma galeria de arte do que uma garagem.Assim que entrei na casa, fui recebida por um silêncio impressionante. Cada passo que eu dava fazia ecoar pelo chão de mármore polido. O teto alto, os lustres de cristal e os móveis elegantes pareciam saídos de uma revista de design de interiores.— Quantas pessoas moram aqui? — perguntei, minha voz reverberando pela sala gigantesca. — Isso aqui dá para hospedar um elenco inteiro de Os Vingadores!Nicolas riu enquanto tirava o paletó e o jogava casualmente sobre uma polt
A gargalhada de Teri ainda ecoava pelo quarto quando ela segurou a barriga, como se estivesse se recuperando do que considerava a melhor piada do século. O riso dela foi diminuindo aos poucos, até que, por fim, ela balançou a cabeça, os olhos ainda brilhando com diversão.— Ayla, sério, você tem certeza de que não inalou fumaça demais? — disse, com um tom sarcástico, enquanto enxugava uma lágrima de tanto rir. — Nicolas disse que te levaria ao hospital. Ele fez isso, não fez?Eu não consegui sorrir. Na verdade, não conseguia sequer esboçar qualquer reação que não fosse seriedade. Respirei fundo e a encarei diretamente.— Não, Teri. Me escuta. — Minha voz saiu urgente, como se aquelas palavras fossem minha única chance. — Você precisa acreditar em mim. Você é a única pessoa para quem eu posso contar isso sem parecer loucaA expressão dela mudou. Os traços relaxados se transformaram em algo mais tenso, uma mistura de confusão e preocupação. Claramente eu tinha falhado na parte de não pa
Os raios de sol entravam suavemente pelas cortinas do quarto, me despertando aos poucos. Espreguicei-me, sentindo a suavidade das roupas de cama embaixo de mim. Do outro lado do quarto, Teri já estava acordada.— Vamos lá, preguiçosa, temos um plano para colocar em ação...Rolei os olhos, mas acabei rindo enquanto me levantava. Seguimos juntas até a antessala do quarto. A área era ampla e impecavelmente organizada, com um sofá de couro macio e uma mesa posta com uma bandeja de café da manhã. Tudo estava tão cuidadosamente disposto que parecia até uma cena de filme. Mas o que mais chamou nossa atenção foram algumas roupas dobradas cuidadosamente sobre o sofá.— Uhhh... — Teri começou, segurando um biquíni em uma das mãos e examinando o tecido com atenção. — Alguém quer ver você de biquíni.Soltei uma risadinha, balançando a cabeça.— Não seja boba, tem dois — respondi, apontando para outra peça. — Teri riu, mas eu logo acrescentei, num tom mais sério: — Além disso, acho que deveríamos
— Você só pode estar brincando — murmurei baixinho, dando uma volta no lugar e tentando acalmar os nervos que pareciam à beira de um colapso. A cena que acabara de acontecer era simplesmente surreal demais para eu processar.— Ayla, essa é minha filha, Amélie. Amélie, essa é Ayla, uma amiga do papai — ouvi Nicolas dizer, como se estivesse tentando colocar alguma normalidade no caos que eu sabia que estava prestes a explodir.Olhei para Amélie, que me analisava com uma expressão curiosa, como se tentasse entender o que exatamente uma “amiga” estava fazendo beijando seu pai daquele jeito. A garota, no entanto, acenou para mim de maneira fofa, quase inocente. Respondi com um sorriso meio nervoso, mas sincero. Não era culpa dela estar ali no meio de tudo isso.— E essa — continuou Nicolas, como se nada tivesse acontecido — é a senhorita Lacerda, professora de balé da minha filha e da minha sobrinha.Foi como um soco no estômago. Minha mente foi transportada instantaneamente para o que Cam