A gargalhada de Teri ainda ecoava pelo quarto quando ela segurou a barriga, como se estivesse se recuperando do que considerava a melhor piada do século. O riso dela foi diminuindo aos poucos, até que, por fim, ela balançou a cabeça, os olhos ainda brilhando com diversão.— Ayla, sério, você tem certeza de que não inalou fumaça demais? — disse, com um tom sarcástico, enquanto enxugava uma lágrima de tanto rir. — Nicolas disse que te levaria ao hospital. Ele fez isso, não fez?Eu não consegui sorrir. Na verdade, não conseguia sequer esboçar qualquer reação que não fosse seriedade. Respirei fundo e a encarei diretamente.— Não, Teri. Me escuta. — Minha voz saiu urgente, como se aquelas palavras fossem minha única chance. — Você precisa acreditar em mim. Você é a única pessoa para quem eu posso contar isso sem parecer loucaA expressão dela mudou. Os traços relaxados se transformaram em algo mais tenso, uma mistura de confusão e preocupação. Claramente eu tinha falhado na parte de não pa
Os raios de sol entravam suavemente pelas cortinas do quarto, me despertando aos poucos. Espreguicei-me, sentindo a suavidade das roupas de cama embaixo de mim. Do outro lado do quarto, Teri já estava acordada.— Vamos lá, preguiçosa, temos um plano para colocar em ação...Rolei os olhos, mas acabei rindo enquanto me levantava. Seguimos juntas até a antessala do quarto. A área era ampla e impecavelmente organizada, com um sofá de couro macio e uma mesa posta com uma bandeja de café da manhã. Tudo estava tão cuidadosamente disposto que parecia até uma cena de filme. Mas o que mais chamou nossa atenção foram algumas roupas dobradas cuidadosamente sobre o sofá.— Uhhh... — Teri começou, segurando um biquíni em uma das mãos e examinando o tecido com atenção. — Alguém quer ver você de biquíni.Soltei uma risadinha, balançando a cabeça.— Não seja boba, tem dois — respondi, apontando para outra peça. — Teri riu, mas eu logo acrescentei, num tom mais sério: — Além disso, acho que deveríamos
— Você só pode estar brincando — murmurei baixinho, dando uma volta no lugar e tentando acalmar os nervos que pareciam à beira de um colapso. A cena que acabara de acontecer era simplesmente surreal demais para eu processar.— Ayla, essa é minha filha, Amélie. Amélie, essa é Ayla, uma amiga do papai — ouvi Nicolas dizer, como se estivesse tentando colocar alguma normalidade no caos que eu sabia que estava prestes a explodir.Olhei para Amélie, que me analisava com uma expressão curiosa, como se tentasse entender o que exatamente uma “amiga” estava fazendo beijando seu pai daquele jeito. A garota, no entanto, acenou para mim de maneira fofa, quase inocente. Respondi com um sorriso meio nervoso, mas sincero. Não era culpa dela estar ali no meio de tudo isso.— E essa — continuou Nicolas, como se nada tivesse acontecido — é a senhorita Lacerda, professora de balé da minha filha e da minha sobrinha.Foi como um soco no estômago. Minha mente foi transportada instantaneamente para o que Cam
Eu corria, tentando ignorar os gritos de Nicolas atrás de mim. As palavras de Helena ecoavam na minha mente, me esmagando, me arrastando de volta ao abismo do qual eu lutava tanto para sair."Assassina de crianças."As lágrimas que eu segurava começaram a cair sem controle.— Ayla! — A voz dele veio mais alta, mais próxima, mas eu continuei correndo.Meu corpo estava no limite, os pés vacilando sobre a grama úmida do jardim. Quando virei mais uma curva no caminho, percebi que não tinha ideia de onde estava. A mansão de Nicolas era gigantesca, e o jardim parecia se estender por um labirinto interminável.Por fim, cedi ao cansaço e me joguei em um banco de pedra. Meu peito subia e descia rapidamente enquanto eu tentava recuperar o fôlego.— Isso aqui é um labirinto! — gritei, frustrada, passando as mãos pelo rosto para secar as lágrimas.Nicolas apareceu logo depois, também sem fôlego. Ele parou a poucos passos de mim, as mãos nos joelhos enquanto recuperava o ar.— Só assim para te faz
— Isso tudo é uma loucura, Ayla — Teri falou, jogada na minha cama como se fosse a dona do quarto, os braços cruzados atrás da cabeça e um sorriso irônico. — Parece até um daqueles filmes... sei lá, tipo um de David Lynch, que no final você não entende nada, mas finge que entendeu.Eu ri enquanto passava o batom diante do espelho, mas a risada logo se dissolveu em um leve aceno de concordância. Ela não estava errada.— Cada vez entendo menos também. — Fiz uma pausa para me olhar no espelho, ajustando o rabo de cavalo. O jeans e a camiseta simples pareciam deslocados diante de tudo o que estava acontecendo na minha vida. — Mas, ao mesmo tempo, parece que faz mais sentido. Nicolas estava envolvido no mesmo acidente que eu, e foi a partir das decisões que ele tomou ali que a vida dele mudou completamente, assim como a minha. É normal que nossos destinos estejam entrelaçados... não é?Minha própria pergunta pairou no ar, carregada de incertezas. Olhei para Teri pelo reflexo do espelho, bu
~NICOLAS~Assistir às gravações era como rasgar uma ferida que mal havia cicatrizado. Estávamos sentados no escritório da minha casa, Ayla ao meu lado, a respiração curta enquanto os vídeos do momento do acidente passavam na tela. A cada segundo que se desenrolava, o ar ficava mais pesado, como se a dor daquele dia voltasse para nos assombrar.Ayla segurava a borda da mesa com força, os dedos pálidos. Quando o carro dela apareceu na tela, acelerando antes de bater no meu, girando descontroladamente e colidindo violentamente conta o poste, ela quase perdeu o controle. Seus ombros começaram a tremer, e ela cobriu a boca com a mão, como se estivesse tentando conter um grito. Olhei para ela, sentindo o mesmo desconforto ao ver as imagens. Não era fácil para mim também. Ver meu próprio carro desviando às pressas, meu irmão fugindo do local em pânico, era como reviver a pior decisão que já tomei ao não bater de frente com ele naquele dia mais cedo.— Como você conseguiu essas gravações? — A
O som insistente das notificações no meu celular me arrancou do sono. Pisquei algumas vezes, tentando me situar, antes de esticar a mão para pegar o aparelho ao lado da cama. Era uma mensagem de Nicolas.“Estou te esperando na entrada do seu prédio. Quer tomar um café comigo? Já que estou por perto…”Franzi a testa, relendo a mensagem duas vezes. Por perto? A ideia de Nicolas Sartori simplesmente circulando pela vizinhança às oito da manhã parecia absurda. Sentei-me na cama, ainda tentando acordar direito, quando Teri, apareceu na porta do quarto com uma xícara de café na mão, provavelmente curiosa pela movimentação.— O que foi? Está com essa cara de quem viu um fantasma. — Ela perguntou, curiosa.— Nicolas está me esperando lá embaixo. Quer tomar um café comigo. Disse que estava por perto. — Respondi, sem conseguir disfarçar a estranheza na minha voz.Teri arqueou uma sobrancelha antes de soltar uma gargalhada.— Por perto? Ah, claro! Aposto que atravessar a cidade só para tomar caf
Fiquei paralisada por um momento, sentindo o clima ao redor da mesa mudar drasticamente. Olhei para Nicolas, que cerrou a mandíbula, claramente irritado. Ricardo apenas observava a cena com um sorriso de canto, enquanto Sofia parecia genuinamente satisfeita por estar ali.E foi assim que o café tomou um rumo completamente inesperado.— Eu e Nicolas somos apenas… somos apenas… — comecei, mas a frase morreu antes que eu conseguisse terminá-la.O que exatamente éramos? Ele não era mais meu cliente, mas também não chegávamos a ser amigos. Havia familiaridade entre nós, um tipo de cumplicidade que nem eu conseguia entender. Mas dar um nome a isso? Era impossível.Antes que eu precisasse encontrar uma resposta, Nicolas me poupou da obrigação, desviando sua atenção para Ricardo. Sua expressão estava dura, os olhos frios, como se já estivesse esperando uma justificativa.— O que vocês estão fazendo aqui?Ricardo, ao contrário de Nicolas, parecia absolutamente relaxado. Ele deu um sorriso fáci