— Você só pode estar brincando — murmurei baixinho, dando uma volta no lugar e tentando acalmar os nervos que pareciam à beira de um colapso. A cena que acabara de acontecer era simplesmente surreal demais para eu processar.— Ayla, essa é minha filha, Amélie. Amélie, essa é Ayla, uma amiga do papai — ouvi Nicolas dizer, como se estivesse tentando colocar alguma normalidade no caos que eu sabia que estava prestes a explodir.Olhei para Amélie, que me analisava com uma expressão curiosa, como se tentasse entender o que exatamente uma “amiga” estava fazendo beijando seu pai daquele jeito. A garota, no entanto, acenou para mim de maneira fofa, quase inocente. Respondi com um sorriso meio nervoso, mas sincero. Não era culpa dela estar ali no meio de tudo isso.— E essa — continuou Nicolas, como se nada tivesse acontecido — é a senhorita Lacerda, professora de balé da minha filha e da minha sobrinha.Foi como um soco no estômago. Minha mente foi transportada instantaneamente para o que Cam
Eu corria, tentando ignorar os gritos de Nicolas atrás de mim. As palavras de Helena ecoavam na minha mente, me esmagando, me arrastando de volta ao abismo do qual eu lutava tanto para sair."Assassina de crianças."As lágrimas que eu segurava começaram a cair sem controle.— Ayla! — A voz dele veio mais alta, mais próxima, mas eu continuei correndo.Meu corpo estava no limite, os pés vacilando sobre a grama úmida do jardim. Quando virei mais uma curva no caminho, percebi que não tinha ideia de onde estava. A mansão de Nicolas era gigantesca, e o jardim parecia se estender por um labirinto interminável.Por fim, cedi ao cansaço e me joguei em um banco de pedra. Meu peito subia e descia rapidamente enquanto eu tentava recuperar o fôlego.— Isso aqui é um labirinto! — gritei, frustrada, passando as mãos pelo rosto para secar as lágrimas.Nicolas apareceu logo depois, também sem fôlego. Ele parou a poucos passos de mim, as mãos nos joelhos enquanto recuperava o ar.— Só assim para te faz
— Isso tudo é uma loucura, Ayla — Teri falou, jogada na minha cama como se fosse a dona do quarto, os braços cruzados atrás da cabeça e um sorriso irônico. — Parece até um daqueles filmes... sei lá, tipo um de David Lynch, que no final você não entende nada, mas finge que entendeu.Eu ri enquanto passava o batom diante do espelho, mas a risada logo se dissolveu em um leve aceno de concordância. Ela não estava errada.— Cada vez entendo menos também. — Fiz uma pausa para me olhar no espelho, ajustando o rabo de cavalo. O jeans e a camiseta simples pareciam deslocados diante de tudo o que estava acontecendo na minha vida. — Mas, ao mesmo tempo, parece que faz mais sentido. Nicolas estava envolvido no mesmo acidente que eu, e foi a partir das decisões que ele tomou ali que a vida dele mudou completamente, assim como a minha. É normal que nossos destinos estejam entrelaçados... não é?Minha própria pergunta pairou no ar, carregada de incertezas. Olhei para Teri pelo reflexo do espelho, bu
~NICOLAS~Assistir às gravações era como rasgar uma ferida que mal havia cicatrizado. Estávamos sentados no escritório da minha casa, Ayla ao meu lado, a respiração curta enquanto os vídeos do momento do acidente passavam na tela. A cada segundo que se desenrolava, o ar ficava mais pesado, como se a dor daquele dia voltasse para nos assombrar.Ayla segurava a borda da mesa com força, os dedos pálidos. Quando o carro dela apareceu na tela, acelerando antes de bater no meu, girando descontroladamente e colidindo violentamente conta o poste, ela quase perdeu o controle. Seus ombros começaram a tremer, e ela cobriu a boca com a mão, como se estivesse tentando conter um grito. Olhei para ela, sentindo o mesmo desconforto ao ver as imagens. Não era fácil para mim também. Ver meu próprio carro desviando às pressas, meu irmão fugindo do local em pânico, era como reviver a pior decisão que já tomei ao não bater de frente com ele naquele dia mais cedo.— Como você conseguiu essas gravações? — A
O som insistente das notificações no meu celular me arrancou do sono. Pisquei algumas vezes, tentando me situar, antes de esticar a mão para pegar o aparelho ao lado da cama. Era uma mensagem de Nicolas.“Estou te esperando na entrada do seu prédio. Quer tomar um café comigo? Já que estou por perto…”Franzi a testa, relendo a mensagem duas vezes. Por perto? A ideia de Nicolas Sartori simplesmente circulando pela vizinhança às oito da manhã parecia absurda. Sentei-me na cama, ainda tentando acordar direito, quando Teri, apareceu na porta do quarto com uma xícara de café na mão, provavelmente curiosa pela movimentação.— O que foi? Está com essa cara de quem viu um fantasma. — Ela perguntou, curiosa.— Nicolas está me esperando lá embaixo. Quer tomar um café comigo. Disse que estava por perto. — Respondi, sem conseguir disfarçar a estranheza na minha voz.Teri arqueou uma sobrancelha antes de soltar uma gargalhada.— Por perto? Ah, claro! Aposto que atravessar a cidade só para tomar caf
Fiquei paralisada por um momento, sentindo o clima ao redor da mesa mudar drasticamente. Olhei para Nicolas, que cerrou a mandíbula, claramente irritado. Ricardo apenas observava a cena com um sorriso de canto, enquanto Sofia parecia genuinamente satisfeita por estar ali.E foi assim que o café tomou um rumo completamente inesperado.— Eu e Nicolas somos apenas… somos apenas… — comecei, mas a frase morreu antes que eu conseguisse terminá-la.O que exatamente éramos? Ele não era mais meu cliente, mas também não chegávamos a ser amigos. Havia familiaridade entre nós, um tipo de cumplicidade que nem eu conseguia entender. Mas dar um nome a isso? Era impossível.Antes que eu precisasse encontrar uma resposta, Nicolas me poupou da obrigação, desviando sua atenção para Ricardo. Sua expressão estava dura, os olhos frios, como se já estivesse esperando uma justificativa.— O que vocês estão fazendo aqui?Ricardo, ao contrário de Nicolas, parecia absolutamente relaxado. Ele deu um sorriso fáci
O cheiro de carvão aceso e carne grelhando emanava da laje, misturando-se ao burburinho animado dos vizinhos que já começavam a se reunir para o churrasco. Eu estava na entrada do prédio, ajustando a alça do vestido de alcinhas, tentando disfarçar a inquietação que me consumia.O motivo? Nicolas Sartori estava vindo.Olhei para a rua mais uma vez. O trânsito ali não era intenso, mas eu conseguia identificar de longe um carro que não pertencia à rotina do bairro. Quando um sedan de luxo preto virou a esquina e parou suavemente em frente ao prédio, meu coração bateu um pouco mais rápido.Nicolas saiu primeiro, os cabelos levemente desalinhados pelo vento, vestindo uma camisa branca de botões com as mangas dobradas, o tecido justo o suficiente para destacar o físico sem esforço. Ele parecia deslocado naquele cenário, mas, ao mesmo tempo, estranhamente confortável.A porta do passageiro abriu logo em seguida, e para minha surpresa, Ricardo saiu do carro também.— Ricardo? — Perguntei, fra
E foi quando uma voz cortante rasgou o ar entre nós como uma lâmina afiada.— Eu não sabia que, além de dançar naquele lugar, você também fazia apresentações gratuitas por aqui. Ou não são exatamente gratuitas?O encanto se quebrou instantaneamente.Fechei os olhos por um segundo, sentindo a frustração me atingir como um balde de água fria. Nicolas se afastou levemente, sua expressão fechando-se no mesmo instante.Dona Marta.Aquela mulher tinha um talento especial para aparecer nos piores momentos.Ele inclinou-se para sussurrar:— Como você suporta isso?— No fundo, ela é uma boa pessoa.Ele arqueou uma sobrancelha.— Tem certeza?Assenti.— O marido dela a traiu quando ainda estava grávida, foi embora com outra, uma mulher bem mais jovem. Desde então, ela tem um desprezo por mulheres como eu e Teri, como se fossemos culpadas por algo que nunca fizemos. Mas, no fundo, Marta não é tão cruel quanto gosta de aparentar.Nicolas arqueou uma sobrancelha, claramente cético.— E o que te fa