~AYLA~Eu estava sentada no sofá gasto da nossa sala, com as pernas cruzadas e um copo de vinho barato na mão. A luz amarelada do abajur iluminava apenas metade do meu rosto, enquanto a outra metade permanecia na penumbra. Teri estava no chão, com as costas apoiadas no sofá e os cabelos espalhados sobre os ombros. A TV estava ligada, mas nenhum de nós realmente prestava atenção nela.— Ele é casado, Teri — minha voz soou baixa, mas firme. — Nicolas é casado. E a esposa dele está no hospital.Teri arqueou uma sobrancelha, o rosto virado para mim.— Como você descobriu isso?— Eu me lembro dele e da filha no hospital. Eu estava lá, lembra? A Dra. Alice comentou sobre eles. Disse que estavam sempre lá… — Minha voz falhou, e eu apertei o copo com mais força. — E agora eu não consigo parar de pensar nisso. Nicolas Sartori, o homem que me fez acreditar que queria algo mais comigo, que fez parecer que eu era mais do que só uma mulher que ele pagou para estar ali, simplesmente abandonou a esp
A respiração saiu pesada de meus lábios assim que eu e Teri atravessamos a entrada da boate. O alívio foi imediato, mas não o suficiente para dissipar a tensão que vinha me acompanhando durante todo o trajeto. Pegamos um Uber naquela noite, algo que quase nunca fazíamos já que não podíamos nos dar ao luxo de pagar algo mais caro do que uma passagem de ônibus, e mesmo assim, cada minuto do caminho foi uma tortura. Eu não conseguia parar de pensar que, de alguma forma, alguém descobriria o que havia na mala que carregávamos. Claro, era paranoia minha, mas a sensação não me deixava em paz.Assim que cruzamos a porta, percebi algo estranho: Pedro não estava no seu lugar habitual. Em vez disso, um segurança novo, que eu nunca tinha visto, ocupava o posto.— Oi, cadê o Pedro? — perguntei, me aproximando.— Ele está com uma virose — respondeu, com um tom neutro, sem sequer desviar o olhar da entrada. — Me chamaram pra cobrir hoje.Suspirei, desapontada, mas não deixei de sorrir.— Logo hoje
Meu coração quase parou quando meus olhos encontraram os dele. O choque foi tão grande que meus pés agiram antes da minha mente, me fazendo dar passos desajeitados para trás. Estava tão absorta no terror daquela visão que nem percebi quando saí do quarto. Mas não tive chance de fugir.Mãos fortes agarraram meus braços com força e me puxaram de volta para dentro. A porta se fechou atrás de mim, e o som seco da tranca ecoou no silêncio do quarto.— Senti sua falta — ele disse, aproximando-se com uma intensidade que me fez recuar mais uma vez. Em um movimento abrupto, seus lábios colidiram com os meus, violentos, invasivos.— Miguel, não! — gritei, empurrando-o com toda a força que consegui reunir. Ele parou, me encarando com aquele mesmo olhar sarcástico que me fazia sentir tão pequena desde o dia em que nos separamos.— Eu paguei por você — ele disse, com um tom ácido. — Você não tem o direito de dizer não.Minha respiração estava pesada, mas consegui responder, mesmo com a voz trêmula
~TERI~A porta se abriu devagar, revelando Ricardo sentado em uma poltrona de couro já desgastada, com um copo de uísque equilibrado entre os dedos. Ele parecia à vontade demais naquele ambiente, entregando que não era sua primeira vez em um lugar como aquele. O sorriso despreocupado em seu rosto foi a primeira coisa que notei, seguido pelo olhar ligeiramente avaliador que ele lançou em minha direção.— Até que enfim — ele disse, levantando o copo em uma saudação preguiçosa. — Achei que fosse me deixar esperando a noite toda.Cruzei os braços e encostei-me à porta, lançando um olhar provocador.— Não está acostumado a aguardar por algo bom?Ele riu, tomando um gole do uísque e me observando com aquele olhar casual que misturava charme e atrevimento.— Para algo realmente bom, eu espero o tempo que for necessário.— Direto aos negócios? — perguntei, com um sorriso travesso.Ele arqueou a sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.— Qual deles?Ri enquanto arrastava a mala para dentr
~AYLA~O teto parecia se mover enquanto eu permanecia deitada, imóvel, nua, a pele úmida de suor. O calor era insuportável, como se estivesse em um forno. Meus pulmões começavam a pesar, e eu pisquei, confusa. Fogo. Miguel disse que estava pegando fogo? As palavras dele ecoavam em minha mente, mas tudo parecia surreal, como se eu estivesse presa em um sonho do qual não conseguia despertar.Eu não sabia se queria lutar pela minha vida. Havia algo dentro de mim que dizia que era mais fácil desistir, deixar que as chamas resolvessem tudo. Mas então, uma voz clara, insistente, surgiu em minha mente. “Lembre-se. Você pode ter sua família de volta.”A voz me atingiu como um choque. Minha família. Meus filhos. As palavras escaparam dos meus lábios em um sussurro rouco, como se tivessem sido arrancadas de dentro de mim.— Meus filhos... — murmurei, antes de me erguer abruptamente, ignorando a dor que percorria meu corpo. — Preciso sair daqui.Corri pelo quarto, apanhando o vestido no chão e c
A primeira coisa que senti foi o cheiro. Antisséptico, limpo demais, e um leve toque de algo floral. Pisquei os olhos algumas vezes, ajustando a visão embaçada. O teto branco e sem graça me encarava de volta. Confusão tomou conta de mim por um instante. Onde eu estava? Tentei me mexer, mas meu corpo parecia pesado, como se cada célula precisasse de um esforço sobre-humano para reagir.Foi então que meus olhos pousaram no nome bordado na roupa de cama: Mercy Hospital. Meu coração disparou. O Mercy? Como eu fui parar no hospital mais caro da cidade? Um pânico irracional tomou conta de mim. Eu precisava sair dali, e rápido. Não tinha como pagar por aquilo. Já fazia menção de me levantar quando mãos firmes me empurraram de volta contra o colchão.— Vai com calma! — A voz de Nicolas soou próxima, e quando olhei para ele, seu semblante carregava preocupação genuína.— Onde... onde estou? — perguntei, tentando confirmar. Minha voz rouca e fraca, mal reconhecendo o som saindo da minha boca.—
A luz fraca da madrugada entrava pelas janelas do carro, criando sombras tênues que dançavam nas paredes internas do veículo conforme Nicolas dirigia pelas ruas quase vazias. O silêncio dentro do carro era tão denso quanto a fumaça que eu havia respirado algumas horas antes. Ainda podia sentir o cheiro estéril do hospital impregnado na pele, uma lembrança da minha alta apressada, assinada quase à força porque eu não suportava a ideia de passar mais tempo ali. Tudo parecia surreal.Eu me sentia estranhamente leve, como se parte do meu corpo ainda estivesse presa em algum lugar entre o pânico e a realidade. Meus dedos acariciavam distraidamente o tecido da calça que Nicolas havia providenciado para mim, uma substituição ao vestido destruído no incêndio. Eu estava grata, mas, ao mesmo tempo, desconfortável. Ele estava tão perto, guiando o carro com uma expressão impassível que contrastava com a tempestade que eu sabia estar crescendo dentro de mim.— Você não precisa me levar até em casa
A casa de Nicolas parecia maior do que qualquer mansão que eu já tinha visto. E, por já ter visto, eu queria dizer em filmes ou seriados, é claro. Enquanto ele dirigia pelo longo caminho de entrada, meus olhos não conseguiam captar tudo. As luzes externas iluminavam as imensas janelas e paredes de vidro que refletiam o brilho da madrugada. Quando o carro parou na garagem, quase perdi o fôlego. Havia espaço para mais de dez carros ali, e o lugar era tão impecável que parecia mais uma galeria de arte do que uma garagem.Assim que entrei na casa, fui recebida por um silêncio impressionante. Cada passo que eu dava fazia ecoar pelo chão de mármore polido. O teto alto, os lustres de cristal e os móveis elegantes pareciam saídos de uma revista de design de interiores.— Quantas pessoas moram aqui? — perguntei, minha voz reverberando pela sala gigantesca. — Isso aqui dá para hospedar um elenco inteiro de Os Vingadores!Nicolas riu enquanto tirava o paletó e o jogava casualmente sobre uma polt