Mas enfim chegou a noite, e conforme nosso combinado, cheguei mais cedo, preparei meu instrumento e fiquei lá embaixo entre meus poucos “amigos.”
– Algum de vocês viu a Daniela?
– Pra que você tá perguntando dela? – Espantou-se logo o Edu.
– Estou preocupado, ela inda não chegou.
– Você o quê? – perguntou o Marcello.
– É que a gente combinou que se encontrava aqui e já vai dar sete e meia e até agora nada.
– Léo, para de sonhar vai, você vai virar motivo de piada com esse tipo de brincadeirinha.
– Poxa Ária, até você? Eu só estou preocupado, é que agora a gente 'tá namorando.
– Vocês o que? – todo mundo quase que em coro, depois disso veio uma tempestade de risos, piadas e brincadeiras que duraram quase cinco minutos, só quem não ria era a Ária, mas que mesmo assim me olhava sorrindo, e eu que me mantive sério até cessar o barulho.
– Léo, você anda sonhando demais cara – era o Edu, que bancando o amiguinho, colocou a mão no meu ombro e rindo de mim continuou – ela pode até estar te esperando, mas eu garanto que não é pra namorar, só se for ...
– Ela vai te m****r namorar com o Daniel – era a Adriana, namorada do Marcello.
– E que namoro bom vai ser em Léo?
– Edu deixa ele, vai ver o Daniel beija melhor.
E assim cada um deles fazia sua contribuição em piadinhas, quando porém a Daniela chegou, veio do estacionamento com duas pequenas caixas, nem sequer me olhou, subiu as escadas e desapareceu. Isso já estava combinado então eu nem me importei, eles é que passaram mais um tempo me aborrecendo, depois ela desceu, foi pro carro. E o Marcello teve de falar besteira de novo.
– E aí Léo, achei que você ia dar um beijinho na sua namoradinha.
– Há, Marcello deixa ele, vai ver é um namoro imaginário.
Porém, ela voltou do carro sem nada nas mãos, passou por nós me olhando nos olhos super séria, virou bruscamente o olhar para o outro lado e subiu as escadas. Dessa vez ela realmente me assustou, comecei a pensar que era de fato uma armação dela, pois ela voltou novamente pro carro de cabeça baixa, passou pela gente, e nem se importou comigo e nem com ninguém, meu coração quase saiu pela boca, fiquei nervoso sem conseguir falar nada. Enquanto que aí é que eles aproveitaram mesmo, mas de súbito se calaram quando ela veio do estacionamento outra vez e dessa vez veio na minha direção.
– Oi meu amor – me beijou abraçada em meu pescoço – desculpa a falta de atenção, é que eu tinha que ajudar minha mãe com aquelas caixas.
– Tudo bem, eu estava contando pra eles aqui da gente.
– Posso até imaginar a reação de deles, foi aquela que a gente previu, não foi?
– Exatamente.
– E aí pessoal? – acontece que ninguém respondeu, estavam todos assustados demais, aí foi divertido ver a cara deles, o espanto era geral, mas ela olhava para todos abraçada comigo e sorrindo – o que foi pessoal? Parece que vocês viram uma alma penada?
– Daniela, que é que você tá aprontando em? Todo mundo sabe que você odeia o Léo.
– Ária, eu compreendo a preocupação de vocês, mas é verdade, eu e o Leonardo agora estamos namorando, e se tudo der certo a gente espera que seja um namoro sério.
– Ah Daniela conta outra vai.
– Calma Edu, a gente vai explicar.
– Calma nada Léo, essa garota te odeia, não percebe que ela tá de armação!
– Eduardo...
– Garota escuta uma coisa – a Adriana saiu do lugar de onde estava e veio apontar o dedo na cara da Daniela, todo mundo sabia que a antiga Daniela nunca permitiria isso, no mínimo ela quebraria o dedo da Adriana, mas essa nova Daniela causou maior espanto ainda quando simplesmente baixou a cabeça e humildemente ouvia olhando-a por cima dos olhos – o Leonardo pode não ter família, mas ele tem amigos entendeu, talvez até a gente magoe ele de vez em quando, mas nunca, entendeu, NUNCA, vamos permitir que você apronte qualquer coisa com ele, ele é nosso amigo ouviu sua metida, NOSSO AMIGO.
Eu mesmo me espantei com essa defesa da Adriana, nunca imaginei que eles me considerassem assim, mas ela se calou imediatamente quando a Daniela levantou a cabeça e todos viram que ela estava muito triste. Por alguns segundos ninguém teve coragem de dizer nada, eu é que alisei os cabelos dela e sussurrei bem baixinho:
– Quer ir embora?
– Não – ela respondeu no mesmo tom, era tão baixinho que só nós dois ouvíamos, a Ária até ouviu também pois estava do meu lado, porém não entendeu muito – eu preciso falar com eles. – Tomou fôlego e falou a todos.
– Pessoal, eu sei que fui muito rude com todos vocês, eu era grossa, metida, orgulhosa, admito, a Adriana está certa, e até compreendo que vocês pensem que estou com alguma armação, pois no lugar de vocês eu pensaria a mesma coisa, mas desta vez resolvi mudar minha vida de verdade. Eu fui na casa do Daniel a alguns dias e peguei ele em flagrante, na cama com duas garotas de uma vez, eu fiquei com tanto nojo que saí de lá correndo, fui pra minha casa, eu sei que muita gente já tinha me falado, que ele me traía, mas eu achava que era só conversa, só acreditei mesmo quando vi com meus próprios olhos, agora nunca mais na minha vida quero sequer olhar na cara dele, pouco antes disso, eu descobri pela internet o quanto o Leonardo me amava, eu sei que odiava ele, mas nem eu sei o porquê disso, eu juro pra vocês – dessa vez ela lagrimava, e todo mundo ouvia com atenção sem interromper – o Léo deixou por acidente umas fotos minhas que ele guardava no disco virtual dele numa máquina aqui na lan house, tinha umas mensagens, poesias, músicas, vídeos, muita coisa, eu vi tudo aquilo e não aguentei, eu descobri que o meu namorado não tinha dedicação nenhuma em guardar tudo aquilo, e ele, justamente ele, que eu odiava sem razão nenhuma, era a pessoa mais dedicada que eu conhecia, depois disso não consegui mais odiá-lo, foi depois disso que ele passou por mim uma vez, mexeu comigo e eu não tive coragem de brigar com ele como eu sempre fazia, ele não merecia isso – a Ária deve se lembrar dessa ocasião – a Ária apenas assentiu com a cabeça, ela respirou fundo, eu ajudei ela enxugar suas lágrimas e ela continuou – agora... eu sei que vocês todos devem ter muita raiva de mim, e com razão... mas eu queria... – agora ela chorava mesmo – eu queria que todos vocês me perdoassem, sei que talvez eu nem tenha o privilégio de ser amiga de vocês como ele é, mas... por favor... me perdoem, perdoem meu orgulho, minha arrogância, minha falta de educação, grosseria... aquela Daniela que vocês conheceram está morta e enterrada, eu juro, eu precisei me machucar muito pra aprender isso, mas eu só queria... só queria... que vocês... me perdoassem... por favor... por favor. – aí ela se virou pra mim me abraçou e chorou muito, ninguém ousava dizer nada, a própria Adriana se sentia envergonhada até o fundo da alma, mas depois de um tempo a Ária tomou a frente, veio até a Daniela. Me pediu licença, segurou a mão dela na frente de todos. E falou pra ela:– Daniela, acho que posso falar em nome de todos, a gente compreende tudo o que você deve estar sofrendo, toda a vergonha, e toda a dor que você deve ter causado a si mesma, você compreende que é meio difícil pra gente aceitar isso, mas...
– Eu sei Ária, mas eu mudei, eu...
– Eu sei, eu sei, nós todos sabemos disso, e nós te perdoamos sim, a gente sabe o quanto o Leonardo sempre foi louco por você, e se “ele” te perdoou, então nós também te perdoamos – dessa vez a Ária sorria, e repetia pra ela – nós todos te perdoamos, e aceitamos você como nossa amiga, seja bem vinda.
Aí a Daniela abraçou a Ária, todos fizeram as pazes com ela e foi um momento muito bom pra mim, ter a minha namorada aceita pelos meus amigos. Depois disso eu e a Danny subimos de mãos dadas, o que continuou surpreendendo muita gente, e ela sentou-se ao meu lado, no banco dos músicos, no meio da orquestra, pois o serviço de culto daquele dia já havia começado, eu e o Edu éramos os únicos músicos que ainda não estávamos em nossos lugares, pois o Marcello não tocaria aquele dia.
Na época em que a minha Danny, havia sido aceita pelos meus amigos, eu já estava iniciando o terceiro ano de Música, e pelo menos na minha área, eu era um pouco mais respeitado pelos meus amigos e já tinha rejeitado o convite pra dirigir nossa orquestra por diversas vezes, eu me arrepiava apenas ao pensamento de tanta exposição, pelo fato de ter sido muito desprezado eu havia me tornado assim, muito “na minha” como diziam, e se eu me envolvesse na direção de algum projeto, de música ou não, preferia muito mais ser o “chairman” do que pegar no microfone, e esse desprezo de todos, que acabou me tornando assim meio reservado, acabou me afetando para o resto da minha vida, eu ainda era meio retraído nessa época, ainda ia demorar muito para que eu “me soltasse” um pouco mais, como o Edu falava, mas eu estava feliz, cursava música, morava sozinho, sem o temperamentalismo do meu pai adotivo e agora namorava a garota mais linda que já havia pisado a face dessa terra, pelo menos pra mim.
Mas isso também tinha seu lado ruim, aliás tudo nessa vida tem o seu, eu havia feito alguns inimigos por causa da Daniela, e confesso que alguns deles até me davam medo, o Daniel por exemplo era o primeiro deles, eu não tinha medo dele, eu tinha pavor, mas nunca confessei isso com todas as letras pra Danny, eu sabia que ela ia brigar comigo, embora eu tivesse razão de ter medo dele, ela não aceitava isso, achava que eu devia apenas confiar em Deus e eu sabia que ela estava com toda a razão, certíssima mas mesmo assim, eu evitava falar no assunto com ela.
A Danny agora passou a vir direto em casa, e o Arthur também, continuava vindo aqui pra secar minha geladeira, minha nossa, como esse cara comia, um dia tive a oportunidade de apresentar minha namorada para meu melhor amigo, convidei os dois para almoçarmos juntos num Domingo e foi uma tarde realmente divertida, antes de ir embora porem ele veio me “alertar:”
– Léo, não sei onde você achou essa deusa mas tome cuidado, deve ter no mínimo metade da cidade de olho nela, e garanto que o “ex” dela vai querer “trocar uma ideia” com você, se é que você está me entendendo.
– Estou sim, já pensei nisso e te confesso que as vezes fico apavorado.
– Mas é o tal negócio cara, o mundo é dos mais espertos e se ele deu uma bobeada e você foi mais esperto então azar o dele.
Passaram-se umas duas ou três semanas de paz entre nós, eu já sabia que o Daniel estava meio “descontente” mas ainda não tinha vindo falar comigo e assim eu estava tendo alguns momentos de sossego, mas isso não durou muito. Num dia de semana, estava havendo uma programação de música na cidade, de maneira que durante essa programação, todos os cursos de música entraram num recesso de uns dez dias e como de costume então, fui pra igreja, a Danny não estaria lá por causa das aulas dela, ela cursava pedagogia, não haveria folga pra ela. Na saída do culto, depois de uns quinze minutos de conversa com um e com outro fui pro estacionamento pegar a moto pra ir embora e cruzei com a Klísia no caminho.
– Oi Leonardo.
– Ué, resolveu falar comigo por que?
– Ei calma, você é namorado da minha amiga, acho que eu posso te falar oi, não posso?
– É pode sim, tudo bem com você?
– É, vou levando. E vocês estão bem?
– Estamos sim.
– É estranho ver você sozinho, a gente está começando a se acostumar, achei que ela estaria aqui com você.
– Ela está em aula hoje, não é todos os dias que a gente se vê.
– Eu em, que namoro estranho esse de vocês, o Daniel queria vê-la todos os dias.
– É mas ela tem a própria vida também, não posso sugar todo o tempo livre dela, acho que a família dela também tem direito.
– Mas se eles nem gostam de você, pra que você se preocupa com eles?
– Mas “ela” tem esse direito.
– Qual? De ter um tempo na semana pra ver o ex?
– Klísia, tchau vai, essa conversa está começando a ficar chata demais pro meu gosto – e já ia me virando pra ir embora quando ela entrou na minha frente pondo as duas mãos espalmadas na minha frente porém encostando apenas as pontas dos dedos no meu peito.
– Ei, ei, ei, calma aí, já vai por que? A verdade dói tanto assim?
– Não é nada disso, não sou dono da Daniela, ela tem direito de ter uns dias pra si mesma.
– E você acha que o Daniel ia se conformar fácil assim? Sabendo que agora ela tem “um tempinho livre pra si mesma” – agora ela falava com sarcasmo na voz e fazendo gesto de entre aspas com os dedos.
– Não me interessa nada do Daniel, e sai da minha frente que eu quero passar.
– Pra você pode não interessar nada, mas pra ele eu acho que sim, não achou que ele ia se conformar tão fácil assim, achou?
– Ora essa, problema dele, sai da frente Klísia.
– Eu em, vocês homens são mesmo todos iguais... – dessa vez ela ficou de lado pra mim passar.
– O que quer dizer com todos iguais? – eu já estava de costas mas parei e me virei pra ela.
– Você e o Daniel.
– E o que é que eu tenho de igual com ele?
– Confiam demais.
– Klísia – aí eu me aproximei mais dela – eu não acredito que você esteja insinuando qualquer coisa da Daniela, eu achei que ela fosse sua amiga.
– E é.
– Então explique-se.
– É justamente por ela ser minha amiga que eu falo isso, conheço a Daniela muito bem, muito bem mesmo, mais do que você, mais até do que o próprio Daniel, e sabe por que ele perdeu ela pra você? Porque não me ouviu, igualzinho a você.
Aí eu me descontrolei, peguei ela pelo colarinho, encostei na parede com força, e quase gritava com ela.
– Escuta aqui garota, o que é que você está tentando fazer, em? EM? – a cada “em” eu encostava ela mais na parede e ela me respondeu com a maior calma do mundo:
– Abrir seus olhos meu querido, só isso, ou você acha que ela é alguma santa? Dois anos te chutando, e na primeira piscada que ela te dá você cai igual um patinho, acha mesmo que ela mudaria de opinião assim tão de repente?
– Não foi assim “de repente,” levaram seis meses, e você sabe disso.
– Ah é, isso é o que ela diz, mas que provas você tem disso? Só por que ela chorou pra você? Qualquer atriz de teatro faria o mesmo “minha vida.”
– Eu não acredito que...
– ESCUTA UMA COISA, e trate de me soltar – ela disse desvencilhando-se das minhas mãos, ainda agarradas ao colarinho da blusa dela – escuta uma coisa, naquela vez que ela te tratou mal e que o Daniel veio “bater um papinho” com você, daquele dia, até o dia em que ela apareceu na sua casa, não tinham se passado seis meses, tinham? Até o dia em que vocês começaram a namorar, ela por acaso passou os seis meses anteriores sem brigar com você? – Aí eu tive que me afastar pois agora a Klísia falava algo que fazia sentido. Me lembrei da manhã seguinte à nossa primeira noite juntos, na hora que eu a vi nua no meu chuveiro e que eu pensei em armação, além do mais ela não deixou que eu a acompanha-se até o táxi, preferiu seguir sozinha, enquanto eu “vigiava” da minha varanda. – Eu só estou tentando abrir os seus olhos, só isso.
Não sei se finalmente o veneno dela tinha me atingido ou se realmente eu “abria os olhos” como ela dizia, mas fazia sentido, fazia total sentido pois nos seis meses anteriores ao dia que a gente começou ela continuava a me humilhar e a me aborrecer, foi preciso que o Daniel a traísse para que ela decidisse ficar comigo, e como a Klísia dizia, quem poderia garantir que ela não estava querendo se vingar? É bem verdade que ela havia me jurado isso chorando, mas a Klísia estava certa, lágrimas nos olhos não provam nada, mas são altamente eficientes para convencer uma pessoa emotiva como eu, e a Daniela que todos conheciam era capaz de qualquer coisa, acho que até mesmo se aproveitar de sua aparência e de meu carinho por ela para me armar uma cilada. – Ela não seria capaz de fazer isso comigo. – E por que não? Só por que você é louco por ela? Seja realista “minha vida.” – Para de usar as palavras dela, Klísia e por
– Sabe o que isso significa, meu amor? – ela pensava primeiro nas consequências, pelo menos agora ela era assim.– Lá na igreja?– Sim, nós dois vamos ser excluídos.– É, eu sei, infelizmente sim. – agora ela conseguiu me deixar triste, desde que me batizei, isso quando ainda morava na casa de meus amigos, eu nunca tinha tido qualquer problema com a igreja, mas agora era a primeira vez, e não pensei em mim, pensei nela, eu ia expô-la a vergonha e ao ridículo de não ter sido firme a nossos princípios e agora estar grávida e logo de mim. – acha que devemos nos casar?– Com dois meses de namoro? Claro que não, quer dizer, não que eu não queira, eu quero sim, mas não vai adiantar muita coisa, eu já estou de seis semanas, sabe o que é isso? Cerca de um m&ecir
A ideia de que agora eu seria pai, me fez esquecer quase que todos os meus problemas, eu não queria saber de mais nada, só do meu filho e da minha mulher, embora morássemos cada um em suas casas, ambos, já nos considerávamos assim. Mas também sabíamos de nossas responsabilidades com a igreja, e decidimos ter uma conversa pessoal com o pastor da igreja e logo depois nos submetermos às decisões da comissão da igreja, que nós dois já sabíamos qual seria: Uma dupla exclusão, a qual a Danny me proibiu veementemente de sequer tocar no assunto de me lamentar ou qualquer coisa do tipo por causa dela, ela dizia que se tudo aconteceu foi por que ela colaborou, então não tinha por que ter pena. Achei que ela tinha razão e pus uma pedra no assunto. Decidimos não contar nada a ninguém antes de conversar com o pastor, o que nós descobrimos que deveria esperar um pouco pois o pastor estava viajando e demoraria vários dias para voltar, como ela ainda estava com menos de dois m
Na manhã seguinte, recebemos um telefonema do nosso pastor, nos avisando que um dos funcionários dos escritórios de direção da igreja assistiu nossa tarde de programação clássica e tinha gostado muito, aí estava querendo montar uma orquestra sinfônica a nível distrital e eram os nomes meu e do Marcello que estavam sendo cotados, na verdade esse era o grande sonho do Marcello, e eu também queria muito participar desse projeto só que tudo o que eu mais queria era sair dali, pois estávamos correndo risco de vida, eu a Danny que já estava com quase dois meses e meio de gestação e pra quem prestasse muita a atenção, o que não era quase ninguém agora que ela estava comigo, notaria que a barriga já não estava do tamanho normal. Aproveitei a oportunidade pra falar ao pastor que andávamos fazendo algumas “coisinhas erradas” que ele logo entendeu e prometeu que trataria disso logo que retornasse, não abri o jogo completamente pelo telefone, nem mesmo fal
Quando acordei, estava num quarto de hospital, não havia gesso nos meus braços, minha cabeça estava enfaixada, abri os olhos, olhei em volta sem me mover quase chorei quando vi meu doce anjo sã e salva sentada numa poltrona de espera, calmamente folheando uma revista, havia um relógio grande na parede marcando três e meia da tarde haviam também algumas máquinas monitorando meu corpo. – Oi. – Oi, meu amor – na mesma hora ela largou a revista e já veio para meu lado com os olhos marejados começou logo a beijar meu rosto todo. – minha vida, até que enfim, quanta saudade, meu amor. – Como você está? – Estou bem, eu estava muito preocupada com você. Você quase morreu. – Quanto tempo fiquei “fora do ar”? – ela demorou um pouco pra responder. – Três meses. – Tudo isso? – ela apenas acenou com a cabeça dizendo que sim. E já passava a mão no meu rosto. –
Depois de quase um ano e meio, chegou o dia da minha formatura, convidei alguns poucos amigos, não havia muitos, após a cerimônia no auditório da faculdade, precedida de um culto de ação de graças, fomos a nossa festa, e nesse dia me dei ao luxo de passar a noite toda em claro bagunçando com os colegas, a Danny não aguentou e lá pelas três ou quatro da manhã acabou dormindo dentro do carro que tínhamos alugado especialmente para a ocasião. Agora eu me considerava um músico de verdade, oficialmente formado, bacharel em música com habilitação em piano, até então eu dizia que era apenas um estudante. Resolvemos então dar continuidade aos nossos planos, e o primeiro deles, agora que eu tinha me formado era nos mudarmos daquela cidade, ir embora rumo a nosso próprio destino, em outra cidade então iniciaríamos o tratamento dela pra que pudéssemos ter nossos filhos, frequentaríamos uma igreja menor, onde houvesse mais necessidade de ajuda, e conseguiríamos um emprego t
Quando acordei, fiquei aliviado daquele pesadelo, dei graças a Deus por que estava vivo, por que tudo não passava de mais um sonho ruim, que era tudo imaginação minha e que agora era só levantar-me da minha cama e seguir minha vida, lembrei-me que eu precisava continuar preparando as coisas para nossa mudança, abri os olhos e me sentei na cama, eu não estava em casa, não era o meu quarto, não era minha cama, e não era a Daniela que estava lá, tudo em volta era branco, a calma era de ferro, alta, ao invés de um criado-mudo tinha umas máquinas grandes ao lado da minha cama, comecei a ficar com medo, não era possível, eu ainda estava sonhando, gritei por socorro e não foi a Daniela que apareceu, tinha uma mulher alta, branca de cabelos pretos e curtos, usava um jaleco branco e um crachá escrito Tereza, devia ser seu nome. – Que bom que você acordou, já era hora Leonardo! – ela sorriu pra mim, deu uma olhada na máquina à minha cabeceira, tomou uma prancheta co
Recebi alta uns dias depois, fiquei por um mês na casa do Arthur, não tive coragem de sair de casa pra nada, nem mesmo pra ir à igreja, pelo menos não para “aquela” igreja, e eu queria distancia da casa onde morei com a Daniela, do bairro, de tudo ali. Eu e a Danny, tínhamos resolvido colocar nossas economias numa única conta poupança, onde eu tinha depositado todos os meus direitos trabalhistas e ela os dela, ainda outras economias também, de modo que quando saí do hospital, o dinheiro ainda estava lá, e tinha rendido um pequeno juro, vendi minha moto, comprei um carro com um porta-malas amplo, juntei tudo o que era meu, me despedi do meu último amigo num triste abraço que demorou muito, chorei muito nessa hora, abraçado com ele olhando nos olhos eu não tinha coragem de falar nada. Seus pais que me conheciam muito bem não estavam lá, como o pai do Arthur trabalhava com turismo, estavam ambos na Flórida, Estados Unidos. – Você ainda vai ser mui