Por Melinda Allen Os corredores do supermercado estavam vazios; somente algumas pessoas passavam entre eles. Passo mais uma vez pela mesma prateleira e, agora sim, tenho certeza de que estou completamente perdida. É a primeira vez que venho a este supermercado, então não consigo achar quase nada com facilidade. Não sei há quanto tempo já estou aqui, mas, felizmente, consegui pegar quase tudo o que preciso, exceto pelo trigo. A conversa com William ainda ronda a minha mente desde o momento em que saí de casa. Considerei muito o que havíamos conversado e, em parte, dou-lhe razão. Ele é uma pessoa constante na mídia; porém, não posso ficar sem fazer nada da vida. Depender dele para tudo não é uma opção para mim. Além de tudo, ainda tenho minhas dívidas, que finalmente estão quase todas quitadas. Esforcei-me muito para chegar onde estou; não posso parar agora. Quando me canso de andar em círculos, avisto um rapaz arrumando umas prateleiras e então lhe pergunto onde fica o trig
Por William Montenegro Passo a mão em meu pescoço, sentindo a dor se intensificar. Vai ser completamente impossível passar mais uma noite naquele sofá. E, como tudo na minha vida ultimamente tende a piorar, ouço a voz suave que vem me dando mais dor de cabeça do que devia. — O que você quer? — Meu tom rude não a assusta, mas faz com que tenha coragem de entrar. Uma atitude que já está se tornando frequente. — Precisamos conversar. — E então vejo novamente aquele olhar, o mesmo que apareceu em nossa primeira discussão. Lentamente, junto minhas mãos sobre a mesa, sem desviar meu olhar do seu. Mel: essa é uma boa definição para a cor dos seus olhos; provavelmente não deve ser mera coincidência o seu nome ser Melinda. — Não temos nada para conversar. — Sinto o maldito cheiro de rosas se infiltrando lentamente no ambiente, como uma erva daninha. — Então, saia por onde entrou. — Pensei muito sobre a nossa conversa de hoje de manhã e resolvi continuar no café até conseguir um emprego
Por Melinda Allen Quando o táxi parou em frente ao prédio da empresa Montenegro, a única coisa que me veio à mente foi a beleza impressionante daquele grande arranha-céu. Embora soubesse que era uma empresa renomada, não imaginava que sua estrutura fosse tão deslumbrante. Ao passar pela porta giratória, senti-me um pouco deslocada ao perceber que minhas roupas estavam completamente fora do padrão da empresa. Isso poderia ter me feito dar meia volta, mas a curiosidade sobre o que Nicolas tinha para conversar comigo era maior. Aperto mais a alça da minha bolsa e caminho pelo meio da multidão de pessoas que passam de um lado para o outro, apressadas. Ao longe, vejo a moça que suponho ser a secretária. — Bom dia. — Digo assim que me aproximo do balcão. — Poderia me informar onde fica a sala do Nicolas? Ele está me esperando. — Não há nada marcado na agenda do Sr. Nicolas. — Sem se dar ao trabalho de me olhar, a moça loira disse, totalmente no automático. Olho para o seu crachá e
Por Melinda Os olhos de William brilhavam intensamente. Seus passos eram firmes enquanto se aproximava, mas isso já não me assustava, uma vez que frequentemente isso acontecia quando estávamos juntos.No começo, eu queria muito que nosso casamento desse certo, que as discussões e desentendimentos fossem superados. Contudo, com o passar do tempo, passei a adotar uma nova perspectiva: se tiver que acontecer, acontecerá. Assim, decidi deixar que a vida seguisse o curso que o destino reservasse para nós. — Não o conheço. — Respondo, dando de ombros, de maneira totalmente indiferente.Dessa vez, não posso culpar completamente o William pela desconfiança, já que os homens que estavam aqui se comportaram de forma estranha. No entanto, essa desconfiança dele já está se tornando cansativa, pois a maior parte das nossas brigas são resultado das inseguranças dele.— Quando você vai parar de mentir? — Agora ele estava bem na minha frente, olhando para mim de um jeito que não consigo identificar
William Conferi o registro de chamadas do celular uma, duas e até três vezes. Atrás de algo que comprovasse que eu estava certo, mas não foi isso que encontrei, a maioria das ligações era para Isabelle. Ainda não satisfeito, verifiquei sua lista de contatos salvos e, para minha surpresa, ela era pequena. No entanto, isso não significava muito para mim; ela poderia muito bem ter outro celular. — Isso provavelmente não está certo. — murmurei, jogando o aparelho na mesa, enquanto ainda sentia o olhar acusatório de Nicolas sobre mim. — Acredito que deve haver alguma explicação... — Você diz isso só porque não encontrou o que queria. Agora me diga: o que você fez para que Melinda saísse daquele jeito daqui? — Eu apenas disse a verdade para ela. — Dei de ombros. — Que ela não passa de uma interesseira. — Não consigo acreditar que você teve coragem de dizer algo assim. — Riu com sarcasmo. — Mas o que se pode esperar de alguém que se casou por vingança, não é? Nunca tinha ouvido Nic
Por Melinda AllenEu tinha um sonho... Um sonho que quase toda mulher tem: entrar em uma igreja vestida de branco, em direção ao homem que escolhi amar e construir uma família.Mas, como eu disse, era só um sonho... Um que pensei ter finalmente realizado, mas, como sempre, a vida estava apenas me pregando uma peça, e eu paguei caro... O preço foi o meu coração.Olho para o homem que está à minha frente. O mesmo homem que jurei amar e ser fiel. Sinto as lágrimas descendo pelo meu rosto; porém, não faço questão de secá-las, seria inútil!Encaro a mulher ao seu lado com nojo. O seu sorriso debochado me dá ânsia. E tudo que mais desejo é que tudo não passe de uma mentira, mas sei que não é. Como fui besta!— Saia daqui Scarlett. Agora!A mulher treme com o seu grito e logo passa ao meu lado praticamente correndo. Não sei qual traição dói mais: descobrir que o meu casamento é uma farsa ou que, além disso, o meu marido vinha tendo um caso.Sei que tivemos um começo difícil, mas não pensei qu
Por Melinda AllenÀs vezes, penso em como seria magnífico se eu vivesse uma história como as que leio. Naquelas em que apenas um olhar basta para acelerar o coração, ou quando a pessoa esbarra em alguém e encontra automaticamente a sua alma gêmea. Infelizmente, nada disso nunca aconteceu comigo. Talvez o meu cupido esteja dormindo em serviço, ou eu seja muito azarada mesmo.— Outra vez sonhando acordada, Melinda? Quando vai aprender a parar de viver no mundo da lua e acordar para a realidade? — Assusto-me com Karen, filha da minha chefe, falando. Rapidamente, desencosto-me do balcão. — Volte ao trabalho.Pego o meu caderno de anotações e vou atender às mesas sob a minuciosa supervisão de Karen.Quando completei quinze anos, tive que começar a trabalhar. A minha mãe sempre deu o melhor de si para que eu não precisasse trabalhar, mas como éramos somente nós duas, ela não conseguia arcar com as despesas da casa sozinha. Quando completei dezenove anos, tivemos que sair da nossa cidade nata
Por William MontenegroChego em casa e vou direto para o meu escritório. Assim que entro, dirijo-me à mesa com as bebidas. Pego a garrafa de uísque e um copo, caminho até a minha cadeira, sento-me e encho o copo, que viro logo em seguida, sentindo o líquido descer, queimando a minha garganta. Ouço leves batidas na porta.— Entre. — Rita aparece com o seu habitual uniforme azul-escuro.Rita trabalha para a família há muitos anos; apesar de já estar na casa dos setenta, continua muito bem conservada. Como não abre mão do trabalho, a coloquei como governanta da casa.— Desculpe incomodar, queria saber se o senhor vai jantar? — Só ela tinha permissão para incomodar quando eu estava no escritório.— Não. — Ela assentiu e saiu, fechando a porta em seguida. Viro todo o líquido do meu copo de uma vez.Hoje eu a vi, a vadia que matou o meu irmão. Não sei como descrever o que estou sentindo neste momento: raiva misturada com nojo. Tento entender como o meu irmão se envolveu com uma pessoa tão ma